Harry Potter e a Pedra Filosofal

J. K. Rowling

Quando naquela cinzenta manh de tera-feira, o senhor Dursley
deparou, ao sair de casa, com uma gata malhada que estudava
atentamente um mapa, mal poderia imaginar todos os
acontecimentos estranhos e misteriosos que se estavam a
preparar. Mas, quando dez anos mais tarde, enigmticas cartas
endereados a Harry Potter, o sobrinho desprezado doa
Dursleys, comeam a chegar em catadupa l a casa,  como se um
raio atravessasse as suas mentes - o segredo que to bem
tinham guardado durante tanto tempo est prestes a ser
revelado. O que poder acontecer se Harry Potter descobrir que
 um feiticeiro?

Esta  uma histria mgica, recheada de fantasia e
encantamento, de aventuras misteriosas e de perigos
arrepiantes, de criaturas sobrenaturais e de surpresas
divertidas, que est a enfeitiar as crianas... e tambm a
gente mais adulta, um pouco por todo o mundo. Um *bestseller*
com todos os ingredientes de um grande *clssico*, j
galardoado com o Gold Award de 1997, o British Book Award de
1997, o Smarties Prize e o Children's Book of the Year de
1998.

Para a Jessica que adora histrias
Para a Ana que tambm as adora
e para Di, que ouviu esta primeiro

Captulo I - O rapaz que sobreviveu

O senhor e a senhora Dursley que vivem no nmero quatro de
Privet Drive sempre afirmaram, para quem os quisesse ouvir,
ser o mais normal que  possvel ser-se, graas a Deus. Eram
as ltimas pessoas que algum esperaria ver envolvidas em algo
estranho ou misterioso porque, pura e simplesmente, no
acreditavam nesses disparates.

O senhor Dursley era director de uma empresa chamada
Grunnings que fabricava brocas. Era um homem atarracado, quase
sem pescoo, apesar do seu farto bigode. A senhora Dursley era
magra e loira e tinha um pescoo com o dobro do tamanho normal
que lhe era extremamente til para espreitar os vizinhos
atravs das sebes, o que sucedia com grande frequncia. Os
Dursleys tinham um filho pequeno chamado Dudley que, na
opinio de ambos, era melhor do que qualquer outro rapazinho 
face da terra.

Os Dursleys tinham tudo o que queriam mas, infelizmente,
tinham tambm um segredo e o seu maior pavor era a ideia de
que este pudesse alguma vez ser descoberto. Seria insuportvel
se algum suspeitasse da existncia dos Potters.

A senhora Potter era irm da senhora Dursley mas no se viam
havia muitos anos. A verdade  que a senhora Dursley fazia-se
passar por filha nica porque a irm e o imprestvel do
cunhado eram o mais diferente deles que imaginar se pode. Os
Dursleys ficavam arrepiados s de pensar no que diriam os
vizinhos se os Potters alguma vez  aparecessem l na rua.
Sabiam que os Potters tinham tambm um filho pequeno que eles
nunca tinham visto e esse rapazinho era mais um motivo para os
querer manter afastados. A ltima coisa que lhes interessava
era verem o Dudley perto de uma criana daquelas.

Quando o senhor e a senhora Dursley acordaram, na manh
cinzenta e pesada de tera-feira em que comea a nossa
histria, nada fazia prever naquele cu enevoado as coisas
inslitas e misteriosas que comeariam em breve a suceder por
todo o pas. O senhor Dursley retirou do armrio a sua gravata
mais vulgar para levar para o trabalho, enquanto a senhora
Dursley tagarelava e se debatia para conseguir colocar na
cadeirinha das refeies o pequeno Dudley que no parava de
gritar.

Nenhum deles reparou na janela, atravs da qual teria podido
ver uma enorme coruja amarelada, esvoaando em grande
alvoroo.

_s oito e meia da manh, o senhor Dursley pegou na pasta, deu
um beijo de despedida  senhora Dursley e tentou fazer o
mesmo a Dudley, mas no conseguiu porque ele estava a meio de
uma birra, atirando com papa a todas as paredes. 
Coisinha imprestvel, queixou-se o senhor Dursley depois de
sair de casa, entrar no carro e afastar-se do nmero quatro.

S quando chegou  esquina teve o primeiro sinal de que algo
estranho se passava - uma gata estudava um mapa. No primeiro
segundo, o senhor Dursley no teve conscincia do que vira -
mas, depois, voltou a cabea para olhar melhor. E l estava a
gata malhada, na esquina da Privet Drive, mas no havia mapa
nenhum  vista. Onde diabo tinha ele a cabea?  claro que
tinha sido uma iluso de ptica. O senhor Dursley piscou os
olhos e fixou bem a gata. Ela olhou para ele. 
Quando o senhor Dursley virou a esquina para subir a rua,
espreitou pelo retrovisor.  A gata lia agora a tabuleta onde
estava escrito Privet Drive - no, no lia, olhava, os gatos
no podem ler mapas nem tabuletas. O senhor Dursley sacudiu a
cabea para afastar aquele episdio e, enquanto atravessava a
cidade, no pensou seno na grande encomenda de brocas que
esperava receber nesse mesmo dia.

Mas,  sada da cidade o seu esprito foi afastado das brocas
por outra coisa. Enquanto esperava no habitual engarrafamento
de trnsito, no pde deixar de reparar que havia uma srie de
gente vestida de uma forma muito pouco usual. Gente coberta
com longas capas. O senhor Dursley no suportava as pessoas
que se arranjavam de modo excntrico - as figuras de alguns
jovens! - e partiu do princpio de que se tratava de uma nova
moda estpida. Tamborilou com os dedos no volante do automvel
e os olhos prenderam-se-lhe num desses grupos tumultuosos de
exibicionistas. Murmuravam entre si, transbordantes de
entusiasmo e o senhor Dursley ficou ainda mais irritado ao
constatar que alguns deles no eram de todo jovens. Que lata,
aquele indivduo devia ser mais velho do que ele e usava uma
longa capa verde esmeralda! Mas, nessa altura, pensou que
muito provavelmente se trataria de uma manobra de propaganda
ou de um peditrio - sim, devia ser isso. O transito avanou
e, alguns minutos mais tarde, o senhor Dursley chegava ao
estacionamento de Grunnings, levando apenas como preocupao
as suas brocas.

Era costume do senhor Dursley sentar-se, no escritrio, de
costas para a janela. Se assim no fosse, ter-lhe-ia sido bem
mais difcil concentrar-se no trabalho durante a manh. Assim,
no viu as corujas descendo rapidamente em plena luz do dia,
apesar de todos os transeuntes apontarem estarrecidos e de
boca aberta enquanto coruja aps coruja lhes passavam a grande
velocidade sobre as cabeas. A maior parte nunca tinha visto
uma ave daquelas,  nem mesmo  noite, mas o senhor Dursley
teve uma manh absolutamente normal e livre de corujas. Gritou
com cinco pessoas e fez vrias chamadas telefnicas de grande
importncia nas quais gritou ainda mais. Antes da hora do
almoo j estava bastante bem-disposto, quando decidiu dar um
pequeno passeio para esticar as pernas e ir comprar um po de
leite  padaria da frente.

Tinha esquecido por completo as pessoas com capas at deparar
com um grupo que se encontrava junto da padaria. Lanou-lhes
um olhar enfurecido. No sabia explicar porqu mas faziam-no
sentir-se desconfortvel. Este grupo estava tambm a murmurar,
denotando uma grande excitao. S quando passou por eles,
levando um enorme *donut* num saco, conseguiu apanhar no ar
algumas palavras do que eles estavam a dizer.

- Os Potters, sim, foi o que ouvi dizer.

- Sim, o filho deles, Harry.

O senhor Dursley ficou transido. O medo apoderou-se dele.
Olhou para trs para os indivduos que estavam a falar como se
quisesse dizer-lhes alguma coisa mas, pensando melhor,
desistiu.

Desceu a rua a correr direito ao escritrio, disse 
secretria que no o interrompesse, pegou no telefone e
estava quase a acabar de discar o nmero quando mudou de
ideias. Ps o auscultador no descanso e cofiou o bigode.
Pensando bem, estava a ser estpido. Potter no era um nome
assim to raro. Devia haver imensos Potters com filhos
chamados Harry. Alis, ele nem tinha a certeza se seria esse o
nome do sobrinho, nunca sequer o tinha visto. Podia ser Harold
ou Harvey, no havia motivo para deixar a senhora Dursley
preocupada. Ela ficava sempre to fora de si quando se tocava
no nome da irm. E no podia censur-la, se ele tivesse tido
uma irm assim... mas, ao mesmo tempo, toda aquela gente de
capas longas...  

Foi bastante mais difcil naquela tarde concentrar-se nas
brocas e, quando deixou o edifcio, s cinco horas, estava
ainda to preocupado que chocou contra uma pessoa logo  sada
da porta.

- Desculpe - resmungou, enquanto o homenzinho se
desequilibrava, quase caindo. S alguns segundos mais tarde o
senhor Dursley se apercebeu de que o homem vestia uma capa
roxa. No parecia nem um pouco preocupado por ter tropeado e
por quase ter ido parar ao cho. Pelo contrrio, o seu rosto
abriu-se num enorme sorriso e disse numa voz to aguda que
levou alguns transeuntes a pararem para olhar:

-- No se preocupe, meu caro senhor, no dia de hoje nada
poderia aborrecer-me! Alegremo-nos porque o Quem ns sabemos
desapareceu finalmente do mapa! At os Muggles, como voc,
deviam festejar este dia to feliz!

O velhote envolveu o senhor Dursley num grande abrao e em
seguida afastou-se.

O senhor Dursley ficou pregado ao cho. Tinha sido abraado
por um indivduo que lhe era totalmente estranho e que lhe
tinha chamado Muggle, fosse l isso o que fosse. Estava
confuso. Apressou-se a chegar ao carro e dirigiu-se para casa
na esperana de que tudo aquilo no passasse de imaginao
sua, coisa que at ento nunca tinha desejado, uma vez que no
era muito adepto da imaginao.

A primeira coisa que avistou ao aproximar-se do nmero quatro
- e que no melhorou em nada o seu estado de esprito - foi a
gata malhada que vira de manh. Estava agora sentada no muro
do seu jardim. Tinha a certeza de que era a mesma por causa
das marcas em volta dos olhos.

- Choo! - disse bem alto o senhor Dursley.

A gata no se moveu. Limitou-se a lanar-lhe um olhar rspido.
Seria o comportamento normal de uma gata,  
questionou-se o senhor Dursley, fazendo um esforo por
aparentar um ar absolutamente normal, entrou em casa, ainda
decidido a no falar em nada  mulher.

A senhora Dursley tinha tido um dia igual a todos. Contou-lhe,
durante o jantar, os problemas que os vizinhos do lado
estavam a ter com a filha e que o Dudley aprendera a dizer
no deves. O senhor Dursley tentou agir com a maior
naturalidade. Quando o Dudley foi metido na cama,
encaminhou-se para a sala chegando mesmo a tempo de ouvir a
ltima notcia do telejornal:

- E, por fim, os observadores de pssaros comunicaram-nos que
as corujas do pas tiveram um comportamento bastante estranho
durante o dia de hoje. Apesar de ser hbito caarem durante a
noite, no sendo praticamente vistas  luz do dia, houve
milhares de observaes destas aves a voarem em todas as
direces desde o nascer do Sol. Os peritos no conseguem
explicar esta sbita alterao do seu padro de sono. - O
apresentador permitiu-se um sorriso. - Muito misterioso. E
agora passemos a Jim Mc_Guffin e s previses do tempo.
Continuar a chuva de corujas durante a noite, Jim?

- Bem, Ted - disse o meteorologista, - quanto a isso no posso
responder mas as corujas no foram o nico fenmeno do dia de
hoje. Observadores de Kent, Yorkshire e Dundee tm telefonado
insistentemente a informar-nos que, em vez da chuva que eu
previra ontem, tm tido uma tempestade de estrelas cadentes! 
como se as pessoas tivessem decidido festejar a Bonfire
Night (1) - que  s na prxima semana - mas posso
prometer-vos chuva para esta noite.

(1) Festividade que se realiza exclusivamente na Gr-Bretanha.
(N_T)

O senhor Dursley sentou-se gelado na poltrona. Estrelas
cadentes em toda a Gr-Bretanha? Corujas a voarem  
durante o dia? Gente estranha usando longas capas em todas as
ruas? E aquele sussurro sobre os Potters...

A senhora Dursley entrou na sala, trazendo duas chvenas de
ch. No podia ser, tinha de falar com ela. Limpou 
nervosamente a garganta.

- Er... Petnia, minha querida... no tens sabido nada da tua
irm nos ltimos tempos, pois no?

Como era de esperar, a senhora Dursley ficou chocada e
indisposta. No tinham decidido esquecer que ela tinha
uma irm?

- No - respondeu secamente. - Porqu?

- Informaes estranhas no telejornal --, resmungou o senhor
Dursley. - Corujas... estrelas... e uma srie de gente com um
aspecto fora do normal que enchia as ruas durante o dia de
hoje...

- E da? - perguntou a senhora Dursley.

- Bem... eu pensei que... talvez... tivesse alguma coisa a ver
com... sabes... a gente dela.

A senhora Dursley bebeu o ch aos golinhos enquanto o marido
se perguntava se deveria dizer-lhe que ouvira uma referncia
aos Potter. Decidiu no arriscar. Em vez disso, disse com
tanta naturalidade quanto lhe foi possvel: - O filho deles
deve ter mais ou menos a idade do Dudley, no deve?

- Acho que sim - respondeu constrangida a senhora Dursley.

- Como  que se chama o garoto, Howard, no ?

- Harry, o nome mais vulgar que podiam ter encontrado.

- Ah,! - disse o senhor Dursley com o corao apertado, 
-- claro, concordo inteiramente contigo, que nome vulgar.

No voltou a falar-se no assunto e subiram para se deitar.
Enquanto a senhora Dursley estava na casa de banho,  
o senhor Dursley aproximou-se da janela do quarto e espreitou
para o jardim. A gata ainda l estava. Olhava para a parte de
baixo da rua como se esperasse por alguma coisa.

Estaria ele a imaginar coisas? Haveria alguma relao entre
tudo aquilo e os Potters? Se tivesse... se viesse a saber-se
que eles eram da famlia de um casal de... bem, ele no
suportaria isso.

Deitaram-se. A senhora Dursley adormeceu rapidamente mas o
marido ficou acordado com a cabea s voltas. O ltimo
pensamento reconfortante que teve, antes de adormecer, foi
que, mesmo que os Potters estivessem no meio daquilo tudo, no
havia motivo algum para se aproximarem. Sabiam perfeitamente
o que ele e Petnia pensavam sobre eles e os da sua espcie...
no havia motivo para se verem envolvidos no que quer que
fosse que estivesse a acontecer. Bocejou e virou-se na cama.
Aquilo no iria afect-los.

Como se enganava!

O senhor Dursley podia ter cado num sono intranquilo, mas a
gata que continuava em cima do muro no aparentava o menor
sinal de sono. Estava imvel como uma esttua, os olhos bem
abertos, fixos na esquina da Privet Drive. No estremeceu
sequer quando a porta de um carro se fechou ruidosamente na
rua de trs, nem quando duas corujas fizeram um voo rasante
sobre a sua cabea. Era quase meia-noite quando a gata se
moveu.

Um homem surgira na esquina onde os olhos da gata tinham
estado fixos. Apareceu to sbita e silenciosamente que
parecia ter sado do cho. A cauda da gata contorceu-se e os
olhos contraram-se.

Nunca fora visto em Privet Drive ningum que se parecesse com
aquele homem. Era alto, magro e muito velho, a julgar pela
barba e pelo cabelo cor de prata, ambos to longos que lhe
chegavam  cintura. Usava uma tnica at  aos ps, um manto
cor de prpura que varria o solo e botas afiveladas de taco.
Tinha uns olhos azuis muito claros que brilhavam intensamente
por detrs de uns culos de meia-lua. O nariz era longo e
achatado como se lho tivessem partido pelo menos duas vezes. O
nome desse homem era Albus Dumbledore.

Albus Dumbledore parecia no se dar conta de que acabava de
chegar a uma rua onde tudo, desde o seu nome at s suas
botas, era indesejvel. Estava distrado a vasculhar na capa
como quem procura alguma coisa quando lhe pareceu estar a ser
observado. Olhou subitamente para a gata que continuava a
olha-lo fixamente do outro lado da rua. A viso da gata
pareceu diverti-lo. Riu-se entre dentes e murmurou Eu devia
ter adivinhado.

Encontrou o que procurava nos bolsos. Parecia um isqueiro
prateado. Abriu a tampa, segurou-o no ar e carregou com o
dedo, provocando um pequeno estalido. O candeeiro mais prximo
apagou-se com um rudo seco. Ele voltou a premir o objecto e o
outro candeeiro apagou-se tambm. Repetiu doze vezes aquela
operao at que as nicas luzes acesas em toda a rua, dois
minsculos pontinhos l longe, eram os olhos da gata a
observ-lo. Se algum espreitasse pela janela naquele momento,
mesmo que fossem os olhinhos pequeninos e vivos da senhora
Dursley, no conseguiria ver absolutamente nada do que estava
a acontecer no passeio. Dumbledore guardou o 
aparador no bolso da capa, aproximou-se do nmero quatro onde
se sentou no muro, ao lado da gata. No a olhou directamente
mas, passado alguns momentos, dirigiu-se-lhe:

- Curioso v-la aqui, professora Mc_Gonagall --, voltou-se
para sorrir  gata mas esta tinha desaparecido. Estava agora a
sorrir para uma mulher de aspecto austero, culos quadrados
com a forma exacta das marcas que a gata tinha em volta dos
olhos. Tambm ela vestia uma capa verde  esmeralda, tinha o
cabelo negro apanhado num rolo e parecia claramente irritada.

- Como soube que era eu? - perguntou.

-- Minha cara professora, nunca vi uma gata sentada de uma
forma to rgida!

- Tambm voc ficaria rgido se estivesse um dia inteiro
sentado num muro - disse a professora Mc_Gonagall.

- Todo o dia? Quando podia ter estado a festejar? Eu devo ter
encontrado pelo caminho uma dzia de festas e celebraes.

A professora Mc_Gonagall torceu o nariz irritada.

- Ah! sim, esto todos a festejar --, disse com impacincia.
- Seria de esperar que fossem um pouquinho mais cautelosos,
mas no, at os Muggles j se aperceberam de algo invulgar,
deram a notcia no telejornal deles. - Fez um sinal com a
cabea na direco da janela escura da sala dos Dursleys. -
Ouvi. Bandos de corujas... estrelas cadentes... Bem, eles no
so totalmente estpidos. Foram obrigados a perceber que se
passa alguma coisa. Estrelas cadentes em Kent, aposto que anda
por a o dedo do Dedalus Diggle, ele no tem muito juzo
naquela cabea.

- No pode censur-los --, disse Dumbledore suavemente, -
tivemos muito pouco para festejar durante os ltimos onze
anos.

- Eu sei muito bem disso - respondeu irritada a professora
Mc_Gonagall. - Mas no  motivo para perderem a cabea. Tm
andado para a em plena luz do dia a espalhar boatos, sem
sequer terem o cuidado de se vestir como os Muggles.
Lanou um olhar de lado e rspido a Dumbledore como se
esperasse que ele dissesse alguma coisa, mas este manteve-se
calado. Ela prosseguiu: - Era lindo se no dia em que Quem ns
sabemos parece por fim ter desaparecido, os Muggles
descobrissem tudo a nosso respeito. Sim, porque  eu julgo
que ele desapareceu mesmo, no foi, Dumbledore?!

- Parece que sim - respondeu ele. - Temos de estar muito
gratos. No quer tomar uma limonada comigo?

- Uma *qu*?

- Uma limonada.  uma bebida dos Muggles de que
eu gosto muito.

- No, muito obrigada - disse a professora Mc_Gonagall,
friamente, como se considerasse no ser aquele o melhor
momento para tomar limonadas. - Como eu estava a dizer, mesmo
tendo o Quem ns sabemos desaparecido...

- Minha querida professora, com certeza que uma pessoa
sensata como a senhora pode referir-se a ele usando o seu
verdadeiro nome. Toda essa histria disparatada do Quem ns
sabemos; h onze anos que tento convencer as pessoas a
proferirem o seu nome: *_Voldemort*. - A professora
Mc_Gonagall vacilou mas Dumbledore, que estava a abrir duas
limonadas, pareceu no dar por isso. - Torna-se to confuso
continuar a dizer o Quem ns sabemos. Eu honestamente nunca
vi qualquer motivo para ter medo de proferir o nome de
*_Voldemort*.

- Eu sei que no viu - disse a professora Mc_Gonagall num tom
que expressava surpresa e admirao. - Mas voc  diferente.
Todos sabem que era o nico de quem Quem ns sabemos, oh!
est bem, o *_Voldemort* tinha medo.

- Sinto-me elogiado - disse Dumbledore calmamente, -
*_Voldemort* tinha poderes que eu nunca possuirei.

- Apenas porque voc  demasiado... como direi, nobre, para os
utilizar.

- Felizmente est escuro. Eu no corava tanto desde que Madame
Pomfrey me disse que adorava o meu novo 
barrete.  

A professora Mc_Gonagall lanou um olhar penetrante a
Dumbledore e disse: - As corujas no so nada comparadas com
os boatos que correm. Sabe o que dizem por ai sobre o motivo
do seu desaparecimento? Sobre o motivo que acabou com ele?

Parecia que a professora Mc_Gonagall tinha chegado ao ponto
que lhe interessava mesmo discutir,  verdadeira razo que a
levara a esperar num muro duro e frio durante um dia inteiro,
pois nunca antes, nem como gata nem como mulher, tinha olhado
para Dumbledore com um olhar to penetrante como naquele
momento. Era bvio que, tosse o que fosse que se dissesse, ela
s acreditaria depois de o ouvir da boca de Dumbledore. Mas
este estava a escolher outra limonada e no lhe respondeu.

- Dizem --, prosseguiu ela - que na ltima noite em que
Voldemort apareceu em Godric's Hollow foi procurar os
Potters. O que corre  que Lily e James Potter... *morreram*.

Dumbledore baixou a cabea. A professora Mc_Gonagall suspirou.

- Lily e James... custa a crer... eu no queria acreditar...
oh! Albus...

Dumbledore aproximou-se e deu-lhe uma palmadinha no ombro. -
Eu sei, eu sei - disse, com pesar.

A voz da professora Mc_Gonagall tremia,  medida que
continuava a falar. - E no  tudo. Dizem que ele tentou matar
o filho deles, o pequeno Harry, mas que no foi capaz. No
conseguiu matar o rapazinho. Ningum sabe porqu nem porque
no, mas dizem que ao no lhe ser possvel matar 
Harry Potter, o seu poder se esvaiu e que foi por isso que
Voldemort desapareceu.

Dumbledore acenou com ar sorumbtico.

- Mas, ... *verdade*? - hesitou a professora Mc_Gonagall. -
Depois de tudo o que ele fez... toda a gente que  matou...
no foi capaz de matar um rapazinho?  to confuso, como ter
o Harry conseguido sobreviver?

- O mximo que podemos fazer so suposies --, disse
Dumbledore. - Talvez nunca cheguemos a saber.

A professora Mc_Gonagall puxou de um leno de renda e limpou
os olhos por detrs dos culos. Dumbledore fungou enquanto
retirava um relgio de ouro do bolso e o observava. Era um
relgio bastante inslito. Tinha doze mos mas no tinha
nmeros. Em vez deles, pequenos planetas 
movimentavam-se em crculos. Mas deve ter feito sentido para
Dumbledore porque voltou a met-lo no bolso, dizendo: 
- Hagrid est atrasado. A propsito, deve ter sido ele quem
lhe disse que eu viria aqui, no?

- Sim - disse a professora Mc_Gonagall. - E j agora no
querer explicar-me porque  que veio?

- Vim trazer o pequeno Harry  tia e ao tio. So a
sua nica famlia.

- No est a querer dizer-me que - no pode estar a referir-se
s pessoas que vivem aqui? - gritou a professora Mc_Gonagall,
pondo-se em p e apontando para o nmero quatro. - Dumbledore,
voc no pode fazer uma coisa dessas. Tenho estado a
observ-los durante todo o dia e no  possvel encontrar duas
pessoas mais diferentes de ns. E tm um filho - vi-o a
massacrar a me durante todo o caminho para lhe comprar doces.
Harry Potter, *aqui*?!

-  o melhor lugar para ele --, disse Dumbledore com firmeza.
- A tia e o tio podero explicar-lhe tudo um dia mais tarde
quando for mais crescido. Eu escrevi-lhes uma carta.

- Uma carta? - repetiu a professora Mc_Gonagall quase sem voz,
voltando a sentar-se no muro. - Francamente, Dumbledore, acha
que  possvel explicar tudo isto numa carta? -- Esta gente
nunca na vida vai entend-lo.  Ele vai ser famoso - um gnio
--, no me espantaria nada se o dia de hoje viesse no futuro a
ser conhecido como o dia de Harry Potter - vo escrever-se
livros a seu respeito, todas as crianas do nosso mundo
conhecero o seu nome!

- Precisamente - afirmou Dumbledore com a maior seriedade,
olhando-a por cima dos culos de meia-lua. - Tudo isso daria
a volta  cabea de um rapazinho. Ser famoso antes mesmo de
saber andar e falar! Famoso por uma coisa de que nem ele
consegue lembrar-se. No v que  muito melhor para ele
crescer afastado de tudo isso, at estar preparado para
entender as coisas?

A professora Mc_Gonagall abriu a boca, mudou de ideias,
engoliu em seco e em seguida disse: - Sim, claro, tem toda a
razo. Mas como  que o rapaz c chega, Dumbledore? - Olhou
para o manto dele como se pensasse que ele podia estar a
esconder o garoto.

- Hagrid vai traz-lo.

- Acha que  *sensato* confiar a Hagrid algo to importante
como isto?

- Eu confiaria a Hagrid a minha prpria vida --, afirmou
Dumbledore.

- No estou a dizer que ele no tenha bom corao --, afirmou
a professora Mc_Gonagall com alguma mesquinhez, - mas no
podemos ignorar que  pouco cauteloso. Tem tendncia para... o
que foi aquilo?

Um som que parecia o ribombar de um trovo quebrou o
silncio. Tornou-se ainda mais intenso enquanto olhavam para a
parte de cima e de baixo da rua procurando avistar um par de
faris e era j um verdadeiro estrondo quando olharam para o
cu - e uma imensa motorizada aterrou na rua, mesmo ao lado
deles.

Se a moto era grande, o que dizer do homem que vinha l
sentado? Devia ter o dobro da altura de um indivduo  
normal e era, pelo menos, cinco vezes mais largo. Parecia
maior do que era humanamente possvel e verdadeiramente
animalesco - os cabelos e a barba negra, ambos emaranhados,
ocultavam-lhe a maior parte do rosto, as mos pareciam tampas
de caixotes do lixo e os ps, dentro de umas enormes botas de
couro, lembravam dois golfinhos bebs. Nos braos fortes e
musculados transportava uma pilha de cobertores.

- Hagrid --, disse Dumbledore parecendo aliviado, - at que
enfim. Onde diabo arranjaste essa moto?

- Pedi-a emprestada, professor Dumbledore --, respondeu o
gigante, saindo com todo o cuidado da moto, enquanto falava. -
Foi o Sirius Black filho que ma emprestou. Tenho aqui a
criana, senhor professor.

- No houve problemas?

- No senhor - a casa estava praticamente destruda mas eu
consegui tir-lo antes qu'os Muggles comeassem a invadi-la.
Ele adormeceu quando sobrevovamos Bristol.

Dumbledore e a professora Mc_Gonagall inclinaram-se para a
pilha de cobertores. L bem no meio, muito pequenino, estava
um beb do sexo masculino a dormir. Sob um tufo de cabelo
preto que lhe caa para a testa podia ver-se uma curiosa
cicatriz em forma de relmpago.

- Foi a que...? - perguntou num sussurro a professora
Mc_Gonagall.

- Sim - disse Dumbledore. - Ele vai ficar com esta cicatriz
para sempre.

- No pode fazer nada para a tirar, Dumbledore?

- Mesmo que pudesse no o faria. As cicatrizes podem vir a ser
muito teis no futuro. Eu prprio tenho uma acima do joelho
esquerdo que  um mapa perfeitssimo dos subterrneos de
Londres. Bem, d-o c, Hagrid,  melhor resolvermos j isto.
 

Dumbledore tomou Harry nos braos e voltou-se de frente para a
casa dos Dursleys.

- Posso, posso despedir-me dele? - perguntou Hagrid.
Inclinou a grande cabea hirsuta sobre Harry e deu-lhe um
beijo que deve ter sido spero devido ao roar dos bigodes. 
Em seguida, Hagrid soltou um uivo que parecia vindo de um co
ferido.

- Shhhhhh --, fez a professora Mc_Gonagall. - Vais acordar os
Muggles!

- Deeeesculpem --, soluou Hagrid, pegando num enorme leno de
assoar onde enterrou toda a cara - mas no consigo evitar...
Lily e James mortos e o pobrezinho do Harry a ter d ir viver
com Muggles...

- Eu sei, eu sei que  triste mas v se te controlas, Hagrid,
ou vo acabar por descobrir-nos --, disse baixinho a
professora Mc_Gonagall, dando uma palmadinha no ombro de
Hagrid, enquanto Dumbledore entrava no jardim, em direco 
porta principal. Colocou cautelosamente o pequeno Harry no
degrau da porta, retirou uma carta de dentro da capa, enfiou-a
no meio dos cobertores que envolviam o beb e veio juntar-se
aos outros. Durante um minuto ficaram os trs a olhar para a
trouxa. Os ombros de Hagrid estremeceram, a professora
Mc_Gonagall piscou os olhos nervosamente e a luz brilhante que
costumava irradiar do olhar de Dumbledore parecia ter
desaparecido.

- Bem - disse por fim Dumbledore, - est feito. No vale a
pena ficarmos aqui. O melhor que temos a fazer  juntarmo-nos
aos que esto a festejar.

- Sim - disse Hagrid numa voz abalada. - Eu vou entregar a
moto ao Sirius. Boa noite professora Mc_Gonagall, boa noite
professor Dumbledore.

Limpando os olhos hmidos  manga do casaco, Hagrid subiu para
a moto e ligou o motor. Com um rudo, esta elevou-se no ar e
desapareceu na escurido da noite.  

- Espero v-la em breve, professora Mc_Gonagall - disse
Dumbledore, fazendo um aceno com a cabea. A professora
Mc_Gonagall assoou o nariz como resposta.

Dumbledore voltou-se e desceu a rua. Quando chegou  esquina
parou e pegou no apagador prateado. Premiu o boto uma vez e
doze bolas de luz regressaram aos candeeiros da rua, tornando
a Privet Drive subitamente alaranjada e permitindo avistar
uma gata malhada a desaparecer furtivamente pela esquina
oposta da rua. S se podia ver agora a trouxa de cobertores no
degrau do nmero quatro.

- Boa sorte, Harry - murmurou. Deu meia volta e, cortando o ar
com um golpe do manto, desapareceu.

Uma brisa forte agitou as sebes rigorosamente aparadas de
Privet Drive que continuou silenciosa e metdica sob a
escurido cerrada do cu. Aquele era o ltimo lugar onde
poderia esperar-se que algo fantstico pudesse suceder. Harry
Potter rolou no meio dos cobertores sem acordar, uma mozinha
fechada sobre a carta que fora colocada ao seu lado, sem saber
que era especial, sem saber que era famoso, sem saber que iria
ser acordado dentro de algumas horas pelo grito da senhora
Dursley quando esta abrisse a porta para colocar no cho as
garrafas vazias do leite, sem saber que durante as prximas
semanas iria ser espicaado e beliscado pelo seu primo Dudley
e ignorando por completo que, naquele preciso momento, em
festas secretas espalhadas por todo o pas, milhares de
pessoas brindavam com os copos no ar, gritando:

- Ao Harry Potter, o rapaz que sobreviveu!  


Captulo II - O vidro desaparecido


Tinham passado quase dez anos desde o dia em que os Dursleys
haviam acordado e descoberto o sobrinho no degrau da porta,
mas Privet Drive praticamente no mudara. O sol surgia nos
mesmos jardinzinhos bem arranjados em frente das casas e
iluminava a placa de lato amarelo que tinha gravado o nmero
quatro na porta principal dos Dursleys, entrava lentamente
pela sala de estar que estava quase igual  noite em que o
senhor Dursley ouvira na televiso aquelas notcias fatdicas
sobre as corujas. Apenas as fotografias por cima da lareira
deixavam ver como, de facto, o tempo tinha passado. Dez anos
antes havia montes de fotos de uma coisa que parecia uma bola
insuflvel cor-de-rosa com chapus com pompons de vrias
cores. Mas Dudley Dursley deixara de ser um beb e agora as
fotografias mostravam um rapaz gordo e loiro na sua primeira
bicicleta, num carrocel no parque de diverses, a jogar um
jogo de computador com o pai, a ser abraado e beijado pela
me. A sala no apresentava qualquer vestgio de que naquela
casa vivesse outro rapazinho.

Contudo Harry Potter ainda l estava, a dormir naquele
momento, mas no por muito mais tempo. A tia Petnia tinha
acordado e a sua voz estridente foi o primeiro rudo do dia.

- Toca a levantar, j!

Harry acordou sobressaltado. A tia bateu de novo na porta.
Levantar, guinchou. Harry ouviu-lhe os passos a  
dirigirem-se  cozinha e em seguida o som da fritadeira a ser
posta ao lume. Enroscou-se na roupa e tentou recordar-se do
sonho que tinha tido. Era um sonho agradvel onde entrava uma
moto area. No conseguia evitar a estranha sensao de que
no era a primeira vez que tinha aquele sonho.

A tia estava de novo junto da porta.

- J te levantaste? - perguntou.

-- Quase - disse Harry.

-- Bem, vamos a despachar, quero que acabes o pequeno-almoo e
no deixes queimar o *bacon*. Tudo tem de estar perfeito no
aniversrio do Duddy.

Harry resmungou.

- O que  que disseste? - perguntou a tia, do lado de fora, da
porta.

- Nada, nada...

O aniversrio do Dudley - como poderia ele esquecer-se? Harry
saltou da cama e comeou a procurar as pegas. 
Encontrou um par debaixo da cama e, depois de sacudir uma
aranha de cima de uma delas, calou-se. J estava habituado s
aranhas porque a despensa debaixo das escadas, onde dormia,
estava cheia delas.

Quando acabou de se vestir, atravessou o vestbulo e entrou na
cozinha. A mesa quase no se via debaixo dos presentes de
aniversrio do Dudley. Parecia que ele tinha conseguido que
lhe dessem o novo computador que tanto queria, para no falar
da segunda televiso e da bicicleta de corrida. O motivo pelo
qual Dudley queria uma bicicleta de corrida era um mistrio
absoluto para Harry, uma vez que ele era gordssimo e
detestava fazer exerccio - a no ser, claro, que se tratasse
de bater em algum. O saco de pancada preferido do Dudley era
Harry, mas geralmente no conseguia apanh-lo porque, apesar
de no parecer, Harry era extremamente rpido.  

Talvez isso se devesse ao facto de viver numa despensa sem
luz, mas Harry fora sempre pequeno e franzino para a idade.
Parecia ainda mais pequeno e mais franzino por ter de usar as
roupas que deixavam de servir ao Dudley que tinha quatro vezes
o seu tamanho. O rosto de Harry era magro e plido, os joelhos
ossudos, o cabelo preto e os olhos verdes brilhantes. Usava
uns culos redondos, ligados ao meio com fita-cola devido a
todos os morros que Dudley lhe tinha dado no nariz. A nica
coisa de que Harry gostava, no seu aspecto fsico, era daquela
pequena cicatriz na testa que mais parecia um feixe de luz.
Lembrava-se dela desde sempre e a primeira pergunta que se
recordava de ter feito  tia Petnia era qual a origem daquela
cicatriz.

- Ficou-te do acidente de automvel em que os teus pais
morreram - respondeu ela - e no faas perguntas.

*_No fazer perguntas* - aquela era a primeira regra para uma
vida tranquila com os Dursleys.

O tio Vernon entrou na cozinha no momento em que Harry estava
a virar o bacon.

- Penteia-te --, rosnou como forma de dar os bons-dias.
Cerca de uma vez por semana, o tio Vernon olhava por cima do
jornal da manh e gritava que Harry precisava de cortar o
cabelo. Harry tinha de cortar mais vezes o cabelo do que todos
os rapazes da sua turma juntos, mas mesmo assim ele continuava
a crescer por todos os lados.

Estava a fritar os ovos quando Dudley chegou  cozinha com a
me. Dudley era fisicamente muito parecido com o tio Vernon.
Tinha uma cara grande e rosada, um pescoo baixo, olhos azuis
pequeninos e um cabelo loiro e uniformemente penteado na sua
cabecinha gorda. A tia Petnia dizia muitas vezes que ele
parecia um anjinho - Harry costumava dizer que ele parecia um
porco de chin.  

Harry pousou os pratos de ovos com *bacon* sobre a mesa, o que
no foi fcil uma vez que esta estava cheia e no restava
muito espao. Dudley entretanto contava os presentes. De
repente, a sua expresso tornou-se carrancuda.

- Trinta e seis - disse, olhando para o pai e para a me. -
So menos dois do que no ano passado.

- Querido, no contaste com o da tia Marge, vs? Est aqui,
debaixo deste grande do papa e da mam.

- Est bem, trinta e sete --, disse Dudley corando um pouco.
Harry, que podia ver uma enorme birra a aproximar-se, comeou
a devorar o seu pequeno-almoo antes que Dudley virasse a
mesa.

A tia Petnia, naturalmente, sentiu o mesmo perigo porque
disse rapidamente: - Ento vamos comprar-te mais dois
presentes hoje  tarde, quando sairmos para o nosso passeio
habitual. O que dizes, queridinho, mais dois presentes, achas
bem?

Dudley pensou durante alguns segundos. Parecia complicado.
Por fim, repetiu lentamente - Ento fico com trinta e...
trinta e...

- Trinta e nove coisas boas - disse a tia Petnia.

- Ah! - Dudley sentou-se e agarrou o embrulho que estava mais
 mo. - Est bem, ento.

- Safadinho, quer tudo aquilo a que tem direito. Tal como o
pai. E assim mesmo, pequeno Dudley! - disse o senhor Dursley,
fazendo-lhe uma festa e desalinhando-lhe os cabelos.

Nesse momento tocou o telefone e a tia Petnia foi atender,
enquanto Harry e o tio Vernon observavam Dudley desembrulhando
a bicicleta de corrida, uma cmara de filmar, um avio de
controlo remoto, dezasseis novos jogos de computador e um
vdeo gravador. Estava a rasgar o papel de um relgio de pulso
de ouro quando a tia Petnia regressou do telefone com um ar
aborrecido e preocupado.  

- Ms notcias, Vernon --, disse. - A senhora Figg partiu uma
perna e no pode ficar com ele - e acenou com a cabea na
direco de Harry.

A boca de Dudley ficou aberta, expressando verdadeiro horror,
mas o corao de Harry deu um salto. Todos os anos, no
aniversrio do Dudley, os pais levavam-no a passear, a ele e
a um amigo, e iam a parques de diverses, hamburguerias ou ao
cinema. E todos os anos Harry era deixado com a senhora Figg,
uma velhota meio tonta que vivia ali perto. Harry detestava
ficar l. A casa cheirava a couve e a senhora Figg obrigava-o
a ver as fotografias de todos os gatos que tinha tido ao longo
da vida.

- O que  que podemos fazer agora? - perguntou a tia Petnia,
olhando com um ar furioso para Harry como se ele tivesse tido
alguma culpa. Harry sabia que devia sentir pena da senhora
Figg por ela ter partido uma perna, coitada, mas no era fcil
pois agradava-lhe bastante a ideia de passar mais um ano sem
ter de ver as fotografias do Tibbles, do Snowy, do Mr. Paws e
do Tufty.

- Podamos telefonar  Marge --, sugeriu o tio Vernon

- Que disparate, Vernon, ela detesta o mido. Os Dursleys
falavam muitas vezes assim, como se ele no estivesse presente
ou melhor, como se ele fosse uma coisa muito desagradvel,
incapaz de os entender, uma espcie de lesma.

- E aquela tua amiga, como  o nome dela, Ivonne?

- Est a passar frias em Maiorca - disse bruscamente a tia
Petnia.

- Podiam deixar-me ficar aqui - arriscou o Harry, cheio de
esperana (sempre podia ver o que lhe apetecesse na
televiso, para variar e talvez at jogar um pouco no
computador do Dudley).

A tia Petnia olhou para ele como se tivesse engolido um
limo.  
- E quando voltasse encontrava a casa em runas? - perguntou
cinicamente.

- Eu no destruo a casa - disse Harry, mas ningum o ouvia.

- O melhor ser ele vir connosco at ao jardim zoolgico -
disse numa voz arrastada a tia Petnia --... e depois ficar no
carro  nossa espera...

- No meu carro novo, nem pensar em deix-lo l sozinho...

Dudley comeou a chorar em altos berros. No a chorar, chorar.
Havia anos que ele no chorava, mas sabia perfeitamente que
se contrasse os msculos do rosto e gritasse bem alto, a me
dar-lhe-ia tudo e mais alguma coisa.

- No chores meu Dudleyzinho, lindo, a mam no vai deixar que
ele estrague o teu dia! - murmurou-lhe enquanto o envolvia num
enorme abrao.

- Eu... no... quero... que... ele... venha! - gritava Dudley
entre enormes gritos de pretenso choro. - Ele estraga... s...
empre... tudo! - Lanou a Harry um sorriso maldoso enquanto a
me o abraava.

Foi ento que tocou a campainha da porta. - Oh! Santo Deus,
eles chegaram! - disse a tia Petnia muito nervosa, e no
momento seguinte o melhor amigo de Dudley, Piers Polkiss,
entrou com a me. Piers era um rapazinho magricela com carinha
de rato. Era geralmente ele quem agarrava os braos dos outros
garotos, enquanto Dudley lhos dava socos. Dudley parou, de
imediato, com aquele choro fingido.
Meia hora mais tarde, Harry, que nem acreditava na sua sorte,
estava sentado num dos assentos de trs do carro dos Dursleys
com Piers e Dudley, a caminho do jardim zoolgico, onde ia
pela primeira vez em toda a sua vida. Os tios no tinham
conseguido encontrar outra soluo mas, antes de sarem de
casa, o tio Vernon chamara-o  parte.  

