este livro fala de um antigo operdrio de construgäo e de transportes, Franz Biberkopf, em Berlim. Saiu da prisäo onde cumpriu pena por incidentes antigos, esta de novo em Berlim e quer ter uma vida decente.
No comego, da certo. Mas entäo, embora esteja com as finangas remediadas, ve-se envolvido numa verdadeira batalha contra algo que vem de fora, algo imprevisivel e que mais parece com um destino.
Por tres vezes, este destino investe contra o homem e interfere em seu projeto de vida. Atinge-o com logro e traigäo. O homem consegue reerguer- se, ainda se mantem de pe.
Empurra-o e ataca-o de modo cruel. Eie so consegue recompor-se com dificuldade, ja esta quase aniquilado.
Por fim, atinge-o como um torpedo de monstruosa brutalidade.
Assim, nosso bom homem, que ate o fim se mantivera forte, e levado ä lona. Da a luta como perdida, näo sabe como continuar e parece liquidado.
Mas antes de dar um fim radical a si mesmo, cai-lhe a venda dos olhos de uma forma que näo contarei aqui. A causa de tudo isso se revela para eie de modo muito claro. Ou seja, eie e a causa de tudo, bem se ve em seu projeto de vida que näo parecia igual a nada e agora, de repente, se mostra muito diferente, näo simples e quase öbvio, mas sim presungoso e inocente, atrevido e ao mesmo tempo covarde e cheio de fraqueza.
A coisa horrivel que era sua vida passa a ter um sentido. Franz Biberkopf foi submetido a um tratamento de choque. Vemos no fim o homem parado novamente na Alexanderplatz, muito mudado, maltratado, mas enfim endireitado.
Observar e ouvir isto valerd a pena para muitos que, como Franz Biberkopf, habitam uma pele humana e aos quais acontece o mesmo que a eie, a saber: que estar vivo exige mais do que um simples päozinho com manteiga.

aqui, no comego, Franz Biberkopf deixa o presidio de Tegel, onde foi parar devido ä sua insensata vida anterior. So com dificuldade finca o pe novamente em Berlim, mas finalmente com exito. Isto o enche de alegria e entäo faz a si mesmo a promessa de ter uma vida decente.

estava diante do portäo da prisäo de Tegel, livre. Ontem ainda passava o
ancinho na horta de batatas lä de träs com os outros, com uniforme de
presidiärio; agora andava com um casaco amarelo de veräo, lä aträs eles
catavam batatas, eie estava livre. Deixou bondes e mais bondes passarem,
pressionava as costas contra o muro vermelho e näo sala do lugar. O guarda
do portäo passou algumas vezes por eie, apontava-lhe seu bonde, eie näo ia
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embora. O momento horrivel chegara [horrivel, Franze-, por que horrivel?], os quatro anos acabaram. Os batentes de ferro preto do portäo que observava hä um ano com crescente repulsa [repulsa, por que repulsa?] estavam fechados aträs dele. De novo o rejeitaram. Lä dentro, os outros cumpriam pena, carpintejavam, envernizavam, selecionavam, colavam, ainda tinham dois anos, cinco anos. Eie estava parado no ponto do bonde.
A pena come^a.
Estremeceu, engoliu em seco. Trope^ou no proprio pe. Entäo tomou impulso e sentou-se no bonde eletrico. No meio das pessoas. Adiante. Primeiro foi como no dentista, quando este agarra a raiz de um dente com o boticäo e o arranca, a dor aumenta, a cabe^a amea^a explodir. Voltou a cabe^a na dire^äo do muro vermelho, mas o bonde disparou com eie sobre os trilhos, entäo so sua cabe^a continuou virada para o lado da prisäo. O vagäo fez uma curva, ärvores e casas intercalavam-se. Ruas animadas surgiam, a Seestrasse, pessoas subiam e desciam. Dentro dele, o grito soava terrivel: aten^äo, aten^äo, vai come^ar. A ponta de seu nariz gelou, sua bochecha vibrava.
“Jornal vespertino do meio-dia”, “B. Z.“A mais nova revista”, “a
Funkstunde”-, “subiu mais alguem?”. Os policiais agora usam uniformes azuis. Desceu do vagäo sem que ninguem percebesse, estava no meio das pessoas. E dal? Nada. Olhe a postura, seu porco esfomeado, controle-se, vai sentir o cheiro do meu punho no nariz. Formigueiro, que formigueiro. Como tudo se movimentava. Meu miolo parece que näo tem mais banha, deve ter secado por completo. O que era tudo isso? Lojas de calgados, lojas de chapeus, lämpadas, lojas de bebidas destiladas. As pessoas precisam de sapatos se andam tanto de um lado para outro, nös tambem tinhamos uma sapataria, vamos manter isso em mente. Cem vidra^as luzidias, deixe que brilhem, elas näo väo amedrontar voce, pode entäo quebrä-las, o que hä com elas, e que foram polidas. Quebravam o calgamento da Rosenthaler Platz, caminhou entre os outros sobre pranchas de madeira. A gente se mistura aos outros, ai tudo passa, dai voce näo percebe nada, cara. Manequins posavam

nas vitrines com ternos, casacos, saias, meias e sapatos. Do lado de fora, tudo se movimentava, mas - lä aträs - näo havia nada! Nada parecia ter vida! Tinham rostos alegres, riam, aguardavam na ilha, diante do Aschinger, em dois, ou em tres, fumavam cigarros, folheavam jomais. Ficavam como os postes - e - cada vez mais imöveis. Faziam par com as casas, tudo branco, tudo madeira.
O susto percorreu-o por dentro quando desceu a Rosenthaler Strasse, e num pequeno boteco um homem e uma mulher estavam sentados perto da janela: vertiam cerveja em canecos goela abaixo, sim era isso, bebiam, tinham garfos e espetavam com eles peda^os de carne, levando-os ä boca, retiravam entäo novamente os garfos e näo sangravam. Oh, como seu corpo se contraia, näo consigo me livrar disso, para onde ir? A resposta: a pena.
Näo podia voltar, viera de bonde de täo longe ate aqui, fora solto da prisäo e precisava entrar aqui, bem mais fundo.
Bern sei, engoliu o suspiro, que tenho de entrar aqui e que fui solto da prisäo. Tiveram de me soltar, a pena tinha acabado, tudo dentro da ordern, o burocrata cumpre sua obriga^äo. Tambem vou entrar, mas näo quero, meu Deus, näo consigo.
Percorreu a Rosenthaler Strasse, passando pela loja de departamentos Tietz, e virou a esquina, entrando na estreita Sophienstrasse. Pensou, esta rua e mais escura, onde estä escuro vai ser melhor. Os detentos, incomunicäveis, säo alojados em celas individuais e comuns. Na cela, o preso incomunicävel e mantido ininterruptamente, dia e noite, separado dos outros presos. Na cela individual, o preso e detido numa cela, contudo, na caminhada ao ar livre, na aula, na missa, fica reunido com os outros. Os carros continuavam a roncar e a buzinar, fachadas e mais fachadas de casas corriam velozes. E sobre as casas havia telhados, que pairavam sobre elas, seus olhos vagueavam para cima: que os telhados näo escorreguem e desabem, mas as casas estavam firmes e retas. Para onde vou eu, pobre diabo, arrastava-se beirando a parede das casas, que näo tinha fim. Sou um grande tolo, vai dar para a gente se virar por aqui, cinco minutos, dez minutos, depois a gente toma um conhaque e vai se sentar. Ao toque de sino correspondente, e hora de come^ar o trabalho imediatamente. E este so pode ser interrompido na hora determinada para as refei^öes, passeio, aula. Durante o passeio, os presos tem de manter os bra^os estendidos e movimentä-los para frente e para träs.
Lä estava uma casa, afastou o olhar da calgada, abriu uma porta e de seu peito soou um triste e rouquenho oh, oh. Jogou os bragos contra o peito, isso seu mo£o, aqui voce näo sente frio. A porta do pätio se abriu, alguem passou
por eie arrastando os pes, postou-se aträs dele. Agora gemeu, fazia-lhe bem gemer. Em sua primeira cela incomunicävel, sempre gemia assim e ficava contente de ouvir a pröpria voz, ai se possui alguma coisa, nem tudo estä perdido. Muitos faziam isso nas celas, alguns no inicio, outros mais tarde, quando se sentiam solitärios. Entäo come^avam, era algo ainda humano, isso os consolava. Assim o homem ficou parado no vestibulo da casa, näo ouvia o terrivel barulho da rua, as casas malucas näo estavam ai. Grunhiu fazendo um bico e tomou coragem, os punhos cerrados nos bolsos. Seus ombros sob o casaco de veräo amarelo estavam encolhidos para a defesa.