- Estou a avisar-te - disse, aproximando a sua enorme cara
rosada do rosto de Harry, - e toma bem ateno, qualquer
gracinha e ficas fechado na despensa at ao Natal.

- Eu no vou fazer nada de mal - disse Harry - a
srio...

Mas o tio Vernon no acreditou. Nunca ningum acreditava.

A verdade  que aconteciam coisas estranhas em volta dele e
no servia de nada dizer aos Dursleys que no as tinha
provocado.

Certo dia a tia Petnia, farta de o ver regressar do barbeiro
com o mesmo aspecto com que l entrara, pegou numa tesoura e
cortou-lhe o cabelo to curtinho que ficou praticamente calvo
com excepo da franja que ela deixou para lhe tapar aquela
horrvel cicatriz. Dudley tinha-se fartado de o gozar e Harry
passou a noite inteira sem conseguir dormir, a imaginar como
seria a sua entrada na escola no dia seguinte, onde ele j era
alvo de gozo por parte dos colegas por usar aquelas roupas
largussimas e os culos colados com fita-cola. Contudo, na
manh seguinte, descobriu que o cabelo estava exactamente como
antes de a tia Petnia lho ter cortado. Como castigo, passou
uma semana inteira na despensa, por mais que tivesse tentado
explicar que no sabia como o cabelo crescera com aquela
rapidez.

De outra vez, a tia Petnia tentou obrig-lo a vestir uma
horrorosa camisola de l do Dudley (castanha com borlas cor de
laranja). Quanto mais ela se esforava por lhe enfiar a
camisola pela cabea, mais pequena ela se tornava at que,
por fim, ficou reduzida s dimenses de uma camisola de
boneco. A tia Petnia concluiu que certamente encolhera na
lavagem e, para grande alvio de Harry, no foi castigado
dessa vez.  

Por outro lado, meteu-se num tremendo sarilho ao ser
encontrado no telhado da escola. O grupo de Dudley
perseguira-o como era costume quando, para sua grande
surpresa, deu consigo sentado na chamin. Os Dursleys
receberam uma carta muito acintosa da directora a dizer que o
Harry andava a subir aos telhados da escola. Mas a nica coisa
que ele queria (como se fartou de gritar ao tio Vernon atravs
da porta fechada da despensa) era saltar por detrs dos
grandes caixotes que estavam fora da cozinha. Harry pensava
que uma rabanada de vento o empurrara a meio do salto.

Mas hoje no ia suceder nada de mal. At valia a pena aturar o
Dudley e o Piers s para estar num lugar que no fosse a
escola, a despensa ou a sala a cheirar a couve da senhora
Figg.

Enquanto conduzia, o tio Vernon queixava-se  tia Petnia. Ele
adorava queixar-se de tudo: dos colegas de trabalho, do Harry,
do Governo, do Harry, do mau estado das estradas, do Harry...
Naquela manh eram as motocicletas.

--... Fazem um rudo ensurdecedor, parecem doidos estes
jovenzinhos marginais --, praguejou quando foi ultrapassado
por uma moto.

- Eu tive um sonho com uma moto... - disse o Harry,
lembrando-se subitamente, -- ... que voava.

O tio Vernon quase bateu no carro da frente. Deu meia volta no
assento e gritou ao Harry com o rosto parecendo uma gigantesca
beterraba com bigode: - AS MOTOS NO VOAM.

O Dudley e o Piers riram  socapa.

- Eu sei que no voam --, disse Harry. - Foi s um sonho.

Mas lamentou ter aberto a boca. Se havia alguma coisa que os
Dursleys detestassem mais ainda do que perguntas, era que ele
falasse sobre alguma coisa fora do comum  quer se tratasse
de um sonho ou de um desenho animado - pareciam recear que ele
pudesse vir a ter ideias perigosas.

Era um sbado cheio de sol e o jardim zoolgico estava cheio
de famlias. Os Dursleys compraram ao Dudley e ao Piers dois
grandes sorvetes de chocolate, logo  entrada, e depois, como
a vendedora era uma senhora simptica que perguntou ao Harry
se ele no queria nada antes de terem tido tempo de sair dali,
compraram-lhe um gelado de limo dos mais baratos. No era
mau, pensou Harry, lambendo-o enquanto observava um gorila a
coar a cabea c constatava a incrvel parecena entre o smio
e Dudley, apesar de o ltimo ter o cabelo loiro.

Foi a melhor manh desde h muito, muito tempo. Harry teve o
cuidado de se afastar um pouco dos Dursleys para que o Dudley
e o Piers, que prximo da hora do almoo comeavam a estar
fartos de ver animais, no se lembrassem de passar  sua
brincadeira predilecta: sov-lo. Comeram num restaurante ali
mesmo no jardim zoolgico e, quando Dudley fez uma enorme
birra porque a sua sobremesa no era suficientemente grande, o
tio Vernon mandou vir outra e Harry teve licena de acabar a
primeira.

Harry pensou, mais tarde, que devia ter desconfiado de que
tudo estava a ser bom de mais para durar muito.

Depois do almoo foram ver a casa dos rpteis. Estava tudo
escuro l dentro, com jaulas de vidro iluminadas ao longo das
paredes. Por detrs dos vidros, toda a espcie de lagartos e
cobras rastejavam e trepavam a pequenas pedras e pedaos de
tronco. Dudley e Piers queriam ver as grandes serpentes
venenosas e as gigantescas piton, capazes de engolir e
triturar seres humanos. Dudley depressa descobriu a maior
serpente de todas. Era to grande que o seu corpo poderia dar
duas voltas ao carro do tio Vernon,  esmagando-o e
reduzindo-o a sucata. Mas, naquele momento, o animal no
parecia estar com disposio para isso. Na verdade, estava
profundamente adormecido.

Dudley encostou o nariz ao vidro, olhando fixamente para os
brilhantes anis acastanhados.

- F-la mexer-se --, pediu ao pai. O tio Vernon tocou ao de
leve no vidro mas a serpente no se moveu.

- Faz outra vez --, ordenou Dudley. O tio Vernon bateu com
mais fora mas a cobra continuou a dormir.

- Isto  uma chatice --, resmungou o Dudley, saindo dali.

Harry aproximou-se e olhou atentamente para a cobra. No se
espantaria se ela tivesse morrido de tdio - sozinha, rodeada
de gente estpida, a bater com os dedos no vidro e a tentar
incomod-la a toda a hora. Era pior ainda do que ter uma
despensa como quarto, onde a nica visita era a tia 
Petnia a matraquear na porta para o acordar - pelo menos ele
podia andar pelo resto da casa.

De repente, a serpente abriu os olhos ensonados. Lenta, muito
lentamente, levantou a cabea at que os olhos ficaram ao
nvel dos de Harry.

Piscou os olhos.

Harry olhou-a fixamente. Em seguida, verificou se algum por
perto estava a observ-lo. Ningum ali estava. Voltou a olhar
para a cobra e piscou tambm.

A cobra fez um sinal de cabea apontando para o tio Vernon e
para Dudley, depois ergueu os olhos para o tecto e lanou a
Harry um olhar que dizia claramente: -*_Eu tenho daquilo a
toda a hora*.

- Eu sei --, murmurou Harry, atravs do vidro, embora no
tivesse a certeza absoluta de que a cobra conseguia ouvi-lo. -
Deve ser bastante chato.

A serpente acenou vivamente.

- De onde  que tu vieste, afinal? - perguntou Harry.  

A serpente fez sinal com a cauda chamando a ateno para um
pequeno letreiro junto do vidro. Harry leu.
BOA CONSTRICTOR, BRASIL.

- Era bom viver l?

A Boa Constrictor abanou de novo com a cauda e Harry leu:
:__este espcimen nasceu no __zoolgico. - Ah! j percebi,
nunca foste ao Brasil?

Quando a serpente fez que no com a cabea, um grito
horripilante por detrs de Harry f-los saltar aos dois.
:__dudley, mr. dursley! venha ver esta serpente. no vai
acreditar no que ela est a __fazer!

Dudley veio a correr atrs deles o mais depressa que podia.

- Sai da frente, palerma - disse, dando um soco nas costas do
Harry. Apanhado de surpresa, este caiu no cho duro de
cimento. O que aconteceu a seguir foi to rpido que ningum
conseguiu ver coisa alguma - num momento Piers e Dudley
estavam inclinados junto do vidro, no momento seguinte tinham
dado um salto para trs soltando gritos de verdadeiro horror.

Harry sentou-se no cho e suspirou. O vidro da jaula da Boa
Constrictor tinha desaparecido. A enorme serpente
desdobrava-se, deslizando pelo cho - toda a gente que estava
na casa dos rpteis gritava descontrolada e corria para as
portas de sada.

Quando deslizou perto dele, Harry poderia jurar ter ouvido uma
voz sibilante a dizer: - Brasssil, estou chegando. Obrigada,
amigo.

O guarda da casa dos rpteis estava em perfeito estado de
choque.

- Mas o vidro --, repetia sem entender, - para onde foi o
vidro?

O director do jardim zoolgico fez questo de oferecer  tia
Petnia uma chvena de ch forte enquanto lhe pedia repetidas
desculpas. Piers e Dudley no conseguiam  
calar-se. Tanto quanto Harry tinha visto, a cobra no fizera
nada a no ser um rudo brincalho, ao passar junto dos
calcanhares dos dois, mas, quando chegaram ao carro do tio
Vernon, o Dudley j estava a contar que ela por pouco no lhe
mordera a perna, enquanto Piers jurava a ps juntos que ela
tinha tentado mat-lo. Mas o pior de tudo foi a frase de Piers
quando se acalmou: - O Harry estava a falar com a cobra. No
estavas, Harry?

O tio Vernon esperou at Piers se ter ido embora antes de
tratar do sobrinho. Estava to zangado que mal conseguia
articular as palavras. Foi capaz de dizer - Vai... despensa... 
ficas... sem comer --, antes de se afundar na cadeira enquanto
a tia Petnia corria a preparar-lhe uma taa grande de brande.

Harry ficou na escurido da despensa durante muito tempo,
desejando ter um relgio. Como no sabia as horas no tinha a
certeza se os Dursleys j se teriam deitado. Antes disso no
se arriscava a tentar chegar  cozinha para comer qualquer
coisa.

Vivia com os Dursleys havia quase dez anos. Dez anos
miserveis, desde beb, quando os pais tinham morrido num
acidente de automvel. No se lembrava de ter estado dentro
desse carro em que os pais tinham morrido. _s vezes, quando
puxava pela memria, durante as longas horas que passava
trancado na despensa, tinha uma estranha reminiscncia: uma
fortssima luz verde e uma dor a queimar-lhe a testa. Aquilo,
imaginava ele, deveria ter sido o acidente, apesar de no
conseguir entender de onde vinha a luz verde. No tinha
qualquer imagem dos pais. O tio e a tia nunca falavam deles,
ele estava proibido de fazer perguntas e, naturalmente, no
existiam fotografias deles naquela casa.

Quando era mais pequeno, Harry sonhava repetidamente que um
parente desconhecido viria busc-lo um  dia mas tal nunca
aconteceu. Os Dursleys eram a sua nica famlia. Todavia ele
pensava, s vezes, ou seria esse o seu desejo, que as pessoas
estranhas na rua o conheciam. Estranhos realmente estranhos.
Um homem pequenino com um chapu alto cor de violeta
cumprimentara-o com uma vnia num dia em que ele andava s
compras com o Dudley e a tia Petnia. Depois de lhe perguntar,
furiosa, se conhecia aquele homem, a tia Petnia saiu
apressadamente do armazm sem comprar coisa alguma.

Uma mulher de idade com um aspecto rude, vestida de verde dos
ps  cabea, acenara-lhe alegremente num autocarro. Um homem
calvo, vestindo um casaco excessivamente longo cor de
purpura, apertara-lhe a mo na rua e em seguida continuara o
seu caminho sem terem trocado uma nica palavra.

O mais esquisito em todas aquelas pessoas era a forma de
desaparecerem no momento em que Harry tentava v-las melhor.

Na escola, Harry no tinha nenhum amigo. Todos sabiam
que o grupo do Dudley detestava o estranho Harry Potter com as
suas roupas enormes e velhas e os seus culos partidos, presos
com fita-cola e ningum queria desagradar ao grupo do Dudley.



Captulo III -- As cartas de ningum


A fuga da Boa Constrictor do Brasil valeu ao Harry o maior
castigo de sempre. Quando teve licena para sair da despensa
j as frias de Vero tinham comeado, j o Dudley tinha
partido a cmara de filmar, destrudo o aviozinho de controlo
remoto e atropelado, da primeira vez em que experimentou a
bicicleta de corrida, a pobre senhora Figg que atravessava a
rua, de muletas.

Harry estava satisfeito por as aulas terem acabado, mas no
havia como escapar ao grupo do Dudley que ia l a casa todos
os dias. Piers, Dennis, Malcolm e Gordon eram todos grandes e
estpidos, mas como Dudley era o maior e o mais estpido de
todos, liderava. Os outros alinhavam sempre no seu desporto
preferido: caa ao Harry.

Este era o motivo pelo qual Harry passava o mximo tempo
possvel longe de casa, a vaguear pelas ruas e a pensar no
final das frias, que lhe trazia pelo menos uma pequena luz ao
fundo do tnel. Quando chegasse o ms de Setembro, iria para o
liceu e, pela primeira vez na vida, seria separado de Dudley
que j estava inscrito na antiga escola do tio Vernon,
Smeltings. Pier Polkiss ia tambm para l. Harry, por sua vez,
ia para Stonewall High, a escola secundria de ensino
especial, o que divertia imensamente Dudley.

- Eles metem a cabea dos caloiros dentro da sanita, no
primeiro dia de aulas, l em Stonewall --, disse ele ao Harry,
- queres vir at l acima para comear a praticar?  

- No, obrigado - respondeu Harry, - a pobre sanita nunca teve
nada to nojento l dentro como a tua cabea, podia ficar
doente - e largou a correr antes que o Dudley fosse capaz de
perceber o que ele lhe tinha dito.

Um dia, em Julho, a tia Petnia levou Dudley a Londres para
lhe comprar os uniformes para a escola, deixando o Harry em
casa da senhora Figg. As coisas no correram to mal como de
costume. A verdade  que ela tinha partido a perna por ter
tropeado num dos gatos e j no parecia gostar tanto deles
como antes. Deixou-o ver televiso e deu-lhe uma fatia de
bolo de chocolate que devia ter anos de existncia.

Nessa noite Dudley exibiu-se na sala, para toda a famlia, no
seu uniforme novinho em folha. Os rapazes da Smelting usavam
casaca castanho-avermelhado, calas tipo golfe cor-de-laranja
e uns chapus de palha duros e achatados. Usavam tambm um
pequeno basto com que se espancavam uns aos outros quando os
professores no estavam a olhar, o que supostamente deveria
dar-lhes experincia para a vida futura.

Ao olhar para o Dudley nas suas novas calas, o tio Vernon
disse emocionado que nunca se sentira to orgulhoso em toda a
vida como naquele momento. A tia Petnia desfez-se em
lgrimas, achando quase impossvel que aquele fosse o seu
Dudleyzinho, to bonito e to crescido, que estava no seu novo
uniforme. Harry foi incapaz de abrir a boca. Receava que duas
das suas costelas se tivessem partido com o tremendo esforo
que estava a fazer para no se rir.

No dia seguinte, havia um cheiro nauseabundo na cozinha
quando Harry chegou para tomar o pequeno-almoo. Parecia vir
de uma enorme bacia de metal que tinha algo de molho. Foi
espreitar. A bacia estava cheia de uma espcie de farrapos
sujos que boiavam numa aguadilha verde.  

- O que  isto? - perguntou  tia Petnia.

Os lbios da tia comprimiram-se como sucedia sempre que ele
lhe fazia alguma pergunta.

- O teu novo uniforme --, respondeu.

Harry voltou a olhar para a bacia.

- Ah! - disse - no sabia que tinha de ser to molhado.

- No sejas estpido --, respondeu asperamente a tia Petnia.
- Estou a tingir de verde algumas roupas usadas do Dudley. Vo
parecer um uniforme igual a todos os outros.

Harry ficou com srias dvidas mas achou melhor no dizer
nada. Sentou-se  mesa e tentou no pensar na figura que ia
fazer no dia seguinte em Stonewall High - como se estivesse a
usar pedaos de plo de elefante, muito provavelmente.

Dudley e o tio Vernon entraram ambos de nariz torcido por
causa do cheiro do novo uniforme do Harry. O tio Vernon abriu
o jornal como de costume e Dudlev bateu na mesa com o basto
dos Smeltings que agora usava para todo o lado.

Ouviram o estalido da caixa do correio e as cartas a carem no
tapete fora da porta.

- Vai buscar o correio, Dudley - disse o tio Vernon, escondido
pelo jornal.

- O Harry que v!

- Vai buscar o correio, Harry!

- O Dudley que v!

- Espicaa-o com o teu basto, Dudley.

Harry, evitando o basto dos Smeltings, foi buscar o correio. 
Estavam trs coisas no tapete fora da porta: um postal da irm
do tio Vernon, Marge, que estava a passar frias na ilha de
Wight, um sobrescrito castanho que parecia ser uma conta para
pagar e - uma carta *para o Harry*.  

Harry pegou-lhe e ficou a olhar espantado, o corao a tremer
como se quisesse saltar-lhe do peito. Nunca, ningum, em toda
a sua vida lhe tinha escrito. Quem poderia ser? No tinha
amigos nem parentes - no era scio da biblioteca e por isso
tambm nunca recebera bilhetes desagradveis a mand-lo
entregar os livros. Contudo ela ali estava, uma carta com um
endereo to claro que no havia qualquer margem para dvidas.

Sr. H. Potter
Despensa debaixo das escadas
Privet Drive, N.o 4
Little Whinging
Surrey

O sobrescrito era pesado e espesso, de uma espcie de
pergaminho amarelado e a morada vinha escrita a tinta
verde-esmeralda. No trazia selo.

Voltando o sobrescrito ao contrrio, com as mos a tremer,
Harry viu um selo de lacre cor de prpura com um braso onde
podia distinguir-se um leo, uma guia, um texugo e uma
serpente envolvendo a letra H.

- Despacha-te, rapaz! - gritou o tio Vernon da cozinha. - O
que  que ests a fazer,  procura de uma bomba no correio? -
e riu-se da sua prpria piada.

Harry voltou  cozinha, olhando ainda para a carta que trazia
na mo. Entregou ao tio a conta e o postal, sentou-se e
comeou lentamente a abrir o sobrescrito amarelo.

O tio Vernon rasgou num gesto repentino a carta da conta e leu
em poucos segundos o postal.

- A Marge est doente --, comunicou  tia Petnia - comeu por
l um molusco esquisito...

- Pai! - disse o Dudley sem perder tempo, - pai, o Harry
recebeu qualquer coisa!  

Harry estava a desdobrar a carta que estava escrita no mesmo
tipo de pergaminho do envelope, quando esta lhe foi arrancada
das mos pelo tio Vernon.

- Essa carta  minha! - gritou ele, tentando recuper-la.

- E quem iria escrever-te? - perguntou sarcasticamente o tio
Vernon, agitando a carta numa das mos e deitando-lhe uma
vista de olhos. O seu rosto passou de vermelho a verde mais
depressa do que as luzes de um semforo. E no parou por a.
Alguns segundos mais tarde estava de um verde-plido, cor de
papas de aveia fora do prazo de validade.

- P-_P-_Petnia --, chamou quase sem conseguir respirar.

Dudley tentou agarrar a carta para a ler mas o tio Vernon
segurava-a bem alto, fora do seu alcance. A tia Petnia
pegou-lhe, cheia de curiosidade e leu a primeira linha. Por
momentos pareceu que ia desmaiar, fez um estranho rudo com a
garganta.

- Vernon! Virgem Santssima, Vernon!

Olharam um para o outro como se se tivessem esquecido de que
Harry e Dudley ainda estavam presentes. Dudley, que no estava
habituado a ser ignorado, deu ao pai uma forte pancada na
cabea com o basto dos Smeltings.

- Quero ler a carta --, disse bem alto.

- Quero l-la --, bradou o Harry, furioso como se dissesse
Ela  minha.

- Saiam daqui, os dois - resmungou o tio Vernon, voltando a
meter a carta no sobrescrito.

Harry no se moveu.

- :__quero a minha __carta! - gritou.

- Deixa-me v-la - exigiu o Dudley.

- Fora - rosnou o tio Vernon e levou os dois, Harry e Dudley,
pelo pescoo at ao vestbulo, fechando com fora a porta da
cozinha. Harry e Dudley iniciaram de imediato uma briga acesa
mas silenciosa sobre quem  encostaria o ouvido ao buraco da
fechadura. Dudley venceu, por isso Harry, com os culos
pendurados numa das orelhas, deitou-se no cho para ouvir
pela fenda entre a porta e o soalho.

- Vernon --, dizia a tia Petnia numa voz trmula, - olha
para a morada; como  que eles sabem onde ele dorme? Ser que
andam a vigiar a casa?

- A vigiar, a espiar, talvez a seguirem-nos - respondeu
precipitadamente e entredentes o tio Vernon.

- Mas o que  que vamos fazer, Vernon? Deveremos responder?
Dizer-lhes que no queremos...

Harry podia ver pela fresta os sapatos brilhantes do tio, de
um lado para o outro da cozinha.

- No --, disse por fim. - No. Vamos ignorar esta carta. Se
no tiverem resposta... sim, o melhor  no lhes dar resposta
nenhuma...

- Mas...

- No quero ter um deles em casa, Petnia! No jurmos quando
ficmos com o garoto que poramos fim a esse perigoso
disparate?

Nessa noite, quando voltou do trabalho, o tio Vernon fez uma
coisa que nunca tinha feito antes: foi visitar o Harry 
despensa.

- Onde est a minha carta? - perguntou ele, no momento em que
o tio apareceu  porta, - quem foi que me escreveu?

- Ningum. Vinha dirigida a ti por engano - disse o tio Vernon
sinteticamente. - Achei melhor queim-la.

- No era um engano - disse o Harry furioso, - vinha para a
minha despensa.

- __silncio! - gritou o tio Vernon fazendo que, com o susto,
algumas aranhas cassem do tecto. Respirou fundo vrias vezes
e depois, com um sorriso forado que quase parecia doloroso,
disse:  

- Er... sim, Harry, acerca da despensa, eu e a tua tia temos
estado a pensar e... ests a ficar grande de mais para este
espao. Achmos que seria melhor para ti mudar s para o
segundo quarto do Dudley.

- Porqu? - perguntou Harry.

- No faas perguntas - disse bruscamente o tio, - leva as
tuas coisas para cima.

A casa dos Dursleys tinha quatro quartos de cama. O do tio
Vernon e da tia Petnia, o quarto de hspedes (onde ficava
geralmente a tia Marge, irm do tio Vernon), um onde o Dudley
dormia e outro onde guardava todos os brinquedos e coisas que
no cabiam no de dormir. Bastou a Harry subir uma vez a escada
para transportar todos os seus haveres da despensa para este
quarto. Sentou-se na cama e olhou em volta. Quase tudo ali
estava partido. A cmara de vdeo, que s tinha alguns meses
de existncia, estava em cima de um pequeno carro de assalto
com que o Dudley atropelara o co do vizinho do lado. A um
canto estava a primeira televiso que lhe tinham oferecido, na
qual ele enfiara um p, no dia em que cancelaram o seu
programa preferido. Havia tambm uma enorme gaiola, que tivera
em tempos um papagaio que o Dudley trocara na escola por uma
verdadeira espingarda de presso de ar que estava agora sobre
uma das prateleiras com a extremidade entortada, porque se
sentara um dia em cima dela. As outras prateleiras estavam
cheias de livros e eram as nicas coisas em todo o quarto que
pareciam nunca ter sido tocadas.

Do andar de baixo ouvia-se a voz do Dudley a discutir com a
me: - No o quero ali, preciso daquele quarto... tira-o de
l.

Harry suspirou e esticou-se em cima da cama. Um dia antes
teria dado tudo para poder estar naquele lugar. Agora,
preferia ter a sua carta e dormir de novo na despensa em vez
de ter aquele quarto sem ter a carta.  

Na manh seguinte, ao pequeno-almoo, estavam todos muito
calados. O Dudley ainda manifestava efeitos do choque. Tinha
gritado, batido no pai com o basto dos Smeltings, fingido
adoecer, dado pontaps  me e atirado o cgado para o tecto
da estufa sem conseguir que lhe devolvessem o quarto. Harry
lembrava-se de que na vspera, quela mesma hora, tinha
recebido a carta e pensava amargamente que devia t-la aberto
no vestbulo. O tio Vernon e a tia Petnia no paravam de
olhar um para o outro com um ar sombrio.

Quando chegou o correio, o tio Vernon, que parecia estar a ser
simptico com o Harry, mandou o Dudley busc-lo. 
Ouviram-no a bater em todas as coisas com o basto dos
Smeltings at chegar  entrada. A seguir gritou: - H outra!
Senhor H. Potter, quarto mais pequeno da casa, Privet Drive,
e...

Com um grito abafado o tio Vernon deu um salto na cadeira e
desceu as escadas a correr, seguido por Harry. Teve de atirar
o filho ao cho para conseguir arrancar-lhe a carta, o que foi
dificultado pelo facto de Harry lhe ter agarrado o pescoo por
detrs. Depois de alguns momentos de lata e confuso, durante
a qual todos levaram com o basto dos Smeltings, o tio Vernon
levantou-se, com a carta na mo e respirando com alguma
dificuldade.

- Vai para a despensa, quero dizer, para o quarto - ordenou
ao Harry. - Dudley, sai daqui.

Harry deu voltas e voltas no seu novo quarto. Algum sabia que
ele se mudara da despensa para ali e parecia ter tambm
conhecimento de que ele no recebera a primeira carta. Assim
sendo, era bem provvel que tentasse escrever-lhe de novo. E
desta vez havia que tomar precaues para que a carta lhe
chegasse s mos. Tinha um plano.

O despertador, que fora consertado, tocou s seis na manh
seguinte. Harry desligou-o rapidamente e vestiu-se  em
silncio. No podia acordar os Dursleys. Desceu a! escadas sem
acender nenhuma luz.

Ia esperar pelo carteiro na esquina da Privet Drive e recolher
as cartas para o nmero 4 em primeiro lugar. O corao
batia-lhe enquanto se arrastava vagarosamente, no escuro, em
direco  porta da rua.

AAAAAAAAHHHH!!!

Harry foi pelos ares. Acabava de chocar com uma coisa grande e
hmida que estava no tapete, uma coisa viva!

As luzes acenderam-se no andar de cima e Harry apercebeu-se
de que a coisa grande e hmida era a cara do tio Vernon que
tinha dormido no tapete, dentro de um saco-cama, para se
assegurar de que Harry no faria precisamente aquilo que se
lembrara de fazer. Gritou com ele durante quase meia hora e
depois mandou-o preparar uma chvena de ch. Harry arrastou-se
infelicssimo at  cozinha e quando regressou o correio j
estava no colo do tio Vernon. Harry pde distinguir
perfeitamente trs cartas escritas a tinta verde.

- Eu quero... - comeou por dizer, mas o tio estava a
rasg-las em mil pedacinhos mesmo  frente do seu nariz.

Nesse dia o tio Vernon no foi trabalhar. Ficou em casa e
fechou com pregos a caixa do correio.

- Vs? - explicou  tia Petnia, pelo meio de um monte de
pregos, - se eles no poderem *entreg-las*, acabaro por
desistir.

- No tenho tanta certeza assim de que isso resulte, 
Vernon. 

- Ora, a cabea daquela gente funciona de um modo estranho,
Petnia. Eles no so como ns - disse o tio Vernon, tentando
pregar um prego com o pedao de bolo de frutas que a tia
Petnia acabara de lhe trazer.

Na sexta-feira chegaram doze cartas para o Harry. Como no
podiam entrar na caixa do correio, foram metidas por 
debaixo da porta, outras introduzidas pelas frinchas laterais
e algumas empurradas pela pequena janela da casa de banho do
rs-do-cho.

O tio Vernon voltou a ficar em casa. Depois de queimar todas
as cartas, foi buscar um martelo e pregos e pregou tbuas nas
portas, de tal modo que ningum podia sair. Enquanto
trabalhava ia cantarolando entredentes o *_Tiptoe through the
Tulips* (Em bicos de ps entre as tlipas) e saltava sempre
que ouvia um pequeno barulho.

No sbado, as coisas comearam a fugir por completo ao seu
controlo. Vinte e quatro cartas endereadas ao Harry
conseguiram entrar l em casa, embrulhadas e escondidas nas
duas dzias de ovos que o leiteiro entregou, bastante confuso,
 tia Petnia, atravs da janela da sala. Enquanto o tio
Vernon fazia chamadas telefnicas em grande exaltao para a
repartio dos correios, tentando encontrar algum com quem
implicar, a tia Petnia triturava as cartas na 1,2,3, como se
fossem carne para picar.

- Quem diabo  que quer tanto falar contigo? - perguntava o
Dudley no meio de um enorme espanto.

No domingo de manh, o tio Vernon sentou-se  mesa do
pequeno-almoo com um ar cansado e adoentado mas, apesar de
tudo, satisfeito.

- Felizmente ao domingo no h correio - recordou-lhes
enquanto espalhava o doce nos jornais. - No h as estuporadas
cartas, hoje.

Mal acabara de pronunciar esta frase, algo caiu pela chamin
da cozinha, batendo-lhe bruscamente na nuca e, no momento a
seguir, trinta ou quarenta cartas tombaram ruidosamente, como
uma chuva de balas, pela chamin abaixo. Os Dursleys
desviaram-se mas Harry deu um enorme salto na tentativa de
agarrar alguma.  

- Fora! FORA DAQUI!

O tio Vernon agarrou Harry pelo cinto das calas e atirou-o
para o vestbulo. Quando a tia Petnia e Dudley baixaram os
braos com que protegiam o rosto e a cabea, o tio Vernon
bateu com a porta. C fora ouviam-se as cartas que
continuavam a entrar a jorros pela sala, batendo fortemente
contra as paredes e o soalho.

- Est decidido - disse o tio Vernon, tentando falar ,com toda
a calma mas arrancando ao mesmo tempo tufos de bigode. -
Quero-vos a todos aqui, dentro de cinco minutos, prontos para
sair. Vamos para fora. Arrumem algumas coisas e nada de
perguntas!

Parecia to perigoso com metade do bigode arrancado que
ningum se atreveu a abrir a boca. Dez minutos mais tarde
tinham conseguido sair atravs das portas trancadas com tbuas
e estavam todos no carro, seguindo na direco da
auto-estrada.

O Dudley fungava no assento de trs porque o pai lhe dera um
caldo na cabea por ele estar a atras-los a todos, tentando
meter no saco de desporto a televiso, o vdeo e o computador.

Fizeram quilmetros e quilmetros. Nem a tia Petnia ousava
perguntar ao marido para onde iam. De vez em quando, o tio
Vernon dava a volta e tomava a direco contrria. -
Despist-los... despist-los --, resmungava sempre que fazia
aquilo.

No pararam para comer nem para beber durante o dia inteiro.
_ noitinha o Dudley estava de pssimo humor. Nunca passara um
dia to mau em toda a sua vida. Tinha fome, perdera cinco
programas de televiso que queria ver e nunca tinha estado
tanto tempo sem destruir um extraterrestre num dos seus jogos
de computador.

Finalmente o tio Vernon parou  porta de um hotelzinho
sombrio,  entrada de uma grande cidade. Dudley e Harry
dividiram o mesmo quarto de duas camas com  lenis hmidos
e a cheirar a mofo. Dudley ressonou mas Harry ficou acordado,
sentado no peitoril da janela, a olhar para baixo para as
luzes dos carros que passavam e a pensar...

No dia seguinte, ao pequeno-almoo comeram *corn flakes* e
torradas com tomate frio de conserva e tinham todos terminado
no momento em que a dona do hotel se aproximou da mesa.

- Peo imensa desculpa, mas algum dos senhores  o senhor H.
Potter?  que acabo de receber uma centena de cartas destas na
minha secretria.

A senhora mostrou uma das cartas para que pudessem ler o
endereo escrito a tinta verde:


Senhor H. Potter
Quarto 1 7
Hotel Railview
Cokeworth


Harry fez um gesto no sentido de pegar na carta, mas o tio
Vernon agarrou-lhe no brao e f-lo baixar a mo. A senhora
ficou a olhar espantada.

- Eu trato disso - afirmou o tio Vernon, levantando-se
rapidamente e saindo atrs dela da sala de jantar.

- No seria melhor voltarmos para casa, querido? - sugeriu
timidamente a tia Petnia, algumas horas mais tarde, mas o tio
Vernon pareceu nem ter ouvido as suas palavras. 

Ningum sabia ao certo qual era a ideia dele. Levou-os at ao
meio da floresta, saiu, olhou em volta, abanou a cabea,
voltou ao carro e continuou a conduzir. Fez o mesmo no meio de
um campo cultivado, a meio de uma ponte e no topo de um imenso
parque de estacionamento.

- O pai enlouqueceu, no enlouqueceu? - perguntou nessa tarde
o Dudley  tia Petnia.  

O tio Vernon tinha estacionado o carro na costa, deixara-os
fechados l dentro e desaparecera.

Comeou a chover. Enormes pingos de chuva batiam no tejadilho
do carro. Dudley choramingava.

- Hoje  segunda-feira - dizia ele  me. - H o *show*, do
grande Humberto, quero ir para qualquer lado onde haja
televiso.

Segunda-feira. Aquilo lembrava ao Harry qualquer coisa. Se
*era* de facto segunda-feira - e geralmente o Dudley nunca se
enganava nos dias por causa da televiso - ento no dia
seguinte, tera-feira, era o seu aniversrio. Harry ia fazer
onze anos.  claro que os seus aniversrios no costumavam
ser propriamente divertidos - no ano passado os Dursleys
tinham-lhe oferecido um cabide para pendurar o casaco e um par
de pegas velhas do tio Vernon. Mesmo assim, no  todos os
dias que se faz onze anos.

O tio estava de volta e vinha sorridente. Trazia consigo um
pacote grande e estreito e no respondeu  tia Petnia quando
esta lhe perguntou o que tinha comprado.

- Descobri o lugar ideal! - disse. - Vamos l, toca a sair,
todos!

Estava um frio de enregelar fora do carro. O tio Vernon
apontou para uma coisa que parecia um caminho de rocha,
direito ao mar. Encarrapitada em cima de um rochedo ainda
distante, estava a cabana mais miservel que imaginar se
pode. Uma coisa era certa, ali no havia televiso.

- As previses so de tempestade para esta noite! - disse o
tio Vernon jovialmente, batendo as palmas. - E este senhor,
aceitou alugar-nos o barco para irmos at l!

Um velhote sem dentes aproximou-se vagarosamente, apontando
com um sorriso perverso para um velho barco a remos que boiava
na gua acinzentada.

- J fui comprar algumas provises - disse o tio Vernon, -
portanto, todos a bordo!  

Estava demasiado frio dentro do barco. Os salpicos glidos da
gua do mar e a chuva molharam-lhes o pescoo e as costas e um
vento frio fustigou-lhes o rosto. A viagem pareceu ter
demorado horas at que chegaram  rocha onde o tio Vernon,
escorregando e deslizando, lhes indicou o caminho para a
cabana em runas.

O interior da cabana era um susto. Cheirava intensamente a
algas podres, o vento assobiava pelas fendas das paredes de
madeira e o fogo estava hmido e sem lenha. A cabana tinha
apenas dois quartos.

As provises do tio Vernon, afinal, eram apenas um pacote de
batatas fritas para cada um e quatro bananas. Tentou acender a
lareira mas as embalagens vazias das batatas fritas deitaram
fumo e apagaram-se de imediato.

- Davam jeito agora aquelas cartas todas, hein? - disse
alegremente.

Estava cheio de boa disposio. Pensava obviamente que ningum
conseguiria encontr-los ali, no meio da tempestade, para
lhes entregar o correio. Harry partilhava da mesma opinio
apesar de isso no o alegrar de modo algum.

Quando anoiteceu, a anunciada tempestade estoirou em volta
deles. As ondas enormes conseguiram encharcar as paredes da
choupana e um vento feroz agitava, com grande rudo, as
janelas imundas. A tia Petnia descobriu alguns cobertores no
segundo quarto e fez uma cama para o Dudley no velho sof
rodo pela traa e carcomido pelo tempo. Ela e o tio Vernon
ficaram no quarto ao lado, uma diviso hmida e grumosa,
marcada nas paredes e no soalho pela fora das ondas e o Harry
ficou  vontade para procurar o bocado de cho menos duro e
embrulhar-se no cobertor mais ralo e esfarrapado.

A tempestade tornava-se cada vez mais violenta  medida que a
noite avanava. Harry, com o estmago revoltado com fome,
tiritava e deva voltas e reviravoltas, tentando  encontrar a
melhor posio. O ressonar dos Dursleys era abafado pela
trovoada que comeou perto da meia-noite. O ponteiro luminoso
do relgio do Dudley, tombado na beira do sof, no seu pulso
gordo, permitia-lhe ver que dentro de dez minutos faria onze
anos. Ficou a olhar fixamente e a ver aproximar-se o seu
aniversrio, perguntando a si prprio se os Dursleys se
lembrariam e onde estaria a pessoa que lhe tinha escrito todas
aquelas cartas.

Faltavam cinco minutos. Harry ouviu um barulho l fora.
Desejou que no fosse o tecto a ruir, embora ficasse mais
quentinho se isso acontecesse. Faltavam quatro minutos.
Talvez a casa em Privet Drive estivesse to cheia de cartas
quando voltassem que lhe fosse possvel roubar uma.

Faltavam trs minutos. Seria o mar a bater na rocha daquela
maneira? E (faltavam dois minutos), que barulho que parecia de
ps seria aquele? Estaria a rocha a desagregar-se?

Faltava um minuto para ele completar onze anos. Trinta
segundos... vinte... dez... nove - e se acordasse o Dudley s
para o chatear? - trs... dois, um...

BOOOOOM.

Toda a cabana estremeceu. Harry deu um salto e ficou a olhar.
Algum estava l fora a bater  porta.

Captulo IV -- O guarda das chaves


BOOM. Voltaram a bater. Dudley acordou estremunhado.

- Onde est o canho? --, perguntou estupidamente. Ouviu-se um
rudo por detrs deles e o tio Vernon entrou no quarto aos
tropees com uma espingarda na mo; agora j sabiam o que ele
trazia naquele pacote alto e estreito.

- Quem est a? - gritou. - Previno-o de que estou armado!

Fez-se uma pausa. Em seguida...

SMASH!

A pancada na porta foi de tal modo forte que esta saiu dos
gonzos e, com um rudo ensurdecedor, estatelou-se no cho.

Um homem gigantesco estava de p no umbral da porta. O rosto
estava praticamente tapado por uma enorme juba hirsuta e por
uma barba emaranhada, mas mesmo assim era possvel vislumbrar
os seus olhos, a brilharem como baratas negras debaixo de todo
aquele cabelo.

O gigante forou a entrada na choupana, baixando a cabea para
no bater no tecto. Inclinou-se, apanhou a porta e colocou-a
de novo, com a maior facilidade, nas dobradias. O estrpito
da tempestade diminuiu um pouco. Ele voltou-se para olhar bem
para toda a famlia.

- Poderiam oferecer-me uma chvena de ch. No foi uma viagem
fcil...

Deu uma enorme passada em direco ao sof onde o Dudley
estava sentado, a tremer de medo.  

- Salta da, massa informe - disse o estranho. Dudley deu um
grito e correu a esconder-se atrs da me que tremia
apavorada atrs do tio Vernon.

- Ah! Aqui .t o Harry! - disse o gigante. Harry olhou para
aquele rosto feroz, tosco e indistinto e viu que os olhinhos
de barata lhe sorriam.

- Da ltima vez que te vi ind'eras beb - disse o gigante. - 
engraado, pareces-te bastante com o teu pai, mas os olhos so
os da tua me.

O tio Vernon fez um rudo spero e estranho.

- Exijo que o senhor saia daqui! - disse. - Forou a entrada
nesta casa!

- Est calado, Dursley. s um parvo - disse o gigante. 
Aproximou-se do sof, tirou a arma das mos do tio Vernon,
dobrou-a, dando-lhe um n como se fosse feita de borracha e
atirou-a para um canto da sala.

O tio Vernon fez outro som estranho, como o de um rato a ser
pisado.

- De qualquer modo, Harry --, disse o gigante, - feliz
aniversrio. Tenho uma coisa para ti, se calhar sentei-me em
cima dela mas o sabor  o mesmo.

De dentro do bolso do sobretudo preto, retirou uma caixa
ligeiramente achatada. Harry abriu-a com os dedos trmulos. L
dentro estava um grande bolo de chocolate com uma cobertura
doce onde estava escrito em letras verdes Feliz aniversrio,
Harry.

Harry olhou para o gigante. Queria dizer-lhe obrigado mas as
palavras perderam-se pelo caminho e o que saiu foi Quem s
tu?

O gigante riu entredentes.

-  verdade, nem me apresentei. Rubeus Hagrid, guarda das
chaves e dos campos em Hogwarts.

Estendeu uma mo enorme e agarrou no brao todo do Harry.  

- Ento e o ch, hein? - perguntou, esfregando as mos. - Eu
no digo que no, se m'oferecerem alguma coisa forte p'ra
tomar.

Os olhos detiveram-se no fogo de sala vazio, com os pacotes
de batatas fritas semiardidos. Comeou a soprar. Inclinou-se
sobre a lareira de tal modo que ningum conseguia ver o que
estava a fazer, mas quando se afastou, um segundo depois,
havia ali um lume forte que enchia a cabana de luz e Harry
sentiu o calor envolv-lo como se tivesse acabado de entrar
num banho quente.

O gigante sentou-se no sof que abateu com o seu peso e
comeou a tirar as mais diversas coisas dos bolsos do
sobretudo: uma chaleira de cobre, uma embalagem amolgada de
salsichas, um atiador de fogo, um bule, vrias canecas
rachadas e uma garrafa de um lquido mbar da qual bebeu um
trago antes de comear a fazer o ch. Poucos minutos depois a
cabana estava cheia do som e do cheirinho das salsichas a
serem fritas. Ningum disse palavra enquanto o gigante fazia
o seu trabalho, mas quando ele fez deslizar para fora do ferro
as primeiras seis salsichas sumarentas e ligeiramente
tostadas, o Dudley mostrou-se inquieto. O tio Vernon disse-lhe
secamente: - No mexas em nada, ele d-te, Dudley.

O gigante riu-se.

- O grande pudim do teu filho no precisa de engordar mais,
Dursley, no te preocupes.

Passou as salsichas ao Harry que estava com tanta fome que
teve a impresso de nunca ter comido nada to saboroso em
toda a sua vida. No conseguia tirar os olhos do gigante. Por
fim, como ningum lhe explicava o quer que fosse, disse: -
Desculpe mas eu ainda no sei quem o senhor  realmente. 

O gigante tomou um gole de ch limpou a boca com a palma da
mo.  

- Chama-me Hagrid - disse. -  como todos me chamam. E como j
te disse sou o guarda das chaves em Hogwarts; certamente sabes
o que  Hogwarts.

- Er... no - disse Harry.

Hagrid ficou estarrecido.

- Desculpe - completou Harry o mais rapidamente possvel.

- Desculpe? - rosnou Hagrid, voltando-se para os Dursleys que
recuaram para a sombra.

- So eles que deveriam pedir desculpa! Eu sabia que no
estavas a receber as cartas mas nunca pensei que nem sequer
soubesses o que era Hogwarts. Nunca tiveste curiosidade de
saber onde os teus pais aprenderam tudo?

- Tudo o qu? - perguntou Harry.

- TUDO O QU??? - vociferou Hagrid. - Espera l!

Ele pusera-se de p num salto. Em toda a sua raiva parecia
encher por completo a choupana. Os Dursleys estavam colados 
parede.

- Querem dizer que - rosnou na direco dos Dursleys - qu'este
rapaz - este rapaz! - no sabe nada DE NADA?

Harry achou que as coisas estavam a ir um pouco longe de mais.
Tambm no era assim. Ele tinha ido  escola e ao fim e ao
cabo at nem tivera muito ms notas.

- Eu sei algumas coisas - disse. De matemtica, de...

Mas Hagrid acenou com a mo e esclareceu: - Eu refiro-me ao
nosso mundo. Isto , ao meu mundo, ao teu mundo, ao mundo dos
teus pais.

- Qual mundo?

Hagrid parecia prestes a explodir.

- DURSLEY! - gritou.

O tio Vernon, que ficara de repente muito plido, murmurou
qualquer coisa que pareceu - Mimblewimble. Hagrid olhou
fixamente para Harry.  

-Mas deves saber sobre a tua me e o teu pai --, disse. -
Afinal eles eram famosos, tu s famoso.

- O qu? A minha me e o meu pai eram famosos?

- Tu no sabes. .. no sabes --, Hagrid passou os dedos pelos
cabelos olhando para Harry com um olhar desnorteado.

- Tu no sabes o que s? - perguntou por fim.

O tio Vernon encontrou finalmente a voz.

- Pare --, disse num tom de comando. - Pare por a, se faz
favor, probo-o de contar ao rapaz seja o que for!

Um homem mais corajoso do que Vernon Dursley teria perdido o
animo perante o olhar de fria incontida que Hagrid lhe
lanou. Quando falou, cada uma das slabas que pronunciava
tremia de raiva.

- Voc nunca lhe disse? Nunca lhe disse o que estava escrito
na carta que o Dumbledore deixou p'ra ele? Eu 'tava presente.
Vi Dumbledore deixar a carta, Dursley! E voc nunca lha
entregou em todos estes anos?

- Nunca me entregou o qu? - perguntou Harry ansiosamente.

- CALA-TE. PROBO-TE! - gritou o tio Vernon em
pnico.

A tia Petnia estremeceu horrorizada.

- Vo para o raio que vos parta, vocs os dois - disse Hagrid.
- Harry tu s um feiticeiro.

Fez-se um enorme silncio dentro da cabana. Apenas se ouvia o
mar e os assobios do vento.

- Eu sou o qu? - perguntou Harry sem conseguir entender.

- Um feiticeiro, claro --, disse Hagrid, sentando-se no sof
que chiou e se afundou mais um pouco. - E um excelente
feiticeiro, arriscaria eu, basta qu'aprendas algumas coisas. 
C'uma me e um pai com'os teus, como poderias no o ser? E
acho que chegou a altura de leres a tua carta.  

Harry estendeu a mo, agarrando por fim o sobrescrito amarelo,
endereado em tinta verde esmeralda ao Senhor H. Potter,
rs-do-cho, Cabana da rocha, Oceano. Pegou na carta e leu:

:__escola hogwarts de magia e __feitiaria

Director: Albus Dumbledore

(Ordem de Merlin, Primeira classe, Grande Feit., Prof.
Warlock, Mandatrio Supremo, Confeder. Internacional de 
Feiticeiros)

Caro Sr. Potter,

 nosso prazer inform-lo de que tem um lugar  sua espera na
Escola de Magia e Feitiaria de Hogwarts. Junto enviamos uma
lista dos livros e equipamentos necessrios.

O ano lectivo comea a 1 de Setembro. Queira enviar-nos a sua
coruja at dia 31 de Julho, sem falta.

Atenciosamente 
Minerva Mc_Gonagall 
Subdirectora

As perguntas estoiraram dentro da cabea de Harry como se
fossem fogo-de-artifcio, de tal modo que ele no conseguia
decidir qual a pergunta que queria fazer em primeiro lugar.
Aps alguns minutos balbuciou:

- O que  que quer dizer esperarem a minha coruja?

- Grgones galopantes! s agora me lembro! - exclamou Hagrid,
batendo com a mo na testa com uma fora capaz de deitar
abaixo um cavalo de corrida e tirando do outro bolso interior
uma coruja - uma coruja verdadeira, viva e bastante
emaranhada e inquieta --, uma pena longa e um rolo de
pergaminho. Com a lngua entre  os dentes escrevinhou uma
nota que o Harry conseguiu ler de baixo para cima.

Caro Senhor Dumbledore.

Dei ao Harry a carta que era para ele. Vou lev-lo amanh para
comprar as coisas necessrias..

O tempo est pssimo. Espero que se encontre bem.
Hagrid

Hagrid enrolou a nota, deu-a  coruja que a agarrou com o bico
e, dirigindo-se  porta, soltou a ave no meio da tempestade.
Em seguida, voltou a sentar-se como se tivesse feito a coisa
mais normal deste mundo, como por exemplo uma chamada
telefnica.

Harry apercebeu-se de que estava de boca aberta e fechou-a
apressadamente.

- Onde  que eu estava? - perguntou Hagrid, mas naquele
momento o tio Vernon, ainda plido mas mostrando-se muito
zangado, aproximou-se do lume.

- Ele no vai - afirmou.

Hagrid grunhiu.

- Gostava de ver um Muggle do seu tamanho impedi-lo - disse.

- Um qu? - perguntou Harry, interessado.

- Um Muggle --, disse Hagrid, -  como ns chamamos aos
no-mgicos como eles. E tiveste mesmo pouca sorte em teres
crescido no seio de uma famlia dos maiores Muggles que
alguma vez conheci.

- Jurmos no dia em que o recebemos que acabaramos com esse
disparate --, disse o tio Vernon, - que lhe retiraramos isso.
Um feiticeiro, francamente!

- Vocs sabiam? - perguntou Harry. - Sabiam que eu era um
feiticeiro?  

- Sabamos! - guinchou a tia Petnia, inesperadamente. -
Sabamos, claro que sabamos. Como seria possvel que no o
fosses sendo a maldita da minha irm como era? Sim, ela
recebeu uma carta igual  tua e desapareceu para ir para essa
escola - aparecia depois em casa nas frias com os bolsos
cheios de ovas de r, transformando canecas em ratazanas. Eu
era a nica que a via como ela era - uma excntrica! Mas para
o meu pai e para a minha me, no. Era a Lily isto, a Lily
aquilo, eles orgulhavam-se de ter uma bruxa na famlia!
Calou-se para respirar fundo e em seguida continuou. Dava a
impresso que tinha tudo aquilo preso na garganta havia muitos
anos.

- Depois de encontrar o Potter na escola, casaram e nasceste
tu. E,  claro que eu sabia que irias ser to estranho - *to
anormal* - como eles. Por fim acabou por fazer com que
rebentassem com ela e tu vieste aterrar aqui!

Harry tinha ficado branco. Quando conseguiu falar disse: -
Rebentassem com ela? Vocs disseram-me que eles tinham morrido
num acidente de automvel!

- __acidente __de __automvel - berrou Hagrid, dando um salto,
to furioso, que os Dursleys voltaram a recuar para o canto da
sala. - Como poderia um acidente de automvel matar Lily e
James Potter?  um ultraje, uma vergonha, um escndalo! Harry
Potter desconhecer a sua prpria histria quando todos os
garotos do nosso mundo conhecem o seu nome!

- Mas porqu, o que aconteceu? - perguntou Harry cheio de
impacincia.

A raiva desvaneceu-se do rosto de Hagrid. Parecia subitamente
ansioso.

- Nunca esperei qu'isto acontecesse - disse num tom de voz
baixo e triste. - No me passou p'la cabea, quando Dumbledore
me disse que podia haver problemas contigo,  
at que ponto esta gente seria capaz de te manter na
ignorncia. Ah! Harry, no sei se sou a pessoa certa p'ra te
contar - mas algum tem de te dizer - no podes ir para
Hogwarts sem saber de nada.

Lanou um olhar de nojo aos Dursleys.

- Bem,  melhor contar-te tudo aquilo que sei - apesar de no
poder explicar-te tudo, algumas partes ainda so um perfeito
mistrio...

Sentou-se, olhou para o fogo durante alguns segundos e, em
seguida, disse: - Tudo comea, penso eu, com uma pessoa
chamada... mas  incrvel que nem saibas o seu nome; toda a
gente no nosso mundo o conhece...

- Quem?

- Bem - eu detesto pronunci-lo e evito sempre que possvel.
Ningum gosta.

- Porqu?

- Grgones galopantes, Harry, porque as pessoas ainda tm
medo. Isto  difcil de explicar. Havia um feiticeiro que se
tornou cruel. O pior qu' possvel imaginar. Horrvel. Pior
qu'horrvel. O seu nome era...

Hagrid engoliu em seco, mas nenhuma palavra saa.

- Podes escrever? - sugeriu Harry.

- Na' consigo soletrar. L vai - *_Voldemort* - disse Hagrid
estremecendo. - No me obriguem a repeti-lo. De qualquer modo
este, este feiticeiro h cerca de vinte anos comeou a
procurar seguidores. Conseguiu alguns, uns porque tinham medo,
outros pela sede de poder. Dias negros, esses, Harry. No se
sabia em quem se podia confiar. No arriscvamos tornar-nos
amigos de feiticeiros desconhecidos ou bruxas... aconteciam
coisas pavorosas. Ele 'tava a tomar as rdeas do poder. 
claro que muitos lhe fizeram frente - e ele matou-os. Foi um
pesadelo. Um dos lugares que continuava a ser seguro era
Hogwarts. Sabia-se que Dumbledore  era o nico de quem o
Quem ns sabemos tinha medo. Nunca tentou aproximar-se da
escola.

- Ora a tua me e o teu pai eram dos melhores mgicos e
feiticeiros que eu conheci. O melhor dos rapazes e a melhor
das raparigas daquele tempo. Suponho que o mistrio est no
facto de o Quem ns sabemos nunca ter tentado alici-los
para o seu lado... talvez soubesse que eles gostavam muito do
Dumbledore para quererem fosse o que fosse com o lado negro.

Talvez pensasse que podia persuadi-los ou afast-los do
caminho. O que se sabe  que ele chegou  cidade onde vocs
viviam no dia de *_Hallowe'en, h dez anos e...

Hagrid voltou a puxar de um leno de assoar sujssimo e
espremeu o nariz com um barulho que parecia de uma sirene.

- Desculpem - disse - mas  to triste. Eu conhecia o teu pai
e a tua me e eram as melhores pessoas do mundo, e...
O Quem ns sabemos matou-os. E a seguir, e este  o
verdadeiro mistrio, tentou matar-te a ti. Queria fazer um
trabalho perfeito, calculo, ou talvez gostasse de matar por
matar. Mas no conseguiu. Nunca tiveste curiosidade em saber
de onde vem essa cicatriz que tens na testa? No  um corte
vulgar.  a marca que fica quando uma poderosa maldio nos
toca. Ele conseguiu liquidar os teus pais e a tua casa tambm,
mas no conseguiu fazer-te mal a ti e  por isso que tu s
famoso, Harry. Foste o nico a sobreviver ao seu desejo de
matar. E olha qu'ele matou alguns dos melhores feiticeiros e
bruxas da poca, os Mc_Kinnons, os Bones, os Prewetts.Tu no
passavas de um beb e sobreviveste.

Na mente de Harry passava-se algo muito doloroso. _ medida
que a histria de Hagrid avanava, ele voltava a ver a forte
luz verde com maior clareza do que antes -  e recordou-se de
uma coisa pela primeira vez, de uma gargalhada grande, fria e
cruel.

Hagrid olhava para ele tristemente.

- Fui eu quem te tirou da casa em runas, por ordem de
Dumbledore, trouxe-te para este par de...

- Tolices --, disse o tio Vernon. Harry deu um salto. 
Esquecera-se de que os Dursleys estavam ali. O tio parecia ter
recuperado a coragem e, com os punhos cerrados, lanava a
Hagrid um olhar cheio de dio.

- Ouve bem, rapaz --, disse rispidamente, - eu admito que
existe em ti algo de estranho, nada que muito provavelmente
uma boa sova no pudesse ter curado mas quanto ao que se disse
sobre os teus pais,  certo que eles eram esquisitos, ningum
pode neg-lo e, se queres saber a minha opinio, o mundo ficou
bastante melhor sem eles. Com tudo o que tinham e misturados
com esse tipo de feitios tiveram a morte macaca que eu sempre
esperei que tivessem...

Mas, nesse momento, Hagrid levantou-se do sof e retirou de
dentro do sobretudo um guarda-chuva cor-de-rosa. 
Apontando-o ao tio Vernon com se fosse uma espada, disse: 
- Estou a avisar-te, Dursley, olha que estou a avisar-te, mais
uma palavra e...

A ideia de ser trespassado pelo guarda-chuva de um gigante
barbudo fez com que a coragem do tio Vernon se desvanecesse de
novo. Espalmou-se contra a parede e no abriu mais a boca.

- _ melhor assim - disse Hagrid, respirando pesadamente e
voltando a sentar-se no sof que, desta vez, ruiu por
completo, estatelando-se no cho.

Harry, entretanto, tinha ainda vrias perguntas a fazer,
centenas delas.

- Mas o que aconteceu a Vol... perdo... ao Quem ns
sabemos?  

- Boa pergunta, Harry. Desapareceu. Eclipsou-se. Uma noite
tentou matar-te, o que te torna ainda mais famoso. E esse  o
maior mistrio, compreendes? S'ele 'tava a ficar cada vez com
mais poder, porque desapareceu?

- Alguns dizem que morreu. Balelas, na minha opinio. No sei
se tinha alguma coisa de humano que pude se morrer. Outros
acham qu'inda anda por a mas eu no acredito. Os que estavam
do lado dele regressaram ao nosso. Alguns saram de grandes
perturbaes e transes. No sabemos o que fariam se ele
regressasse.

- A maior parte calcula que ele esteja algures por a mas que,
tendo perdido todos os poderes, se sinta demasiado fraco para
continuar. Porque houve alguma coisa em ti que acabou com ele.
Aconteceu algo naquela noite com qu'ele no contava - eu no
sei o que foi, ningum sabe, mas qualquer coisa em ti acabou
com ele.

Hagrid olhou para Harry com calor e respeito no olhar, mas
este em vez de se sentir satisfeito e orgulhoso, o que sentiu
foi que devia haver ali um tremendo engano. Um feiticeiro,
ele? Como  que seria possvel? Ele que passara a vida a ser
espancado pelo Dudley e ameaado pela tia Petnia e pelo tio
Vernon? Se fosse mesmo um feiticeiro, porque ho se tinham
eles transformado em sapos nojentos sempre que haviam tentado
fech-lo na despensa? Se ele conseguira enfrentar o maior dos
feiticeiros, como  que o Dudley passara a vida a dar-lhe
pontaps como se ele fosse uma bola de futebol?

- Hagrid --, disse calmamente. - Acho que deves estar
enganado. Eu no devo ser um feiticeiro.

Para sua grande surpresa Hagrid riu-se.

- No s um feiticeiro, hein? Nunca fizeste acontecer coisas
estranhas quando estavas com medo ou zangado?

Harry olhou para o fogo. Pensando melhor... todas as coisas
que ultimamente tinham deixado a tia e o tio furiosos  
tinham acontecido quando ele, Harry, estava preocupado ou
zangado... perseguido pelo grupo do Dudley, dera por si fora
do alcance deles... receando ir para a escola com aquele corte
de cabelo ridculo, conseguira fazer com que o cabelo lhe
crescesse de novo... e da ltima vez em que o Dudley lhe
batera, no lhe pregara um valente susto, sem sequer ter
conscincia, soltando aos ps dele a Boa Constrictor?

Harry olhou de novo para Hagrid, a sorrir e viu que ele
irradiava alegria.

- Vs? - disse Hagrid. - Harry Potter no ser um feiticeiro -
vais ver como te tornars famoso em Hogwarts.

Mas o tio Vernon no ia desistir assim do p para a mo.

- No lhe disse j que ele no vai? - repetiu com uma voz
sibilante. - Ele vai para Stonewall High e h-de
agradecer-nos por isso. Eu li todas aquelas cartas que dizem
que ele precisa dos maiores disparates - livros de feitiaria
e varinhas e...

- Se ele quiser ir, no  um Muggle como voc que vai
impedi-lo - rosnou Hagrid. - Impedir o filho de Lily e James
Potter de ir para Hogwarts! Voc  doido. O nome dele est l
inscrito desde o dia em que nasceu. Ele vai frequentar a
melhor escola de magia e feitiaria do mundo. Sete anos l e
nem ele prprio se reconhecer. Vai conviver com jovens que
so como ele, para variar, e estar sobre a superviso do
maior director que Hogwarts alguma vez teve, Albus
Dumbledore...

- :__eu no vou pagar para um velho idiota lhe ensinar truques
de __magia! --, gritou o tio Vernon.

Mas, desta vez, tinha ido longe de mais. Hagrid pegou no
guarda-chuva, ergueu-o acima da cabea do Muggle e gritou bem
alto: - NUNCA --, vociferou, - :__nunca mais
insultes na minha frente Albus __Dumbledore!  

Baixou o guarda-chuva, cortando o ar com uma vergastada e
apontou-o ao Dudley - houve um *flash* de luz violeta, um som
que parecia o de um foguete, um forte grunhido e, no momento
seguinte, o Dudley parecia estar a danar, aos saltos, com as
mos agarradas ao rabo gordo e a gritar com dores. Quando se
voltou de costas, Harry viu uma cauda de porco, enrolada, a
sair-lhe de um buraco das calas.

O tio Vernon praguejou. Arrastando a tia Petnia e o Dudley
para o outro quarto, lanou um ltimo olhar de dio a Hagrid e
bateu-lhe com a porta na cara.

Hagrid baixou a cabea, olhou para o guarda-chuva e coou a
barba.

- No devia ter-me descontrolado --, disse pesarosamente, -
mas de qualquer modo no funcionou. Queria transform-lo num
porco mas ele j  to parecido que no havia muito a fazer.

Lanou um olhar envergonhado a Harry, com os olhos baixos sob
as sobrancelhas farfalhudas.

- Agradecia-te que no contasses isto a ningum l em Hogwarts
--, disse. - Eu... no 'tou autorizado a fazer feitios, por
assim dizer. A minha funo era seguir-te e fazer com que
recebesses as cartas e coisas assim... um dos motivos pelos
quais eu quis tanto aceitar o trabalho...

- Porque  que no podes fazer magia? - perguntou Harry.

- Bem, eu fui aluno de Hogwarts mas... er... para dizer a
verdade, foi expulso no terceiro ano. Eles tiraram-me a
varinha e quase tudo. Mas Dumbledore deixou-me ficar como
encarregado. Um grande homem, Dumbledore!

- Mas porque  que foste expulso?

- Est a fazer-se tarde e temos montes de coisas p'ra fazer
amanh - disse Hagrid, elevando animadamente  a voz. - Temos
de ir  cidade comprar os livros e tudo o resto.

Tirou o seu casaco preto e grosso e atirou-o a Harry.

- Podes dormir debaixo disso. No te espantes s'alguma coisa
se mexer, acho que ainda tenho alguns roedores num dos bolsos.


Captulo V -- DIAGON-AL


Harry acordou cedinho na manh seguinte. Apesar de ver que j
havia claridade manteve os olhos fechados.

- Era um sonho - disse de si para consigo. - Sonhei que um
gigante chamado Hagrid tinha vindo dizer-me que eu ia para uma
escola de feitiaria. Quando abrir os olhos vou descobrir que
continuo em casa, fechado na despensa.

De repente ouviu-se um grande estardalhao.

- L est a tia Petnia a bater na porta --, pensou Harry com
o corao a tremer. Mas mesmo assim no abriu os olhos. Fora
um sonho to bom...

Tap. Tap. Tap.

- Est bem --, resmungou. - J l vou.

Sentou-se e o casaco pesado de Hagrid caiu para o lado. A
cabana estava cheia de luz. A tempestade tinha passado. O
prprio Hagrid adormecera no sof totalmente destrudo e,
bicando no vidro da janela, estava uma coruja que segurava um
jornal.

Harry ps-se de p, num salto. Sentia-se to feliz como se
tivesse dentro do peito um balo de ar. Foi direito  janela e
abriu-a de par em par. A coruja entrou e deps o jornal em
cima de Hagrid que no acordou. Em seguida pousou no cho e
comeou a dar-lhe bicadas no casaco.

- No faas isso.

Harry tentou sacudir a coruja mas esta mostrou-lhe
agressivamente o bico e continuou a atacar o sobretudo de
Hagrid.  

- Hagrid --, disse Harry bastante alto. - Est aqui uma
coruja.

- Paga-lhe --, resmungou Hagrid para dentro do sof. 

- O qu?

- Ela quer a paga por entregar o jornal. Procura nos bolsos.

O sobretudo de Hagrid parecia no ter seno bolsos - molhos de
chaves, pastilhas amassadas, novelos de fio, saquinhos de
ch... por fim Harry retirou uma mo-cheia de moedas com um
aspecto estranho.

- D-lhe cinco Knuts.

- Knuts?

- As pequeninas, de bronze.

Harry contou cinco pequenas moedas de bronze e a coruja
esticou a perna para que ele pudesse deposit-las dentro de
uma bolsinha que a trazia amarrada. Logo a seguir voou pela
janela fora.

Hagrid bocejou em voz alta, sentou-se e espreguiou-se.

- Melhor irmos indo, Harry, h muito p'ra fazer hoje, toca a
levantar p'ra irmos a Londres comprar o material pr escola.

Harry estava a dar voltas s moedas do feiticeiro e a olhar
para elas. Acabara de se lembrar de uma coisa que fez com que
o balo de felicidade que lhe enchia o peito se esvaziasse
como se tivesse levado uma picada.

- Hum... Hagrid?

- Hum? - disse Hagrid que estava a enfiar as botifarras.

- Eu no tenho dinheiro nenhum e tu ouviste o tio Vernon ontem
 noite dizer que no vai pagar para eu aprender magia?

- No te preocupes com isso --, disse Hagrid, pondo-se de p
e coando a cabea. - Eles pensam q'os teus pais no te
deixaram nada?

- Mas se a casa deles foi destruda...?  

- Eles no guardavam o ouro em casa, rapaz! Nah. O primeiro
lugar onde vamos  Gringotts - o banco dos feiticeiros. Toma
uma salsicha, no esto totalmente frias - e eu aceitava
tam'm uma fatia do teu bolo de aniversrio.

- Os feiticeiros tm bancos?

- S aquele, Gringotts, d'rigido por duendes.

Harry deixou cair o pedao de salsicha que tinha na mo.

- Duendes?

- Sim, por isso s um louco tentaria assalt-lo. Digo-te uma
coisa, nunca te metas com duendes, Harry. Gringotts  o lugar
mais seguro do mundo p'ra guardar seja o que for; com excepo
talvez de Hogwarts. Na verdade, tenho mesmo qu'ir a Gringotts
tratar de uns assuntos pr Dumbledore --. 
Hagrid levantou-se com um ar orgulhoso. - Ele costuma pedir-me
que lhe trate das coisas importantes. Ir-te buscar, ir buscar
coisas aos Gringotts, sabe qu'eu sou de confiana, percebes?

- Tens tudo? Ento vamos embora.

Harry seguiu Hagrid atravs da rocha. O Cu estava agora claro
e o mar brilhava  luz do Sol. O barco que o tio Vernon tinha
alugado ainda ali se encontrava, com bastante gua no fundo,
da tempestade.

- Como  que conseguiste chegar aqui? - perguntou Harry,
olhando em volta  procura de outro barco.

- A voar - disse Hagrid.

- A voar?

- Sim, mas vamos voltar neste. No estou autorizado a usar
mgica agora que te tenho comigo.

Instalaram-se no barco, Harry ainda a olhar fixamente para
Hagrid e a tentar imagin-lo em pleno voo.

- Mas  uma vergonha ter de remar --, disse, olhando mais uma
vez de lado para Harry. - Se eu apressasse um niquinho as
coisas, importavas-te de no d'zer nada em Hogwarts?  

- Claro que no - disse Harry, ansioso por mais coisas
mgicas. Hagrid puxou novamente do guarda-chuva cor-de-rosa,
bateu duas vezes com ele na madeira do barco e partiram a toda
a velocidade em direco a terra.

- Porque seria algum to louco para tentar assaltar
Gringotts? - perguntou Harry.

- Feitios, encantamentos - disse Hagrid, desdobrando o
jornal, enquanto falava. - Dizem qu'h drago a guardar as
caixas fortes d'alta segurana. Ah! E  preciso conhecer o
caminho - Gringotts fica a centenas de quilmetros debaixo do
cho de Londres. Debaixo dos subterrneos. Qualquer um
morreria de fome a tentar chegar l.

Harry sentou-se a pensar em tudo aquilo enquanto Hagrid lia o
jornal, o *_Daily Prophet* (O Profeta Dirio). Tinha aprendido
com o tio Vernon que as pessoas gostavam que as deixassem em
paz quando liam o jornal mas era muito difcil. Nunca tivera
tantas perguntas para fazer em toda a sua vida.

-O Ministrio da Magia a baralhar tudo como de costume 
--, resmungou Hagrid, virando a pgina.

- Existe um Ministrio da Magia? - perguntou antes de ter tido
tempo de pensar.

- Claro - disse Hagrid .- Queriam Dumbledore p'ra Ministro mas
ele nunca deixaria Hogwarts, por isso quem ficou co' lugar foi
o velho Cornelius Fudge. Uma cabea que  uma confuso. No
deixa Dumbledore em paz, sempre a mandar-lhe corujas todas as
manhs e a pedir-lhe conselhos.

- Mas o que faz um Ministro da Magia?

- Bem, a tarefa principal  no deixar que os _muggles saibam
qu'inda existem bruxas e feiticeiros por todo o pas.  

- Porque?

- Porqu? Co'a breca, Harry, toda a gente ia querer solues
mgicas para os seus problemas. Nah!  melhor que nos deixem
em paz.

Nesse momento o barco bateu ao de leve na parede do porto.
Hagrid voltou a dobrar o jornal e subiram pelos degraus de
pedra que levavam  estrada.

Os transeuntes olharam um bocado para Hagrid enquanto eles
atravessavam a p a cidadezinha at  estao. Harry no podia
censur-los. Hagrid tinha no s o dobro da estatura de
qualquer cidado normal como no parava de apontar para as
coisas mais vulgares como por exemplo os parqumetros, dizendo
alto: - `_ts a ver aquilo, Harry? As coisas qu'os Muggles
inventam, hein?

- Hagrid --, disse Harry, quase sem flego, enquanto corria
para acompanhar a passada do gigante, -  verdade que h
drages em Gringotts?

- Bem, por assim dizer, caramba, com'eu gostaria de ter um
drago.

- Gostavas de ter um?

- Sempre quis, desde pequeno. C estamos!

Tinham chegado  estao. Havia um comboio para Londres que
partia dentro de cinco minutos. Hagrid, que no percebia nada
do dinheiro dos Muggles como lhe chamava, deu as notas a
Harry para ele comprar os bilhetes.

No comboio as pessoas olharam ainda mais para Hagrid que
ocupou dois lugares e se sentou a tricotar uma coisa que
parecia uma tenda de circo amarelo canrio.

- Tens 'inda a carta, Harry? - perguntou enquanto contava as
malhas.

Harry tirou o sobrescrito de pergaminho de dentro do 
bolso.  

- ptimo --, disse Hagrid. - `_t a uma lista de tudo o que
precisas. - Harry desdobrou a segunda folha. de papel na qual
nem tinha reparado na vspera e leu:

:__escola hogwarts de magia e __feitiaria


*_Uniforme*

Os alunos do primeiro ano vo precisar de:

1. Trs mantos de trabalho (pretos)

2. Um chapu alto, pontiagudo (preto)
para usar durante o dia

3. Um par de luvas de proteco (de pele de drago ou
semelhante)

4. Um sobretudo de Inverno (preto com fechos prateados)

Por favor tenha em ateno que as roupas de todos os alunos
devem ter etiquetas com os nomes.

*_Srie de livros*

Todos os alunos devero ter um exemplar dos seguintes livros:

*_O livro bsico dos feitios* (grau 1), por Miranda
Goshawk

*_A histria da Magia*, por Bathilda Bagshot

*_A magia terica, por Adalbert Waffling

*_A transfigurao - um guia para principiantes*, por Emeric
Switch

*_Um milhar de ervas e fungos mgicos*, por Phyllida Spore

*_Planos e poes mgicas*, por Arsenius Jigger

*_Animais fantsticos e onde encontr-los*, por Newt
Scamander

*_As foras das trevas: Guia para autoproteco*, por Quentin
Trimble  
 
*_Outro Equipamento*

Uma varinha

Um caldeiro (chumbo, tamanho 2)

Um conjunto de frascos de vidro ou cristal

Um telescpio

Um conjunto de placas de bronze

Um caduceu

Os alunos podem tambm trazer uma coruja, um gato ou um
sapo.

:__lembramos os pais de que no primeiro ano no so
autorizadas as suas prprias __vassouras


- Podemos comprar tudo isto em Londres? - perguntou Harry em
voz alta.

- Se souberes o lugar p'ra encontrar as coisas - respondeu
Hagrid.

Era a primeira vez que Harry ia a Londres. Apesar de Hagrid
parecer saber perfeitamente onde dirigir-se era bastante bvio
que no estava habituado quelas andanas. Comeou por ficar
preso na cancela dos bilhetes no metropolitano e queixou-se o
tempo todo para quem o quisesse ouvir de que os assentos eram
muito pequenos e o comboio muito lento.

- No sei c'mo os Muggles conseguem viver sem
mgica --, disse enquanto subiam uma escada rolante avariada
que conduzia a uma rua cheia de lojas e movimento.

Hagrid era to grande que abria caminho por entre a multido
com a maior das facilidades. Tudo o que Harry tinha de fazer
era manter-se colado a ele. Passaram por livrarias e casas de
discos, hamburguerias e cinemas, mas em nenhum lugar que
parecesse ter aspecto de vender uma varinha mgica. 
Tratava-se de uma rua vulgar, cheia de gente comum. 
Poderiam mesmo existir barras e barras de ouro  dos
feiticeiros no subsolo, a milhas de profundidade? Haveria
mesmo lojas a vender livros de feitiaria e vassouras? No
seria tudo aquilo uma enorme brincadeira que os Dursleys
tinham preparado para ele? Se Harry no soubesse que eles eram
totalmente destitudos de sentido de humor t-lo-ia sem dvida
pensado. Mas, ao mesmo tempo, apesar de tudo o que Hagrid lhe
contara at ento lhe parecer inacreditvel,

Harry no conseguia deixar de confiar nele.

- C est --, disse Hagrid, fazendo uma paragem, - o Caldeiro
Escoante --, um lugar famoso.

Era um barzinho pequenino com um aspecto sujo. Se Hagrid no
lhe tivesse chamado a ateno, Harry nem teria dado pela sua
existncia. As pessoas que passavam apressadas no se dignavam
olhar para ele. Os seus olhos deslizavam da grande livraria
que ficava na porta anterior para a casa de discos da porta a
seguir, como se no vissem de todo o Caldeiro Escoante. Na
verdade, Harry tinha a sensao peculiar de que s ele e
Hagrid podiam v-lo. Antes de ter tido tempo de falar no
assunto, Hagrid conduzira-o para dentro.

Era bastante miservel e sombrio para um lugar famoso. Algumas
velhotas estavam sentadas a um canto a beber copinhos de
xerez. Uma delas fumava cachimbo Um homem baixinho com um
chapu alto conversava com o *barman* que era totalmente calvo
e parecia uma noz inchada. O sussurro das vozes parou por
completo quando eles entraram. Todos pareciam conhecer
Hagrid. 
Cumprimentaram-no, sorriram-lhe e o *barman* foi buscar um
copo enquanto dizia: - O habitual, Hagrid?

- No posso, Tom. `_tou em servio p'ra Hogwarts - disse
Hagrid, dando uma forte palmada com a sua mo enorme no ombro
de Harry que fez com que os joelhos se lhe vergassem.  
- Santo Deus - disse o *barman*, olhando para Harry, - este 
- ser possvel que ele seja?

O Caldeiro Escoante ficou subitamente mergulhado num silncio
total.

- Abenoado seja - murmurou o velho *barman* . - Harry
Potter... que honra.

Saiu rapidamente detrs do balco, correu para Harry e
agarrou-lhe as mos com lgrimas nos olhos.

- Bem-vindo de novo, Senhor Potter, seja muito bem-vindo.
Harry no sabia o que dizer. Toda a gente estava a olhar para
ele. A velhota do cachimbo continuava a lanar baforadas sem
se dar conta de que o cachimbo desaparecera. Hagrid estava
radiante.

Houve um grande ranger de cadeiras e, no momento seguinte,
Harry deu por si a apertar a mo a toda a gente, no Caldeiro
Escoante.

- Doris Crockford, Sr. Potter, mal posso crer que estou
finalmente a conhec-lo.

- Que grande orgulho para mim, Sr. Potter, que grande orgulho.

- Sempre quis apertar-lhe a mo... estou profundamente
emocionado.

- Encantado, Sr. Potter, o meu nome  Diggle, Dedalus Diggle.

- J o vi uma vez --, disse Harry, quando o chapu alto lhe
caiu da cabea no meio da excitao. - O senhor
cumprimentou-me uma vez, dentro de uma loja.

- Ele lembra-se --, gritou Dedalus Diggle, dirigindo-se a
todos os que o rodeavam. - Ouviram bem, ele lembra-se de mim!

Harry voltou a apertar mos repetidamente. Doris Crockford
continuava a vir para o cumprimentar uma e outra vez.  

Um jovem de aspecto plido aproximou-se nervosamente, com um
dos olhos a piscar.

- Professor Quirrell --, disse Hagrid. - Harry, o professor
Quirrell vai ser um dos teus professores em Hogwarts.

- P... P... Potter - balbuciou o professor Quirrell, 
agarrando-lhe a mo, - no tenho palavras para lhe dizer como
me agrada conhec-lo.

- Que tipo de mgica ensina, professor Quirrell?

- D... defesa contra... as artes das trevas --, disse
baixinho o professor, como se preferisse no pensar no
assunto. - No que voc precise, no , Potter? - e riu-se
nervosamente. - Calculo que venha tratar do equipamento. Eu
venho buscar um novo livro sobre vampiros. - Parecia
apavorado com a simples ideia.

Mas os outros no deixaram que o professor monopolizasse a
ateno do Harry. Foram quase dez minutos at conseguirem
afastar-se de toda a gente. Por fim, Hagrid conseguiu fazer-se
ouvir sobre o rudo de fundo.

- Temos d'ir, h montes de coisas p'ra comprar, vamos, Harry!

Doris Crockford apertou mais uma vez a mo ao Harry e Hagrid
f-los passar do bar para um pequeno vestbulo emparedado,
onde havia apenas um balde de lixo e algumas ervas.

Hagrid sorriu a Harry.

- No te disse? No te disse qu'eras famoso? At o professor
Quirrell `tava a tremer por te conhecer. Mas no te preocupes,
ele 't sempre a tremer.

-  sempre assim to nervoso?

- , coitado. Uma inteligncia brilhante. No era assim quando
estudava s p'los livros mas quando tirou um ano p'ra fazer as
primeiras experincias... Dizem qu'encontrou vampiros na
floresta negra e que teve sarilhos com uma bruxa velha; nunca
mais foi o mesmo. Tem medo dos  alunos, at tem medo do
qu'ensina. Ond' que eu pus o guarda-chuva?

Vampiros? Bruxas velhas? A cabea do Harry andava a mil 
hora. Enquanto isso, Hagrid contava os tijolos da parede,
acima do balde do lixo.

- Trs p'ra cima... dois pr lado --, murmurava. - Certo
Chega-te p'ra trs, Harry.

Bateu trs vezes na parede com a ponta do guarda-chuva.

O tijolo onde tinha tocado estremeceu - moveu-se sinuosamente.
No meio surgiu um pequenino buraco que foi aumentando,
aumentando. Um segundo mais tarde estavam perante uma
passagem suficientemente grande at para Hagrid, uma arcada
que dava para uma rua pavimentada que, a seguir a uma esquina,
virava at perder de vista.

- Bem-vindo --, disse Hagrid -  Diagon-al.

Riu-se do espanto de Harry. Passaram pelo arco. Harry olhou
rapidamente por cima do ombro e viu o arco a encolher
instantaneamente, voltando a ficar uma parede fechada.

O sol brilhava iluminando uma srie de caldeires que estavam
 porta da loja mais prxima. *_Caldeires - todos os tamanhos
- Cobre, Bronze, Liga de Estanho, Prata - Automisturadores,
Desmontveis*, estava escrito no letreiro pendurado fora da
loja.

- Vais precisar d'um --, disse Hagrid. - Mas temos d'ir buscar
o dinheiro antes.

Harry desejou ter mais oito olhos, pelo menos. Virava a cabea
em todas as direces enquanto subiam a rua, tentando ver tudo
de uma vez s: as lojas, as coisas que estavam c fora, as
pessoas que andavam a fazer compras. 
Uma mulher rechonchuda,  sada de um boticrio, abanava
indignadamente a cabea, dizendo: - Fgado de drago a
dezassete Lees o quilo. Esto doidos...

Fez-se ouvir um piar baixo e suave, vindo de uma loja escura
com um letreiro que dizia: *_Armazm das corujas - 
amarelas, castanhas, corujas-das-torres, corujas-de-chamin.
coruja-real*.

Vrios rapazinhos, sensivelmente da idade do Harry,
espreitavam com os narizes achatados contra a montra das
vassouras. - Olha --, ouviu um deles dizer, - a nova Nimbo
dois mil - a mais rpida de sempre.

Havia lojas de capas e mantos, lojas de telescpios que
vendiam tambm uns estranhos instrumentos prateados que ele
nunca tinha visto, montras cheias de caixas com morcegos mal
dispostos e olhos de enguias, pilhas instveis de livros de
feitios, penas de ave e rolos de pergaminho, garrafa com
poes, globos lunares...

- Gringotts - disse Hagrid.

Tinham chegado junto de um edifcio branco como a neve que se
erguia acima das pequenas lojas. Por detrs das suas portas
brilhantes de bronze, usando um uniforme escarlate e dourado,
estava...

- Sim,  um duende --, disse Hagrid baixinho, enquanto subiam
os degraus de pedra. O duende tinha cerca de quarenta
centmetros a menos de altura do que o Harry. O rosto era
moreno, o olhar inteligente, tinha uma barba pontiaguda e
Harry reparou que os dedos e os ps eram muito compridos.
Inclinou a cabea quando entraram. 
Estavam agora na frente deles mais duas portas. Desta vez de
prata, com algumas palavras gravadas:

Entra estranho, mas tem cuidado 
A avidez  um pecado 
E os que levam sem querer merec-lo 
Um dia tero de perd-lo. 
Se buscas, pois, no nosso cho 
O tesouro que pertence aos que do, 
Podes achar, ladro, cuidado 
Mais que o tesouro, ests avisado.  

- Como eu disse, era preciso ser louco p'ra tentar assaltar
isto --, disse Hagrid.

Um par de duendes conduziu-os com toda a deferncia atravs
das portas de prata e eles encontraram-se num imenso vestbulo
todo em mrmore.

Por detrs de um grande balco, cerca de cem duendes estavam
sentados em bancos altos, escrevendo apressadamente em grandes
livros de registo, pesando moedas em balanas de cobre,
examinando pedras preciosas atravs de lupas. Havia demasiadas
portas que conduziam ao vestbulo e era ainda maior o nmero
de duendes que acompanhavam as pessoas que entravam e saam.
Hagrid e Harry aproximaram-se do balco

- Bom dia --, disse Hagrid a um duende que se encontrava
desocupado. - Viemos p'ra buscar algum dinheiro do cofre do
senhor Harry Potter.

- Tem a chave dele, senhor?

- `_t pr 'qui no sei onde, - disse Hagrid que comeou a
esvaziar os bolsos em cima do balco, espalhando uma mo cheia
de biscoitos de co todos amassados sobre o livro de
contabilidade dos duendes. O duende torceu o nariz. Harry
observou que o duende  sua direita estava a pesar uma pilha
de rubis, grandes como carves incandescentes.

- Achei --, disse Hagrid, por fim, pegando numa pequenina
chave dourada.

O duende observou-a de perto.

-- Parece estar tudo em ordem.

- E tenh'aqui tambm uma carta do professor Dumbledore
--, disse Hagrid, com um ar importante, enchendo o peito de
ar. -  sobre o no sei qu do cofre setecentos e treze.

O duende leu a carta com toda a ateno.

- Muito bem --, disse, voltando a entreg-la a Hagrid. - Vou
mandar algum acompanhar-vos l abaixo a ambos os cofres.
Griphook!  

Griphook era mais um duende. Logo que Hagrid guardou de novo
nos bolsos todos os biscoitos de co, ele e Harry seguiram-no
atravs de uma porta que dava para fora do vestbulo.

- O que  que significa o no sei qu do cofre setecentos e 
treze? - perguntou Harry.

- No sei --, respondeu Hagrid com um ar misterioso. - Muito
secreto, Negcios d'_hogwarts. Dumbledore confia em mim. No 
p'ra dizer.

Griphook manteve a porta aberta para lhes dar passagem. Harry,
que esperava encontrar mais divises de mrmore, ficou
surpreso. Encontravam-se numa estreita passagem de pedra,
iluminada por tochas que dava para uma rampa inclinada a
pique para baixo. No cho viam-se algumas vias frreas.