Um estranho se colocara ao lado do presidiärio libertado, olhava para eie. Eie perguntou: “O cavalheiro estä sentindo alguma coisa, näo estä bem, alguma dor?”, ate que o outro o notou, parando imediatamente de grunhir. “O cavalheiro estä se sentindo mal, mora aqui nesta casa?” Era um judeu de barba ruiva, um homem pequeno, de casaco, um chapeu de veludo negro, uma bengala na mäo. “Nada, näo moro aqui.” Precisava sair do vestibulo, o vestibulo jä tinha sido bom. E entäo a rua recome^ava, as fachadas das casas, as vitrines, as figuras apressadas de cal^as ou meias claras, todas täo räpidas, täo despachadas, a cada instante uma outra. E como estava decidido, entrou novamente no vestibulo de uma casa, onde os portöes se abriam para deixar passar um carro. Depois, depressa para a casa vizinha, num vestibulo estreito ao lado de uma escadaria. Aqui nenhum carro podia entrar. Segurou a haste do corrimäo. E enquanto a segurava, sabia que queria fugir da rua [oh, Franz, o que voce quer fazer, näo vai conseguir], certamente o faria, jä sabia onde havia uma saida. E baixinho come^ou de novo sua müsica, o grunhido e o resmungo, e näo voltou para a rua. O judeu ruivo tornou a entrar na casa, a principio näo descobriu o outro junto ao corrimäo. Ouviu-o cantarolar. “Diga lä, o que o cavalheiro estä fazendo aqui. Näo estä se sentindo bem?” Eie soltou a haste do corrimäo, andou em dire^äo ao pätio. Quando tocou o batente do portäo, viu que era o judeu da outra casa. “Siga seu caminho! O que deseja da gente?” “Ora, ora, nada. O cavalheiro gerne e suspira, e entäo a gente se pergunta como o cavalheiro estä.” E pela fresta da porta, do outro lado, de novo as benditas casas, as pessoas formigando, os telhados escorregadios. O ex-presidiärio abriu a porta do pätio, o judeu aträs dele: “Ora, ora, o que pode acontecer, näo vai ser täo ruim assim. Näo se morre disso. Berlim e grande. Onde moram milhares, um a mais tambem vai conseguir viver”.
Um pätio alto e sombrio estava lä. Ao lado da lata de lixo, lä ficou parado. E de repente come^ou a cantar aos brados, dirigiu o canto para as paredes. Tirou o chapeu da cabe^a como um tocador de realejo. As paredes ecoavam e
devolviam o som. Era bom. Sua voz enchia seus ouvidos. Cantou com voz täo alta como nunca pudera cantar na prisäo. E o que cantava a ponto de ecoar pelas paredes? “Ressoa um clamor como um troväo.” Firmemente marcial e vigoroso. E depois: “Viva, aleluia”, lan^ado do meio da müsica. Ninguem lhe deu aten^äo. O judeu recebeu-o no portäo. “O cavalheiro cantou bem. O cavalheiro realmente cantou muito bem. O cavalheiro poderia ganhar ouro com a voz que tem.” O judeu o acompanhou pela rua, tomou-lhe o bra^o, envolveu-o numa conversa interminävel ate dobrarem a esquina da Gormannstrasse, o judeu e o sujeito forte, grande, de casaco de veräo, que cerrava os läbios como se quisesse cuspir bile
foi para um cömodo que eie o levou, onde havia um aquecedor de ferro aceso, sentou-o no sofä: “Pois bem, aqui estä o cavalheiro. Pode sentar-se tranquilo. Pode manter o chapeu na cabe^a ou tirä-lo, como quiser. So vou buscar uma pessoa de quem vai gostar. E que eu mesmo näo moro aqui. So sou höspede como o cavalheiro. Ora, como e costume, um convidado traz o outro, contanto que o quarto esteja aquecido”.