Griphook assobiou e uma pequena carreta deslocou-se
ruidosamente pelo solo. Subiram - Hagrid com alguma
dificuldade - e iniciaram o percurso.

A princpio limitaram-se a entrar por um labirinto de
passagens curvas. Harry tentou fix-las: esquerda, direita,
esquerda, bifurcao a meio, direita, esquerda, mas era
impossvel. A carreta barulhenta parecia conhecer o caminho
porque Griphook no ia a conduzi-la.

Os olhos de Harry ardiam,  medida que o ar frio os fustigava,
mas manteve-os bem abertos. A dada altura, pareceu-lhe
avistar uma chispa de fogo no extremo de uma das passagens e
voltou-se para ver se seria um drago, mas j no foi a tempo
- desceram ainda mais, passando por um lago e uma gruta
subterrnea onde se destacavam do tecto e do cho estalactites
e estalagmites.

- Nunca sei --, gritou Harry a Hagrid por sobre o rudo
ensurdecedor da carreta, - qual  a diferena entre uma
estalactite e uma estalagmite!

- As estalagmites tm um *_M* --, disse Hagrid. - E no me
faas perguntas agora. Estou quase a vomitar.  

De facto estava muito verde e quando a carreta finalmente
parou junto de uma pequena porta na passagem, Hagrid saiu e
teve de se encostar  parede para conseguir que os joelhos
parassem de tremer.

Griphook abriu a porta com as chaves. De l de dentro saiu um
fumo verde e, quando a luz se normalizou, Harry mal conseguia
falar. No interior estavam montes e montes de moedas de ouro.
Colunas de prata. Pilhas de Knuts de bronze.

- Tudo teu --, disse o Hagrid, a sorrir.

Tudo do Harry - era inacreditvel. Os Dursleys no sabiam
certamente daquilo ou ter-lhe-iam tirado tudo num abrir e
fechar de olhos. Quantas vezes no se haviam queixado do
dinheiro que gastavam a sustent-lo? E durante todo o tempo
existira aquela fortuna que lhe pertencia, ali, enterrada,
debaixo de Londres!

Hagrid ajudou Harry a meter algumas moedas num saco.

- As d'ouro so Galees --, explicou. - Dezassete Lees de
prata valem um Galeo e vinte e nove Knuts valem um Leo. 
fcil, 'ts a ver? Isto deve chegar pr que  preciso. 
O resto fica guardado p'ra ti - .Voltou-se para Griphook. -
Cofre setecentos e treze, agora. E, d p'ra ir mais devagar,
se faz favor?

- S h uma velocidade - disse Griphook.

Estavam agora a deslocar-se ainda mais depressa e ganhando
sempre velocidade. O ar era cada vez mais frio  medida que
faziam curvas mais apertadas.

Desceram uma ravina subterrnea e Harry encostou-se a um dos
lados para tentar ver o que havia l em baixo na escurido do
fundo, mas Hagrid resmungou e, agarrando-o pelo pescoo,
puxou-o para trs.

O cofre setecentos e treze no tinha fechadura.

- Afastem-se --, disse Griphook, com ar importante. Acariciou
muito suavemente a porta com um dos seus longos dedos e ela
pura e simplesmente desapareceu.  

- Se algum, a no ser um duende de Gringotts tentasse fazer o
que eu fiz, seria sugado pela porta e ficaria trancado l
dentro --, disse Griphook.

- Quantas vezes  que vocs verificam se h algum l preso? -
perguntou Harry.

- Uma vez de dez em dez anos - respondeu Griphook com um
sorriso bastante maldoso.

Devia estar ali guardado, com toda a certeza, algo
verdadeiramente extraordinrio para ter um cofre de to
elevada segurana, pensou Harry e inclinou-se avidamente para
a frente na esperana de ver, no mnimo, jias fabulosas. Mas,
a princpio pareceu-lhe vazio. Em seguida, reparou que no cho
estava um pequenino pacote muito sujo, embrulhado em papel
castanho. Hagrid apanhou-o e guardou-o dentro do enorme
casaco. Harry estava ansioso por descobrir o que era mas sabia
que no devia perguntar.

- Vamos l outra vez pr carreta horrorosa e no fales comigo
durante o caminho, o melhor  eu no abrir a boca - disse
Hagrid.

Aps a selvtica corrida de carreta, estavam ambos a piscar os
olhos  luz intensa que brilhava fora de Gringotts. Harry no
sabia por onde comear agora que tinha um saco cheio de
dinheiro. No precisava de saber qual a correspondncia de
valor entre o Galeo e a libra para ter a certeza de que
levava consigo mais dinheiro do que tivera em toda a sua vida
- mais dinheiro at do que o prprio Dudley alguma vez tinha
tido.

- Podemos ir tratar do teu uniforme --, disse Hagrid, batendo
 porta de *_Madame Malkin. Capas para todas as ocasies*. -
Harry, importavas-te s'eu fosse tomar um copinho ao Caldeiro
Escoante? Detesto aquelas carretas do Gringotts. - Ele estava
ainda com mau aspecto, por isso  
Harry entrou sozinho na loja de Madame Malkin para fazer as
compras. Sentia-se um pouco nervoso.

Madame Malkin era uma bruxa baixa e atarracada, muito
sorridente e toda vestida de cor de malva.

-  para Hogwarts, filho? - perguntou quando Harry comeou a
falar. - Tenho tudo. Est ali a ser atendido outro rapazinho,
que tambm vai para l.

Na parte de trs da loja, um rapaz com um rosto esguio e
plido estava de p em cima de um banquinho, enquanto outra
bruxa marcava com alfinetes as longas capas pretas. 
Madame Malkin mandou Harry subir para um banquinho ao lado do
dele, enfiou-lhe uma longa capa pela cabea e comeou a marcar
a altura com alfinetes.

- Viva --, disse o rapaz, - tambm vais para Hogwarts?

- Sim - disse Harry.

- O meu pai est aqui ao lado a comprar-me os livros e a minha
me est numa loja l adiante  procura de varinhas - disse o
rapaz. Tinha uma voz irritante e afectada. -A seguir vou
lev-los a ver as vassouras de corrida. No concordo que nos
primeiros anos no tenhamos permisso para ter a nossa prpria
vassoura. Acho que vou convencer o meu pai a comprar-me uma e
hei-de entrar l com ela, de uma maneira ou de outra.

Harry lembrou-se incrivelmente do Dudley.

- Tens a tua vassoura? - continuou ele.

- No --, disse Harry.

- No jogas Quidditch?

- No --, disse Harry, de novo, perguntando-se que diabo seria
o Quidditch.

- Eu jogo; o meu pai diz que  um crime se eu no for
escolhido para jogar pela minha equipa e eu acho que ele tem
toda a razo. J sabes qual vai ser a tua equipa?

- No --, disse Harry que se sentia cada vez mais estpido.  

- Bem, s podemos saber ao certo quando l chegarmos, no ?
Mas eu j sei que vou estar nos *_Slytherin*, como toda a
minha famlia; imagina s se me colocassem nos *_Hufflepuff*
acho que me vinha logo embora. No farias o mesmo?

- Mmm --, disse o Harry, desejando poder dar uma resposta um
pouco mais interessante.

- Olha s para aquele ali! - disse o rapaz subitamente,
apontando para a montra principal. Hagrid estava do lado de
fora, sorrindo a Harry e apontando para dois enormes sorvetes
para explicar porque no podia entrar.

-  Hagrid - disse Harry, satisfeito por saber qualquer coisa
que o outro ignorava. - Trabalha em Hogwarts.

- Sim --, disse o rapaz, - j ouvi falar dele.  uma espcie
de criado, no ?

-  o encarregado - disse Harry. De segundo para segundo
gostava menos daquele rapazinho.

- Sim, precisamente. Ouvi dizer que  um pouco 
*selvagem*, que vive numa cabana nos campos da escola e, de
vez em quando, embriaga-se, tenta fazer magia e acaba por  
pegar fogo a prpria cama.

- Eu acho-o excepcional --, disse Harry friamente.

- Achas? - disse o rapaz com um leve sarcasmo - O que  que
ele est a fazer aqui contigo, onde esto os teus pais?

- Morreram - disse Harry sem mais delongas. No lhe apetecia
falar do assunto com aquele rapaz.

- Oh! desculpa - disse o outro que no parecia lamentar coisa
alguma. - Mas eram dos nossos, no eram?

- Eram feiticeiro e feiticeira, se  isso que queres saber.

- Eu acho que eles no deviam admitir os outros, no
concordas? No so como ns, no foram educados dentro dos
mesmos princpios. Alguns nunca ouviram sequer falar de
Hogwarts at receberem a carta, imagina s! Quanto a mim,
deviam receber apenas os membros das mais antigas famlias de
feiticeiros. A propsito, qual  o teu apelido?  

Mas antes que Harry tivesse tempo de responder, Madame Malkin
disse: -- _est pronto, filho - e Harry aproveitou a deixa
para pr fim  conversa com o outro rapaz, descendo
imediatamente do banquinho.

- Bom, vemo-nos em Hogwarts, ento, espero bem - disse o
rapazinho afectado.

Harry manteve-se calado enquanto comia o sorvete que Hagrid
lhe tinha trazido (chocolate e framboesa com pepitas de
avel).

- O qu' que se passa? - perguntou Hagrid.

- Nada --, mentiu Harry. Pararam para comprar pergaminho e
penas. Harry animou-se um pouco quando viu um frasco de tinta
que mudava de cor  medida que se escrevia. Quando saram da
loja, perguntou: - Hagrid, o que  o Quidditch?

- Caramba, Harry, 'tou-me sempre a esquecer que tu no sabes
quase nada, no saber o qu' o Quidditch!!!

- No me faas sentir ainda pior - disse o Harry e contou a
Hagrid o encontro que tinha tido com o rapazinho plido na
loja da Madame Malkin.

--... e ele disse que as pessoas das famlias dos Muggles no
deviam ser aceites em...

- Tu no s d'uma famlia Muggle. Se ele soubesse quem tu
eras, se os pais dele so feiticeiros, ele cresceu a ouvir o
teu nome. Tu viste o qu'aconteceu no Caldeiro Escoante. E
depois, o qu' qu'ele sabe? Alguns dos melhores feiticeiros
qu'eu conheci eram os nicos que tinham magia numa longa linha
de Muggles. Olh'a tua me e a irm qu'ela teve!

- Ento o que  o Quidditch?

- _ o nosso desporto. O desporto dos feiticeiros. E com'o
futebol no mundo dos Muggles. Todos vem o Quidditch qu'
jogado no ar, em vassouras e com quatro bolas.  meio difcil
explicar as regras.  

- E o que so os *_Slytherin* e os *_Hufflepuff*?

- Equipas da escola. So quatro. Todos dizem que os
*_Hufflepuff* so um grupo de estpidos mas...

-- Aposto que estou nos *_Hufflepuff* --, disse Harry,
melancolicamente.

- Antes nos *_Hufflepuff* do que nos *_Slytherin* - disse
Hagrid com alguma tristeza. - No houve uma nica bruxa ou
feiticeiro dos que se tornaram cruis que no tivesse vindo
dos Slytherin. Um deles foi o Quem ns sabemos..

- Vol... desculpa o Quem ns sabemos andou em Hogwarts?

- H muitos, muitos anos --, disse Hagrid.

Compraram os livros escolares para Harry numa livraria
chamada Flourish and Blotts (Brilhos e Manchas), onde as
prateleiras estavam cheias at ao tecto com livros to grandes
como lajes de pedra, outros do tamanho de selos de correio,
com capas de seda, livros cheios de smbolos peculiares e
alguns sem nada escrito. At o Dudley, que nunca lia nada,
teria gostado de deitar a mo a alguns destes. Hagrid teve
quase de arrastar Harry para longe das *_Maldies e
contramaldies (enfeitia os teus amigos e confunde os teus
inimigos com as ltimas vinganas: perda de cabelo,
amolecimento das pernas, lngua presa e muitos, muitos
outros*) pelo professor Vindictus Viridian.

- Estava a tentar descobrir como enfeitiar o Dudley.

- No 'tou a dizer que no seja uma boa ideia mas tu no podes
usar a mgica no mundo dos Muggles seno em circunstancias
muito especiais - disse Hagrid. - E mesm'assim no podias
fazer nenhum daqueles feitios ainda, s depois de estudares
e quando tiveres muita prtica.

Hagrid tambm no deixou o Harry comprar um caldeiro de ouro
macio (na lista diz liga de estanho), mas  trouxeram uma
ptima balana para pesar os ingredientes das poes e um
telescpio de bronze, desmontvel. Em seguida, foram ao
boticrio, cujo fascnio era to grande que conseguia
compensar o cheiro nauseabundo a ovos e couves podres. No cho
jaziam barris de coisas viscosas. Pacotes de ervas, razes e
ps brilhantes enchiam as paredes. Pendurados do tecto podiam
ver-se feixes de penas fileiras de dentes de vbora e garras
emaranhadas.

Enquanto Hagrid pedia ao homem que estava atrs do balco
alguns ingredientes bsicos de reserva para as poes, Harry
examinava chifres de unicrnio de prata a vinte e um Galees
cada e olhos brilhantes e pequeninos de barata (a cinco Knuts
a p).

Fora do boticrio, Hagrid consultou de novo a lista.

- `_t s a faltar a varinha - Ah! e inda no te comprei o
presente de aniversrio.

Harry sentiu-se corar.

- No precisas de...

- No  por precisar. J sei, vou dar-te um animal. Um sapo
no, os sapos 'to fora de moda, iam ficar todos a olhar p'ra
ti e eu no gosto de gatos, fazem-me espirrar. Vou dar-te uma
coruja. Todos os midos querem corujas. So muito teis, levam
o correio e tudo.

Vinte minutos mais tarde, saram do Armazm das corujas que
era uma casa escura e cheia de olhos brilhantes e luminosos
como jias. O Harry trazia consigo uma grande gaiola com uma
lindssima coruja-real profundamente adormecida com a cabea
debaixo da asa. No conseguia parar de agradecer a Hagrid,
parecia o professor Quirrell.

- No tens de qu --, disse ele bruscamente. - Com certeza que
no tiveste muitos presentes dos Dursleys. S falta agora o
Ollivander p'ra comprar a varinha. E tens de ter a melhor
varinha do Ollivander.  

Uma varinha mgica... era o que Harry realmente mais desejava.

A ltima loja era estreita e encontrava-se em muito mau
estado. Nas letras douradas e descarnadas, da porta, podia
ler-se *_Ollivander: Fabricante das melhores varinhas desde
382 a._C*. Na montra suja estava uma nica varinha, sobre uma
almofada de carmesim descolorido.

Uma campainha ouviu-se algures no fundo da loja quando eles
entraram. Era um espao pequenino, vazio, que tinha uma nica
cadeira raqutica onde Hagrid se sentou enquanto esperava.
Harry experimentou a estranha sensao de ter entrado numa
biblioteca muito austera, engoliu uma srie de novas perguntas
que acabavam de lhe passar pela cabea e olhou para os
milhares de caixas estreitinhas, metodicamente empilhadas at
ao tecto. Sem saber porque sentiu um formigueiro na nuca. O
silncio e o p que ali reinavam pareciam entorpec-lo com uma
magia secreta.

- Boa tarde - disse uma voz gentil. Harry deu um salto. 
Hagrid deve ter feito o mesmo porque se ouviu um forte rudo
de madeira a quebrar-se e ele caiu da cadeira raqutica.

Na frente de ambos estava um senhor de idade com os olhos
grandes e muito claros a brilharem como luas na escurido da
loja.

- Ol - disse Harry, pouco  vontade.

- Ah! sim - disse o homem. - Esperava v-lo muito brevemente,
Harry Potter. - No era uma pergunta. Era uma afirmao. - Tem
os olhos da sua me. Parece que foi ainda ontem que ela aqui
esteve a comprar a sua primeira varinha. De salgueiro, 30 cm
de comprimento, flexvel. Uma varinha graciosa para um
trabalho encantador.

O senhor Ollivander aproximou-se de Harry e este desejou
apenas que ele fechasse os olhos de to arrepiantes que 
eram.  

- O seu pai, por outro lado, preferiu uma varinha de mogno, de
35 cm de comprimento. Malevel, um pouco mais poderosa e
excelente para transfigurao. Bem, quando eu digo que o seu
pai a preferiu quero dizer que essa , de tacto, a varinha que
o feiticeiro escolhe, claro.

O senhor Ollivander tinha-se aproximado tanto de Harry que os
narizes de ambos quase se tocavam.

E foi ento que...

O senhor Ollivander tocou na cicatriz em forma de relmpago na
testa de Harry com o seu longo dedo branco.

- Lamento profundamente ter vendido a varinha que fez isto --,
disse em voz baixa. 80 cm de comprimento, sim. Uma varinha
poderosa, muito poderosa, nas mos da pessoa errada... Bem, se
eu soubesse o que a varinha iria fazer...

Abanou a cabea e, para alvio de Harry, reconheceu Hagrid.

- Rubeus! Rubeus Hagrid! Que bom ver-te de novo... Carvalho,
um metro e 20 de comprido, bastante curva.
No era?

- Era, sim senhor --, disse Hagrid.

- Excelente varinha aquela. Mas calculo que a tenham partido
ao meio quando te expulsaram... - disse o senhor Ollivander
com um ar subitamente sombrio.

- Er.. . sim, foi o que fizeram - disse Hagrid, arrastando os
ps. - Mas ainda tenho os bocados --, acrescentou com
satisfao.

- Mas no os usas? - disse o senhor Ollivander, com
severidade.

- Claro que no, senhor Ollivander - respondeu, de imediato,
Hagrid. Harry reparou que, enquanto falava, ele agarrava com
toda a fora no guarda-chuva cor-de-rosa.

- Hummm - disse o senhor Ollivander, lanando a Hagrid um
olhar penetrante. - Vejamos ento, Harry  Potter --,
retirou do bolso uma grande fita mtrica com marcaes de
prata. - Qual  o brao que utiliza?

- Eu... eu... sou dextro --, disse Harry.

- No mexa o brao. Pronto. - Mediu-o do ombro  ponta dos
dedos, do pulso ao cotovelo, do ombro ao cho, do joelho s
axilas e em volta da cabea.

Enquanto fazia as medies disse: - Todas as varinhas
Ollivander tm um ncleo de uma substncia mgica, Harry
Potter. Usamos plos de unicrnios, plumagem da cauda das aves
fnix e tiras de corao de drago. No h duas varinhas
Ollivander iguais, como no h dois unicrnios iguais, nem
dois drages ou aves fnix. E,  claro que nunca obter
resultados idnticos com a varinha de outro feiticeiro.

Harry deu-se subitamente conta de que a fita mtrica, que
estava a medi-lo entre as narinas, trabalhava sozinha. O
senhor Ollivander deambulava de umas prateleiras para outras,
retirando caixas, caixas e mais caixas.

- Deve ser o suficiente - disse e a fita mtrica caiu enrolada
no cho.

- Muito bem, Harry Potter, experimente esta. Madeira de faia e
tiras de corao de drago, 23,5 cm, simptica e flexvel.
Segure-a na mo e faa um gesto.

Harry pegou na varinha e (sentindo-se um perfeito idiota)
andou com ela  roda, mas o senhor Ollivander tirou-lha
rapidamente das mos.

- Madeira de bordo e plumagem de fnix, 18,5 cm bastante
malevel, experimente. - Harry experimentou mas, mal tinha
erguido a varinha no ar, j o senhor Ollivander lha tinha
arrebatado.

- No, no, veja esta. bano e plo de unicrnio, 21 cm,
extremamente gil. Experimente, experimente.

Harry tentou e voltou a tentar. No fazia a menor ideia do que
o senhor Ollivander pretendia. A pilha de varinhas  
que j tinha experimentado era cada vez maior sobre a cadeira
raqutica mas, quanto mais varinhas tirava das prateleiras,
mais feliz o senhor Ollivander parecia estar a sentir-se.

- Cliente difcil, hein? No se preocupe, vamos encontrar a
varinha perfeita por aqui algures - estou a pensar - sim,
porque no? - uma combinao pouco vulgar - azevinho e
plumagem de fnix, 28 cm, gentil e flexvel.

Harry pegou na varinha. Sentiu um sbito calor nos dedos,
levantou-a acima da cabea, trouxe-a bruscamente para baixo,
cortando o ar poeirento. Uma torrente de fascas vermelhas e
douradas saiu da ponta da varinha como se fosse um
fogo-de-artficio, lanando pedacinhos de luz que faziam uma
dana sobre as paredes. Hagrid aplaudiu e bateu palmas e o
senhor Ollivander gritou: - Bravo, isso mesmo, muito bem. Que
curioso... que curioso...

Meteu a varinha do Harry na respectiva caixa e embrulhou-a em
papel castanho, continuando a murmurar de si para consigo -
curioso... curioso...

- Desculpe - perguntou Harry, - mas, o que  que  curioso?

O senhor Ollivander olhou fixamente para Harry com o seu olhar
claro.

- Lembro-me de todas as varinhas que vendi at hoje, Harry
Potter, todas. E, acontece que a fnix cuja plumagem est na
sua varinha teve outra plumagem. S outra. E o curioso  que
esta varinha lhe seja destinada justamente a si, quando a sua
congnere lhe fez essa cicatriz.

Harry engoliu em seco.

- Sim, 28 cm... estranho como estas coisas acontecem. A
varinha escolhe o feiticeiro, lembre-se... acho que podemos
esperar de si grandes coisas, senhor Potter. Ao fim e ao cabo,
aquele cujo nome no deve ser pronunciado fez coisas grandes
- terrveis mas grandes.  

Harry estremeceu. No tinha a certeza de gostar l muito do
senhor Ollivander. Pagou-lhe sete galees de ouro pela varinha
e o senhor Ollivander fez uma vnia de despedida quando eles
abandonaram a loja.

_ tardinha, o Sol estava quase a pr-se quando Harry e Hagrid
desceram a Diagon-Al, de regresso  parede e ao Caldeiro
Escoante, agora vazio. Harry no abriu a boca enquanto desciam
a rua nem reparou no nmero de pessoas que olhavam para eles,
no subterrneo, carregados como vinham com todos aqueles
embrulhos de diferentes feitios e a coruja-real adormecida ao
colo de Harry. Subiram outra escada rolante at  estao de
Paddington. Harry s se apercebeu de onde estavam quando
Hagrid lhe deu uma palmada no ombro.

- `_inda temos tempo p'ra comer qualquer coisa antes de o
comboio partir --, disse.

Comprou um hambrguer para o Harry e sentaram-se ambos nos
bancos de plstico para comer. Harry no parava de olhar em
volta. Tudo lhe parecia de algum modo estranho.

- Ts bem? No dizes nada? - comentou Hagrid.

Harry no sabia como explicar. Acabara de ter a melhor festa
de aniversrio de toda a sua vida - e contudo, comia o
hambrguer, tentando encontrar as palavras.

- Todos acham que eu sou especial --, disse, por fim. - Toda
aquela gente no Caldeiro Escoante, o professor Quirrell, o
senhor Ollivander... mas eu no sei nada de magia. Como podem
eles esperar grandes coisas? Sou famoso e nem consigo
lembrar-me do que se passou. No sei o que aconteceu quando o
Vol... - desculpa - quero dizer, quando os meus pais morreram.

Hagrid encostou-se  mesa. Por detrs da barba agressiva e das
sobrancelhas espessas tinha um sorriso muito afectuoso.  

- No 'tejas preocupado, Harry. Vais aprender muit'a depressa.
Todos comeam do princpio em Hogwarts. Vai correr tudo bem.
S tens de ser tu prprio. Sei que no  fcil. Foste
escolhido e isso  sempre difcil mas vais gostar  brava de
Hogwarts. Eu gostei, 'inda gosto, p'ra dizer a verdade.

Hagrid ajudou Harry a entrar no comboio que o levaria de volta
 casa dos Dursleys e entregou-lhe um sobrescrito.

- O teu bilhete p'ra Hogwarts --, disse. - Dia 1 de Setembro.
Est tud'a no bilhete. Se tiveres problemas com os Dursleys
manda-me uma carta pela coruja, ela sabe o caminho. `_t
breve, Harry.

O comboio arrancou da estao. Harry queria ver Hagrid at ele
desaparecer. Ps-se de p e encostou o nariz ao vidro da
janela mas, num abrir e fechar de olhos, Hagrid desaparecera.

Captulo VI  -- A viagem da plataforma nove e trs quartos

O ltimo ms com os Dursleys no foi nada agradvel.  certo
que o Dudley tinha agora tanto medo dele que se recusava a
ficar na mesma sala enquanto a tia Petnia e o tio Vernon no
o fechassem de novo na despensa e no o obrigassem a fazer as
coisas, gritando-lhe como dantes. A verdade  que eles, pura e
simplesmente, deixaram de lhe dirigir a palavra. Meio
assustados, meio furiosos, decidiram agir como se a cadeira
onde Harry estava sentado se encontrasse vazia. Ainda que,
nalguns aspectos, esta atitude fosse melhor do que as do
passado, ao fim de um certo tempo comeou a ser deprimente.

Harry ficava no quarto tendo como companhia a sua coruja a
quem resolveu chamar Hedwig, um nome que encontrou no livro
*_Histria da magia*. Os seus livros de estudo eram muito
interessantes e ele ficava deitado em cima da cama at altas
horas da noite a ler. Hedwig saltitava livremente dentro e
fora da janela aberta. Era uma sorte a tia Petnia no
aparecer no quarto mais vezes porque a coruja no parava de
trazer ratos mortos para dentro de casa.

Todas as noites, antes de se deitar, Harry tirava uma folha do
calendrio que tinha pendurado na parede e por onde contava os
dias que faltavam para 1 de Setembro.

No ltimo dia de Agosto, achou que devia explicar  tia e ao
tio que no dia seguinte ia para a estao de King's Cross.
Desceu, portanto,  sala onde eles assistiam a um programa dos
apanhados na televiso. Pigarreou, dando-lhes  a entender
que estava presente e o Dudley deu um berro e saiu da sala.

- Er... tio Vernon?

O tio Vernon resmungou por entredentes para mostrar que estava
a ouvir.

- Er... eu tenho de estar amanh em King's Cross... para ir
para Hogwarts.

O tio Vernon resmungou de novo.

- O tio podia levar-me l?

O resmungar do tio Vernon pareceu a Harry uma resposta
afirmativa.

- Obrigado.

Ia comear a subir as escadas quando o tio falou.

- Estranho modo de ir para uma escola de feitiaria... de
comboio. Os tapetes voadores estaro todos rotos?

Harry no respondeu.

- Onde fica essa escola afinal?

- No sei, - disse Harry, apercebendo-se pela primeira vez da
sua ignorncia. Tirou do bolso o bilhete que Hagrid lhe dera.

- Eu tomo o comboio da plataforma nove e trs quartos, s
onze horas --, leu.

O tio e a tia ficaram a olhar para ele espantados.

- Plataforma quantos?

- Nove e trs quartos.

- No digas asneiras --, afirmou peremptoriamente o tio
Vernon. - No existe nenhuma plataforma nove e trs
quartos.

- Est no meu bilhete.

- Conversa fiada - disse o tio Vernon. - Completamente
doidos,  o que eles so. Vais ver. Eu levo-te a King's Cross
at porque temos de ir a Londres amanh, seno no me dava a
esse trabalho.  

- Por que  que vo a Londres? - perguntou Harry, tentando
manter uma conversa amigvel.

- O Dudley vai ao hospital --, gritou o tio Vernon. - Operar
aquela cauda cor-de-rosa, antes de ir para Smeltings.

Harry acordou s cinco da manh e estava to nervoso e
excitado que j no conseguiu adormecer. Levantou-se,
enfiou-se nos *jeans* porque no queria ir at  estao com a
capa de feiticeiro. Mudava depois, no comboio. Conferiu a
lista para se certificar de que no lhe faltava nada, viu que
a Hedwig estava segura e fechada na sua gaiola e ficou 
espera no quarto que os Dursleys se levantassem.

Duas horas mais tarde, a mala enorme do Harry estava a ser
arrumada no carro dos Dursleys. A tia Petnia convencera o
Dudley a sentar-se ao lado dele e instalaram-se todos.

Chegaram a King's Cross s dez e meia da manh. O tio Vernon
colocou a mala do Harry num trlei e empurrou-o at 
estao. Ele estranhou a amabilidade daquela atitude at que o
tio Vernon parou repentinamente, olhando para as plataformas
com um sorriso maldoso no rosto.

- Ora, c estamos, meu rapaz. Plataforma nove, plataforma
dez. A tua deveria ser algures, no meio, mas parece que ainda
no a construram...

Ele tinha razo, claro. Havia um grande nmero nove em
plstico sobre uma das plataformas e um enorme dez sobre a
outra e, no meio das duas, nada, absolutamente nada.

- Um bom ano lectivo para ti --, disse o tio Vernon com um
sorrisinho ainda mais cnico. Deixou-o sem mais uma palavra. 
Harry voltou-se para trs e viu os Dursleys afastarem-se os
trs numa grande risota. Os lbios secaram-lhe. O que  que
ia fazer agora? Comeava a ser alvo de olhares curiosos por
causa de Hedwig. Tinha de perguntar a algum.  

Interrogou um guarda que ia a passar mas no teve coragem de
lhe perguntar pela plataforma nove e trs quartos. O guarda
nunca ouvira falar de Hogwarts e quando percebeu que Harry
nem sequer era capaz de lhe dizer em que parte do pas ficava,
comeou a mostrar-se aborrecido, como se ele estivesse a
fazer-se de estpido de propsito. Meio desesperado, perguntou
pelo comboio que partia s onze horas, mas o guarda disse-lhe
que no havia nenhum e afastou-se praguejando entre dentes
contra os chatos e os empatas.

Harry estava agora a fazer todos os possveis para no entrar
em pnico. De acordo com o grande relgio que ficava sobre a
zona das chegadas, restavam-lhe dez minutos para apanhar o
comboio para Hogwarts e no tinha a menor ideia do que deveria
fazer. Estava perdido no meio de uma estao, com um malo
pesadssimo que mal conseguia levantar do solo, um
porta-moedas cheio de dinheiro dos feiticeiros e uma enorme
coruja.

O Hagrid devia ter-se esquecido de lhe dizer alguma coisa
importante como bater no terceiro tijolo da esquerda para
chegar  Diagon-Al. Perguntava-se se deveria tirar a varinha
da mala e comear a bater com ela na barreira entre as
plataformas nove e dez.

Nesse momento, um grupo de pessoas cruzou-se com ele e pde
ouvir algumas palavras do que estavam a dizer.

- Juntamente com os Muggles, claro.

Harry deu uma volta. A voz era de uma senhora anafada que se
dirigia a quatro rapazes, todos eles de cabelo ruivo. Cada um
levava consigo um malo igual ao de Harry e cada um tinha uma
coruja.

Com o corao aos saltos, Harry empurrou o trlei atrs deles.
Quando pararam, parou tambm, suficientemente prximo para
poder ouvir o que diziam.  

- Bem, qual  o nmero da plataforma? - perguntou a me dos
garotos.

- Nove e trs quartos --, disse a despedir-se uma rapariguinha
tambm ruiva que a me segurava pela mo. - Me, no posso ir
tambm?

- Ainda no tens idade, Ginny. Fica caladinha. Bem, Percy, vai
tu primeiro.

O rapaz que parecia ser o mais velho avanou para a barreira
entre as plataformas nove e dez. Harry olhava sem pestanejar
para que no lhe escapasse nada mas, mal o rapaz chegou perto
da barreira, uma multido de turistas juntou-se como um
formigueiro  sua volta e, quando a ltima mochila de
alpinismo saiu do angulo de viso de Harry, o rapaz tinha
desaparecido.

- Agora tu, Fred --, disse a senhora anafada.

- Eu no sou o Fred, sou o George --, disse o rapaz. -
Francamente, como  que s nossa me e no vs que eu sou o
George?

- Desculpa, George, meu querido.

- Estou a gozar, eu sou o Fred - disse o rapaz e foi-se
embora. O gmeo recomendou-lhe que se despachasse e ele deve
t-lo feito porque um segundo mais tarde tinha desaparecido.
Mas como?

Agora o terceiro irmo avanava cheio de vivacidade para a
barreira. Estava quase a atingi-la e, de um momento para o
outro, j no estava l.

E agora, o que fazer?

- Desculpe --, disse Harry, dirigindo-se  senhora anafada.

- Ol, querido --, respondeu ela. -  a primeira vez que vais
para Hogwarts? O Ron tambm - e apontou para o mais novo dos
filhos. O garoto era alto, magro e desajeitado, com sardas,
mos e ps grandes e nariz comprido.  

- Sim --, disse Harry. - O problema  que no sei como...

- Como chegar  plataforma? - completou ela amavelmente e
Harry fez um sinal afirmativo com a cabea.

- No te preocupes - disse. - S tens de avanar direito 
barreira entre as plataformas nove e dez. No pares e no te
assustes. Vais encontr-la. Se ests nervoso o melhor  dares
uma corrida. Vai l, agora, antes do Ron.

- Er... O._K. - disse o Harry.

Empurrou o trlei e olhou para a barreira que parecia bastante
slida.

Comeou a avanar direito a ela. As pessoas empurravam-no
enquanto se dirigiam s plataformas nove e dez. Harry comeou
a andar mais depressa. Ia esbarrar contra a barreira e a
surgiriam problemas - encostando-se ao trlei desatou a correr
a toda a velocidade - a barreira estava cada vez mais prxima
- no podia parar - o trlei estava descontrolado, estava a
poucos centmetros. Fechou os olhos, pronto para o embate.

Mas no houve embate algum... continuou a correr... at que
abriu os olhos.

O comboio vermelho-escarlate estava parado junto de uma
plataforma cheia de gente. Um letreiro l em cima dizia
*_Hogwarts Express*, 11 horas.

Harry olhou para trs e viu uma arcada de ferro no lugar onde
antes estava a barreira, com as palavras *_Plataforma nove e
trs quartos*. Tinha conseguido!

O fumo da locomotiva elevava-se sobre as cabeas da multido
ruidosa enquanto gatos de todas as cores se enroscavam aqui e
ali entre as pernas dos transeuntes. As coruja pareciam
transmitir inquietao na forma como piavam umas s outras,
abafando o chiar das pesadas malas a serem arrastadas pelo
cho.  

As primeiras carruagens estavam j cheias de alunos, alguns
debruados  janela a despedirem-se das famlias, outros
disputando os lugares. Harry empurrou o seu trlei atravs da
plataforma, enquanto tentava vislumbrar um lagar vazio. Passou
por um rapaz de rosto redondo e rosado que ia a dizer Av,
perdi o meu sapo, outra vez.

- Oh! Neville --, suspirou a av.

Uma pequena multido rodeava um rapaz de cabelo comprido.

- V l, Lee, deixa-nos ver.

O rapaz levantou a tampa de uma caixa e as pessoas que estavam
 volta guincharam e gritaram quando aquilo que estava l
dentro mexeu uma perna longa e peluda.

Harry furou por entre a multido at encontrar um
compartimento vazio, perto do fim do comboio. Comeou por
colocar l dentro a Hedwig e, em seguida, foi empurrando, como
podia, a mala at  porta do comboio. Tentou subir com ela os
degraus mas no conseguia levant-la do cho e,  segunda
tentativa, caiu-lhe em cima dos ps provocando-lhe uma dor
bastante forte.

- Queres ajuda? - Era um dos gmeos ruivos que ele seguira.

- Obrigado - disse Harry.

- Fred, vem ajudar tambm!

Com a ajuda dos gmeos, o malo do Harry foi encostado a um
dos cantos da carruagem.

- Obrigado - disse ele, afastando o cabelo suado da testa.

- O que  isso? - perguntou subitamente um dos gmeos,
apontando para a cicatriz em forma de relmpago.

- Caramba - disse o outro gmeo. - Tu s...?

- _ - afirmou o primeiro gmeo. - No s? - perguntou
dirigindo-se a Harry.  

-- Quem? - inquiriu Harry.

- Harry Potter - disseram ambos em coro.

- Ah! esse. Sim, sou eu.

Os dois rapazes ficaram a olhar esgazeados e Harry sentiu-se
corar. Finalmente, para seu alvio, uma voz fez-se ouvir
atravs da porta aberta do comboio.

- Fred? George? Esto a?

- J vamos, me.

Lanando um ltimo olhar a Harry, os gmeos desceram do
comboio.

Harry sentou-se junto da janela, onde, meio escondido pde
observar a famlia de cabelos ruivos, na plataforma, e ouvir o
que diziam. A me acabava de tirar o leno de dentro da mala.

- Ron, tens qualquer coisa no nariz.

O rapazinho mais novo tentou sair do caminho mas ela agarrou-o
e comeou a esfregar-lhe a ponta do nariz.

- Me, larga-me - disse ele, libertando-se.

- Ah! o Ronizinho tem uma coisinha no narizinho? - disse um
dos gmeos.

- Cala a boca - disse o Ron.

- Onde est o Percy? - perguntou a me.

- J a vem.

O rapaz mais velho aproximou-se com grandes passadas. J
tinha mudado de roupa. Vestia agora a sua capa preta ondulante
 Hogwarts e Harry reparou num distintivo prateado que lhe
brilhava no peito com a letra P.

- No posso ficar mais tempo, me - disse ele. - Estou l 
frente, os chefes de departamento tm dois compartimentos s
para eles...

- Ah! tu s chefe de departamento, Percy? - disse um dos
gmeos com ar de grande surpresa.

- Podias dizer-nos qualquer coisa que ns no soubssemos.  

- Espera a, acho que me lembro de ele ter dito qualquer coisa
a esse respeito - disse o outro gmeo. - Uma vez...

- Ou duas...

- H um minuto...

- O Vero inteiro...

- Calem-se - disse Percy, o chefe de departamento.

- Por que  que o Percy tem capa nova, afinal? - perguntou um
dos gmeos.

- Porque  chefe de departamento - respondeu a me cheia de
orgulho. - Pronto, querido, um bom ano lectivo e manda-me uma
coruja quando chegares l.

Beijou o Percy na bochecha e ele foi-se embora. Em seguida,
voltou-se para os gmeos.

- E, vocs os dois, vejam se este ano se portam bem. Se eu
receber mais alguma coruja a dizer-me que vocs destruram uma
casa de banho ou...

- Destruir uma casa de banho? Ns nunca fizemos nada disso...

- Pensando bem, me, no deixa de ser uma ptima ideia,
obrigado.

- No tem graa, meninos e tomem bem conta do Ron.

- No te preocupes, o Ronizinho querido est bem entregue.

- Cala-te - disse o Ron outra vez. Ele era quase to alto como
os gmeos e o nariz ainda estava cor-de-rosa de tanto a me
lho ter esfregado.

- Ah! me, adivinha quem acabmos de conhecer no comboio?

Harry chegou-se para trs rapidamente para evitar que o vissem
a espreitar.

- Lembras-te daquele rapaz de cabelo preto que estava ao p de
ns na estao. Sabes quem ele ?

- Quem?

- Harry Potter.  

Harry ouviu a voz da garotinha.

- _ me, posso ir ao comboio v-lo, deixa l...

- J o viste, Ginny, e o pobre rapaz no  uma atraco do
jardim zoolgico.  mesmo ele, Fred? Como  que sabes?

- Perguntei-lhe. Vi a cicatriz. Est mesmo l, como um
relmpago.

- Coitadinho, no admira que estivesse sozinho. Eu achei
estranho, foi to educado quando perguntou como havia de
chegar  plataforma.

- Isso no interessa. Achas que ele se lembra de como era o
Quem ns sabemos?

A me ficou subitamente muito sria. - Probo-te de lhe
fazeres essa pergunta, Fred. No te lembres sequer disso. 
Como se o garoto precisasse que lhe lembrassem uma coisa
dessas, logo no primeiro dia de escola.

- Est bem, fica descansada.

Ouviu-se um apito.

- Despachem-se! - disse a me e os trs rapazes saltaram para
a carruagem. Encostaram-se  janela para a verem atirar-lhes
os ltimos beijos, enquanto a irmzinha pequena chorava.

- No chores, Ginny, vamos mandar-te montes de corujas.

- Mandamos-te uma tampa de sanita de Hogwarts.

- George...

- Estou a brincar, me.

O comboio arrancou devagar. Harry viu a me dos rapazes a
acenar e a irm meio a chorar, meio a rir, correr para o
comboio at que este ganhou velocidade e ela voltou para trs,
sempre a dizer adeus.

Harry viu-as desaparecer quando o comboio virou a esquina. As
casas pareciam passar a correr vistas pela janela. Sentiu uma
imensa excitao. No sabia o que o esperava mas tinha de ser
melhor do que aquilo que deixava para trs.  

A porta do compartimento abriu-se e o mais novo dos garotos
ruivos entrou.

- Est algum aqui sentado? - perguntou, apontando para o
lugar em frente de Harry. - Todos os outros esto ocupados...

Harry fez-lhe sinal com a cabea e o rapazinho sentou-se.
Olhou para Harry e em seguida para a paisagem, fingindo no
ter olhado. Harry reparou que ele ainda tinha uma marca escura
no nariz.

- Ei, Ron.

Os gmeos estavam de volta.

- Olha, ns vamos para o meio do comboio. O Lee Jordan tem uma
tarntula gigante com ele.

- Est bem --, murmurou Ron.

- Harry --, disse o outro gmeo. - Chegmos a apresentar-nos?
Fred e George Weasley e este  o nosso irmo Ron. Ento, at
logo.

- Adeus - disseram Harry e Ron. Os gmeos fecharam a porta
atrs de si.

- s mesmo o Harry Potter? - perguntou abruptamente o Ron.

Harry fez que sim com a cabea.

- Ah!  que eu pensei que fosse mais uma das partidas do Fred
e do George. E tens mesmo... aquilo?

Apontou para a testa de Harry.

Este afastou a madeixa, mostrando a cicatriz em forma de
relmpago para a qual Ron ficou a olhar fixamente.

- Ento foi a que o Quem ns sabemos...?

- Sim --, disse Harry, - mas eu no consigo lembrar-me.

- De nada? - perguntou Ron, morto de curiosidade.

- Bem, lembro-me de uma forte luz verde, mas  tudo.

- Uau! - disse o Ron. Sentou-se e olhou para o Harry durante
alguns momentos. A seguir, como se  
tivesse tomado conscincia do que fizera, voltou a olhar ela
janela.

- Todas as pessoas da tua famlia so feiticeiras? - perguntou
Harry que achava Ron to interessante quanto este o achava a
ele.

- Er... sim, acho que sim - disse o Ron. - Julgo que a minha
me tem um primo em segundo grau que  contabilista mas nunca
se fala dele.

- Ento deves saber imenso de magia. - Os Weaseys deviam ser,
sem dvida, uma das antigas famlias de feiticeiros a quem o
rapaz afectado da Diagon-Al se referira.

- Ouvi dizer que foste criado com Muggles - disse o Ron. -
Como  que eles so?

- Horrveis... bem, nem todos. O meu tio, a minha tia e o meu
primo so horrorosos. Quem me dera ter trs irmos
feiticeiros.

- Cinco - disse Ron que ficou subitamente triste. - Eu sou o
sexto na nossa famlia a ir para Hogwarts. Isso acarreta
grandes responsabilidades. O Bill e o Charlie j saram. O
Bill era chefe de turma e o Charlie era capito de Quidditch.
Agora o Percy  chefe de departamento. O Fred e o George
fazem muita confuso mas tm boas notas e acham-nos muito
divertidos. Todos esperam que eu esteja  altura deles mas, se
o conseguir, tambm no  l um grande feito porque eles j o
fizeram primeiro. Nunca consegues nada de novo com cinco
irmos. Herdei as capas velhas do Bill, a antiga varinha do
Charlie e o rato do Percy.

Ron procurou dentro do casaco e tirou de l um rato cinzento
que estava a dormir.

- Chama-se Scabbers e no serve para nada. Quase nunca est
acordado. O Percy teve uma coruja de presente por ter sido
nomeado chefe de departamento mas eles no tinham dinh...
quero dizer, eu fiquei com o Scabbers.  

As orelhas de Ron coraram. Deve ter tido a sensao de quem
falou de mais porque voltou a olhar para fora da janela.
Para Harry era a coisa mais normal do mundo que algum no
tivesse dinheiro para comprar uma coruja. Afinal, ele
prprio, nunca tinha tido um tosto at um ms atrs e contou
ao Ron que tambm herdava as roupas do Dudley e que nunca
tinha tido verdadeiros presentes de aniversrio, o que pareceu
anim-lo um pouco.

--... e at o Hagrid me contar, eu no sabia que era um
feiticeiro nem sabia nada dos meus pais ou do Voldemort.

Ron sobressaltou-se.

- O que foi? - perguntou Harry.

- Tu disseste o nome do Quem ns sabemos! - afirmou o Ron
entre o chocado e o impressionado. - Devia imaginar que s
tu...

- Eu no estou a tentar mostrar-me corajoso ao dizer o nome
--, explicou Harry. - S que nunca ouvi dizer que era
perigoso, percebes? Tenho muito que aprender, no h dvida -
acrescentou, verbalizando algo que vinha a preocup-lo
bastante nos ltimos tempos. - Aposto que vou ser o pior da
turma.

- No vais, no. H montes de gente que vem de famlias de
Muggles e que aprendeu muito depressa.

Enquanto conversavam, o comboio sara de Londres. Atravessava
agora, a grande velocidade, campos cheios de vacas e
carneiros. Ficaram um bocado em silncio, a observar o campo
e os caminhos estreitos que passavam como flechas.

Por volta do meio-dia e meia hora, ouviu-se um grande
burburinho no corredor do comboio e uma mulher sorridente e
com covinhas no rosto bateu na porta do compartimento deles,
perguntando: - Querem alguma coisa dos carrinhos, meninos?  

Harry, que no tinha tomado o pequeno-almoo, ps-se de p
num salto, mas o Ron corou outra vez nas orelhas e murmurou
que tinha trazido sandes. Harry saiu para o corredor.

Enquanto vivera com os Dursleys nunca tinha tido dinheiro para
comprar doces e agora, com os bolsos cheios de ouro e prata,
estava pronto a comprar todos os chocolates *_Mars* que
conseguisse transportar consigo. Mas a mulher no tinha
chocolates *_Mars*. O que ela trazia era: feijes de todos os
sabores da Bertie Bott, as melhores pastilhas elsticas dos
Drooble, sapos de chocolate, pastis de abbora, bolos do
Caldeiro, varinhas mgicas de alcauz e mais uma imensa
quantidade de coisas estranhas das quais Harry nunca tinha
ouvido falar em toda a sua vida. Comprou uma boa quantidade de
cada e pagou  mulher onze Lees de prata e sete Knuts de
bronze.

Ron ficou especado ao ver tudo o que o Harry comprara, tinha
trazido para o compartimento e colocado sobre um assento
vazio.

- Tudo isso  fome?

- Imensa --, disse Harry, dando uma grande dentada num pastel
de abbora.

O Ron tinha retirado e desembrulhado de um pacote rugoso
quatro sandes. Ps uma de parte e resmungou: - Ela esquece-se
sempre que eu no gosto de carne de conserva.

-- _troco-ta por um destes -- disse Harry, dando-lhe
um pastel. - Toma.

- Tu no vais gostar disso. E sequssimo --, disse o Ron. -
Ela no tem muito tempo --, acrescentou rapidamente. - Sabes
como , com cinco filhos.

- V l, toma um pastel - disse Harry, que nunca tinha tido
nada para partilhar ou, verdade se diga ningum com quem
partilhar fosse o que fosse. Era um sentimento bom  estar
ali sentado com o Ron, a comer  vontade, os pastis e os
bolos (as sandes ficaram esquecidas).

- O que so estas? - perguntou Harry ao Ron, pegando num
pacote de sapos de chocolate. - No so sapos a srio, pois
no? 
- Comeava a achar que j nada o surpreendia.

- No - disse o Ron, - mas v qual  o cromo que tem l
dentro, falta-me o *_Agrippa*!

- O qu?

-Ah!  claro que tu no sabes. Os sapos de chocolate trazem
cromos l dentro para coleccionar - feiticeiros e broxas
famosas. Eu j tenho cerca de quinhentos mas falta-me o
*_Agrippa* ou o *_Ptolemy*.

Harry desembrulhou o seu sapo de chocolate e pegou no cromo.
Era o rosto de um homem com culos de meia-lua, um nariz
longo e curvo, com cabelo, barba e bigode abundantes e cor de
prata. Sob a fotografia vinha o nome: *_Albus Dumbledore*.

- Ento este  que  Dumbledore! - disse Harry.

- No me digas que nunca ouviste falar do Dumbledore! -
exclamou Ron. - Ds-me um sapo? Pode ser que traga o
*_Agrippa*. Obrigado.

Harry virou o cromo e leu:


Albus Dumbledore, actual Director de Hogwarts. Considerado,
por muitos, o maior feiticeiro dos tempos modernos, Dumbledore
 particularmente famoso pela sua vitria sobre o feiticeiro
das trevas Grindelwald em 1945, pela descoberta das doze
utilizaes do sangue de drago e pelo trabalho alqutmico que
desenvolveu juntamente com o seu colega Nicolas Flamel.
Dumbledore gosta de msica de cmara e tenpin bowling.


Harry voltou de novo o cromo e viu, com grande surpresa, que
o rosto de Dumbledore tinha desaparecido.  

- Ento, no podias esperar que ficasse a todo o dia -
respondeu Ron. - Ele volta. Olha saiu-me outra vez a
*_Morgana* e j tenho seis cromos dela. Queres? Podias comear
a fazer a coleco.

Os olhos de Ron perderam-se na pilha de sapos de chocolate 
espera de serem desembrulhados.

- Tira  tua vontade - disse Harry. - Mas sabes, no mundo dos
Muggles, as pessoas que esto nas fotografias ficam sempre l.

- A srio? mas no se mexem, nem nada? - Ron parecia pasmado.
- Que esquisito!

Harry olhou fixamente  medida que Dumbledore regressava 
imagem do cromo, sorrindo-lhe. O Ron estava mais interessado
em comer os sapos do que em ver as famosas bruxas e
feiticeiros dos cromos, mas Harry no conseguia desviar os
olhos deles. Passado um bocado, no tinha s Dumbledore e
Morgana mas tambm Hengist de Woodcroft, Alberic Grunnion,
Circe, Paracelso e Merlin. Por fim, afastou os olhos da
sacerdotisa druida Cliona que estava a coar o nariz, para
abrir uma embalagem de feijes de todos os sabores da Bertie
Bott.

- Tens de ter cuidado com esses --, preveniu o Ron. - Quando
eles dizem todos os sabores querem mesmo dizer todos os
sabores - tens aqueles vulgares de chocolate, hortel-pimenta
e doce de laranja mas tambm h os de espinafres, fgado e
tripas. O George conta que um dia comeu um com sabor a
humidade.

Ron tirou um feijo de cor verde, olhou cautelosamente para
ele e deu uma dentada na ponta.

- Bleaarg! ests a ver? Grelos.

Divertiram-se bastante a comer os feijes de todos os
sabores. Ao, Harry calharam-lhe os de torrada, coco, feijo
cozido, morango, caril, cereais, caf, sardinha e foi
suficientemente  
corajoso para mordiscar o que sobrou de um cinzento que o Ron
no comeu e que afinal era de pimenta.

A paisagem campestre que se via da janela era agora cada vez
mais agreste. Os campos cultivados haviam desaparecido.
Viam-se bosques, riachos ondulantes e vegetao verde-escura.

Ouviu-se uma pancada na porta do compartimento e o rapaz de
rosto redondo que passara por Harry na plataforma nove e trs
quartos entrou. Tinha um ar choroso.

- Desculpem --, disse - mas viram, por acaso, um sapo?

Quando lhe acenaram negativamente com as cabeas, ele
lamentou-se: - Perdi-o! Ele est sempre a fugir-me!

- Ele vai aparecer --, confortou-o Harry.

- Sim - disse o rapaz, com um ar infeliz. - Bem, se por acaso
o virem...

- No sei porque  que ele est to preocupado - disse o Ron.
- Se eu tivesse trazido um sapo perdia-o o mais depressa que
pudesse. Bem, trouxe o Scabbers, por isso tambm no posso
falar muito.

O rato dormia ainda no colo do Ron. - Podia ter morrido que
no davas pela diferena --, disse ele, desgostoso. - Tentei
torn-lo amarelo para ver se ficava mais atraente mas o
feitio no resultou. Eu mostro-te, olha...

Procurou na mala e tirou de l de dentro uma varinha com um
aspecto muito desgastado. Tinha algumas rachas e uma coisa
branca brilhava mesmo na ponta.

- O plo do unicrnio est quase a extinguir-se.

Tinha acabado de levantar a varinha ao ar quando algum abriu
de novo a porta do compartimento. O rapaz sem sapo estava de
volta mas, desta vez, trazia consigo uma rapariga j vestida
com as roupas de Hogwarts.  

- Algum aqui viu um sapo? O Neville perdeu o dele - disse,
num tom de comando. Tinha uma abundante cabeleira castanha e
os dentes da frente demasiado grandes.

- J lhe dissemos que no --, respondeu o Ron, mas a rapariga
no estava a ouvi-lo. Observava a varinha que ele tinha nas
mos.

- Ah! ests a fazer magia. Vamos l ver, ento!

Sentou-se. Ron ficou um pouco surpreendido.

- Er... est bem.

Limpou a garganta. - Luz do sol, manteiga fresca, malmequer
belo...

Faz este rato estpido ficar amarelo!!!

Acenou com a varinha mas nada aconteceu. O Scabbers continuou
cinzento e a dormir.

- Tens a certeza de que esse feitio  verdadeiro? - perguntou
a rapariga. - Bem, no  l muito eficaz, pois no? Eu tentei
alguns bastante simples, s para praticar, e resultaram.
Ningum na minha famlia  feiticeiro. Foi a maior das
surpresas quando recebi aquela carta mas fiquei to feliz, to
feliz... claro,  a melhor escola de feitiaria que existe,
segundo oio dizer - aprendi de cor todos os livros de estudo
e s espero que seja o suficiente - o meu nome  Hermione
Granger. A propsito, quem s tu?

Ela dissera tudo aquilo de uma nica tirada. Harry olhou para
Ron e ficou aliviado ao perceber no seu rosto estupefacto que
ele tambm no decorara todos os livros de estudo.

- Sou o Ron Weasley --, murmurou o Ron.

- Harry Potter --, disse Harry.

- A srio? - disse Hermione. - Sei tudo a teu respeito, 
claro; tenho alguns livros suplementares para leitura de apoio
que falam de ti, como por exemplo a *_Histria da magia
moderna, _alvorada e crepsculo das artes das trevas e Os
grandes acontecimentos da feitiaria no sculo vinte*.  

- Falam de mim? - perguntou Harry, espantado. - Meu Deus, no
sabias? Eu, no teu lugar, teria tentado descobrir tudo - disse
Hermione. - Algum de vocs sabe em que equipa vai ficar? Eu
tenho andado a perguntar e espero ficar nos Gryffindor,
parece-me, de longe, ser a melhor e ouvi dizer que o prprio
Dumbledore faz parte. Mas penso que Ravenclaw tambm no  mau
de todo. Bem,  melhor irmos procurar o sapo do Neville. Vocs
os dois mudem de roupa porque estamos quase a chegar.

E saiu, levando atrs de si o rapazinho sem sapo.

- Qualquer que seja a minha equipa s espero que ela no
esteja l - disse o Ron, que voltou a atirar a varinha para
dentro da mala. - Feitio estpido, foi o George que mo
ensinou, aposto que ele sabia que no funcionava.

- Em que equipa esto os teus irmos? - perguntou Harry.

- Gryffindor - disse Ron. A tristeza parecia estar a
voltar-lhe ao rosto. - A minha me e o meu pai tambm l
andaram. No sei o que vo dizer se eu no ficar l. Talvez
Ravenclaw no seja to mau assim, mas imagina s se me pem
nos Slytherin...

- Essa era a equipa do Vol..., quero dizer do Quem ns
sabemos, no era?

- Era --, respondeu o Ron que se afundou no assento com ar
deprimido.

- Tenho a impresso que as pontas dos bigodes do Scabbers
esto um pouco mais claras --, disse Harry, tentando mudar de
assunto. - E o que  que os teus irmos mais velhos vo fazer
agora que deixaram a escola?

Harry questionava-se sobre o futuro de um feiticeiro no final
do curso.

- O Charlie est na Romnia a estudar drages e o Bill est em
_frica a fazer um trabalho para Gringotts --, disse o Ron. -
Ouviste as notcias sobre Gringotts? No  se fala noutra
coisa no Profeta Dirio, mas no devias receb-lo em casa dos
Muggles; algum tentou assaltar um cofre de alta segurana.

Harry olhou-o espantado.

- A srio? E o que  que aconteceu?

- Nada. E por isso que se tornou notcia. No foram apanhados.
O meu pai diz que deve ter sido um poderoso mago negro para
conseguir chegar a Gringotts. Mas eles acham que nada foi
roubado, o que torna tudo ainda mais esquisito.  claro que
toda a gente se assusta quando uma coisa destas acontece, no
v dar-se o caso de o Quem ns sabemos estar por detrs da
operao.

Harry ficou a pensar no assunto. Comeava a sentir um arrepio
de medo de cada vez que se falava do Quem ns sabemos.
Calculou que essa reaco fizesse parte da sua entrada no
mundo mgico mas era muito mais agradvel dizer Voldemort,
como ele fazia antes, sem se preocupar.

- Qual  a tua equipa de Quidditch? - perguntou o Ron.

- Er... no sei, no conheo nenhuma --, confessou Harry.

- O qu? - Ron estava perplexo. - Vais ver,  o melhor jogo do
mundo - e comeou a explicar-lhe tudo sobre as quatro bolas e
as posies dos sete jogadores, descrevendo jogadas
memorveis que fizera com os irmos e falando da vassoura que
gostaria de ter se tivesse dinheiro. Estava quase a chegar aos
aspectos finais quando a porta do compartimento voltou a
abrir-se mas, desta vez, no era Hermione nem o rapaz sem
sapo.

Entraram trs rapazes e Harry reconheceu de imediato o do
meio. Era o garoto plido da loja de capas de Madame Malkin.
Olhava para Harry com um ar bastante mais interessado do que
o que manifestara na Diagon-Al.  

- _ mesmo verdade? - perguntou. - Diz-se por todo o comboio
que o Harry Potter est neste compartimento. s tu?

- Sou - respondeu Harry, enquanto olhava para os outros
rapazes. Eram ambos atarracados e tinham um ar extremamente
maldoso. Ladeando o rapaz plido mais pareciam dois
guarda-costas.

- Ah! este  o Crabbe e este o Goyle - disse o rapaz plido,
displicentemente, notando o olhar de Harry. Eu sou Malfoy. 
Draco Malfoy.

Ron tossiu um pouco, o que poderia ser uma forma de esconder o
riso. Draco Malfoy olhou para ele.

- Achas o meu nome engraado,  isso? No preciso de te
perguntar quem s. O meu pai contou-me que todos os Weasleys
tm cabelo ruivo, sardas e mais filhos do que aqueles que
conseguem sustentar.

Voltou-se de novo para Harry.

- Vais descobrir, muito em breve, que algumas famlias de
feiticeiros so melhores do que outras, Potter. Certamente
no queres estabelecer amizade com as pessoas erradas. 
Conta comigo para te ajudar.

Estendeu a mo para apertar a de Harry mas este recusou o
aperto de mo.

- Julgo poder descobrir por mim prprio qual o tipo de gente
errada, obrigado - disse friamente.

Draco Malfoy no corou mas um matiz rosado surgiu nas suas
faces plidas.

- Eu teria cuidado, Potter --, disse lentamente. - Se no
fores um pouco mais educado, acabar por acontecer-te o mesmo
que aos teus pais. Eles tambm nunca souberam escolher o que
era melhor para eles. Continua a andar por a com canalha
como os Weasleys e o tal Hagrid e eu dou-te uma lio.

Harry e Ron levantaram-se. O rosto de Ron estava to vermelho
como o cabelo. 

- Repete l isso - disse ele.

- Ah! queres lutar connosco? - zombou Malfoy.

- Se no sares daqui imediatamente - completou Harry,
aparentando mais coragem do que a que sentia ter, pois Crabbe
e Goyle eram muito maiores do que ele ou Ron.

- Mas a ns no nos apetece sair, pois no, rapazes? A nossa
comida j acabou e, pelo que vejo, vocs ainda tm aqui
alguma.

Goyle pegou nos sapos de chocolate que estavam ao lado de Ron
- Ron saltou para a frente mas, antes de ter tido tempo de
tocar no Goyle, este soltou um grito de horror.

O rato Scabbers estava pendurado na sua mo e tinha espetado
os dentinhos na articulao de um dos seus dedos - Crabbe e
Malfoy recuaram enquanto Goyle abanava o Scabbers, tentando
que ele se soltasse, sem parar de gritar. E quando Scabbers
finalmente foi pelos ares, indo bater na janela, desapareceram
os trs num rompante. Devem ter pensado que havia mais ratos
escondidos nos doces ou ento ouviram passos porque, um
segundo depois, Hermione Granger, entrava.

- O que  que se passou aqui? - perguntou, olhando para os
bolos que enchiam o cho e para Ron que agarrava o Scabbers
pela cauda.

- Acho que o liquidaram --, disse Ron, dirigindo-se a Harry.
Mas olhando mais atentamente para o Scabbers, concluiu. - No,
acho que voltou a adormecer.

E era mesmo o que tinha acontecido.

- J conhecias o Malfoy?

Harry contou-lhe o encontro de ambos na Diagon-Al.

- Ouvi falar muito da famlia dele - disse Ron tristemente. -
Foram dos primeiros a voltar para o nosso lado depois do 
desaparecimento do Quem ns sabemos.  

Disseram que tinham sido hipnotizados. O meu pai no acredita
l muito. Segundo ele, o pai do Malfoy no precisava de uma
desculpa para se passar para o lado das trevas. - Voltou-se
para Hermione: - Precisas de alguma coisa?

- _ melhor vocs apressarem-se a vestir as roupas. Eu foi
agora l  frente perguntar ao condutor quanto tempo faltava e
ele diz que estamos mesmo a chegar. Vocs no andaram  luta,
pois no? No vo arranjar sarilhos ainda antes de l
chegarmos.

- O Scabbers andou  lata, ns no --, respondeu o Ron com ar
carrancudo. - Importas-te de sair para nos vestirmos?

- Est bem. Eu s aqui entrei porque os outros l fora esto a
ter um comportamento muito infantil, a correr pelos corredores
--, disse Hermione manifestando na voz algum desdm. - E no
sei se sabes que tens o nariz sujo.

Ron lanou-lhe um olhar indignado e ela saiu. Harry espreitou
pela janela. Estava a anoitecer. As montanhas e as florestas
destacavam-se sob um cu vermelho-escuro. O comboio parecia
estar a abrandar.

Ele e Ron tiraram os casacos e vestiram as longas capas
pretas. A de Ron era um pouco curta para ele e viam-se por
baixo os sapatos de tnis.

Uma voz ecoou por todo o comboio: - Chegaremos a Hogwarts
dentro de cinco minutos. Por favor deixem toda a bagagem
dentro do comboio. Ser levada para a escola separadamente.

O estmago de Harry contraiu-se com os nervos e viu que a pele
sardenta de Ron se tornara mais plida. Encheram os bolsos com
o resto dos doces e juntaram-se  multido que enchia o
corredor.

O comboio abrandou lentamente e, por fim, parou. As pessoas
empurraram-se, tentando abrir caminho at  porta e saindo
para uma pequena plataforma escura.  

Harry tiritou com o ar frio da noite. Em seguida, uma luz
surgiu, oscilando sobre as cabeas dos estudantes e Harry
reconheceu uma voz que lhe era muito familiar: - Primeiros
anos! Primeiros anos! E p'ra vir por aqui. Tudo bem, Harry?

A grande cara barbuda de Hagrid era bem visvel por cima de um
mar de cabeas.

- Vamos, sigam-me. No h mais ningum dos primeiros anos?
Cuidado com o degrau, primeiros anos, atrs de mim!

Aos tropees seguiram Hagrid que desceu por um caminho
estreito e ngreme. Era to escuro de ambos os lados que Harry
pensou que devia estar ladeado de rvores espessas e
cerradas. 
Quase ningum falou. Neville, o rapaz que passava a vida a
perder o sapo, fungou uma ou duas vezes.

- Daqui a um segundo vocs vo ver p'la primeira vez Hogwarts
- disse Hagrid, por cima do ombro. - Por esta curva, aqui.

Ouviu-se um prolongado - Oooooooh!

O caminho estreito desembocara subitamente na beira de um
grande lago negro. Sobre uma altssima montanha, do outro
lado, brilhavam, no cu estrelado, as janelas iluminadas de
um enorme castelo cheio de torres e torrees.

- No quero mais que quatro em cada barco - gritou Hagrid,
apontando para uma frota de pequenos barcos que boiavam na
gua junto da margem. Harry e Ron foram seguidos para o
barquinho por Neville e Hermione.

- Tud'a postos? - gritou Hagrid que tinha um barco s para
ele. EM FRENTE!

E a frota de pequenos barcos movimentou-se imediatamente,
deslizando pelo lago que era to liso como gelo. Iam todos no
maior silncio, a olhar para o grande castelo l em cima que
parecia ainda mais alto  medida que se aproximavam do rochedo
sobre o qual estava edificado.  

- Baixem as cabeas - gritou Hagrid, logo que os primeiros
barcos atingiram a falsia. Todos inclinaram as cabeas para a
frente e os barcos passaram por uma cortina de folhas de hera
que ocultava uma abertura na superfcie do rochedo. Foram
transportados atravs de um tnel sombrio que parecia
lev-los mesmo por debaixo do castelo, at que chegaram a uma
espcie de porto subterrneo onde treparam para as rochas e
para o solo pedregoso.

- Tu a, este no  o teu sapo? - perguntou Hagrid que estava
a verificar se ficava alguma coisa dentro dos barcos,  medida
que os jovens iam saindo.

- Trevor --, gritou Neville, felicssimo, agarrando-o com
ambas as mos. Em seguida escalaram um corredor sobre a
falsia atrs do candeeiro de Hagrid, chegando por fim a um
relvado hmido e macio que ficava na sombra do castelo.

Subiram um lano de degraus de pedra e reuniram-se em volta da
imensa porta principal de madeira de carvalho.

- ._to todos aqui? ._inda tens o sapo?

Hagrid ergueu o seu punho gigantesco e bateu trs vezes na
porta do castelo.  


Captulo VII -- O chapu seleccionador


A porta abriu-se de imediato. Uma bruxa alta, de cabelo preto
e capa cor de esmeralda esperava por eles. Tinha um rosto
severo e a primeira coisa que Harry pensou foi que era melhor
no se lhe opor.
-Os alunos dos primeiros anos, professora Mc_Gonagall - disse
Hagrid.

- Obrigada, Hagrid. Eu levo-os a partir daqui.

Abriu a outra porta. O vestbulo da entrada era to grande que
podia caber l dentro a casa dos Dursleys inteirinha. As
paredes de pedra estavam iluminadas por tochas incandescentes
como em Gringotts, o tecto era altssimo e uma escadaria de
mrmore dava acesso aos andares superiores.

Seguiram a professora Mc_Gonagall atravs do cho pavimentado.
Harry ouvia o rumor de centenas de vozes vindas da porta do
lado direito - o resto dos alunos devem j estar aqui - mas a
professora Mc_Gonagall fez entrar os dos primeiros anos para
uma pequena sala vazia, fora do vestbulo. Amontoaram-se ali,
mais chegados uns nos outros do que seria natural, olhando
nervosamente em volta.

- Bem-vindos a Hogwarts-disse a professora Mc_Gonagall . - O
banquete de incio do ano vai comear dentro m breve, mas
antes de se sentarem no Salo vai haver a seleco por
equipas. Trata-se de uma cerimnia muito importante porque,
enquanto aqui estiverem, a vossa equipa vai ser para vocs uma
espcie de famlia dentro de  Hogwarts. Tero aulas com os
outros colegas da vossa equipa, partilharo a mesma camarata e
ocuparo os vossos tempos livres na respectiva sala de
convvio.

- As quatro equipas chamam-se: Gryffindor, Hufflepuff,
Ravenclaw e Slytherin. Cada uma delas tem a sua histria
prpria e todas produziram bruxas e feiticeiros de renome.
Enquanto estiverem em Hogwarts as vossas vitrias faro com
que a vossa equipa ganhe pontos e, do mesmo modo, as vossas
punies por violao das regras f-la-o perd-los. No final
do ano,  equipa com pontuao mais alta  conferida a taa
da equipa, uma grande honra. Espero que cada um de vs seja um
mrito para a equipa em que vai integrar-se, qualquer que ela
seja.

- A cerimnia da seleco ter lugar dentro de alguns minutos,
em frente do resto da escola. Sugiro que se animem enquanto
esperam, para estarem com o melhor aspecto possvel.

Os olhos de Harry pousaram por um momento no sapo do Neville
que estava preso debaixo da orelha esquerda dele e no nariz
manchado do Ron. Tentou nervosamente ajeitar o cabelo.

- Eu volto quando tudo estiver pronto para vocs - disse a
professora Mc_Gonagall. - Por favor esperem com calma.
Saiu da sala e Harry engoliu em seco.

- Como  que fazem a seleco das equipas? - perguntou ao
Ron.

-  uma espcie de teste, acho eu. O Fred disse que doa um
bocado mas se calhar estava a brincar comigo.

O corao de Harry deu um salto de pavor. Um teste? Diante de
toda a escola? Mas, se ele ainda no sabia nada de magia - o
que  que iriam mand-lo fazer? No lhe passara pela cabea
semelhante coisa quando ali haviam chegado. Olhou em volta
ansiosamente e viu que todos os  outros tinham o mesmo ar
assustado. Ningum falava a no ser Hermione Granger que
contava rapidamente em voz baixa todos os feitios que tinha
aprendido, perguntando-se qual o que poderia ser-lhe til
naquele momento. Harry fez um esforo por no a ouvir. Nunca
se sentira to nervoso, nem mesmo quando trouxera um
relatrio escolar aos Dursleys dizendo que, no se sabia como,
ele tornara azul o chin do professor. No desviava os olhos
da porta. A qualquer instante, a professora Mc_Gonagall ia
voltar e indicar-lhe o seu destino.

Foi ento que aconteceu uma coisa que o fez dar um salto -
vrios jovens atrs dele gritaram.

- Que diabo  que...?

Ele sobressaltou-se, assim como os que estavam  volta. Cerca
de vinte fantasmas acabavam de entrar pela parede de trs. De
um branco-prola e ligeiramente translcidos, deslizaram pela
sala, conversando uns com os outros, quase sem olhar para os
alunos dos primeiros anos.

Pareciam manter uma discusso. Um deles, que lembrava um
macaquinho anafado, dizia: - Esquecer e perdoar, eu acho que
devamos dar-lhe uma segunda oportunidade.

- Meu caro frade, no teremos dado ao rabugento todas as
oportunidades que ele merecia? Ele d-nos mau nome a todos e
nem sequer  um fantasma. Mas, afinal, o que estamos ns a
fazer aqui?

Um fantasma que usava uma gola de tufos engomados e calas
justas reparara subitamente nos alunos dos primeiros anos.

Ningum respondeu.

- Alunos novos! - disse o frade gordo, sorrindo-lhes. A espera
de serem seleccionados, imagino?

Alguns jovens acenaram afirmativamente.

- Espero ver-vos no Hufflepuff - disse o frade - a minha
antiga equipa.  

- Saiam daqui, agora --, disse uma voz cortante. - A cerimnia
de seleco est prestes a comear.

A professora Mc_Gonagall havia. regressado. Um a um, os
fantasmas desapareceram atravs da parede oposta.

- Formem agora uma fila --, disse a professora Mc_Gonagall aos
alunos dos primeiros anos. - E sigam-me.

Sentindo-se esquisito, como se as pernas o comandassem, Harry
entrou na fila, atrs de um rapaz de cabelo cor de areia, com
o Ron atrs e saram para a sala de entrada. Depois por uma
porta dupla deram entrada no grande salo.

Harry nunca imaginara um lugar to estranho e fantstico. Era
iluminado por milhares de candeias que tombavam do ar, sobre
quatro grandes mesas onde estavam sentados os outros
estudantes.

As mesas estavam postas com pratos e taas de ouro,
reluzentes. No topo do salo havia uma outra mesa comprida
onde se encontravam os professores. A professora Mc_Gonagall
trouxe os alunos dos primeiros anos de modo a ficarem
alinhados de frente para os outros estudantes, com os
professores atrs. As centenas de rostos que os olhavam 
fixamente pareciam plidas lanternas que contrastavam com a
luz tremeluzente das velas. Espalhados pelo meio dos
estudantes, os fantasmas tinham uma cor vagamente prateada. A
fim de evitar todos aqueles olhares fixos, Harry olhou para
cima e viu um tecto preto aveludado salpicado de estrelas.
Ouviu Hermione murmurar: E pura magia para parecer o cu l
de fora, li sobre isso na *_Histria de Hogwarts*.

Era difcil acreditar que aquilo fosse um tecto e que o grande
salo no estivesse simplesmente aberto ao cu.

Harry voltou a olhar para baixo logo que a professora
Mc_Gonagall colocou em frente dos alunos um banco de quatro
pernas. Em cima do banco pousou um chapu  
de feiticeiro. Era um chapu remendado, pudo e extremamente
sujo. A tia Petnia no o teria deixado entrar l em casa.

- Talvez tivessem de tentar sacar um coelho l de dentro -
pensou, desorientado. - Parecia o tipo de coisa que... --, mas
reparando que todos  sua volta estavam a olhar fixamente para
o chapu, resolveu fazer o mesmo. Durante alguns segundos o
silencio foi total. Em seguida o chapu contorceu-se. Um
rasgo perto da aba abriu-se como uma enorme boca e o chapu
comeou a cantar:

Vocs acham que eu sou feio 
Olhem que o aspecto mente 
De certeza no encontram 
Chapu mais inteligente. 
Guardem os chapus de coco 
Chapus altos e de peles 
O chapu que escolhe em Hogwarts 
 melhor que todos eles. 
Nada h nas vossas cabeas 
Que eu no possa adivinhar 
Ponham-me e eu j vos digo 
Onde  o vosso lugar. 
Talvez seja em Gryffindor 
Onde reina a ousadia 
Que se destaca de todos 
Em audcia e valentia. 
Ou talvez em Hufflepuff 
Onde trabalham contentes 
Os alunos verdadeiros, 
Leais, justos, pacientes. 
Ou no velho Ravenclaw 
Se tens a mente prontinha 
Se s prudente e estudioso 
Achaste o que te convinha.  
Ou, quem sabe, o teu lugar 
seja com os Slytherins
Que nunca olharam a meios 
Para atingirem os fins. 
Portanto experimenta-me 
E no percas a cabea 
Sou o seleccionador 
Muito embora no parea!


Toda a gente aplaudiu entusiasticamente quando ele acabou a
cano. O chapu fez uma vnia a cada uma das quatro mesas e
ficou quieto de novo.

- Ento s temos de experimentar o chapu - disse baixinho o
Ron ao ouvido do Harry. - Mato o Fred que me convenceu que era
preciso lutar contra um duende.

Harry sorriu, indeciso.  certo que experimentar o chapu era
bem melhor do que ter de fazer uma mgica como ele receava,
mas preferia no ter toda aquela gente a observ-lo.

O chapu parecia ser muito exigente. Harry no tinha a certeza
de ser corajoso, ter esprito vivo nem coisa alguma, naquele
preciso momento. Se, pelo menos, o chapu tivesse falado de
uma equipa para os que se sentiam mal-dispostos essa seria
certamente a sua.

A professora Mc_Gonagall avanou com um grande rolo de
pergaminho nas mos.

- Quando vos chamar pelo nome, vocs vo colocar o chapu e
sentar-se no banco para serem seleccionados - disse. - Hannah
Abbott!

Uma garota de pele rosada com caracis loiros saiu da fila,
ps o chapu que lhe caiu at aos olhos e sentou-se. Houve uma
pausa.

- HUFFLEPUFF! - gritou o chapu.  

A mesa da direita aplaudiu, batendo palmas e Hanna foi
sentar-se na mesa dos Hufflepuff. Harry viu o fantasma do
frade gordo a acenar-lhe alegremente. 

- Susan Bones!

- HUFFLEPUFF! - gritou o chapu de novo e Susan foi
apressadamente colocar-se ao lado de Hanna.

- Terry Boot!

- RAVENCLAW!

Foi a vez de a segunda mesa da esquerda aplaudir. Vrios
alunos dos Ravenclaw puseram-se de p a bater palmas a Terry
enquanto ele se lhes juntava.

Mandy Brocklehurst foi tambm para Ravenclaw mas Lavender
Brown foi o primeiro Gryffindor e a mesa da extrema esquerda
explodiu em ovaes. Harry via os irmos gmeos do Ron a
assobiarem.

Em seguida Millicent Bulstrode tornou-se Slytherin. Talvez
fosse apenas imaginao sua depois de tudo o que ouvira deles,
mas Harry tinha a sensao de que eram um grupo bastante
desagradvel.

Sentia-se cada vez mais mal-disposto. Lembrava-se de quando
era escolhido para jogar, na sua antiga escola. Era sempre o
ltimo a ser aceite, no porque jogasse mal, mas porque
ningum queria que o Dudley desconfiasse de que gostavam dele.

- Justin Finch-_Fletchley!

- HUFFLEPUFF!

Harry reparou que umas vezes o chapu gritava de imediato o
nome da equipa mas, outras vezes, levava alguns segundos
a decidir-se. Sesmus Finnigan, o rapaz de cabelo cor de areia
que seguia Harry na fila, ficou sentado no banco durante quase
um minuto at o chapu o considerar um Gryffindor.

- Hermione Granger!

Hermione quase correu para o banco e enfiou rapidamente o
chapu na cabea.  

- GRYFFINDOR! - gritou o chapu. Ron resmungou.

Um pensamento horrvel apoderou-se ento de Harry com aquela
fora que os pensamentos horrveis tem quando estamos muito
nervosos. E se ele no fosse escolhido para nenhuma? Se
ficasse ali sentado no banco com o chapu a tapar-lhe os olhos
durante imenso tempo e a professora Mc_Gonagall tivesse de vir
tirar-lho da cabea, dizendo que tinha havido obviamente um
engano e que o comboio iria lev-lo de novo a casa?

Quando Neville Longbottom, o rapaz que estava sempre a perder
o sapo, foi chamado, tropeou antes de chegar ao banco. O
chapu levou muito tempo a decidir-se em relao ao Neville.
Quando por fim gritou - GRYFFINDOR --, Neville desatou a
correr com o chapu ainda enfiado na cabea e teve de voltar
atrs, com a sala toda a rir, para o entregar a Morag
Mac_Dougal.

Malfoy avanou arrogantemente quando foi chamado e viu de
imediato o seu desejo realizado: o chapu mal lhe tinha tocado
na cabea e j estava a gritar - SLYTHERIN!

Foi juntar-se aos seus amigos Crabbe e Goyle, visivelmente
satisfeito consigo prprio.

J no faltava muita gente.

- Moon..., Nott..., Parkinson... - depois um par de gmeas
Patil e Patil... a seguir Sally-_Anne Perks e por fim...

- Harry Potter!

Quando Harry deu o primeiro passo em frente, a sala encheu-se
de murmrios sibilantes que pareciam achas de lume a arder.

- Potter, disse ela?

- O Harry Potter?

A ltima coisa que ele viu, quando o chapu lhe tombou para
os olhos, foi o salo cheio de gente a estender o pescoo para
conseguir observ-lo bem. No momento  a seguir estava a
olhar para a escurido dentro do chapu. A espera.

- Hum... disse uma vozinha ao seu ouvida. - Difcil, muito
difcil. Cheio de coragem, estou a ver. Inteligente tambm.
Talento, oh! sim e uma grande nsia de afirmao. Ora, onde 
que eu te vou pr?

Harry agarrou-se aos bordos do banco e pensou - Slytherin,
no. Slytherin, no.

- Slytherin, no, hein? - disse a vozinha. - Tens a certeza? 
Poderias vir a ser muito grande, sabes? Tens tudo na cabea e
os Slytherin podem ajudar-te muito, sem sombra de dvida.
No? Bem, se tens tanta certeza, ento
GRYFFINDOR!.

Harry ouviu o chapu gritar a ltima palavra para todo o salo
e dirigiu-se, a tremer, para a mesa dos Gryffindor. Sentia-se
to aliviado por ter sido escolhido e no ter ido para os
Slytherin que nem reparou que estava a ser alvo da maior de
todas as ovaes. Percy, o chefe do departamento, ps-se de p
e apertou-lhe vigorosamente a mo, enquanto os gmeos Weasley
gritavam Temos o Potter!. Harry sentou-se em frente do
fantasma de gola de tufos engomados que tinha visto pouco
antes. O fantasma deu-lhe uma palmada amigvel no brao
fazendo Harry sentir-se como se o tivesse mergulhado num balde
de gua gelada.

Podia ver agora, com toda a nitidez, a mesa principal. Na
extremidade mais prxima do lugar onde se encontrava, estava
sentado Hagrid, que lhe captou o olhar e lhe deu os parabns. 
Harry retribuiu-lhe o sorriso. E bem no centro da mesa, numa
grande cadeira de ouro, estava sentado Albus Dumbledore. Harry
reconheceu-o logo do cromo dos sapos de chocolate que comprara
no comboio. O cabelo prateado de Dumbledore era a nica coisa
em todo o salo que brilhava tanto como os fantasmas. Harry  
avistou tambm o professor Quirrell, o jovem nervoso do
Caldeiro Escoante. Tinha um aspecto bastante extico no seu
enorme turbante cor de prpura.

E agora faltavam ser seleccionadas trs pessoas. Lisa Turpin
ficou nos Ravenclaw e a seguir chegou a vez do Ron. Naquele
momento a pele dele era de uma palidez esverdeada.

Harry fez figas debaixo da mesa e, um segundo depois, o chapu
gritou GRYFFINDOR!

Harry aplaudiu entusiasmado com todos os outros e Ron quase
perdeu os sentidos quando se sentou na cadeira ao lado 
dele.

- Muito bem, Ron, excelente - disse Percy Weasley
pomposamente, enquanto Blaise Zabini era seleccionada para os
Slytherin.

A professora Mc_Gonagall enrolou de novo o pergaminho e levou
o chapu seleccionador para dentro.

Harry olhou para o seu prato dourado, vazio. S agora se
apercebia de que estava cheio de fome. Parecia que a sua
ltima refeio tinha sido h sculos.

Albus Dumbledore pusera-se de p. Estava a dirigir-se aos
estudantes de braos abertos, como se nada o fizesse mais
feliz do que v-los ali.

- Bem-vindos! - disse. - Bem-vindos a um nova ano em Hogwarts.
Antes de iniciarmos o nosso banquete gostaria de dizer algumas
palavras. So elas: cretino, gorduroso, restos e mudanas.

Muito obrigado!

Voltou a sentar-se. Todos bateram palmas, bem-dispostos. 
Harry no sabia se era para rir ou no.

- Ele  um pouco louco? - perguntou cheio de dvidas a Percy.

- Louco? - disse Percy com desenvoltura. - Ele  um gnio! O
maior feiticeiro do mundo. Mas  um tanto pirado, sim. Queres
batatas, Harry?  

Harry ficou boquiaberto. Os pratos que tinha na frente estavam
agora cheios de comida. Ele nunca vira tantas coisas boas
numa nica mesa: bife, frango assado, costeletas de porco e de
carneiro, salsichas, bacon, batatas cozidas, assadas e fritas,
ervilhas, cenouras, Ketchup e, por uma razo qualquer que
ignorava, hortel-pimenta a fingir.

Os Dursleys nunca o tinham feito passar fome mas tambm no
lhe davam autorizao para comer toda a quantidade que
desejasse. O Dudley ficava sempre com as coisas que ele
cobiava, mesmo que para tal tivesse de ficar, depois, doente.

Harry encheu o prato com um bocadinho de cada coisa (excepto
da hortel-pimenta a fingir) e comeou a comer. Estava tudo
delicioso.

- Isso tem um ptimo aspecto - disse o fantasma da gola
engomada, vendo o Harry cortar o bife.

- No podes...?

- No como h quatrocentos anos --, disse o fantasma. - No me
 necessrio, mas tenho saudades. Acho que nem me apresentei.
Sou Sir Nicholas de Mimsy-_Porpington, fantasma residente na
torre de Gryffindor, ao seu servio.

- Eu sei quem tu s! - disse o Ron subitamente. - Os meus
irmos falavam-me de ti - s o Nick quase em cabea!

- Eu preferia que me chamassem Sir Nicholas de Mimsy - comeou
o fantasma a dizer, mas Seamus Finnigan interrompeu-o.

- Quase sem cabea? Como  que se pode ser quase m cabea?

Sir Nicholas ficou constrangido. A conversa estava a mar um
rumo que no lhe agradava.