O ex-presidiärio ficou sentado sozinho. Ressoa um clamor como um troväo, como o tinido de espadas e o ribombar das ondas. Andou de bonde, olhou para o lado, os muros vermelhos eram visiveis entre as ärvores, chovia folhagem colorida. Os muros estavam diante de seus olhos, observava-os no sofä, observava-os sem parar. E uma grande sorte morar nestes muros, a gente sabe como o dia come^a e como eie avant^a. [Franz, voce näo vai querer se esconder, voce ja se escondeu os quatro anos, tenha coragem, olhe em volta, um dia essa coisa de se esconder vai ter um fim.] Cantar, assobiar, fazer barulho, tudo isso e proibido. Os presos tem de ficar de pe imediatamente ao sinal de levantar, arrumar o alojamento, lavar-se, pentear-se, limpar as roupas e vestir-se. Sabäo e disponivel em quantidade suficiente. Bum, um toque de sino, levantar, bum, cinco e meia, bum, seis e meia, destrancar, bum bum, para fora, tomar o cafe da manhä, horärio de trabalho, hora de recrea^äo, bum bum bum, almo^o, rapaz, näo tor^a a fu^a, aqui näo hä regime de engorda, os cantores devem apresentar-se, apresenta^äo dos cantores cinco e quarenta, anuncio-me com voz rouca, seis horas, cerrar portas, boa noite, conseguimos. Uma grande sorte morar nestes muros, arrastaram-me para a lama, quase me tornei assassino, mas so foi homicidio culposo, agressäo seguida de morte, nem foi täo grave, tornei-me um grande canalha, um patife, pouco falta para chegar a vagabundo.
Um judeu alto, velho, de cabelos longos, solideu negro no topo da cabe^a, ja estava hä muito sentado diante dele. Na cidade de Susa, viveu um dia um homem de nome Mordoqueu, que criou Esther, filha de seu tio, jovem que tinha uma bela figura e era linda de se ver. O velho desviou os olhos do homem, voltou a cabe^a para o ruivo: “Onde arranjou esse ai?”. “Eie corria de casa em casa. Parou num pätio e pös-se a cantar.” “Cantar?” “Cangöes de guerra.” “Eie deve estar com frio.” “Talvez.” O velho o observava. No primeiro dia de festa religiosa, os judeus näo devem ocupar-se com um cadäver, no segundo dia, tampouco os israelitas, isto vale ate para os dois dias do Ano-Novo. E quem e o autor do seguinte ensinamento dos rabis: se alguem comer da carni^a de uma ave pura, näo e impuro; mas, se comer das tripas ou do papo, serä entäo impuro? O velho estendeu sua longa mäo amarela, tentando apalpar a mäo do ex-presidiärio pousada sobre o casaco: “O cavalheiro deseja tirar o casaco? Estä quente aqui. Somos pessoas de idade, sentimos frio o ano inteiro, para o cavalheiro deve ser demais”.
Eie estava sentado no sofä, olhou de vies para sua mäo, tinha andado de pätio em pätio pelas ruas, era preciso ver onde encontrar alguma coisa neste mundo. E quis levantar-se, sair pela porta, seus olhos procuraram a porta no cömodo escuro. O velho entäo o empurrou de volta ao sofä: “Ora, fique, o que o cavalheiro deseja afinal?”. Eie queria sair. O velho, porem, segurou-o pelo pulso e o apertou, apertou: “Vamos ver quem e mais forte, o cavalheiro ou eu. Queira ficar sentado quando eu assim disser”. O velho gritou: “Ora, o cavalheiro vai ficar sentado. O cavalheiro jä vai ouvir o que digo, ö sangue jovem. Controle-se, malvado”. E para o ruivo que agarrava o homem pelos ombros: “Saia, o cavalheiro deve ir embora. Por acaso eu o chamei? Eu me viro com eie”.
O que essa gente queria dele? Queria sair, tentou erguer-se, mas o velho o empurrava de volta. Entäo gritou: “O que voces estäo fazendo comigo?”. “Xingue ä vontade, logo näo vai xingar mais.” “Voces tem de me largar. Preciso ir embora.” “Quem sabe para a rua, quem sabe para os pätios?”