- Assim --, disse, irritado, agarrando a orelha esquerda
puxando. A cabea deslocou-se e caiu-lhe sobre o ombro  
como se estivesse ligada por uma dobradia. Era bvio que
algum tinha tentado decapit-lo mas no soubera faz-lo. Com
uma expresso de agrado perante os olhares perplexos dos
garotos, o Nick quase sem cabea voltou a p-la no lugar,
tossiu e disse: - Bem, novos Gryffindors, espero que vocs nos
ajudem a ganhar a taa do campeonato este ano. Gryffindor
nunca esteve tanto tempo sem a ganhar. Os Slytherin tm ganho
sempre de h seis anos a esta parte; o Baro Sangrento que  o
fantasma deles est a tornar-se verdadeiramente insuportvel.

Harry olhou para a mesa dos Slytherin e viu um fantasma
pavoroso, sentado com eles. Tinha uns olhos esgazeados e
inexpressivos, uma cara lgubre e um manto manchado de sangue
prateado. Estava mesmo  direita de Malfoy que, segundo Harry
constatou com agrado, no se mostrava nada satisfeito com a
distribuio dos lugares  mesa.

- Como  que ele ficou coberto de sangue? - perguntou Seamus,
francamente interessado.

- Nunca lhe perguntei - disse o Nick quase sem cabea,
delicadamente.

Quando todos tinham comido  vontade, os restos de comida
desapareceram dos pratos, que ficaram to limpos e reluzentes
como antes. No momento seguinte, surgiram as sobremesas. Bolas
de gelado de todos os sabores, tartes de ma e de melao,
*clairs* de chocolate, *donuts* de compota, bolo de vinho,
morangos, geleia, bolos de arroz, etc.

Enquanto Harry se servia de uma tarte de melao, a conversa
recaiu sobre as respectivas famlias.

- Eu sou cinquenta por cento --, disse Seamus. - O meu pai 
Muggle. A minha me s lhe disse que era bruxa depois de
estarem casados. Um golpe duro para ele.

Os outros riram-se.

- E tu, Neville? - perguntou o Ron.  

- Eu fui criado pela minha av e ela  uma bruxa - disse
Neville. - Mas a famlia pensou que eu era Muggle durante
muitos anos. O meu tio Algie estava sempre a tentar
encontrar-se comigo a ss para eu fazer uma magia - uma vez
atirou-me da beira do paredo do cais de Blackpool, ia quase
morrendo afogado. Mas nada de especial aconteceu antes de eu
fazer oito anos. Nesse dia o tio Algie foi lanchar connosco e
estava a agarrar-me pelos tornozelos, pendurado do lado de
fora da janela, quando a tia Enid lhe ofereceu um merengue e
ele, distrado, me soltou. Mas eu sa como um jacto pelo
jardim e pela estrada, na maior das calmas. Ficaram todos
contentssimos. A av chorava de alegria e vocs deviam ter
visto as caras deles quando eu vim para aqui - tinham medo que
eu no tivesse aptides suficientes para entrar. O tio Algie
ficou to contente que me ofereceu o sapo.

Do outro lado de Harry, Percy Weasley e Hermione conversavam
sobre lies (Eu espero que eles comecem a ensinar-nos o mais
depressa possvel, temos tanto que
aprender. Eu estou particularmente interessada na
transfigurao, sabes o que , transformar uma coisa em outra
diferente.  claro que no deve ser nada fcil. Comea-se por
uma experincia muito simples com pequenos objectos, como
transformar fsforos em agulhas, por exemplo).

Harry, que estava j a sentir-se um pouco sonolento voltou a
olhar para a mesa principal. Hagrid bebia avidamente
por uma grande taa. A professora Mc_Gonagall conversava com o
professor Dumbledore. O professor Quirrell, no seu ridculo
turbante, falava com um professor de cabelo preto ajeitado com
brilhantina, de nariz adunco e pele amarelada.

Tudo aconteceu muito rapidamente. O professor do nariz adunco
olhou directamente, atravs do turbante do Quirrell, para os
olhos de Harry e este sentiu uma dor quente e aguda na
cicatriz da testa.  

- Ui! - fez Harry, levando a mo  testa.

- O que ? - perguntou Percy. 

- N... nada.

A dor tinha desaparecido com a mesma velocidade com que se
fizera sentir. Difcil de esquecer era a sensao que aquele
olhar transmitira a Harry - a certeza de que professor no
gostava nem um pouquinho dele.

- Quem  aquele que est a falar com o professor Quirrell? -
perguntou ao Percy.

- Ah! j conheces o Quirrell? No admira que ele esteja to
nervoso. O outro  o professor Snape. Ensina poes mas no 
isso o que lhe interessa. Todos sabem que ele anda a ver se
consegue roubar o trabalho ao Quirrell. Sabe muito de magia
negra, o Snape.

Harry observou-o mais atentamente mas Snape no voltou a olhar
para ele.

Por fim, tambm os doces desapareceram e o professor
Dumbledore voltou a levantar-se. O salo ficou num silncio
total.

- S mais algumas palavras, agora que j comemos e bebemos.
Tenho notcias a dar-vos sobre o perodo escolar que comea.

- Os alunos dos primeiros anos devem ficar a saber que a
floresta  proibida a todos os alunos. E seria bom que alguns
dos mais antigos se recordassem igualmente disto.

Os olhos tremeluzentes de Dumbledore brilharam na direco dos
gmeos Weasley.

- O senhor Filch, o encarregado, pediu-me tambm que vos
recordasse a todos que no deve ser utilizada magia nos
corredores, entre as aulas.

- Os desafios de Quidditch tero incio na segunda semana
deste perodo. Todos aqueles que estiverem interessados em
jogar pela sua equipa devero contactar Madame Hooch.

- E, para finalizar, devo dizer-vos que este ano o corredor do
terceiro andar do lado direito  zona  proibida para todos
aqueles que no desejem uma morte dolorosa.

Harry riu-se mas foi um dos poucos.

- Ele no est a falar a srio, pois no? - perguntou baixinho
ao Percy.

- _ capaz de estar --, disse este, franzindo as
sobrancelhas. -  estranho porque ele costuma dar-nos uma
justificao para no irmos a este ou quele lugar - a
floresta est cheia de animais selvagens, todos sabem disso.
Acho que deveria ter-nos dado uma explicao, pelo menos a
ns, chefes de departamento.

- E agora, antes de irmos para a cama, vamos cantar o hino da
escola! - gritou Dumbledore. Harry reparou que os sorrisos dos
outros professores tinham ficado parados.

Dumbledore fez um pequeno gesto com a varinha, como se
estivesse a tentar tocar numa mosca e uma longa fita dourada
saiu de l de dentro, erguendo-se bem alto por sobre as mesas
e, serpenteando, transformou-se em palavras.

- Escolham a vossa melodia --, disse Dumbledore e comecemos!

E a escola clamou:

Hogwarts, Hogwarts, infalvel, Hogwarts 
Ensina-nos, por favor 
Quer sejamos j velhos e calvos 
Ou jovens em pleno vigor 
Nossas mentes precisam de ser 
Repletas de coisas interessantes 
Pois esto vazias e cheias de ar 
Como bales de gigantes. 
Ensina-nos o que tiver valor 
Faz-nos lembrar paz e tormenta 
D o teu melhor, enche por favor 
Toda a nossa massa cinzenta!  

Os alunos terminaram o hino em alturas diferentes. Por fim, s
os gmeos Weasley ficaram a cantar ao ritmo de uma marcha
fnebre. Dumbledore conduziu os ltimos versos com a varinha
e, quando terminaram, foi um dos que bateram palmas com maior
vigor.

- Ah! a msica, - disse, limpando os olhos. -  uma magia para
alm da que fazemos aqui. E agora so horas de ir para a cama.
Toca a andar!

Os primeiros anos dos Gryffindor seguiram Percy atravs das
multides ruidosas do salo e subiram a escadaria de mrmore.

As pernas de Harry estavam de novo a comand-lo mas, desta
vez, era devido ao grande cansao e ao muito que tinha comido.
O sono era tanto que nem achou estranho que as imagens dos
retratos que estavam pendurados nas paredes dos corredores
murmurassem e apontassem, enquanto eles iam passando e que,
por duas vezes, Percy os tivesse conduzido por portas ocultas
por detrs de painis deslizantes e tapearias de parede.
Subiram escadas
mais escadas, bocejando e arrastando os ps. Harry s queria
saber quanto tempo mais teria de andar quando finalmente
fizeram uma paragem.

Um molho de bastes ambulantes deslocava-se, a flutuar pelos
ares, diante deles e quando Percy deu um passo em frente,
lanaram-se contra o chefe de departamento.

- Peeves .., explicou Percy aos alunos dos primeiros anos - Um
*_Poltergeist*. - Levantou a voz - Peeves, mostra-te!

A resposta foi dada por uma voz desagradvel, como o ar que
sai de um balo.

- Queres que eu v falar com o Baro Sangrento?

Ouviu-se um estoiro e um homenzinho pequenino com uns olhos
escuros maldosos e uma boca arregalada apareceu, a flutuar no
ar, de pernas cruzadas, agarrando os bastes ambulantes.  

-- Oooooooooooooh --, fez ele num cacarejar maldoso. - Olha os
novatozinhos, que divertido.

Num instante investiu em voo picado sobre eles. Desviaram-se
todos e Percy rosnou ameaadoramente. - Vai-te embora, Peeves,
ou o Baro Sangrento vai tomar conhecimento disto.

Peeves calou-se e desapareceu, fazendo cair os bastes
ambulantes sobre a cabea do Neville. Ouviram-no a zumbir como
o motor de um avio, fazendo, por onde ia passando, uma
tremenda barulheira com a sua armadura pesada.

- Tenham cuidado com o Peeves --, disse Percy quando retomaram
o caminho. - O Baro Sangrento  o nico que consegue
control-lo. Ele no nos liga nenhuma, nem mesmo a ns, os
chefes de departamento. C estamos.

Mesmo ao fundo do corredor estava pendurado o retrato de uma
dama gorda num vestido de seda cor-de-rosa. -- A senha? -
disse da.

- Caput Draconis --, respondeu Percy e logo o retrato tomou
balano para a frente, revelando um buraco redondo na parede. 
Todos eles passaram - o Neville precisou de uma mozinha - e
entraram na sala comum dos Gryffindor que era uma diviso
acolhedora e redonda, cheia de confortveis cadeires de
braos.

Percy encaminhou as raparigas para uma porta que dava para o
dormitrio e os rapazes para outra. No cimo de uma escada de
caracol - estavam obviamente numa das torres - avistaram
finalmente as camas. Eram cinco leitos antigos, de colunas e
dossel, decorados com tecido de velado vermelho-escuro, igual
ao dos reposteiros. Demasiado cansados para grandes conversas,
meteram-se nos pijamas e enfiaram-se nas camas.

- Grande banquete, no foi? - murmurou o Ron ao Harry, atravs
do tecido. - Sai daqui, Scabbers! Ele est a roer os meus
lenis.  

Harry ia perguntar ao Ron se ele tinha comido tarte de melao,
mas este adormeceu antes de ter tido tempo de ouvir a
pergunta.

Talvez Harry tivesse comido um pouco de mais, porque teve um
sonho bastante estranho. Estava a usar o turbante do professor
Quirrell que no parava de falar com ele e de lhe dizer que
devia pedir rapidamente transferncia para os Slytherin porque
o seu destino era esse. Harry disse ao turbante que no queria
ir para os Slytherin e ele comeou a ficar cada vez mais
pesado. Tentou tir-lo mas estava to apertado que comeava a
mago-lo bastante. Malfoy ria-se, enquanto ele se debatia para
tirar o turbante da cabea. Em seguida Malfoy transformou-se
no professor Snape, o tal do nariz adunco, cujo riso se tornou
agudo e frio. Houve uma exploso de luz verde e Harry acordou
a transpirar e a tremer.

Deu uma volta na cama e adormeceu de novo e quando acordou, no
dia seguinte, esquecera por completo o sonho.

Captulo VIII  -- O professor das poes 


-- Olha, ali.

- Onde?

- Ao lado do mido alto de cabelo ruivo.

- O de culos?

- Viste-lhe a cara?

- Viste-lhe a cicatriz?

Os murmrios perseguiram Harry no dia seguinte desde o
primeiro momento em que saiu da camarata. As pessoas faziam
fila fora das salas de aula, em bicos de ps, para conseguirem
v-lo bem ou andavam para cima e para baixo para passarem mais
uma vez por ele e poderem olhar melhor. Harry sentia-se
incomodado porque aquilo o impedia de se concentrar e no o
deixava encontrar o caminho para a sua sala de aula.

Havia cento e quarenta e duas escadarias em Hogwarts: amplas,
velozes, estreitas, frgeis, algumas que, s sextas-feiras,
conduziam a um lugar diferente, outras ainda a que faltava um
degrau e que exigiam que as pessoas se lembrassem de dar o
salto. Havia tambm portas que s abriam se lhes fosse pedido
com muita gentileza ou quando se lhes tocava com a mo num
lugar preciso e portas que no eram realmente portas e sim
paredes slidas que as imitavam. Era muito difcil fixar o
lugar das coisas porque tudo parecia estar em constante
movimento. As pessoas dos retratos no paravam de se visitar
umas s outras e Harry podia garantir que as armaduras de
ferro conseguiam andar.  

Os fantasmas tambm no ajudavam muito. Era sempre um choque
desagradvel quando um deles deslizava subitamente pelo meio
da porta que algum estava a tentar abrir. O Nick quase sem
cabea gostava de indicar aos novos Gryffindor a direco
certa mas Peeves, o *Poltergeist*, arranjava sempre maneira de
fazer com que duas portas no abrissem e uma escada se
tornasse traioeira, quando encontrava pelo caminho algum
aluno atrasado para as aulas. Lanava cestos cheios de papis
velhos  cabea dos estudantes, puxava-lhes os tapetes debaixo
dos ps, enchia-os de p de giz ou escondia-se atrs deles,
invisvel, agarrava-lhes o nariz e gritava - PENCA! PENCA!!!

Pior ainda do que o Peeves, se  que era possvel, era o
encarregado, Argus Filch. Harry e Ron conseguiram que ele os
tomasse de ponta logo na primeira manh. Filch foi
encontr-los a tentar entrar por uma porta que, infelizmente,
era a entrada para o corredor da zona proibida do terceiro
andar. No acreditou que eles estivessem perdidos,
convenceu-se de que tentavam propositadamente entrar e estava
j a ameaar fech-los nas masmorras quando foram salvos pelo
professor Quirrell que passava ali por acaso.

Filch tinha uma gata chamada Mrs. Norris, uma criatura magra
e descarnada com uns olhos protuberantes como faris,
parecidos com os do prprio Filch. A gata patrulhava os
corredores sozinha. Infringir uma regra em frente dela, pisar
um centmetro o risco equivalia a v-la chamar por Filch que
aparecia cheio de asma em menos de dois segundos. Filch
conhecia, melhor do que ningum, as passagens secretas da
escola (enfim, os gmeos Weasley no lhe ficavam muito atrs)
e podia deslocar-se quase to rapidamente como os fantasmas.
Todos os estudantes o detestavam c a maior ambio de quase
todos eles era poderem dar um valentssimo pontap  gata Mrs.
Norris.  

E essas passagens secretas, uma vez que conseguissem
encontr-las, continham em si mesmas algumas lies. A magia
era muito mais, como Harry ao fim de pouco tempo se apercebeu,
do que fazer um gesto com a varinha mgica e pronunciar
algumas palavras exticas.

Tinham de estudar o cu nocturno atravs dos telescpios
todas as quartas-feiras  meia-noite e aprender os nomes das
diferentes estrelas e os movimentos dos planetas. Trs vezes
por semana iam para as estafas detrs do castelo estudar
Herbologia, com um bruxo pequenino e gordo chamado Professor
Sprout, e a aprendiam como tratar das plantas e fungos raros
e descobriam quais as suas utilizaes.

A mais aborrecida de todas as matrias era, sem dvida, a
Histria da Magia, a nica cujo professor era um fantasma. O
professor Binns era j muito velho quando uma noite adormeceu
em frente da lareira da sala comum. Na manh seguinte,
levantou-se como de costume e foi dar aulas, s o corpo  que
tinha ficado para trs.

Binns discursava sem parar enquanto eles apontavam nomes e
datas, misturando Emeric, o Cruel e Uric, o Incomparvel
Crnio.

O professor Flitwick, que ensinava os encantamentos, era um
feiticeiro pequenino que tinha de subir para uma pilha de
livros de modo a conseguir espreitar por cima da secretria.
No princpio da sua primeira lio pegou no livro de ponto e
quando chegou ao nome de Harry ficou to perturbado que se
desequilibrou, deu um guincho e os alunos deixaram de o ver.

Bem diferente era a professora Mc_Gonagall. Harry estava
certssimo quando detectou que ela no era pessoa para
aceitar ser desobedecida. Severa e inteligente, fez-lhes um
discurso logo que eles se sentaram, na primeira lio.  

- A transfigurao  uma das formas de magia mais complexas c
perigosas que vocs vo aprender em Hogwarts 
--, disse. - Quem criar confuses nas minhas aulas  posto
fora e no entra mais. Esto avisados.

Em seguida transformou a secretria num porco e, depois, de
novo em secretria. Estavam todos entusiasmadssimos e
ansiosos por comear, mas rapidamente se aperceberam de que
no iam transformar a moblia em animais seno muito tempo
mais tarde.

Aps tirarem alguns apontamentos bastante complexos, cada um
recebeu um fsforo e comeou a tentar transform-lo numa
agulha. No final da aula, s Hermione Granger tinha mudado
alguma coisa no aspecto do fsforo. A professora Mc_Gonagall
mostrou aos alunos como ficara todo prateado e pontiagudo e
presenteou Hermione com um sorriso, o que nela era raro.

A matria em relao  qual todos manifestavam maior
entusiasmo era a defesa contra as artes das trevas, mas as
aulas do Quirrell acabavam por ser uma brincadeira pegada.

A sala cheirava intensamente a alho, cuja finalidade, segundo
se dizia, era afastar um vampiro que ele conhecera na Romnia
e que receava pudesse vir atrs dele, quando menos esperasse.
Contou-lhes que o turbante lhe tinha sido oferecido por um
prncipe africano como prova de gratido por t-lo livrado de
um incmodo morto-vivo, mas ningum acreditava l muito
naquela histria porque, quando Seamus Finnigan lhe perguntou
como fizera para se livrar do morto-vivo, Quirrell comeou a
corar e a falar do tempo. Alm disso, havia um cheiro
esquisito em volta do turbante e os gmeos Weasley insistiam
em que devia estar igualmente cheio de alho para que o
professor se sentisse protegido para qualquer lugar que
fosse.

Harry ficou bastante aliviado ao descobrir que no estava to
atrasado em relao aos outros como receara. Muitos  
colegas tinham vindo de famlias de _muggles e, tal como ele,
ignoravam que eram bruxas e feiticeiros. Havia tanto para
aprender que mesmo os que eram como Ron no tinham, em relao
aos outros, um grande avano.

Sexta-feira foi um dia importante para Harry e Ron.
Conseguiram, pela primeira vez, encontrar o caminho para o
grande salo do andar de baixo e foram tomar o pequeno-almoo
sem se perderem uma nica vez.

- O que  que temos hoje? - perguntou Harry ao Ron, enquanto
este punha acar nas papas de aveia.

- Poes duplas com os Slytherins - disse Ron. - O Snape  o
lder da equipa dos Slytherin. Dizem que os favorece sempre a
eles. Vamos ver se ser verdade.

- Era bom que a Mc_Gonagall nos favorecesse a ns - disse
Harry. A professora Mc_Gonagall era lder da equipa dos
Gryffindor, mas isso no impedira que lhes tivesse passado na
vspera uma imensa quantidade de trabalho de casa.

Naquele momento chegou o correio. Harry j se tinha habituado
mas fora um impacte bastante forte quando, na primeira manh,
viu afluir em torrente cerca de cem corujas que sobrevoaram o
salo onde os jovens tomavam o pequeno-almoo at avistarem os
respectivos donos, deixando-lhes cair no colo cartas e
embrulhos.

Hedwig, at quele momento, ainda no lhe trouxera nada. Vinha
s vezes mordiscar-lhe a orelha e pedir um pedacinho de
torrada antes de ir dormir para a casa-ninho das corujas com
as suas colegas da escola. Contudo, naquela manh, esvoaou
entre o doce de laranja e o aucareiro e deixou-lhe cair um
bilhete no prato que ele abriu imediatamente.

Querido Harry, dizia nuns gatafunhos bastante desordenados,

Sei que tens as tardes de sexta-feira livres. No queres vir
tomar um ch comigo por volta das trs horas? Gostaria de
saber  tudo sobre a tua primeira semana. Manda-nos uma
resposta pela _hedwig.

Hagrid

Harry pediu a pena emprestada ao Ron, escrevinhou nas costas
do bilhete - Sim, por favor, at ento - e enviou Hedwig de
volta.

Foi uma sorte ele ter-se encontrado com Hagrid para tomar ch
porque a aula das poes fora a pior coisa que lhe tinha
acontecido desde que chegara a Hogwarts.

No incio do banquete, Harry tinha ficado com a impresso de
que o professor Snape no gostava dele. No fim da primeira
aula de poes Harry percebeu que se tinha enganado. Snape
no antipatizava com ele, odiava-o, pura e simplesmente.

As aulas de poes eram dadas l em baixo, num dos
calabouos. O frio ali era mais intenso do que no resto do
castelo e seria j suficientemente sinistro sem os animais
embriagados flutuando em frascos de vidro, ao longo das
paredes.

Snape, tal como Flitwick, comeou a aula pegando no livro de
ponto e, tal como Flitwick, parou no nome de Harry.

- Ah! sim - disse com toda a calma. - Harry Potter. A nossa
nova celebridade.

Draco Malfoy e os amigos Crabbe e Goyle riram-se com a mo 
frente da boca. Snape acabou de chamar os alunos pelos nomes e
olhou para a classe. Tinha uns olhos pretos como os de Hagrid,
mas faltava-lhes o calor humano. Eram vazios e gelados,
lembravam a escurido dos tneis.

- Vocs esto aqui para aprender a cincia subtil e a arte
exacta da criao de poes --, comeou. Falava quase num
murmrio mas era possvel captar cada palavra. Tal como a
professora Mc_Gonagall, Snape tinha o dom de manter toda a
turma calada sem o menor esforo.  

-Como vo ver muito pouco das palermices de agitar varinhas
mgicas no ar, muitos de vs tero dificuldade em compreender
que isto  magia. No espero que se apercebam em toda a sua
totalidade da beleza do caldeiro que ferve suavemente em fogo
lento, com as suas emanaes difusas, do poder delicado dos
lquidos que trepam vagarosamente pelas veias humanas,
enfeitiando o esprito, iludindo os sentidos... posso
ensinar-vos como agarrar a fama, preparar a glria e pr uma
rolha  morte - se vocs no forem um grupo de broncos como os
que habitualmente tenho por alunos.

A este discurso seguiu-se um silncio ainda maior. Harry e Ron
trocaram olhares entre si, de sobrolho franzido. 
Hermione Granger estava na borda da cadeira, ansiosa por
mostrar que no era nenhuma idiota.

- Potter - disse Snape subitamente. - O que  que eu
conseguiria se acrescentasse raiz triturada de asfdelo a uma
infuso de absinto?

Raiz triturada de que, a uma infuso do qu? Harry olhou para
Ron que estava to pasmado quanto ele. A mo de Hermione
ergueu-se no ar.

- No sei, professor - disse Harry.

Os lbios de Snape ganharam uma expresso de desdm.

- Pois, pois, a fama, obviamente, no  tudo na vida.
Ignorou a mo levantada de Hermione.

- Tentemos mais uma vez, Potter, onde procurarias se eu te
mandasse arranjar-me um Bezoar?

Hermione esticou a mo o mximo que lhe foi possvel, sem ter
de se levantar da cadeira, mas Harry no tinha a menor ideia
do que seria um Bezoar. Tentou no olhar para MalLoy, Cabble
e Goyle que riam perdidamente.

- No sei, professor.

- Bem me parecia que no ias abrir um livro antes de comearem
as aulas. No foi, Potter?  

Harry fez um esforo para aguentar aquele olhar frio. Ele
tinha aberto os livros, sim, em casa dos Dursleys, mas ser
que o Snape esperava que ele se lembrasse de todos os nomes
contidos no livro *_Um milhar de ervas e fungos mgicos*?

Snape continuava a ignorar a mo palpitante de Hermione.

- Qual  a diferena, Potter, entre monkshood e acnito?

Nesse momento, Hermione ps-se de p, a mo esticada para o
tecto da masmorra.

- No sei --, disse Harry calmamente, - mas penso que a
Hermione sabe. Porque no lhe pergunta?

Alguns colegas riram-se. Harry captou a expresso de Seamus
que estava franzida mas Snape no se mostrava satisfeito.

- Sente-se - gritou a Hermione. - Para sua informao,
Potter, asfdelo e absinto produzem uma poo soporfera, de
tal modo poderosa que  conhecida como o golo dos
mortos-vivos. Bezoar  uma pedra que se retira do estmago
de uma cabra e que salva as pessoas de muitos venenos. Quanto
a monkshood,  outro nome para dizer acnito - so a mesma
planta. Ento, no est sequer a tirar apontamentos?

Houve um movimento na sala, com todos  procura de penas e
pergaminhos. Numa voz firme, que se sobrepunha ao rudo de
fundo, Snape disse: - E os Gryffindor tm um ponto negativo,
por tua causa, Potter.

As coisas no melhoraram para os Gryffindor com a continuao
das aulas de poes mgicas. Snape organizou-os em equipas de
dois e p-los a fazer uma poo simples para curar furnculos.
Andava em volta deles com o seu ar majestoso e a sua longa
capa preta, vendo-os pesar urtigas secas e triturar dentes de
serpente, tecendo  crticas a quase todos com excepo de
Malfoy, com quem parecia simpatizar. Estava justamente a
chamar a ateno da turma para o modo impecvel como o Malfoy
tinha estufado os cornos de lesma, quando nuvens e nuvens de
fumo cido e um sibilar intenso encheram a masmorra. No se
sabe como, o Neville tinha conseguido derreter o caldeiro do
Seamus, transformando-o numa mancha retorcida, enquanto a
poo se espalhava pelo soalho de pedra, fazendo buracos nos
sapatos de toda a gente. Em poucos segundos, a turma inteira
tinha subido para cima dos bancos enquanto o Neville, que
ficara ensopado pela poo quando o caldeiro se desfez, gemia
cheio de dores  medida que umas bolhas vermelhas e
ameaadoras se lhe espalhavam ao longo dos braos e das
pernas.

- Seu mido idiota! - praguejou Snape, limpando a poo com um
golpe da varinha mgica. - Misturaste com certeza os espinhos
do porco-espinho antes de retirar o caldeiro do lume.

Neville choramingou enquanto as bolhas comeavam a cobrir-lhe
o nariz.

- Levem-no para a ala hospitalar --, disse Snape encolerizado
ao Seamus. Em seguida foi vigiar Harry e Ron que tinham estado
a trabalhar ao lado do Neville.

- E tu, Potter, porque  que no o avisaste para no pr os
espinhos? Achaste que sobressaas se ele fizesse uma asneira
da grossa, no foi? Acabas de perder outro ponto para os
Gryffindor.

Aquilo era to injusto que Harry abriu a boca para argumentar,
mas Ron deu-lhe um valente pontap por detrs do caldeiro.

- No piores as coisas --, murmurou. - Ouvi dizer que o Snape
 mesmo muito mauzinho.

Uma hora mais tarde, quando subiam as escadas para abandonar o
calabouo, a mente de Harry andava a mil   
hora e o seu nimo estava de rastos. Tinha feito perder dois
pontos aos Gryffindors, logo na primeira semana. Por que
motivo o Snape lhe teria tamanho dio?

-- Anima-te, p - disse-lhe Ron. - O Snape est sempre a tirar
pontos ao Fred e ao George. Posso ir contigo conhecer o
Hagrid?

_s cinco para as trs saram do castelo atravs das caves. 
Hagrid vivia numa pequena casa de madeira na orla da floresta
proibida. Do lado de fora da porta principal estavam uma arma
e um par de galochas.

Quando Harry bateu  porta, ouviu-se um esgravatar inquieto e
o fortssimo ladrar de um animal. Em seguida a voz de Hagrid
ressoou, dizendo: - Para aqui Fang (dente de vbora), para
trs.

O grande rosto barbudo do gigante surgiu num segundo, mal este
abriu a porta.

- Quieto - voltou a dizer. - Para trs, Fang. - Convidou-os a
entrar, debatendo-se para segurar a coleira de um enorme co
de caa.

A casa tinha apenas uma diviso. Do tecto pendiam presuntos e
faises. No lume aceso fervilhava uma chaleira de cobre e ao
canto da sala via-se uma cama enorme e macia, coberta com uma
colcha de retalhos.

- `Tejam  vontade, - disse Hagrid, largando Fang que foi
direito ao Ron e comeou a lamber-lhe as orelhas. Tal como o
dono, Fang no era to feroz quanto parecia.

- Este  o Ron - disse o Harry ao Hagrid que estava a deitar
gua a ferver num grande bule e a colocar bolos duros num
prato.

- Outro Weasley, hein? - disse Hagrid, olhando para as sardas
do Ron. - Eu tenho passado metade da minha vida a correr com
os teus irmos gmeos da floresta proibida.  

Os bolos duros quase lhes partiram os dentes, mas Harry e Ron
fingiram gostar muito enquanto iam contando a Hagrid tudo
sobre as primeiras aulas. Fang apoiou a cabea nos joelhos de
Harry e babou-lhe a capa toda.

Os dois adoraram ouvir Hagrid chamar ao encarregado Filch
aquele velho imbecil.

- E a gata, a Mrs. Norris, um dia destes 'inda lhe apresento
o Fang. Sabem qu'ela, todas as manhs quando me levanto p'ra
ir pr escola, comea logo a andar atrs de num. Ele manda-a
seguir-me o dia todo.

Harry contou a Hagrid o que sucedera na aula do Snape. Hagrid,
tal como o Ron, disse-lhe que no se preocupasse, que o Snape
dificilmente gostava de algum aluno.

- Mas ele parecia mesmo detestar-me.

- Tolice! - disse Hagrid. - Porqu?

Mas Harry no conseguia deixar de pensar que Hagrid afastara
os olhos ao fazer aquela afirmao.

- Como vai o teu irmo Charlie? - perguntou Hagrid ao Ron. -
Eu gostava muito dele. Era sensacional com os animais.

Harry questionou-se se ele teria mudado de assunto
estrategicamente. Enquanto Ron contava tudo sobre o trabalho
de Charlie com os drages, Harry pegou num pedao de papel que
estava sobre a mesa, debaixo do abafador do ch. Era um
recorte do Profeta Dirio:

:__recente assalto a __gringotts

Continuam as investigaes sobre o assalto a Gringotts, em 31
de Julho, que se acredita ser da autoria de feiticeiros ou
bruxas ligados s trevas e cuja identidade ainda se
desconhece.

Os duendes de Gringotts insistiram hoje em que nada foi
retirado. O cofre que foi rebuscado pelos assaltantes tinha
sido esvaziado nesse mesmo dia.  

-- Mas no vamos dizer-vos o que ele continha, portanto, se
no querem problemas, deixem as coisas ficar como esto -
afirmou um dos porta-vozes de Cnngatts.

Harry lembrava-se de Ron lhe ter contado que algum tentara
assaltar Gringotts mas no tinha mencionado a data.

- Hagrid! - disse Harry. - O assalto a Gringotts ocorreu no
dia do meu aniversrio! Pode ter-se dado enquanto ns l
estvamos!

No havia dvidas. Desta vez Hagrid evitou mesmo os olhos
dele. Ofereceu-lhe outro bolo duro. Enquanto isso, Harry
voltou a ler a notcia. O cofre que foi rebuscado tinha de
facto sido esvaziado nesse mesmo dia. Hagrid tinha esvaziado o
cofre setecentos e treze, se  que podia chamar-se esvaziar
a retirar l de dentro aquele pacotezinho nojento. Seria
aquilo que os ladres procuravam?

Quando Harry e Ron regressaram ao castelo, para o jantar,
traziam os bolsos pesados com os bolos duros que, por uma
questo de educao, no tinham tido coragem de recusar. Para
Harry nenhuma das aulas que tivera at ento lhe dera tanto
que pensar como aquele lanche com Hagrid. Teria ele ido buscar
o pacote mesmo na hora certa? Onde estaria agora? E, saberia
Hagrid alguma coisa sobre o Snape que no lhes quisera dizer?


Captulo IX -- O duelo da meia-noite


Nunca tinha passado pela cabea do Harry que fosse
possvel vir a encontrar um rapaz que ele detestasse mais do
que o Dudley, mas isso foi antes de ter conhecido Draco
Malfoy. Felizmente, os Gryffindor do primeiro ano s tinham a
aula de poes em conjunto com os Slytherin, por isso no eram
obrigados a conviver muito tempo com o Malfoy. Ou, pelo menos,
essa era a regra at ao dia em que foram encontrar espetado no
*ptacard* da sala comum dos Gryffindor uma notcia que os ps
a todos maldispostos. As lies de voo iam comear na prxima
quinta-feira e Gryffindor e Slytherin teriam essa aula em
conjunto.

- ptimo --, disse Harry ironicamente, - o melhor que podia
acontecer-me. Fazer figura de parvo em cima de uma vassoura
diante do Malfoy.

Aprender a voar era uma das suas maiores expectativas.

- Tu no vais fazer figura de parvo, coisa nenhuma - disse o
Ron usando a lgica. - Alm disso, o Malfoy anda sempre a
dizer que  o maior em Quidditch mas eu aposto que  s
garganta.

Malfoy falava mesmo muito de voar. Queixava-se bem alto de os
primeiros anos no fazerem parte dos clubes de Quidditch e
contava gabarolices sem fim que acabavam sempre com ele a
escapar por um triz aos Muggles que o perseguiam em
helicpteros. Mas no era ele o nico: Seamas Finnigan contou
que passara a maior parte da infncia sobrevoando os campos,
em cima da sua vassoura.  
At o Ron se gabava, para quem o quisesse ouvir, de quase ter
chocado com um planador na velha vassoura do seu irmo
Charlie.

Todos os que pertenciam a famlias de feiticeiros falavam
constantemente do Quidditch. Ron j tinha tido com Dean
Thomas, que partilhava com eles o dormitrio, uma discusso
calorosa sobre futebol. Ron no achava nada interessante um
jogo em que havia apenas uma bola e onde era proibido voar.
Harry fora dar com Ron a picar o pster do Dean que
representava a equipa de futebol de West Ham e tentando fazer
com que os jogadores se mexessem.

Neville nunca tinha experimentado uma vassoura em toda a sua
vida porque a av nunca o deixara aproximar-se de tal
objecto. Aqui para ns, o Harry achava que ela tinha toda a
razo porque o Neville j conseguia ter uma imensa quantidade
de acidentes mesmo com os dois ps bem assentes no cho.

Hermione Granger estava quase to nervosa com a ideia de voar
como o Neville. Tratava-se de uma coisa que no podia
aprender-se, de cor, no que ela no tivesse tentado. Na
quinta-feira, ao pequeno-almoo chateou-os mortalmente com as
informaes sobre voo que tinha conseguido obter num livro da
biblioteca chamado O Quidditch atravs dos tempos. O Neville
bebia-lhe as palavras, tal era a sua nsia de descobrir alguma
coisa que o ajudasse a agarrar-se  vassoura, mas todos os
outros sentiram um imenso alvio com a chegada do correio.

Harry no voltara a receber nenhuma carta depois do convite de
Hagrid, facto no qual Malfoy reparara, claro. O mocho-real do
Malfoy estava sempre a trazer-lhe pacotes de doces de casa que
ele abria com um sorriso maldoso  mesa dos Slytherin.

Uma coruja de celeiro trouxe ao Neville um pequeno embrulho da
av. Ele abriu-o com grande excitao e  
mostrou aos colegas uma bola de vidro do tamanho de um grande
berlinde que parecia cheia de um fumo branco.

- _ um *lembrador*! - explicou. - A minha av sabe que eu
passo a vida a esquecer-me de tudo. Isto diz-nos se h coisas
de que nos estamos a esquecer. Olha, apertas assim e se ficar
vermelha... oh! - Ficou aflitssimo porque o *lembrador*
tornou-se vermelho-escarlate. - Esqueci-me... de qualquer
coisa...

Neville estava a fazer um esforo enorme para tentar
lembrar-se do que tinha esquecido quando Draco Malfoy, que
passava naquele momento pela mesa dos Gryffindor, lhe arrancou
o *lembrador* das mos.

Harry e Ron puseram-se de p, num salto. De certo modo
esperavam um pretexto para dar uns socos ao Malfoy mas a
professora Mc_Gonagall, que conseguia sempre acabar com os
conflitos mais depressa do que qualquer outro professor da
escola, chegou num rompante.

- O que  que se passa aqui?

- O Malfoy tirou-me o meu *lembrador*, professora.

Com ar de poucos amigos, Malfoy ps novamente o *lembrador* em
cima da mesa. - Estava s a ver --, disse enquanto se afastava
seguido do Crabbe e do Goyle. 

_s trs e meia da tarde, Harry, Ron e os outros Gryffindor
desceram apressadamente a escadaria principal, dirigindo-se
aos campos para a sua primeira lio de voo. Estava um dia
claro e ventoso e a relva ondulava debaixo dos ps dos jovens
que desceram pelos declives at chegarem a um relvado macio,
do lado oposto aos campos da floresta proibida, onde as
rvores sombrias balanavam  distncia.
Os Slytherin j se encontravam todos l, assim como as vinte
vassouras, alinhadas no cho. Harry tinha ouvido Fred e George
Weasley queixarem-se das vassouras da  escola, dizendo que
algumas comeavam a vibrar se o aluno voava muito alto ou
durante o voo puxavam um pouco para a esquerda. 

A professora, Madame Hooch, chegou. Tinha cabelos curtos e
grisalhos e uns olhos amarelados como os de um falco.

- Ento, de que  que estamos  espera? - grunhiu. - Cada um
junto da sua vassoura. V, despachem-se:
Harry deitou um olhar  sua vassoura. Tinha um aspecto velho e
algumas das nervuras do cabo eram salientes e formavam
estranhos ngulos.

- Estendam a vossa mo direita ao longo da vassoura --, gritou
Madame Hooch, - e digam De p.

- De p - gritaram todos.

A vassoura de Harry saltou-lhe para a mo, de imediato, mas
foi uma das poucas que o fizeram. A de Hermione Granger
limitou-se a rolar no cho e a do Neville nem se mexeu. 
Talvez as vassouras,  semelhana dos cavalos, soubessem
distinguir quem tinha medo, pensou Harry. Havia um tremor na
voz do Neville que mostrava claramente que a ltima coisa que
ele queria na vida era levantar os ps do cho. 

Madame Hooch mostrou-lhes ento como montar nas vassouras sem
escorregar pelo cabo e andou, de um lado para o outro, a
corrigir-lhes as posturas e o modo de se agarrarem. Harry e
Ron adoraram quando ela disse ao Malfoy que ele andava h anos
a fazer tudo ao contrrio.

- Bem, quando eu apitar vocs levantam do cho com toda a
fora - disse Madame Hooch. - Mantenham as vassouras firmes,
subam cerca de um metro e em seguida recuem, inclinando-se
ligeiramente para trs. Quando eu assobiar... trs... dois...

Mas o Neville, tal era o nervosismo, a agitao e o medo de
ficar no cho, puxou com fora antes de o apito ter sequer
tocado os lbios de Madame Hooch.  

- Volta aqui, rapaz! - gritou ela mas Neville elevava-se a
pique como uma rolha de cortia que tivesse saltado de uma
garrafa. Trs metros, cinco metros... Harry viu a sua
expresso apavorada a olhar para baixo, viu-o escorregar pela
borda da vassoura e...

SPLASH! Um rudo surdo, uma forte pancada e o Neville cado,
com a cara na relva, feito num feixe. A vassoura estava ainda
a subir, cada vez mais alto e comeava a ser indolentemente
levada em direco  floresta proibida.

Madame Hooch estava inclinada sobre o Neville com o rosto to
plido quanto o dele.

Harry ouviu-a murmurar: - Pulso quebrado. V l. rapaz, est
tudo bem, levanta-te!

Voltou-se para o resto da classe.

- Nenhum de vocs sai daqui enquanto eu vou levar este rapaz 
ala hospitalar. Deixem as vassouras no lugar em que esto ou
vo parar fora de Hogwarts antes de terem tempo de dizer Ol,
Quidditch!

Madame Hooch ps o brao em volta de Neville que coxeava,
agarrado ao pulso, com a cara cheia de lgrimas.

Mal eles desapareceram, Malfoy rebentou a rir a bandeiras
despregadas.

- Viram a cara do grande pastel?

Os outros Slytherin juntaram-se  risota.

- Est calado, Malfoy - disse bruscamente Parvati Patil.

- Ah! tomando o partido do Longbottom? - disse Pansy
Parkinson, uma rapariga de feies duras que pertencia aos
Slytherin.

- No te imaginava a gostar de bebs chores, Parvati.

- Olhem! - disse Malfoy, inclinando-se e apanhando algo do
relvado. -  aquela coisa estpida que a av do Longbottom lhe
mandou.

O *lembrador* brilhou ao sol quando ele lhe pegou.  

- D c isso, Malfoy - disse o Harry com: a maior das calmas.
Toda a gente se calou para observar.

Malfoy sorriu com ar mesquinho.

- Acho que vou deix-lo algures por aqui para o Longbottom o
vir buscar. Que tal em cima de uma rvore?

-- D c isso - berrou Harry, mas o Malfoy tinha subido para a
vassoura e desaparecera. No era mentira. Ele sabia voar. _
altura de um dos ramos mais altos de um carvalho gritou: - Vem
busc-lo, Potter!

Harry pegou na vassoura.

- No -- tentou impedir Hermione Granger. - Madame Hooch disse
para no lhes mexermos. Vais arranjar sarilhos.

Harry ignorou-a. O sangue fervia-lhe nas veias. Subiu para a
vassoura, pressionou com fora contra o cho, o ar passou-lhe
rapidamente pelos cabelos, a capa esvoaou atrs dele e num
misto de alegria e orgulho apercebeu-se de que sabia fazer
algo que ningum lhe tinha ensinado - era fcil, era
fantstico. Elevou um pouco mais a vassoura e ouviu gritos e
suspiros das raparigas l em baixo e a ovao de Ron,

Voltou-se na vassoura, directamente para encarar Malfoy no
ar. O outro parecia atarantado.

- D c isso --, gritou Harry - ou atiro-te dessa vassoura
abaixo!

- Ah! sim? - disse Malfoy em tom de chacota, mas com alguma
preocupao na voz.

Harry sabia, estranhamente, o que deveria fazer. Inclinou-se
para trs, agarrou a vassoura cautelosamente com ambas as mos
e esta disparou contra Malfoy como um dardo. Este mal teve
tempo de fugir. Harry fez uma curva brusca e manteve a
vassoura bem segura. C em baixo alguns dos colegas batiam
entusiasticamente palmas.

- No tens aqui o Crabbe nem o Goyle para te servirem de
guarda-costas, Malfoy - disse o Harry.  

O mesmo pensamento parecia ter cruzado a mente de Malfoy.

- Apanha se fores capaz! - gritou ele, atirando ao ar a bola
de vidro que comeou a descer direita ao cho. Harry inclinou
a vassoura para trs e dirigiu-a para baixo - um segundo
depois descia a toda a velocidade atrs da bola --, o vento
assobiava-lhe aos ouvidos. A centmetros do cho agarrou-a,
mesmo a tempo de pr a vassoura direita e pous-la
delicadamente no relvado com o *lembrador* a salvo, na mo.

- HARRY POTTER! 

O seu corao comeou a bater com toda a fora. A professora
Mc_Gonagall vinha a correr na direco deles. Os ps de Harry
tremiam.

- Nunca, em todos estes anos em Hogwarts... - A professora
Mc_Gonagall quase no conseguia falar com o choque e os culos
faiscavam de ira: - Como te atreves, podias ter partido o
pescoo...?

- Ele no teve a culpa, professora.

- Cale-se, menina Patil...

- Mas o Malfoy...

- Chega, Ron Weasley. Potter, venha imediatamente comigo.

Harry viu pelo canto do olho o ar triunfante de Malfoy,
Crabbe e Goyle enquanto seguia, meio entorpecido, a professora
Mc_Gonagall at ao castelo. Ia com certeza ser expulso. Era o
que ia acontecer. Queria dizer qualquer coisa para se defender
mas parecia ter-lhe acontecido algo estranho  voz. A
professora Mc_Gonagall avanava sem sequer olhar para ele.
Harry teve de se apressar para conseguir acompanh-la.
Tinha-a feito bonita! Nem chegara a duas semanas. Dentro de
dez minutos ia estar a fazer as malas. E o que diriam os
Dursleys quando o vissem aparecer-lhes de novo  porta?  

Subiram os degraus da entrada, os da escadaria de mrmore e a
professora Mc_Gonagall continuava a no lhe dirigir a palavra.
Abriu violentamente as portas e percorreu os corredores com
Harry atrs dela num passo rpido e infeliz.

Talvez fosse lev-lo  presena de Dumbledore. Lembrou-se de
Hagrid expulso mas a quem foi permitido ficar como guarda dos
campos. Talvez ele pudesse ser assistente do Hagrid. Mas o
estmago contorceu-se perante a ideia de ver o Ron e os outros
tornarem-se feiticeiros enquanto ele andava por ali
transportando o saco do Hagrid.

A professora Mc_Gonagall parou  porta de uma sala de aula.
Entreabriu-a e enfiou l dentro a cabea.

- Desculpe, professor Flitwick, posso roubar-lhe o Wood por
uns minutos?

- Wood? - pensou Harry, confuso. Seria o Wood (madeira) um pau
com que ia bater-lhe?

Mas afinal o Wood era uma pessoa, um rapaz corpulento do
quinto ano que saiu da aula do Flitwick com um ar baralhado.

- Atrs de mim, vocs os dois - disse a professora Mc_Gonagall
e eles assim fizeram, seguindo-a pelo corredor fora, o Wood
olhando cheio de curiosidade para Harry.

- Aqui.

A professora Mc_Gonagall fez-lhes sinal para que entrassem
numa sala de aula vazia, onde Peeves, o fantasma, estava a
escrever obscenidades no quadro.

- Fora daqui, Peeves! - rosnou ela. O Peeves atirou o giz para
um caixote de lata que ressoou fortemente e saiu a praguejar.
Mc_Gonagall fechou a porta e voltou-se para os dois rapazes.

- Potter, este  OliverWood. Wood, encontrei-te um 
*seeker*!  

A expresso de Wood mudou da confuso ara uma satisfao
imensa.

- Est a talar a srio, professora? 

- O mais a srio que  possvel - disse a professora
Mc_Gonagall, rpida e confiante. - O rapaz tem um dom natural,
nunca vi nada assim. Foi a tua primeira vez numa vassoura,
Potter?

Harry acenou afirmativamente. No tinha a menor ideia do que
estava a passar-se mas no lhe parecia que estivesse para ser
expulso e comeou a pouco e pouco a sentir de novo as pernas.

- Ele agarrou aquela coisa com a mo depois de um mergulho de
um metro e meio - disse a professora Mc_Gonagall ao Wood. No
fez um nico arranho. Nem Charlie Weasley o teria conseguido.

Wood tinha agora a expresso de quem acaba de ver realizados
todos os seus sonhos.

- Alguma vez viste um jogo de Quidditch, Potter? - perguntou
excitado.

- O Wood  o capito do clube dos Gryffindor - explicou ela.

- Ele at tem a estrutura de um *seeker* - disse o Wood que
andava  volta de Harry a observ-lo. - Leve, rpido, temos de
lhe arranjar uma boa vassoura, professora - uma Nimbus dois
mil ou uma Cleansweep sete, no acha?

- Eu vou falar com o professor Dumbledore e ver se conseguimos
tornear essa regra do primeiro ano. Bem precisamos de um
clube melhor do que o do ano passado Humilhados no ltimo
campeonato pelos Slytherin, nem consegui olhar Severus Snape
nos olhos durante vrias semanas...

A professora Mc_Gonagall examinou rigorosamente Harry por cima
dos culos.  

- Quero ouvir dizer que treinas a srio, Potter, ou posso
mudar de ideias sobre o castigo. - Em seguida sorriu-lhe
abertamente.

- O teu pai ficaria muito orgulhoso - disse. - Ele tambm era
um excelente jogador de Quidditch.


- Ests a gozar!

Era a hora do jantar e Harry tinha acabado de relatar ao Ron
todos os acontecimentos. Ron tinha um pedao de bife e empado
de batata a meio caminho da boca mas esquecera-se deles por
completo.

- *_Seeker* - disse. - Mas os primeiros anos nunca... tu deves
ser o jogador mais novo em cerca de...

- Um sculo - completou Harry, comeando a comer o empado.
Sentia-se esfomeado depois de toda a excitao daquela tarde.
- Disse-me o Wood.

Ron estava to pasmado, to aparvalhado que no parava de
olhar para o amigo.

- Comeo a treinar para a semana - disse ele, - mas no contes
nada a ningum. O Wood quer manter isso em segredo.

Fred e George Weasley chegaram naquele momento ao salo,
reconheceram Harry e comentaram de imediato:

- Boa - disse o George em voz baixa. - O Wood contou-nos.
Ns tambm fazemos parte da equipa como *beaters*.

- No tenho dvidas de que este ano vamos ganhar a taa de
Quidditch - disse o Fred. - Nunca mais ganhmos desde que o
Charlie se foi embora, mas este ano a equipa vai ser
brilhante. Tu deves ser mesmo bom, Harry. O Wood estava quase
aos saltos quando nos falou de ti.

- Bem, mas temos que ir indo. O Lee Jordan acha que encontrou
uma nova passagem secreta para sair da escola.

- Espero que no seja aquela atrs da esttua do Gregory, o
Bajulador, que ns descobrimos na primeira semana. At logo.
 

Fred e George mal tinham acabado de sair quando apareceu
algum muito pouco bem-vindo: Malfoy, escoltado por Crabbe e
Goyle. 

- Ests a tomar a tua ltima refeio, Potter? Quando apanhas
o comboio que te vai levar de novo aos Muggles?

- Ests muito mais corajoso agora, com os dois ps no cho e
os teus pequenos amigos ao lado - disse Harry com frieza. 
Crabbe e Goyle no tinham nada de pequeno mas como a mesa
principal estava cheia de professores, nenhum deles pde
reagir, limitando-se portanto a estalar os dedos, lanando a
Harry um olhar ameaador.

- Entendo-me contigo noutra altura - disse Malfoy. - Hoje
mesmo, se quiseres. Um duelo de feiticeiros. S com varinhas,
sem contacto. Qual  o problema? Nunca ouviste falar num duelo
de varinhas?

- _ claro que sim - disse Ron, rodeando a questo. - Eu sou o
segundo dele, quem  o teu?

Malfoy olhou para Crabbe e Goyle como que a medi-los.

- Crabbe --, disse. - _ meia-noite, est certo?
Encontramo-nos na sala dos trofus que est sempre aberta.

Quando Malfoy se afastou, Ron e Harry olharam um para o outro.

- O que  um duelo de feiticeiros? - perguntou Harry. - E o
que  isso de seres o meu segundo?

- Bem, o segundo est l para te substituir se tu morreres -
disse o Ron com toda a naturalidade, comeando finalmente a
comer o empado j frio. Mas, ao reparar no olhar do Harry,
acrescentou rapidamente: - Mas s se morre nos duelos a srio,
com verdadeiros feiticeiros. O mximo que tu e o Malfoy podem
conseguir  lanar fascas um ao outro. Nenhum dos dois tem
conhecimentos suficientes de magia para fazer realmente mal. 
Aposto que ele estava  espera que tu recusasses.  

- E se eu fizer o gesto com a varinha e no acontecer nada.

- Deita-a ao cho e d-lhe um soco no nariz --, foi a sugesto
do Ron.

-- Desculpem...

Voltaram-se os dois e olharam. Era Hermione Grangel

- J no se pode comer em paz nesta instituio? - resmungou o
Ron.

Hermione fingiu no ter ouvido e dirigiu-se ao Harry.

- No pode deixar de escutar o que tu e o Malfoy estavam a
dizer.

- Aposto que no pudeste mesmo --, voltou a resmungar o Ron.

- E... no deves andar a passear pela escola  noite Pensa nos
pontos que vais fazer perder aos Gryffindor se fores apanhado
que  o mais certo.  uma atitude de grande egosmo da tua
parte.

- E tu no tens nada a ver com isso - disse Harry

- Adeusinho - disse o Ron.

Mas a verdade  que aquela no era a melhor maneira de acabar
o dia, pensou Harry, enquanto se mantinha acordado  espera
que o Dean e o Seamus adormecessem (o Neville ainda no
voltara da ala hospitalar). O Ron tinha passado toda a noite a
dar-lhe conselhos tais como: -- Se ele tentar rogar-te uma
praga, esquiva-te porque eu no me lembro de como se faz para
a bloquear.

Havia bastantes possibilidades de serem apanhados pelo Filch
ou pela gata Mrs. Norris e Harry achava que estava a abusar um
pouco da sorte, quebrando duas regras num s dia. Por outro
lado, o ar cnico do Malfoy no lhe saa, da cabea e esta era
a sua grande oportunidade de o vencer cara a cara. No podia
desperdi-la.

- Onze e meia --, murmurou o Ron finalmente -  melhor irmos
indo.  

Saltaram para os roupes num abrir e fechar de olhos, pegaram
nas varinhas e esgueiraram-se da camarata do alto da torre
pelas escadas de caracol at  sala comum dos Gryffindor. Na
lareira crepitavam ainda algumas achas cuja luz tnue
transformava os cadeires em estranhas sombras negras. Estavam
quase a chegar junto do buraco atrs do retrato quando uma voz
se fez ouvir, vinda da cadeira mais prxima deles: - No posso
acreditar que vs mesmo fazer isto, Harry!

Acendeu-se uma luz. Era Hermione Granger que, dentro do seu
roupo cor-de-rosa, ostentava um ar carrancudo.

- Vai imediatamente para a tua cama - disse o Ron, furioso.

- Eu, por pouco, dizia ao teu irmo - respondeu agressiva
Hermione. - O Percy  chefe de departamento e acabava logo com
isto.

Harry tinha dificuldade em admitir que algum pudesse ser to
interferente.

- Anda - disse ele ao Ron. Empurrou o retrato da dama gorda e
passou pelo buraco.

Mas Hermione no estava disposta a desistir com essa
facilidade toda. Seguiu o Ron pelo buraco, matraqueando-os
numa voz sibilante que lembrava um ganso zangado.

- Vocs no se preocupam com os Gryffindor, s pensam em
vocs prprios. Eu no quero que os Slytherin ganhem a Taa e
vocs os dois vo conseguir perder todos os pontos que eu
ganhei para eles com a professora Mc_Gonagall por conhecer os
feitios das mutaes.

- Vai-te embora.

- Est bem mas eu avisei-vos. Lembrem-se disso amanh, quando
vos meterem no comboio de regresso a casa, vocs so to...

Mas ficaram ambos sem saber o que eram porque Hermione, que
se virara para o retrato da dama gorda, dera  consigo em
frente de um quadro vazio. A dama gorda tinha ido fazer uma
visita nocturna e Hermione estava fechada do lado de fora da
torre dos Gryffindor.

- O que  que vou fazer agora? - perguntou com a sua voz
esganiada.

- Problema teu - disse o Ron. - Ns temos de ir seno chegamos
atrasados.

Ainda no tinham atingido o fundo do corredor quando Hermione
os apanhou.

- Vou com vocs --, disse.

- No vens, no.

- Pensam que vou ficar aqui  espera que o Filch me descubra?
Se ele nos encontrar aos trs, eu digo a verdade, que estava a
tentar fazer-vos voltar para trs comigo.

- Tu tens c uma lata... - disse o Ron em voz alta.

- Calem-se os dois! - interrompeu Harry. - Ouvi qualquer
coisa.

Era uma espcie de fungadela.

- Mrs. Norris? - sussurrou o Ron, tentando vislumbrar algo na
escurido.

No era Mrs. Norris. Era o Neville que estava todo entalado no
cho, num sono profundo e que acordou subitamente quando eles
se aproximaram.

- Graas a Deus, encontraram-me! Estou aqui h horas.
Esqueci-me da palavra de senha para chegar ao
quarto.

- Fala baixo, Neville. A senha  focinho de porco mas neste
momento no te serve de nada. A dama gorda saiu do retrato e
foi dar um passeio.

- Como est o teu brao? - perguntou Harry.

- _ptimo - disse o Neville mostrando-o. - A Madame Pomfrey
tratou dele num minuto.

- Bem, olha, Neville, ns temos de ir tratar de um assunto,
vemo-nos mais tarde...  

- No me deixem aqui - pediu o Neville, pondo-se de p. - No
quero ficar sozinho, o Baro Sangrento j passou por mim duas
vezes.

Ron consultou o relgio e lanou um olhar furioso a Hermione e
a Neville.

- Se algum de ns for apanhado, no descanso enquanto no
aprender aquela praga dos maus espritos de que o Quirrell nos
falou para a lanar sobre vocs.

Hermione abriu a boca, provavelmente para dizer ao Ron como
era a praga dos maus espritos, mas Harry fez-lhes sinal para
se calarem e para o seguirem.

Percorreram os corredores, descobertos por barras de luar que
entravam pelas clarabias. De cada vez que eram iluminados,
Harry esperava esbarrar com Filch ou com a gata, Mrs. Norris,
mas tiveram sorte. Subiram a grande velocidade uma escada que
levava ao terceiro andar e foram em bicos de ps at  sala
dos trofus.

Malfoy e Crabbe ainda no tinham chegado. Os cofres de cristal
dos trofus brilhavam quando o luar os iluminava. 
Taas, medalhas, pratos e estatuetas de ouro e prata
cintilavam no escuro.

Eles deslocaram-se encostados s paredes, com os olhos postos
nas portas de ambos as extremidades da sala. Harry pegou na
varinha, no fosse o Malfoy saltar-lhe  frente quando ele
menos esperasse para comear a luta.

- Ele est atrasado, talvez  ltima hora tenha tido medo --,
suspirou o Ron.

Nesse momento, um barulho na sala ao lado f-los
sobressaltarem-se. Harry tinha acabado de erguer a varinha
quando ouviu uma voz - e no era a do Malfoy.

- Cheira, cheira, minha linda, eles devem estar escondidos
para a num canto.

Era Filch a falar com a gata, Mrs. Norris. Foram tomados de
pnico. Harry fez sinais desesperados aos outros trs  
para que o seguissem o mais depressa possvel. Escaparam 
socapa pela porta, para bem longe da voz do Filch. O manto do
Neville tinha acabado de varrer a esquina quando ouviram Filch
entrar na sala dos trofus.

- Eles esto por aqui, de certeza - ouviram-no resmungar. -
Provavelmente escondidos.

- Por este lado! - disse Harry aos outros e, cheios de medo,
comearam a descer uma longa galeria cheia de armaduras. 
Ouviam o Filch aproximar-se. Subitamente o Neville deu um
grito de pavor e desatou a correr - tropeou, embrulhou-se no
Ron e os dois foram cair sobre uma armadura de ferro.

O barulho foi tal que poderia ter acordado toda a gente no
castelo.

- CORRAM! - gritou Harry e os quatro desembestaram a toda a
velocidade, sem sequer olhar para trs e ver se o Filch os
seguia ou no - viraram na ombreira e galgaram um corredor
atrs do outro com Harry  frente sem ter a mnima ideia de
onde estavam nem para onde iam. Passaram atravs de uma
tapearia e encontraram-se numa passagem secreta,
deslocaram-se a grande velocidade atravs dela e foram dar
perto da sala da aula de encantamentos que sabiam ficar a
milhas da sala dos trofus.

- Acho que os despistmos - disse Harry que mal conseguia
respirar, encostando-se a parede fria e limpando a testa. O
Neville estava dobrado para a frente arfando com a sua
respirao de asmtico.

- Eu disse-vos... - suspirou Hermione, agarrando-se ao peito
onde sentira uma pontada. - Eu... disse-vos...

- Temos de voltar  torre dos Gryffindor - afirmou o Ron. - O
mais depressa possvel.

- O Malfoy passou-te uma rasteira - disse Hermione ao Harry.
- Percebeste isso ou ainda no? Ele no tinha a menor inteno
de ir ter contigo. Por outro lado,  o Filch sabia que
algum ia estar na sala dos trofeus. O Malfoy deve t-lo
avisado.

Harry pensou que muito provavelmente ela tinha toda a razo
mas achou melhor no lho dizer.

- Vamos embora.

No ia ser to simples como isso. No tinham dado nem doze
passos quando uma maaneta girou ruidosamente e algo saiu aos
tiros de uma sala de aula mesmo em frente.

Era Peeves que dera pela presena deles e ficara deliciado.

- Cala-te, Peeves, se fazes favor, ainda consegues que nos
expulsem.

Peeves deu uma gargalhada vitoriosa.

- A vaguear por aqui  meia-noite, novatozinhdos? Ah! Ah! Ah!,
vo ser apanhados.

- No, se tu no nos entregares, Peeves. Por favor.

- Eu devia dizer ao Filch, devia sim - disse o Peeves com um
tom de voz virtuoso que contrastava com o maquiavlico brilho
dos olhos. -  para o vosso bem...

- Sai da frente - disse asperamente Ron, cometendo o grave
erro de lhe dar um encontro.

- :__alunos fora da __cama! - berrou Peeves. - 
:__alunos fora da cama no corredor dos __encantamentos!

Passando por debaixo do Peeves, todos eles se lanaram numa
corrida de vida ou de morte at ao fim do corredor onde foram
esbarrar com uma porta fechada.

- Pronto - rezingou o Ron, enquanto empurrava inutilmente a
porta. - Estamos feitos. Desta vez  que  o fim.

Ouviram-se passos. Era o Filch que acorria a toda a velocidade
aos gritos de Peeves.

- Faam qualquer coisa - disse rispidamente Hermione que,
agarrando na varinha de Harry, bateu com ela na fechadura,
murmurando - *_Alohomora*!  

A fechadura fez um *clic e a porta abriu-se de par em par -
entraram todos de roldo e ficaram empilhados com os ouvidos
encostados  porta. 

-- Para onde foram eles Peeves? - perguntava o Filch. - Diz
l.

- Por favor tambm se usa.

- No me chateies, Peeves, Para que lado foram?

- No digo nada enquanto no me pedires por favor - disse o
Peeves na sua voz irritante e monocrdica.

- Est bem, est bem, por favor.

- NADA! Ah! Ah! Ah!...eu disse-te que no dizia nada enquanto
no pedisses por favor!

E ficaram a ouvir a voz do Peeves a rir-se e a do Filch a
praguejar, cheio de raiva. Ah! Ah! Ah!

- Ele pensa que esta porta est fechada  chave - murmurou o
Harry. - Julgo que estamos a salvo - quieto, Neville! -
(porque o Neville estava havia quase um minuto a puxar
insistentemente pela manga do roupo do Harry). - O que ?

Harry voltou-se - e viu claramente o que era. Por momentos
pareceu-lhe que tinha entrado num pesadelo. Era de mais para
ele, depois de tudo aquilo por que j passara. 

No estavam numa sala como haviam imaginado e sim num
corredor. O corredor proibido do terceiro andar. E agora,
sabiam qual o motivo porque era proibido.

Estavam a olhar directamente para os olhos de um co
monstruoso. Um co que enchia o espao que ia do cho ao
tecto. Tinha trs cabeas, trs pares de olhos enlouquecidos,
trs narizes, contorcendo-se num frmito em direco a eles,
trs bocas pavorosas, a saliva pendendo como cordas dos dentes
aguados e amarelos.

Estava parado com os seis olhos fixos neles e Harry sabia que
se ainda no estavam todos mortos, isso devia-se  ao facto
de o animal ter sido apanhado de surpresa. Mas sabia tambm
que ele estava a refazer-se rapidamente do seu espanto. E no
havia dvidas sobre o significado daquelas mandbulas
descomunais.

Tacteando, Harry procurou a fechadura. Entre o Filch e a morte
escolhia o Filch.

Caram para trs - Harry fechou a porta com toda a fora e
correram, quase voaram, pelos corredores na direco oposta. O
Filch tinha ido certamente procur-los noutro lugar porque no
voltaram a encontr-lo mas tambm no se preocuparam muito com
isso. Tudo o que queriam era afastar-se o mais possvel
daquele monstro. S pararam de correr quando chegaram junto do
retrato da dama gorda do stimo andar.

- Mas por onde  que vocs tm andado? - perguntou ela,
olhando para os roupes que lhes caam tortos dos ombros e
para as caras afogueadas e cheias de suor.

- No se preocupe; focinho de porco, focinho de porco --,
repetiu Harry e o retrato, balanando para a frente, deu-lhes
passagem. Subiram para a sala comum e caram cansados e a
tremer sobre os cadeires.

Houve um perodo em que ningum falou. O Neville, com efeito,
tinha o ar de quem nunca mais iria abrir a boca em toda a sua
vida.

- Qual ser a ideia deles de manter uma coisa daquelas aqui
fechada na escola? - disse por fim o Ron. - Se algum co
precisa de exerccio  aquele, de certeza absoluta.

Hermione recuperara tanto o flego como o mau humor.

- Vocs no usam mesmo os olhos, pois no? - disse com a sua
natural agressividade. - No viram onde  que ele estava
sentado?

- No cho - sugeriu Harry. - Eu no olhei para as patas dele,
estava demasiado assustado com as cabeas...  

-- No. No era no cho. Ele estava sentado em cima de um
alapo. Obviamente, a guardar qualquer coisa.

Hermione levantou-se, fixando-os.

- Espero que estejam satisfeitos convosco. Podamos ter
morrido todos - ou pior, sermos expulsos. Agora, s no se
importam, vou deitar-me.

Ron ficou a olhar para ela de boca aberta.

- No, no nos importamos - disse. - At parece que a levmos
 fora, no ?

Mas Hermione dera a Harry muito que pensar, enquanto
regressava  cama. O co estava a guardar qualquer coisa... O
que  que o Hagrid tinha dito? Que Gringotts era lugar mais
seguro para guardar algo secreto, com excepo talvez de
Hogwarts.

Harry tinha a sensao de que acabava de descobrir onde se
encontrava naquele momento o pacotezinho de aspecto sujo do
cobre setecentos e treze.


Captulo X -- HALLOWE'EN


Malfoy no podia acreditar no que os seus olhos viam quando,
no dia seguinte, se apercebeu de que Harry e Ron continuavam
em Hogwarts e que, apesar do seu aspecto cansado, se mostravam
satisfeitos como era habitual. Efectivamente, naquela manh
Harry e Ron estavam convencidos de que terem encontrado o co
das trs cabeas fora uma aventura incomparvel e sentiam-se
j prontos para outra. Entretanto Harry ps Ron ao corrente do
pacotezinho que, segundo ele, tinha sido trazido de Gringotts
para Hogwarts e ficaram imenso tempo a especular sobre o que
conteria o pacote para necessitar de tamanha proteco.

-Ou tem um grande valor ou  extremamente perigoso - disse o
Ron.

- Ou ambas as coisas - completou Harry.

Mas tudo o que sabiam ao certo sobre o objecto misterioso era
que ele tinha cerca de cinco centmetros de comprimento, o que
no lhes dava margem para grandes descobertas, pelo menos
enquanto no tivessem novas pistas.

Nem Neville nem Hermione manifestavam qualquer interesse em
saber o que poderia estar debaixo do co e do alapo. A nica
coisa que o Neville verdadeiramente queria era ter a certeza
de que nunca mais iria ver aquele co por perto.

Hermione recusava-se agora a falar ao Harry e ao Ron mas como
eles a consideravam uma sabichona autoritria,  
tomaram esse facto como um bnus. O que eles queria era
descobrir uma maneira de se vingarem do Malfoy para sua grande
satisfao, essa possibilidade chegou pelo correio, cerca de
uma semana mais tarde.

Quando as corujas voaram pelo salo adentro como era costume,
a ateno de todos foi de imediato atrada para um embrulho
estreito e comprido, transportado por seis grandes corujas das
torres. Harry estava to interessado como os outros em saber o
que vinha naquele grande embrulho quando as corujas desceram e
o colocaram mesmo na sua frente, fazendo com que um pedao de
*bacon* lhe casse ao cho. Tinham acabado de levantar voo
quando outra coruja deps uma carta em cima do embrulho.

Harry abriu-a em primeiro lagar e foi uma sorte porque a
carta dizia:

:__no abras o embrulho  __mesa

Contm a tua nova Nimbus dois mil, mas no quero que se fique
a saber que tens uma vassoura ou todos os teus colegas vo
querer ter uma. O Oliver Wood ir encontrar-se contigo hoje no
campo dos jogos de Quidditch s sete horas da tarde para a tua
primeira aula de treino.

Professora M. Mc_Gonagall

Harry teve dificuldade em disfarar o seu entusiasmo quando
passou a nota ao Ron para ele a ler.

- Uma Nimbus dois mil! - resmungou o Ron, cheio de inveja. -
Nunca toquei numa...

Saram dali rapidamente, a fim de desembrulhar a vassoura em
privado, antes da primeira lio, mas, a meio do vestbulo da
entrada, encontraram as escadas barradas pelo Crabbe e pelo
Goyle. Malfoy tirou o pacote das mos de Harry e avaliou-lhe o
peso.  

-  uma vassoura --, disse, atirando-a de novo ao Harry com um
misto de inveja e de despeito. - Vais ser castigado por isto,
Potter. Os primeiros anos no esto autorizados a ter
vassouras. 

Ron no resistiu.

- No  uma vassoura velha --, disse. -  uma Nimbus dois mil.
O que  que tu dizes que tens em casa, Malfoy? Uma Cometa dois
sessenta? - Ron sorriu ao Harry. - As cometas so muito
aparatosas mas o material de que so feitas no tem a
qualidade das Nimbas.

- E o que  que tu sabes disso, Weasley? No tens dinheiro nem
para comprar cinco centmetros do cabo - respondeu
maldosamente Malfoy. - Tanto quanto sei, tu e os teus irmos
tm de poupar todas as moedinhas. 

Antes que Ron tivesse tempo de responder, o professor
Flitwick apareceu mesmo ao lado de Malfoy.

- No esto a discutir, pois no, rapazes?

- Mandaram uma vassoura ao Potter, professor --, disse Malfoy
sem perder tempo.

- Sim, sim, eu sei - disse o professor Flitwick, olhando
radiante para Harry. - A professora Mc_Gonagall contou-me
tudo sobre as circunstncias especiais, Potter. E, qual  o
modelo?

- Uma Nimbus dois mil, professor - disse Harry, fazendo os
possveis por no se rir perante o rosto horrorizado do
Malfoy. - E foi graas ao Malfoy que consegui t-la --,
acrescentou.

Harry e Ron subiram as escadarias contendo o riso perante a
raiva e a confuso que se apoderaram de Malfoy.

- At  verdade - disse o Harry no meio de alegres gargalhadas
quando chegaram ao cimo das escadas. - Se ele no tivesse
roubado o *lembrador* do Neville eu no feria agora parte do
clube desportivo.  

- Portanto, deves achar que se trata de uma recompensa por
teres quebrado as regras? - disse uma voz agreste mesmo atrs
deles. Hermione chegara com passadas pesadas e firmes e
olhava com ar reprovador para o embrulho que Harry trazia nas
mos. 

- Pensei que tinhas deixado de falar connosco --, disse o
Harry.

- Sim, por favor, continua - pediu o Ron. - Estava a ser to
agradvel...

Hermione afastou-se, com o narizinho no ar.

Foi muito difcil para o Harry, durante todo o dia, manter-se
concentrado durante as aulas. A sua ateno vagueava entre a
camarata, onde estava a vassoura nova, debaixo da cama e o
campo de Quidditch, onde essa noite ia comear a aprender.
Devorou o jantar sem mesmo se aperceber do que estava a comer
e logo a seguir subiu  pressa, juntamente com o Ron, para
desembrulhar, finalmente, a Nimbus dois mil.

- Uau! - suspirou o Ron quando a vassoura rolou sobre a colcha
da cama do Harry. O prprio Harry, que no sabia absolutamente
nada de vassouras, achou-a deslumbrante. Brilhante e macia,
com o cabo em mogno, tinha uma longa cauda de galhos lisos e
elegantes e *_Nimbus dois mil* escrito em letras de ouro no
topo do cabo.

Como as sete horas se aproximavam, Harry saiu do castelo e
dirigiu-se ao campo de Quidditch, banhado quela hora pela luz
do crepsculo. Era a primeira vez que entrava num estdio. Em
volta do campo havia centenas de cadeiras dispostas em espiral
para que todos os espectadores estivessem suficientemente
altos para conseguir ver o jogo. Em cada limite do campo havia
trs postes dourados com argolas na extremidade que lembraram
ao Harry os pauzinhos de plstico com que as crianas Muggle
faziam bolas de sabo. A nica diferena  que estes tinham
metro e meio de 
altura.  

Demasiado ansioso por voar e incapaz de esperar pelo Wood,
Harry subiu para a vassoura e pressionou os ps com fora
contra o cho. Que sensao incrvel - entrou e saiu a toda a
velocidade por entre os limites das balizas e, em seguida,
subiu e desceu o poste. A Nimbus dois mil virava ao menor
toque de mo.

- Hei, Potter, desce da! 

Era Oliver Wood que acabava de chegar. Trazia um grande estojo
de madeira debaixo do brao. Harry aterrou junto dele.

- Muito bem - disse o Wood, com os olhos a brilhar. - J
percebi o que a Mc_Gonagall queria dizer... tens mesmo um dom
natural. Esta noite vou apenas ensinar-te as regras. Depois
disso, passas a integrar os treinos da equipa, trs vezes por
semana.

Abriu o estojo. L dentro havia quatro bolas de diferentes
tamanhos.

- Muito bem --, disse o Wood. - O Quidditch  muito fcil de
entender, embora seja bastante mais difcil de jogar. Os
jogadores so sete de cada lado, trs dos quais so os
*chasers*.

- Trs *chasers* - repetiu Harry enquanto o Wood tirava uma
bola vermelho brilhante com o tamanho aproximado de uma bola
de futebol.

- Esta bola chama-se *quaffle* --, disse o Wood. - Os
*chasers* lanam a *quaffle* uns para os outros e tentam 
enfi-la numa das argolas para marcar um golo. Dez pontos de
cada vez que a *quaffle* entrar por uma das argolas. Ests a
seguir-me?

- Os *chasers* lanam a *quaffle* e fazem-na passar pelas
argolas para marcar pontos - repetiu Harry. - Ento,  uma
espcie de basquetebol em vassouras, com seis argolas, no ?

- O que  o basquetebol? - perguntou Wood, cheio de
curiosidade.  

-- Deixa estar - disse Harry sem querer perder tempo.

- Ora bem, h outro jogador de cada lado que  o *keeper* - eu
sou *keeper* dos Gryffindor. Tenho de voar em volta das
nossas argolas e tentar impedir que o outro clube ganhe
pontos. 

- Trs *chasers*, um *keeper* - disse Harry que estava
disposto a decorar tudo. - E eles jogam com a *quaffle*. Est
bem, j percebi at aqui. Mas, ento, para que so essas? -
perguntou apontando para as trs outras bolas que estavam no
estojo.

- Vou mostrar-te - disse Wood. - Toma esta.

Entregou a Harry um pequeno basto, uma espcie de taco de
*rounders*.

- Vou mostrar-te para que servem as *bludgers* - disse o
Wood.-Estas so as duas *bludgers*.

Mostrou-lhe duas bolas idnticas, totalmente pretas e
ligeiramente mais pequenas do que a *quaffle* vermelha. Harry
notou que elas pareciam contorcer-se num tremendo esforo por
se soltarem das presilhas de couro que as prendiam dentro do
estojo.

- Chega-te para trs - avisou Wood, enquanto se baixava e
libertava uma das *bladgers*.

Num segundo, a bola elevou-se bem alto no ar e, em seguida,
lanou-se direita  cara do principiante. Harry tentou
bater-lhe com o taco para impedir que ela lhe partisse o
nariz e arremessou-a aos ziguezagues para longe -- ela zumbiu
 volta das cabeas de ambos e acabou por atingir o Wood que
se atirou para cima dela, conseguindo segur-la contra o cho.

- Vs --, disse com dificuldade o Wood, metendo  fora no
estojo a bola lutadora e fechando-a bem.

- As *bludgers* passam como foguetes, tentando fazer com que
os jogadores caiam das vassouras abaixo.  por  
isso que cada clube tem dois *bludgers* - os nossos so os
gmeos Weasley - cuja funo  proteger o seu lado das
*bludgers* e arremess-las contra o campo do adversrio.
Ento, alguma dvida? 

- Trs *chasers* tentam marcar com a *quaffle*, o *keeper*'
guarda os postes dos golos, os *beaters* mantm as *bludgers*
afastadas do seu clube --, papagueou o Harry.

- Muito bem - disse Wood.

-- Er... as *bludgers* j alguma vez, por acaso, mataram
algum? - perguntou Harry, tentando parecer espontneo.

- Em Hogwarts, nunca. Alguns maxilares quebrados mas nada mais
grave do que isso. E, por fim, o ltimo membro do clube  o
*seeker* que  a tua posio. E tu no tens que te preocupar
com a *quaffle* nem com as *bludgers* ...

- A no ser que me abram a cabea...

- No tenhas problemas, os Weasley chegam bem para elas -
quero dizer, eles prprios j so um par de *bludgers*
humanas.

Wood aproximou-se do estojo e retirou de l de dentro a
quarta e ltima bola. Comparada com a *quaffle* e com as
*bludgers* esta era pequenina, mais ou menos do tamanho de uma
noz. Era dourada e tinha umas pequenas asas cor de prata, em
grande alvoroo.

- Esta - disse o Wood,  a *snitch* de ouro, a bola mais
importante de todas.  muito difcil de agarrar no s por ser
extremamente veloz mas tambm porque  dificil de ver. E
funo do *seeker* agarr-la. Tens de avanar e recuar pelo
meio dos *chasers*, dos *beaters*, das *bludgers* e da
*quaffle* para conseguir agarr-la antes do *seeker* do clube
adversrio, porque aquele que agarrar a *snitch* ganha para o
seu clube cento e cinquenta pontos, ou seja, o jogo fica
praticamente ganho. E por isso que os *seekers* esto sempre
a ser penalizados. Um jogo de Quidditch s termina quando a
*snitch*  agarrada, portanto pode demorar imenso tempo  

- Julgo que o tempo recorde foi de trs meses e foi preciso ir
arranjando constantes substitutos para que os jogadores
pudessem ir dormindo.

- Bem,  tudo. Alguma pergunta?

Harry abanou negativamente a cabea. Compreendera o que tinha
de fazer. O problema estava em conseguir ou no faz-lo.

- No vamos praticar j com a *snitch* - disse Wood,
fechando-a com todo o cuidado dentro do estojo. Est muito
escuro e podamos correr o risco de a perder. Vamos treinar
com algumas destas.

Tirou do bolso um pequeno saco cheio de bolas de golfe e,
alguns minutos mais tarde, ele e Harry estavam no ar, com o
Wood a lanar as bolas de golfe com toda a fora em vrias
direces para o Harry as agarrar.

No falhou uma nica e Wood estava feliz. Meia hora mais tarde
a noite cara e era impossvel prosseguir.

- A taa de Quidditch este ano vai ter o nosso nome - disse
Wood, satisfeitssimo, enquanto faziam com alguma dificuldade
a subida de regresso ao castelo. - No me espantava nada se tu
viesses a ser ainda melhor do que o Charlie Weasley e olha que
ele tinha todas as condies para jogar pela Inglaterra se no
tivesse preferido os drages. 


Talvez por estar sempre to ocupado com os treinos de
Quidditch trs vezes por semana e com os trabalhos de casa,
Harry nem se apercebeu de que o tempo passara e de que j
estava em Hogwarts havia dois meses. Sentia-se mais em casa
naquele castelo do que alguma vez se sentira em Privet Drive.
As aulas estavam tambm a tornar-se cada vez mais
interessantes, agora que tinham aprendido as bases.

Na manh do Hallowe'en acordaram com o cheiro delicioso de
abbora cozida que flutuava pelos corredores.  

Mas, melhor ainda foi o facto de o professor Flitwick ter
anunciado, nos encantamentos, que os considerava preparados
para comearem a fazer voar objectos, coisa com que eles
sonhavam desde o dia em que haviam visto Flitwick fazer
esvoaar, durante uma aula, o sapo do Neville. O professor
dividiu a classe em duplas para praticarem. O parceiro de
Harry era Seamus Finnigan (o que no deixou de ser um alvio
porque o Neville andava a ver se conseguia chamar-lhe a
ateno). O Ron iria trabalhar com Hermione Granger e era
dificil definir qual dos dois estava mais furioso com a ideia.
Ela no lhes falava desde o dia da chegada da vassoura.

- No se esqueam daquele movimento de pulso que temos vindo a
praticar! - repetiu o professor Flitwick, encarrapitado, como
sempre, na pilha de livros que o fazia parecer mais alto. -
Rpido e seco. E  muito importante pronunciar correctamente
as palavras mgicas; lembrem-se do feiticeiro Baruffio que
substituiu um *f* por um *s* e deu por si cado no meio do
cho com um bfalo em cima do peito.

Era muito dificil. Harry e Seamus fizeram movimentos rpidos e
secos mas a pena, que deveria levantar voo, continuava sobre
a secretria. Seamus ficou to impaciente que resolveu pic-la
com a varinha e pegou-lhe fogo. Harry teve de apagar o fogo
com o prprio chapu.

Na mesa ao lado, Ron no estava a ser melhor sucedido.

- *_Wingardium leviosa* - gritava ele, acenando com os braos
como se fosse um moinho de vento.

Harry ouviu a voz de Hermione a corrigi-lo. - Ests a dizer
mal.  *wingar-dium levi-o-as*. O *gar* tem de ser longo e
suave.

- Ento faz tu j que s to espertinha --, respondeu-lhe o
Ron.  

Hermione arregaou as mangas do seu trajo acadmico, fez um
movimento com a varinha e disse: *_Wingardium Leviosa*!

A pena ergueu-se da secretria e flutuou um metro e tal acima
das suas cabeas.

- Muito bem! -- gritou o professor Flitwick, batendo as
palmas. - Como todos podem ver, a Hermione Granger conseguiu! 

No final da aula, Ron estava muito mal-humorado.

- No admira que ningum a suporte - disse ele ao Harry
enquanto atravessavam o corredor, - ela  um verdadeiro
pesadelo.

Algum chocou com Harry, passando apressadamente por ele. 
Era Hermione.

Ele teve um vislumbre dos seus olhos. E ficou espantado por
ver que estavam cheios de lgrimas.

- Acho que ela ouviu o que tu disseste.

- E da? - disse o Ron, tentando ocultar algum
constrangimento. - Deve ter percebido que no tem amigos.

Hermione no apareceu na aula seguinte e ningum a viu durante
toda a tarde. Quando desciam para o salo para a festa do
Hallowe'en, Harry e Ron ouviram Parvati Patil a dizer  sua
amiga Lavender que a Hermione estava a chorar na casa de banho
das raparigas e que queria ficar sozinha. Ron sentiu-se ainda
mais sem graa ao ouvir aquilo mas, alguns momentos mais
tarde, entraram no Grande Salo e as decoraes festivas do
Hallowe'en fizeram-nos esquecer por completo de Hermione.

Um milhar de morcegos esvoaava pelo tecto e pelas paredes
enquanto cerca de uma centena sobrevoava as mesas em escuras
nuvens baixas que faziam estremecer, dentro das abboras, as
tnues chamas das velas. O manjar surgiu de repente nos
pratos dourados como j havia sucedido no banquete de incio
do ano.  

Harry estava a servir-se de uma batata com casca quando o
professor Quirrell entrou a correr pela sala dentro com o
turbante s trs pancadas e o terror estampado no rosto. Todos
ficaram a olhar para ele quando se aproximou da cadeira do
professor Dumbledore, se encostou  mesa e balbuciou: - Ser
gigantesco nos calabouos, achei que devia avis-lo.

Em seguida perdeu os sentidos e caiu redondo no cho.
Gerou-se uma tremenda algazarra. O professor Dumbledore teve
de agitar a varinha e lanar para o ar vrias luzes cor de
prpura para conseguir impor o silncio.

- Chefes de departamento --, disse com uma voz que parecia o
ribombar de um trovo, - conduzam as vossas equipas para as
respectivas camaratas, imediatamente.
Percy estava a postos.

- Sigam-me! Mantenham-se juntos, primeiros anos! No h perigo
desde que faam como eu vos disser. No se afastem de mim.
Abram caminho, deixem passar os primeiros anos, com licena,
sou chefe de departamento!