Entäo o velho levantou-se da cadeira, andou de um lado para o outro no cömodo, rumorejando: “Deixe-o gritar o quanto quiser. Que grite ou fa^a o que lhe der na cabe^a. Mas näo aqui comigo. Abra a porta para eie”. “E por que, sempre hä gritaria por aqui.” “Näo me traga gente barulhenta aqui para casa. As criangas da filha estäo doentes, estäo deitadas lä aträs, jä tenho barulho que chegue.” “Ora, ora, que desgra^a, näo sabia, o cavalheiro que me perdoe.” O ruivo segurou o homem pelas mäos: “Venha comigo. O rabi estä com a casa cheia. Os netos estäo doentes. Vamos andando”. Mas eie näo queria se levantar. “Venha.” Teve de levantar-se. Entäo sussurrou: “Näo puxe. Deixe-me ficar aqui”. “Eie estä com a casa cheia, o cavalheiro ouviu.”“Deixe-me ficar aqui.”
Com olhos faiscantes, o velho encarou o estranho que implorava. Disse, Jeremias, queremos curar a Babilonia, mas esta näo se deixou curar. Deixem- na, cada um de nös quer seguir para sua terra. Que a espada caia sobre os caldeus, sobre os habitantes da Babilonia. “Se ficar quieto, pode ficar com o cavalheiro. Se näo ficar quieto, terä de ir embora.” “Estä bem, estä bem, näo faremos barulho. Fico sentado ao lado dele, o cavalheiro pode confiar em mim.” O velho saiu apressado, sem dizer nenhuma palavra.
entäo o ex-presidiärio de casaco de veräo amarelo estava novamente sentado no sofä. Suspirando e meneando a cabe^a, o ruivo andava pelo quarto: “Ora, näo fique zangado porque o velho estava täo bravo. O cavalheiro chegou de viagem?”. “Sim, cheguei - estive.” Os muros vermelhos, lindos muros. Celas, teve de observä-las cheio de saudade, grudara as costas no muro vermelho, um homem inteligente as construira, eie näo ia embora. E o homem escorregou como um boneco do sofä para o tapete e empurrou a mesa para o lado ao cair. “O que e?”, gritou o ruivo. O ex- presidiärio contorceu-se sobre o tapete, o chapeu rolou ao lado de suas mäos, enfiou a cabe^a para baixo, gemeu: “Para dentro do chäo, para dentro da terra onde estä escuro”. O ruivo puxou-o pela roupa. “Pelo amor de Deus. O cavalheiro estä em casa de estranhos. E se o velho chegar. Levante-se.” Eie, porem, näo se deixava puxar para cima, agarrou-se ao tapete, continuava a gemer. “Fique quieto, pelo amor de Deus, se o velho ouve. Nos dois juntos vamos nos arranjar.” “Cara nenhum me tira daqui.” Como uma toupeira.
E, como o ruivo näo conseguia levantä-lo, cofiou os cachos das fontes, fechou a porta e, resoluto, sentou-se no chäo, ao lado do homem. Dobrou os joelhos, olhou para as pernas da mesa diante de si: “Ora. Muito bem. Fique tranquilo ai. Sento-me aqui tambem. Näo e muito confortävel, mas por que näo. O cavalheiro näo vai falar o que estä acontecendo, eu vou contar uma coisa”. O ex-presidiärio gemeu, a cabega sobre o tapete. [Por que eie entäo suspira e gerne? Agora se trata de tomar uma decisäo, hä que seguir um caminho - e voce näo sabe quäl, Franze. Aquela merda antiga voce näo quer mais e na cela voce tambem so suspirava e se escondia, e näo pensava, näo pensava, Franze.] O ruivo disse enraivecido: “Näo se deve dar tanta importäncia a si mesmo. E preciso ouvir os outros. Quem diz que o cavalheiro e täo importante? Deus bem que näo deixa ninguem escapar assim de sua mäo, mas hä outras pessoas por ai. O cavalheiro näo leu o que Noe colocou em sua arca, em seu navio, quando veio o grande dilüvio? Um casal de cada
Deus näo esqueceu nenhum deles. Nem mesmo os piolhos da cabega eie esqueceu. Todos lhe eram caros e preciosos”. Embaixo, o outro choramingava. [Choramingar e de graga, tambem um rato doente e capaz de choramingar.]
O ruivo deixou-o choramingar, cogou as bochechas. “Hä muita coisa na terra, da para contar muita coisa quando se e jovem e quando se e velho. Contarei ao cavalheiro, pois, a histöria de Zannovich, Stefan Zannovich. O cavalheiro ainda näo deve te-la ouvido. Quando se sentir melhor, fique um pouco sentado. O sangue sobe ä cabega, näo e saudävel. Meu falecido pai contava-nos muitas coisas, viajou por toda parte como as gentes de nosso povo, viveu ate os setenta anos, morreu depois da saudosa mäe, sabia muitas coisas, um homem erudito. Eramos sete bocas famintas e, quando näo havia o que comer, contava-nos historias. Isso näo mata a fome, mas ajuda a esquece- la.” O gemido surdo lä embaixo continuava. [Gemer ate um camelo doente consegue.] “Ora, ora, sabemos que no mundo näo existe apenas ouro, beleza e alegria. Pois entäo, quem foi Zannovich, quem foi seu pai, quem foram seus pais? Mendigos, como a maioria de nös, merceeiros, negociantes, comerciantes. Da Albänia veio o velho Zannovich e foi para Veneza. Ja sabia por que ia a Veneza. Uns väo da cidade para o campo, outros do campo para a cidade. No campo hä mais tranquilidade, as pessoas viram e reviram cada coisa, pode-se falar por horas e, quando se tem sorte, ganha-se uns tostöes. Na cidade, entäo, tambem e dificil, as pessoas ficam mais perto umas das outras e näo tem tempo. Se näo for este, serä aquele. Näo se tem nenhum boi, tem-se cavalos velozes com carruagens. Perde-se e ganha-se. Isto o velho Zannovich sabia. Primeiro vendeu o que trazia consigo e depois pegou um baralho e jogou com as pessoas. Näo era um homem honesto. Fez disso um negöcio, pois as pessoas na cidade näo tem tempo e querem ser entretidas. Eie as entretinha. Custou a elas um bom dinheiro. Um caloteiro, um embusteiro, o velho Zannovich, mas tinha uma boa cabega. Os camponeses tornaram sua vida dificil, aqui era mais fäcil viver. Ia bem de vida. Ate que alguem de repente achou que lhe tinham feito injustiga. Ora, o velho Zannovich näo tinha pensado nisso. Houve brigas, a policia, e por fim o velho Zannovich precisou fugir äs pressas com seus filhos. A justiga de Veneza correu aträs dele; com a justiga, pensou o velho, e melhor nem conversar, eles näo väo me entender, e eles tambem näo conseguiram apanhä-lo. Tinha cavalos e dinheiro consigo e se instalou novamente na Albänia e comprou uma propriedade no campo, uma aldeia inteira, os filhos, estes eie mandou para escolas superiores. E quando estava bem velho, morreu tranquilo e respeitado. Essa foi a vida do velho Zannovich. Os camponeses choraram sua morte, mas eie näo gostava deles, pois sempre pensava no tempo em que ficava diante deles com suas

bugigangas, aneis, pulseiras, colares de coral, e eles os reviravam nas mäos de um lado para o outro, apalpando tudo, e, no fim, iam embora e o deixavam ali parado.
“Sabe, quando o pai e uma plantinha, eie deseja que o filho seja uma ärvore. Quando o pai e uma pedra, o filho deve ser uma montanha. O velho Zannovich disse aos filhos: näo fui ninguem aqui na Albänia, enquanto vendia de porta em porta, durante vinte anos, e por que näo? Porque minha cabe^a näo estava onde devia estar. Mando voces para a grande escola, para Padua, peguem cavalos e carro^as e, quando tiverem terminado os estudos, pensem em mim que padeci sofrimentos com sua mäe e com voces e que dormia ä noite com voces na floresta como um varräo: eu mesmo fui o culpado. Os camponeses secaram-me como se eu fosse um ano de vacas magras, e eu teria me acabado, misturei-me äs pessoas e entäo näo me acabei.”
O ruivo riu para si mesmo, balan^ou a cabe^a, sacudiu o tronco. Estavam sentados no chäo sobre o tapete: “Se alguem entrar aqui agora, vai pensar que somos malucos, temos um sofä e sentamos diante dele no chäo. Ora, cada quäl como quiser, por que näo, basta que lhe agrade. O jovem Zannovich, Stefan, foi um grande orador mesmo quando jovem, com vinte anos. Sabia se virar e conquistar a estima das pessoas, sabia ser carinhoso com as mulheres e educado com os homens. Em Padua, os nobres aprendiam com os professores, Stefan aprendia com os nobres. Todos eram bons para eie. E quando voltou para casa na Albänia, seu pai ainda vivia; este se alegrou, tambem gostava dele e disse: ‘Olhem para este aqui, e um homem do mundo, este näo ficarä lidando com os camponeses durante vinte anos como eu, eie estä vinte anos ä frente de seu pai’. E o rapazinho acariciou suas mangas de seda, afastou os lindos cachos da testa e beijou seu velho pai feliz: ‘Mas, pai, vös me poupastes os vinte anos ruins’. ‘E eles devem ser os melhores anos de tua vida’, afirmou o velho, acariciando e afagando seu menininho.
“E as coisas foram acontecendo para o jovem Zannovich como um milagre e, no entanto, näo foi um milagre. E por toda parte as pessoas voavam ao seu encontro. Possuia a chave certa para cada cora^äo. Foi para Montenegro, para um passeio como cavalheiro com carruagens e cavalos e criados, seu pai ficava contente de ver o filho crescido - o pai, uma plantinha, o filho, uma ärvore -, e em Montenegro tratavam-no de conde e principe. Ninguem acreditaria se dissesse: meu pai se chama Zannovich, moramos em Pastrovich, numa aldeia, o que orgulha muito meu pai! Ninguem teria acreditado, apresentava-se, pois, como um aristocrata de Padua, tal parecia e conhecia todos eles. Dizia Stefan, rindo-se: ‘Seja feita vossa vontade’. E fez-se passar por um rico polones, um Baräo Warta, justamente o que pensavam que fosse, e se alegravam, e eie ficava contente”.
O ex-presidiärio sentara-se com um movimento repentino. Ficou apoiado sobre os joelhos e espreitava o outro de cima. Dizia agora com um olhar gelido: “Macaco”. O ruivo retrucou com desdem: “Pois entäo serei um macaco. Mas entäo o macaco sabe bem mais do que muita gente”. O outro foi empurrado de volta para o chäo. [Arrepender-se e o que voce deve fazer; reconhecer o que aconteceu; reconhecer o que e necessärio!]
“Assim, pode-se continuar a falar. Ainda hä muito que aprender das outras pessoas. O jovem Zannovich estava neste caminho e assim as coisas prosseguiram. Näo o conheci e meu pai näo o conheceu, mas pode-se muito bem imaginä-lo. Se pergunto ao cavalheiro, ao cavalheiro que me chama de macaco - näo se deve desprezar animal algum nesta terra de Deus, eles nos däo sua carne e fazem muitas boas agöes para nos, pense num cavalo, num cachorro, num pässaro, macacos so conhe^o da quermesse, precisam fazer gra^a na corrente, uma dura sina, homem nenhum tem uma sina täo dura -, ora, quero perguntar-lhe, näo posso chamä-lo pelo nome se näo me disser como se chama: como Zannovich progrediu, tanto o jovem quanto o velho? O cavalheiro deve pensar que tinham cabe^a, eram espertos. Outros tambem eram espertos, e näo chegaram täo longe aos oitenta anos como Stefan aos vinte. Mas a coisa principal no ser humano säo seus olhos e seus pes. E preciso poder ver o mundo e caminhar ate eie.
“Ou^a entäo o que fez Stefan Zannovich, esse que viu os homens e sabia o quäo pouco se deve teme-los. Veja como eles nos aplainam os caminhos, como quase apontam o caminho ao cego. Exigiram dele: voce e o Baräo Warta. Pois bem, disse eie, sou o Baräo Warta. Mais tarde, isso näo lhe bastou, tampouco a eles. Ja que e baräo, por que näo ser mais. Existe uma celebridade lä na Albänia que ja havia muito tinha morrido, mas eles o cultuam como o povo cultua heröis, eie se chamava Skanderbeg. Se Zannovich pudesse, teria dito: sou o proprio Skanderbeg. Estando morto Skanderbeg, disse que era um descendente de Skanderbeg e gabou-se, denominou-se Principe Castriota da Albänia, devolveria a grandeza ä Albänia, seus seguidores o aguardam. Deram-lhe dinheiro para que pudesse viver como vive um descendente de Skanderbeg. Fez bem äs pessoas. Elas väo ao teatro e ouvem coisas inventadas que lhes säo agradäveis. Pagam por isso. E podem pagar por isso quando as coisas agradäveis lhes acontecem ä tarde ou pela manhä e quando elas pröprias podem tomar parte nelas.”