- Como  que um gigante tinha conseguido entrar ali? -
perguntava o Harry enquanto subia as escadas.

- No me perguntes a mim, eles costumam ser bastante
estpidos --, disse o Ron. - Talvez o Peeves lhe tenha dado
entrada para nos pregar uma partida no Hallowe'en.

Passaram por vrios grupos de gente, correndo apressada em
todas as direces. Quando abriam caminho, aos solavancos,
pelo meio de uma pequena multido de Hufflepuffs, o Harry, de
repente, agarrou o Ron por um brao.

- Acabo de me lembrar, a Hermione.

- A Hermione o qu?

- Ela no sabe do gigante.

O Ron mordeu os lbios.

- Bem, vamos l, mas  melhor que o Percy no nos veja.  


De gatas entre a multido, seguiram com os Hufflepuffs para o
outro lado, esgueiraram-se para baixo, por um corredor vazio
e correram at  casa de banho das raparigas Tinham acabado de
virar uma esquina quando ouviram
assadas rpidas atras deles.

-  o Percy - sussurrou Ron, puxando Harry para trs da
esttua de um enorme animal de pedra. Mas quando olharam
melhor viram que no se tratava de Percy e sim de Snape que
atravessou o corredor e desapareceu.

- O que estar ele a fazer aqui? - perguntou baixinho o Harry.
- Porque no est l em baixo nos calabouos com todos os
outros professores?

- Isso tambm eu gostava de saber.

O mais silenciosamente possvel, deslizaram pelo corredor
fora, seguindo as pegadas do Snape.

- No te cheira a nada?

Harry sentiu um cheiro pestilento invadir-lhe as narinas. Era
uma mistura de meias velhas e casa de banho pblica que no 
lavada h muito tempo.

E foi ento que o ouviram - um grunhido grosseiro e o rudo do
arrastar de uns ps gigantescos. Ron apontou. L ao fundo,
junto da passagem para a esquerda, uma coisa descomunal
avanava lentamente em direco a eles. Fugiram para a sombra
e viram-no emergir num retalho de luar.

Era uma viso pavorosa. Trs metros e meio de altura, a pele
de um cinzento-granito bastante escuro, o enorme corpo
granuloso que lembrava um pedregulho com uma pequena cabea
calva no cimo, como se fosse um coco. Tinha as pernas curtas,
espessas como troncos de rvore com ps gordos e cheios de
calosidades. O cheiro que exalava era indescritvel. Trazia
na mo uma enorme moca de madeira que arrastava pelo cho
devido ao comprimento exagerado dos braos.  

O gigante parou junto de uma porta e espreitou l para dentro.
Sacudiu as longas orelhas, tentando decidir, com o seu crebro
pequenino, o que fazer. Em seguida arrastou-se lentamente l
para dentro.

- A chave est na porta --, murmurou o Harry. - Podamos
tranc-lo l dentro.

- Boa ideia --, disse o Ron nervosamente.

Aproximaram-se da porta aberta, com as bocas secas, rezando
para que o gigante no se lembrasse de sair naquele momento.
Com um salto Harry conseguiu agarrar a chave da porta e
fech-la.

- Boa!

Entusiasmados com a vitria comearam a correr de regresso 
passagem mas, mal viraram a esquina, ouviram algo que fez com
que os seus coraes parassem de bater - um grito agudo de
verdadeiro pavor - e vinha da sala que eles tinham acabado de
fechar.

- Oh! no - disse o Ron, mais branco do que o Baro Sangrento.

-  a casa de banho das raparigas - disse o Harry em
sobressalto.

- Hermione - gritaram ao mesmo tempo.

Era a ltima coisa que eles queriam fazer, mas que escolha
tinham agora? Dando meia volta, lanaram-se a correr at 
porta e giraram a chave, atrapalhados pelo pnico - Harry
abriu a porta e entraram de rompante.

Hermione Granger estava toda encolhida, encostada  parede da
frente, com ar de quem est prestes a perder os sentidos. O
gigante avanava para ela esbarrando ruidosamente contra as
canalizaes.

- Baralha-o --, gritou Harry desesperadamente ao Ron e pegando
numa tomada arremessou-a com toda a fora contra uma das
paredes.  

O gigante parou a poucos centmetros de Hermione. Olhou em
volta, piscando estupidamente os olhos para ver o que
provocara aquele estranho barulho. Os seus olhos maldosos
viram Harry. Hesitou. Em seguida voltou-se para ele, erguendo
a moca no ar.

- Ol, crebro de ervilha! -- gritou Ron do outro lado da
diviso, lanando-lhe um tubo de metal. O gigante nem deu pelo
objecto que lhe batera no ombro mas ouviu o grito e voltou a
parar, virando o seu horroroso focinho para: o Ron e dando
tempo ao Harry para fugir.

- Vamos, corre, corre - gritou Harry a Hermione, tentando
pux-la para fora da porta mas ela no conseguia mexer-se,
continuava colada  parede, a boca aberta pelo terror.

A gritaria e os ecos pareciam estar a deixar o gigante
enlouquecido. Soltou novo rugido e avanou para o Ron que era
quem estava mais prximo e no tinha como
escapar.

Foi ento que Harry fez algo simultaneamente de uma grande
coragem e de uma grande estupidez: ganhou balano, deu um
enorme salto e conseguiu pr os braos, por detrs, em volta
do pescoo do gigante. Este no sentiu o peso de Harry, mas
at mesmo um gigante no pode ficar indiferente se lhe
espetarem uma varinha de madeira no nariz, e o Harry tinha a
varinha na mo quando saltou. Ela entrou direitinha pelas
narinas do gigante.

Berrando de dor, o gigante dobrou-se e bateu ao acaso com o
basto, enquanto Harry se agarrava com toda a fora para
salvar a pele. A qualquer momento o gigante poderia dar-lhe
uma enorme cacetada.

Hermione desmaiara de medo. Ron puxou da sua varinha e, sem
saber o que fazer, deu consigo a pronunciar o primeiro feitio
que lhe veio  cabea: *_Wingardiam Leviosa*!  

A moca do gigante "saltou-lhe subitamente da mo e subiu,
subiu no ar. Depois, voltou-se lentamente e caiu com um
estrondo impressionante na cabea do seu dono. O gigante
oscilou e estatelou-se no cho, com a cara para baixo, com um
estrpito tal que toda a diviso estremeceu. 

Harry ps-se de p. Tremia e respirava com dificuldade. O Ron
estava ainda com o brao no ar, a segurar a varinha mgica,
olhando atarantado para o que conseguira fazer. 

Foi Hermione quem primeiro falou.

- Ele... estar morto?

- Acho que no - disse o Harry. - Foi s posto fora de
combate.

Dobrou-se e retirou a varinha do nariz do gigante. Estava
coberta por uma substncia granulosa que parecia cola
cinzenta.

- Braagh! ranho de gigante.

Limpou-o s calas da gigantesca criatura. O sbito rudo de
passos fez com que os trs olhassem ao mesmo tempo. No se
haviam dado conta da algazarra que tinham feito mas,  claro,
algum ouvira as pancadas e os roncos do gigante. Momentos
depois, a professora Mc_Gonagall entrou na diviso seguida de
perto por Snape, com Quirrell na retaguarda. Este olhou para
o gigante, suspirou como se fosse perder os sentidos e
sentou-se na sanita agarrado ao corao.

Snape inclinou-se sobre o gigante. A professora Mc_Gonagall
olhou para Ron e Harry. Nunca nenhum deles a vira to zangada.
Os lbios estavam sem cor. A esperana de ganhar cinquenta
pontos para os Gryffindor desapareceu-lhes rapidamente do
esprito.

- O que  que vos passou pela cabea? - perguntou a professora
Mc_Gonagall com uma voz que revelava uma  
raiva gIida. Harry olhou para Ron que ainda estava de varinha
na ar. - Vocs tiveram uma imensa sorte em no serem mortos.
Porque  que no esto na vossa camarata? Snape lanou a Harry
um olhar vivo e penetrante que o fez desviar os olhos para o
cho. Quando  que o Ron iria baixar o brao?

Foi ento que uma vozinha saiu da sombra.

- Por favor, professora Mc_Gonagall, eles andavam  minha
procura.

- Hermione Granger.

Hermione conseguira finalmente pr-se de p.

- Eu fui procurar o gigante porque pensei que podia 
venc-lo sozinha uma vez que tinha lido tanto sobre eles.

Ron deixou cair a varinha. Hermione Granger a dizer uma
mentira a uma professora.

- Se eles no me tivessem encontrado estaria morta. _o Harry
enfiou-lhe a varinha mgica no nariz e o Ron atirou-o ao cho
com a sua prpria moca. Eles no tiveram tempo de chamar
ningum. O gigante ia matar-me quando chegaram aqui.

Harry e Ron tentaram disfarar como se aquela histria no
estivesse a surpreend-los nem um pouco.

- Bem, se  assim... - disse a professora Mc_Gonagall, olhando
fixamente para os trs. - Hermione Granger, como  que foi
pensar que podia enfrentar sozinha um gigante da montanha?

Hermione baixou a cabea. Harry estava mudo. Ela era a ltima
pessoa no mundo capaz de quebrar as regras e ei-la a mentir
para lhes evitar problemas. Era como se o Snape tivesse
comeado a distribuir doces pelos alunos.

- Hermione Granger, os Gryffindor perdero cinco pontos por
isto - disse a professora Mc_Gonagall. - Estou muito
decepcionada consigo. Se no lhe aconteceu nada de mal 
melhor ir j direitinha para a torre dos _gryffindor,  os
alunos esto a terminar o banquete nas salas de convvio das
suas equipas.

Hermione saiu. 

A professora Mc_Gonagall voltou-se para os dois rapazes.

- Bem, continuo a achar que tiveram sorte, mas no eram
quaisquer dois alunos dos primeiros anos que teriam
conseguido vencer um gigante da montanha adulto. Cada um de
vocs ganha para os Gryffindor cinco pontos. O professor
Dumbledore ser avisado disto. Agora podem ir.

Saram dali a correr e no falaram antes de terem subido dois
andares. Era um alvio estarem longe do cheiro do gigante,
alm do resto, claro.

- Devamos ter tido mais do que dez pontos - disse o Ron.

- Cinco, queres tu dizer, uma vez que ela retirou outros cinco
 Hermione. 

- Foi sensacional da parte dela ter-nos tirado daquele sarilho
- admitiu o Ron. -  claro que nos a salvmos...

- Talvez da no precisasse que a salvassem se no tivssemos
fechado aquela coisa l dentro - lembrou o Harry.

Tinham chegado ao retrato da dama gorda.

- Focinho de porco! - disseram enquanto entravam.

A sala comum estava atafulhada de gente e extremamente
barulhenta. Todos os alunos comiam as iguarias que tinham sido
enviadas para cima. S Hermione estava sozinha junto da porta,
a espera deles. Houve um momento de pausa um pouco embaraoso.
Depois, cada um dos trs, sem olhar para os outros, disse,
quase ao mesmo tempo, Obrigado e desapareceram para ir
buscar os pratos.

Mas, a partir desse momento, Hermione Granger tornou-se uma
amiga. H certas coisas que, depois de partilhadas, nos
obrigam a gostar uns dos outros e enfrentar um gigante da
montanha com trs metros e meio de altura era, sem dvida, uma
delas.

Captulo XI -- Quidditch

Quando chegou o ms de Novembro, o tempo comeou a esfriar
muito. As montanhas em volta da escola ficaram de um cinzento
frio e o lago parecia ao enregelado. Todas as manhs o cho
se cobria de geada e podia ver-se o Hagrid, l de cima, a
descongelar vassouras no estdio de Quidditch, agasalhado com
um enorme sobre tudo de plo de toupeira, umas luvas de plo
de coelho e umas enormes botifarras de pele de castor.

A temporada do Quidditch comeara. No sbado, Harry iria
entrar no seu primeiro jogo aps semanas e semana de treino:
Gryffindor contra Slytherin. Se os Gryffindor vencessem,
passariam ao segundo lugar nos clubes do campeonato.

Quase ningum tinha visto o Harry jogar porque Wood assim o
decidira. Era uma espcie de arma secreta. Harry seria mantido
bem em segredo. Mas a notcia de que ele iria jogar como
*seeker* acabou por espalhar-se e Harry j no sabia o que era
pior - se as pessoas que lhe diziam que ele ia ser brilhante
ou as que se ofereciam para correr por debaixo da vassoura
dele com um colcho.

Era uma sorte ter finalmente a Hermione como amiga. As coisas
no teriam sido possveis sem a ajuda dela nos trabalhos de
casa, com todos aqueles treinos de ltima hora que o Wood o
obrigava a fazer.
Foi tambm ela quem lhe emprestou O Quidditch atravs dos
tempos que acabou por ser uma leitura muito interessante.  

Harry aprendeu que havia setecentas maneiras de cometer
irregularidades no Quidditch e que todas elas tinham ocorrido
durante o Campeonato Mundial da Taa, em 1473, que os
*seekers* eram geralmente os jogadores mais pequenos e mais
rpidos e os acidentes mais graves do Quidditch lhes
aconteciam sempre a eles, e que, apesar de as pessoas
raramente morrerem durante o jogo, havia referncias a
desaparecimentos de jogadores que s tinham voltado a aparecer
alguns meses mais tarde, no deserto do Sara.

Hermione tornara-se mais descontrada em relao ao quebrar de
algumas regras, desde que o Ron a tinha salvo do gigante da
montanha e estava muito mais simptica com ele.
Na vspera do primeiro jogo de Quidditch do Harry, estavam os
trs no campo glido durante o intervalo e ela tinha feito
aparecer um fogo azul brilhante que podia ser transportado
dentro de um frasco de compota. Estavam de p, a tentar
aquecer-se, de costas para o fogo, quando Snape atravessou o
ptio. Harry reparou, de imediato, que ele vinha a coxear. Os
trs chegaram-se o mais possvel uns para os outros a fim de
evitar que ele visse o fogo. Tinham a certeza de que no era
permitido. Infelizmente, houve qualquer coisa nos seus olhares
culpados que atraiu Snape e o fez aproximar-se. No tinha
visto o fogo mas parecia estar  procura de um motivo para os
penalizar.

- O que  que tens a, Potter?

Era o *_Quidditch atravs dos tempos*. Harry mostrou-lho.

- Os livros da biblioteca no podem sair da escola - disse o
professor. - D-mo. Cinco pontos a menos para os Gryffindor.

-  uma regra que ele acaba de inventar - resmungou Harry
enquanto Snape se afastava lentamente.

- O que ser que ele tem na perna?  

- No sei mas espero que lhe doa bastante - respondeu o Ron
com azedume.

A sala comum dos Gryffindor estava muito barulhenta nessa
noite. Harry, Ron e Hermione sentaram-se junto d janela.
Hermione estava a rever-lhes os trabalhos-de-casa para os
encantamentos. Nunca ela os deixaria, copiar (Como  que
querem aprender?), mas ao pedirem-lhe que os lesse atentamente
acabavam na mesma por ter as respostas certas
Harry sentia-se impaciente. Queria ter de volta *_o Quidditch
atravs dos tempos* para se distrair e parar de pensar no jogo
do dia seguinte. Porque  que havia de ter medo do Snape?
Pondo-se de p, disse aos amigos que ia pedir de novo o livro
ao professor.

- Quem no vai l sou eu - disseram ao mesmo tempo Ron e
Hermione, mas Harry sabia que Snape no poderia recusar, desde
que o pedido lhe fosse feito na presena de outros
professores. 

Desceu at  sala dos professores e bateu  porta. No teve
resposta. Voltou a bater e nada.

Teria o Snape deixado o livro ali? Valia a pena tentar. 
Empurrou a porta entreaberta e espreitou l para dentro -
deparou-se-lhe uma cena horripilante.

O Snape e o Filch estavam s os dois l dentro. Snape estava a
puxar o manto acima do joelho. Uma, das pernas estava mutilada
e cheia de sangue. Filch segurava, na mo as ligaduras.

-- Maldita coisa - dizia o Snape. - Como  que se pode estar
atento a trs cabeas ao mesmo tempo?

Harry tentou fechar a porta devagarinho, mas...

- POTTER! 

O rosto, de Snape contorceu-se de raiva enquanto soltava o
manto para, esconder a perna. Harry engoliu em seco.

- Vinha s perguntar se -podia ter o livro de volta.  

- FORA DAQUI! 

Harry saiu e, antes que o Snape tivesse tempo de tirar mais
pontos aos Gryffindor, correu a toda a velocidade pelas
escadas acima.

- Conseguiste? - perguntou o Ron quando ele se lhes juntou. -
O que  que se passa?

Num sussurro Harry contou-lhes tudo o que tinha
visto.

- Vocs esto a compreender o que isto significa? - disse
quase sem flego. - Ele tentou passar pelo co das trs
cabeas na noite do Hallowe'en. Era para l que se dirigia
quando o avistmos - ele quer aquilo que o co est a guardar!
E ponho a minha vassoura no fogo em como ele meteu c dentro o
gigante como manobra de diverso!

Hermione estava com os olhos dilatados.

- No, acho que ele no faria isso - disse. - Sei que no 
nada simptico mas no ia tentar roubar uma coisa que o
Dumbledore est a guardar com tanto cuidado.

- Francamente, Hermione, tu achas que todos os professores
so santos - comentou o Ron em tom de censura. - Eu concordo
com o Harry. No confio nem um pouco no Snape. Mas, o que 
que ele deseja tanto? O que estar o co a guardar?

Harry foi deitar-se com a mesma pergunta s voltas na cabea.
O Neville ressonava to alto e ele no conseguia dormir.
Tentou esvaziar a mente - precisava de descansar, o jogo de
Quidditch comeava dentro de algumas horas --, mas a expresso
no rosto do Snape quando Harry lhe vira a perna no era fcil
de esquecer.

O dia amanheceu frio e cheio de luz. O salo estava repleto
com o cheiro delicioso das salsichas fritas e a conversa
bem-disposta de todos os que ansiavam por um bom
jogo de Quidditch.  

- Vens tomar o pequeno-almoo?

- No me apetece comer nada.

- Uma torrada, pelo menos --, insistiu Hermione.

- No tenho fome.

Harry sentia-se pessimamente. Dentro de uma hora ia entrar no
estdio. 

- Harry, precisas de ter foras - disse Seamus Finnigan. - Os
*seekers* so sempre aqueles que so atacado pelo outro lado.

- Obrigado, Seamus - disse Harry enquanto o via deitar
*_Ketchup* a jorros nas salsichas.

Cerca das onze horas quase toda a escola enchia o lugares do
estdio de Quidditch. Grande parte dos alunos tinha binculos.
Por muito elevados que fossem o assentos, era difcil, por
vezes, ver tudo o que estava a acontecer.

Ron e Hermione juntaram-se a Neville, Seamus e Dean na fila
superior. Para grande surpresa de Harry, os amigo tinham feito
uma longa faixa a partir de um dos lenis rodos e destrudos
pelo Scabbers. Dizia: - Potter  Presidncia - e Dean, que
era muito bom em desenho, tinha pintado por baixo da frase o
leo dos Gryffindor. E seguida, Hermione fizera um pequeno
feitio para que a pintura brilhasse em diferentes cores.

Enquanto isso, nos vestirios, Harry, assim como o resto da
equipa, punha o seu manto de Quidditch, vermelho-escarlate
(os mantos dos Slytherin eram verdes).

Wood afinou a garganta para que se fizesse silncio

- O. K. rapazes --, disse.

- E raparigas - completou a *chaser* Angelina Johnson.

- Exactamente. E raparigas - concordou ele.

- _ o grande momento - disse Fred Weasley. - O momento pelo
qual todos ns temos estado  espera - disse George.  

- J sabemos o discurso do Oliver de cor - disse o Fred
dirigindo-se ao Harry. - Fazamos parte da equipa do ano
passado. 

- Caladinhos vocs os dois. - Era a voz do Wood. - Esta  a
melhor equipa que o Gryffindor tem desde h muitos anos. Sei
que vamos vencer.

Olhou para eles como se dissesse - Ou ento...

- Bem, est na hora. Boa sorte para todos.

Harry saiu atrs do Fred e do George do vestirio e, pedindo a
todos os santos que o ajudassem a aguentar a parada, entrou no
estdio que vibrava de entusiasmo.

Madame Hooch iria arbitrar. Estava no meio do estdio 
espera dos dois clubes, com a vassoura na mo.

- Quero que este seja um jogo bonito e leal, ouviram todos? -
disse quando os dois clubes estavam junto dela. Harry reparou
que ela se dirigia particularmente ao capito dos Slytherin,
Marcus Flint, um aluno do quinto ano. Flint parecia ter sangue
de gigante. Pelo canto do olho, Harry viu a faixa que se
erguia acima da multido. dizendo Potter  presidncia. O
corao bateu mais forte, enchendo-o de coragem.

- Montem nas vassouras, por favor. - Harry subiu para a sua
Nimbus dois mil.

Madame Hooch soprou com forca no seu apito de prata.

Quinze vassouras elevaram-se no ar. - E a *quaffle* 
agarrada, de imediato, por Angelina Johnson dos Gryffindor -
que excelente *chaser*  aquela rapariga e bastante bonita por
acaso...

- JORDAN!

- Desculpe, professora. O amigo dos gmeos Weasley, Lee
Jordan, estava a fazer o relato desportivo para o grupo,
observado de perto pela professora Mc_Gonagall.

- E ela est a jogar forte ali em cima, uma passagem ptima
para Alicia Spinnet, um bom achado do Oliver Wood que no ano
passado era apenas suplente - novamente pra Johnson e - oh!
no, os Slytherin agarram a *quaffle*, o capito dos
Slytherin, Marcus Flint, tem *quaffle* e a vai ele - Flint
voando como uma guia vai m... -- no, foi travado por uma
excelente jogada do *keeper* dos Gryffindor, Wood e Gryffindor
tem agora *quaffle* -  a *chaser* Katie Bell dos Gryffindor,
excelente passe em volta de Flint, sobre o campo e - uuppss! -
deve ter dodo, atingida na nuca por uma *bludger* - *quaffle*
foi agarrada pelos Slytherin -  Adrian Pucey a voar em
direco aos postes de marcao mas  travado pela segunda
*bludger* lanada por Fred ou George Weasley, no distingo
bem qual dos dois gmeos - boa jogada dos *beaters* dos
Gryffindor e Johnson est de novo de posse da *quaffle*, o
campo est livre  sua frente. A vai ela em pleno voo - foge
rapidamente a uma *bludger* est face aos postes de marcao -
vamos Angelina - o *keeper* Bletchley a toda a velocidade -
falha - GRYFFINDOR MARCA!!!

Os aplausos aos Gryffindor encheram o ar glido juntamente
com lamentos e uivos dos Slytherins.

- Mexam-se a em cima.

- Hagrid!

Ron e Hermione comprimiram-se para dar espao a que Hagrid se
lhes juntasse.

- Tenho 'tado a ver da minha cabana - disse Hagrid que
transportava um grande par de binculos em volta do pescoo.

- Mas nunc' o mesmo que 'tar no meio da multido. `_inda no
apareceu a *snitch*, hein?

- No --, disse  Ron. - O Harry ainda no fez grande coisa.
 

-Tem 'tado longe das dificuldades. Iss' bom - disse Hagrid,
erguendo os binculos e espreitando em direco ao cu para a
pintinha l em cima que era o Harry.

Bem acima deles, Harry planava acima do jogo, olhando em todas
as direces em busca de um sinal da *snitch*. Aquela atitude
fazia parte de um esquema concebido por ele e pelo Wood.

- Mantm-te fora do ngulo de viso dos outros at veres a
*snitch* - dissera-lhe o Wood. - No queremos que te ataquem
antes de ser absolutamente necessrio.

Quando Angelina marcou, Harry fez uma srie de piruetas para
extravasar os seus sentimentos. Agora, estava de novo atento 
*snitch*. De uma vez avistou algo dourado, mas era apenas o
reflexo de um dos relgios de pulso dos gmeos e, de outra
vez, uma *bludger* resolveu dirigir-se a ele como uma bola de
canho mas Harry desviou-a e Fred Weasley veio atrs dela.

- Tudo bem, Harry? - perguntou ele numa fraco de segundo
enquanto dava uma fortssima tacada na *bludger* lanando-a
contra Marcus Flint.

- Os Slytherin a jogar - repetia Lee Jordan.-O *chaser* Pucey
evita duas *bludgers*, os dois Weasleys e o *chaser* Bell e
voa na direco de... um momento - aquilo seria a *snitch*?

Um murmrio percorreu a multido quando Adrian Pucey largou a
*quaffle*, olhando preocupado por cima do ombro para a pequena
luz dourada que lhe rasara a orelha esquerda.

E Harry viu-a. Com grande velocidade e entusiasmo mergulhou
atrs do vestgio de ouro. O *seeker* dos Slytherin, Terence
Higgs, tambm a tinha visto. Pescoo frente a pescoo
precipitaram-se para a *snitch* - todos os *chasers* pareciam
ter-se esquecido das suas funes, tendo parado no ar a
observ-los.  

Harry era mais rpido do que Higgs - via as asinhas da pequena
bola redonda a agitarem-se como uma flecha  sua frente - e
redobrou a velocidade- OOOHH! Um eco de raiva fez-se ouvir,
vindo dos Gryffindor l de baixo - Marcus Flint bloqueara
Harry propositadamente e a vassoura deste rodopiara. Harry
estava agora agarrado a ela com todas as suas foras.

- Falta - gritaram os Gryffindor.

Madame Hooch dirigiu-se, muito zangada, ao Flint e em seguida
decretou um golo livre dos Gryffindor. Mas, no meio da
confuso,  claro, todos perderam de vista a *snitch*.

- C para baixo para a bancada - gritava Dean Thomas. -
Ponham-no fora, carto vermelho!

- Isto no  futebol, Dean - lembrou-lhe o Ron. - No podem
pr jogadores fora no Quidditch e o que  isso do carto
vermelho? 

Mas Hagrid estava com o Dean. - Deviam mudar as regras. O
Flint podia ter atirado o Harry l de cima.

Lee Jordan estava a ter dificuldade em se mostrar imparcial.

- Bem, depois desta bvia e nojenta batota...

- Jordan - rugiu a professora Mc_Gonagall.

- Quero dizer, depois desta falta imperdovel e revoltante...

- Jordan, estou a avisar-te...

- Est bem, est bem. O Flint quase matou o *seeker* dos
Gryffindor, o que podia ter acontecido a qualquer um, claro. 
Portanto, uma penalizao dada aos Gryffindor por Spinnet que
acaba de retir-la e o jogo continua. Gryffindor ainda a
liderar.

Foi quando Harry desviou outra *bludger* que vinha
perigosamente em direco  sua cabea que aquilo aconteceu.
A vassoura deu uma guinada sbita e assustadora. Por uma  
fraco de segundo, pensou que ia mesmo cair. Agarrou-se bem
com ambas as mos, apertando os joelhos. Nunca tinha tido
aquela sensao.

Voltou a acontecer pouco depois. Era como se a vassoura
estivesse a tentar derrub-lo. Mas as Nimbus dois mil no
decidiam de um momento para o outro atirar as pessoas ao cho.
Harry tentou voltar as costas aos postes de marcao dos
Gryffindor, passou-lhe pela cabea pedir ao Wood que lhe desse
algum tempo - e foi ento que se apercebeu de que a vassoura
estava totalmente descontrolada. No conseguia faz-la virar
nem orient-la fosse para onde fosse. Ziguezagueava pelos ares
fazendo, de tempos a tempos, movimentos bruscos que quase o
obrigavam a desequilibrar-se.

Lee continuava a comentar.

- Slytherin na liderana - Flint com a *quaffle* - passa ao
Spinnet - passa ao Bull - atingido fortemente na cara por uma
*bludger* - espero que lhe parta o nariz - estou a brincar,
professora, os Slytherin marcam, oh! no...

Os Slytherin estavam radiantes. Ningum se tinha dado conta de
que a vassoura do Harry estava a comportar-se daquele modo
estranho. Conduzia-o lentamente, cada vez mais para cima e
para mais longe do jogo, aos saces e arranques contra os
quais Harry nada podia fazer.

- No sei qual  a ideia do Harry - resmungou Hagrid, olhando
atentamente atravs dos binculos. - Quase diria qu'ele perdeu
o controlo da vassoura... mas ele no pode...

De repente, as pessoas em todas as bancadas comearam a
apontar para cima. A vassoura entrara num rodopio com ele
agarrado apenas por um brao. A multido em peso
sobressaltou-se. A vassoura do Harry dera mais um estico e
ele balanava agora, agarrando-a j s com uma das mos.  

- Ter-lhe- acontecido alguma coisa quando o Flin o bloqueou?
- perguntou Seamus num murmrio.

- No  possvel - respondeu Hagrid, com a voz trmula. -
Nada pode interferir e'uma vassoura a no ser a poderosa magia
das trevas, nenhum garoto era capaz de fazer aquilo a uma
Nimbus dois mil.

Ao ouvir estas palavras, Hermione pegou nos binculos mas, em
vez de olhar para cima para Harry, comeou a procurar
nervosamente, no meio da multido.

- O que ests tu a fazer? - resmungou, plido, e Ron.

- Eu sabia - disse Hermione. - Olha, o Snape.

Ron pegou nos binculos. Snape estava no meio da bancada, em
frente da deles. Tinha os olhos postos no Harry e murmurava
algo incessantemente sem mesmo parar para respirar.

- Ele est a fazer qualquer coisa, a enfeitiar a vassoura -
disse Herrnione.

- O que  que podemos fazer?

- Deixem isso comigo.

Antes que o Ron pudesse dizer alguma coisa Hermione
desapareceu. Ron voltou de novo os binculos para Harry. A
vassoura vibrava com tal fora que era quase impossvel
algum aguentar-se por muito tempo. A multido pusera-se de
p, olhando apavorada, enquanto os Weasleys subiam para tentar
ajud-lo a passar para a vassoura de um deles, mas no servia
de nada - de cada vez que se aproximavam a vassoura subia
ainda mais. Comearam ento a voar em crculos, um pouco
abaixo, na esperana de o agarrarem se ele casse.

Marcus Flint agarrou a *quaffle* e marcou cinco vezes sem que
ningum desse por isso.

- V l, Hermione - suplicou Ron, desesperado. Hermione abrira
caminho atravs da bancada onde  Snape se encontrava e
corria agora pela fila atrs dele. Nem sequer olhou para pedir
desculpas quando chocou com a cabea do professor Quirrell que
era a primeira da fila da frente. 
Quando chegou perto de Snape, inclinou-se, pegou na varinha e
murmurou algumas palavras bem escolhidas. Chispas de um azul
brilhante saltaram-lhe da varinha para a bainha do manto de
Snape.

O professor demorou cerca de trinta segundos a aperceber-se
de que o manto estava a pegar fogo. Hermione, entretanto,
ouviu um sbito latido dizer-lhe que tinha feito o que havia a
fazer. Recolhendo o fogo num pequeno frasco de compota que
guardou no bolso, fez o caminho de regresso ao longo da fila -
Snape nunca descobriria o que tinha sucedido.

Foi o suficiente. L em cima, Harry conseguiu montar de novo a
vassoura.

- J podes olhar, Neville! - disse o Ron. O Neville estava com
a cabea enfiada no sobretudo do Hagrid havia quase cinco
minutos.

Harry vinha agora a toda a velocidade em direco ao cho
quando a multido o viu levar a mo  boca como se fosse
vomitar - dominou completamente o estdio --, tossiu e uma
coisinha dourada caiu-lhe na mo.

- Tenho a *snitch*! - gritou, acenando com ela acima da cabea
e pondo fim ao jogo no meio da maior confuso.

- Ele no a apanhou, engoliu-a - berrava ainda vinte minutos
mais tarde o Flint mas ningum lhe ligava nenhuma. 
Harry no quebrara as regras e Lee Jordan continuava a gritar
bem alto os resultados - Gryffindor ganhara por cento e
setenta pontos contra sessenta. Mas o Harry no ouviu nada
daquilo. Estava na cabana de Hagrid onde este preparara um ch
bem forte para ele, Ron e Hermione. 

- Foi o Snape - explicava o Ron. - Eu e a Hermione vimo-lo.
Estava a enfeitiar a tua vassoura, murmurando sem tirar os
olhos de ti.

- Tolice - disse Hagrid que no ouvira uma palavra do que se
tinha passado nas bancadas. - Porqu' qu'ele ia fazer uma
coisa dessas?

Harry, Ron e Hermione olharam uns para os outros s saber que
resposta dar. Harry decidiu-se pela verdade. 

- Eu descobri uma coisa acerca dele - disse a Hagrid. - Ele
tentou passar por aquele co das trs cabeas na noite do
Hallowe'en e foi mordido. Ns achmos que ele estava a roubar
aquilo que o co est a guardar.

Hagrid deixou o bule cair no meio do cho.

- Com'  que vocs sabem do Fluffy penugem? -- perguntou.

- Fluffy?

- Sim, ele  meu, comprei-o a um finrio grego que conheci num
bar o ano passado e emprestei-o ao Dumbledore p'ra guardar o
...

- O qu? - perguntou Harry, ansiosamente.

- No me faam mais perguntas - disse Hagrid bruscamente. -
_ segredo, pronto.

- Mas o Snape est a tentar roub-lo.

- Tolice --, voltou o Hagrid a dizer. - O Snape  um professor
de Hogwarts, no ia fazer urna coisa dessas.

- Ento por que  que ele tentou matar o Harry? - gritou
Hermione.

Os acontecimentos daquela tarde tinham conseguido mudar a
opinio que ela tinha do Snape.

- Eu sei ver quando um indivduo est do lado do mal, li muito
sobre eles!  preciso manter um constante contacto visual e o
Snape nem pestanejou, eu vi!

- `_tou a dizer-te que 'ts enganada! - disse o Hagrid com
vivacidade. - No sei porq' que a vassoura do Harry  fez
aquilo mas o Snape no ia tentar matar um aluno. E vocs,
ouam bem o qu'eu digo - `to a meter-se em coisas 
que no so da vossa conta. Isso pode ser perigoso. _esqueam
aquele co e esqueam o qu'ele 't a guardar. Isso  entre o
professor Dumbledore e Nicolas Flamel...

- Ah... ah... - disse Harry. - Ento existe algum chamado
Nicolas Flamel envolvido em tudo isto?

Hagrid estava furioso consigo prprio.




Captulo XII -- O espelho dos invisveis


O Natal estava quase a chegar. Uma manh, em meados de
Dezembro, Hogwarts despertou coberta de neve. O lago tinha
gelado e os gmeos Weasley foram castigados por terem feito um
feitio, colocando vrias bolas de neve a seguirem o Quirrell
e a deitar-lhe abaixo o turbante.

As poucas corujas e mochos que conseguiram abrir caminho pelo
meio do cu tempestuoso a fim de irem entregar o correio
tiveram de ser tratadas pelo Hagrid, antes de poderem voltar a
voar.

Todos estavam ansiosos pelo comeo das frias. Enquanto na
sala comum dos Gryffindor e no salo principal as lareiras
estavam acesas, os corredores, cheios de correntes de ar,
haviam-se tornado gelados e um vento agreste agitava
tumultuosamente as janelas das salas de aula. As piores eram
as do professor Snape, l em baixo nas masmorras, onde o ar
lhes saa das bocas como fumo e onde tentavam manter-se bem
encostados aos caldeires quentes.

- Tenho tanta pena --, disse Draco Malfoy numa aula de poes,
- de todos aqueles que tm de passar o Natal em Hogwarts
porque ningum os quer em casa.

Olhava para Harry enquanto falava. O Crabbe e o Goyle riam 
socapa. Harry ignorou-os e continuou a pesar o p de espinha
de peixe-leo. O Malfoy tornara-se ainda mais desagradvel
depois do desafio de Quidditch. Irritado por os Slytherin
terem perdido, tentou pr toda a gente a rir, sugerindo que o
prximo *seeker* que substitusse Harry teria de ser uma
raineta com trs grandes bocas abertas. Mas  constatou que
ningum achava graa  sua piada porque todos tinham ficado
verdadeiramente impressionados com o modo como Harry
conseguira mover-se, agarrado  imparvel vassoura. Voltou
ento, cheio de raiva e inveja, a implicar com ele por no ter
uma famlia como devia ser.

Era verdade que o Harry no ia passar o Natal a Privet
Drive. A professora Mc_Gonagall fizera na semana anterior
uma lista dos alunos que iriam ficar em Hogwarts durante
as frias e Harry tinha sido o primeiro a assinar. Mas no
se sentia nada triste com isso. Aquele iria ser, muito
provavelmente, o melhor Natal de sempre. Ron e os irmos
iam tambm ficar porque os pais pretendiam ir  Romnia
visitar o Charlie.

Quando saram dos calabouos, no fim da aula de poes,
depararam com um enorme abeto que lhes barrava a passagem no
corredor. Dois ps enormes surgiam por debaixo da rvore e o
som de uma respirao ofegante f-los adivinhar que por
detrs do abeto se encontrava Hagrid.

- Ol Hagrid, queres ajuda? - perguntou o Ron, esticando a
cabea por entre as ramagens.

- No, 'tou bem, obrigado, Ron.

- Importas-te de sair da frente? - disse a voz fria do Malfoy,
atrs deles. - Ests a tentar ganhar algum dinheiro extra
Weasley? Pensas ficar como guarda dos campos quando deixares
Hogwarts? Aquela cabana do Hagrid deve parecer-te um palcio
comparada com o lagar onde vive a tua famlia.

Ron atirou-se a ele no preciso momento em que o Snape vinha a
subir as escadas.

- WEASLEY!

Ron largou o manto de Malfoy.

- Ele foi provocado, professor Snape --, disse Hagrid,
esticando a sua cara enorme para fora da rvore. - O Malfoy
estava a insultar a famlia dele.  

- Mesmo assim, lutar  contra as regras de Hogwarts 
Hagrid - disse Snape, de forma insinuosa. - Cinco pontos a
menos para os Gryffindor, Weasley, e deves ficar grato por no
serem mais. Agora, saiam todos daqui.

Malfoy, Crabbe e Goyle empurraram bruscamente o pinheiro,
espalhando agulhas por todo o lado e rindo abertamente.

- Ainda o apanho - disse o Ron entredentes quando o Malfoy
virou costas. - Um dia destes, apanho-o.

- Eu detesto os dois --, disse o Harry. - O Malfoy e o Snape.

- V l, animem-se, rapazes. `_tamos quase no Natal. Venham
comigo ver como est o salo, parece uma festa.

E l foram todos atrs do Hagrid e da sua grande rvore at ao
salo onde a professora Mc_Gonagall e o professor Flitwick
estavam a colocar as decoraes de Natal.

- Ah! Hagrid, a ltima rvore; coloca-a ali, naquele canto,
est bem?

O salo estava espectacular. Grinaldas de azevinho pendiam de
todas as paredes e eram doze as altssimas rvores de Natal
que circundavam o salo, umas cintilantes, cheias de
pequeninos pingentes de gelo, outras resplandecentes com
centenas de velinhas acesas.

- Quantos dias faltam p'ra vocs comearem as frias? -
perguntou Hagrid.

- _s um - disse Hermione. - E isso vem lembrar-me que -
Harry, Ron, temos meia hora at ao almoo --, devamos estar
na biblioteca.

-  verdade - disse o Ron, afastando o olhar do professor
Flitwick que fazia sair bolas douradas da ponta da sua varinha
mgica e estava a disp-las nas ramadas da ltima rvore.

- A biblioteca? - perguntou Hagrid, seguindo-os. - Mesm'antes
do comeo das frias, meio estranho, no acham?  

- Ah! no  para nenhum trabalho - disse-lhe O Harry
alegremente. - Desde que fizeste referncia ao Nicolas Flamel,
temos andado a tentar descobrir de quem se trata.

- Vocs o qu? -- Hagrid parecia chocado. - Ouam bem, eu
disse-vos para se deixarem disso. No  da vossa conta o
qu'aquele co est a guardar.

- Ns s queremos descobrir quem  Nicolas Flamel, nada mais -
explicou Hermione.

- A menos que tu queiras dizer-nos e poupar-nos todo este
trabalho - acrescentou Harry. - Devemos ter consultado j uma
boa centena de livros e ainda no encontrmos o nome dele,
d-nos pelo menos uma pista; eu sei que li o nome dele em
qualquer lado.

- Eu no digo nada de nada - respondeu Hagrid com um ar
sorumbtico.

- Parece ento que temos de descobrir por ns prprios-disse o
Ron, deixando Hagrid preocupado a v-lo apressarem-se em
direco  biblioteca.

Tinham efectivamente procurado o nome de Flamel em vrios
livros desde que o Hagrid, por engano, o deixara escapar. De
que outro modo poderiam saber o que Snape andava a tentar
roubar? O problema estava em no saberem por onde comear,
ignorando por completo que Flamel poderia ter feito para ter o
seu nome nos livros. No era referido nos *_Grandes
feiticeiros do sculo vinte*, nem nos *_Nomes notveis do
nosso tempo*. Tambm no falavam dele nas *_Importantes
descobertas da magia moderna* nem no *_Estudo dos novos
desenvolvimentos da feitiaria*. E,  claro, havia ainda que
ter em conta as dimenses da biblioteca. Milhares de livros,
centenas de prateleiras e de filas estreitas.

Hermione reuniu uma lista de assuntos e ttulos sobre os quais
decidira pesquisar, enquanto o Ron, na tentativa, de fazer
qualquer descoberta, deitava abaixo uma pilha de  
livros colocando-os ao acaso nas prateleiras. Harry andava 
volta da seco dos reservados. No lhe saa da cabea a 
ideia de que o Flamel devia ser mencionado num deles.
Infelizmente, era preciso uma autorizao especial, assinada
por um dos professores, para consultar os livros dos
reservados e ele sabia que nunca conseguiria obt-la. Aquele
eram os livros que continham os poderosos ensinamento da magia
negra, que no fora nunca ensinada em Hogwarts e que apenas
eram lidos pelos alunos mais velhos que estudavam a defesa
contra as artes das trevas.

- De que  que ests  procura, rapaz?

- De nada - disse Harry.

Madame Pince, a bibliotecria, ameaou-o com um espanador de
penas.

-  melhor sares daqui, v, v, fora!

Lamentando no ter tido a capacidade de inventar rapidamente
uma desculpa, Harry saiu da biblioteca. Tinham decidido os
trs no perguntar a Madame Pince onde podiam encontrar
Flamel. Estavam certos de que ela saberia inform-los, mas
no podiam correr o risco de o Snape desconfiar do que eles
andavam a fazer.

Harry esperou c fora, no corredor, para ver se o Ron e a
Hermione tinham encontrado alguma coisa, mas sem acalentar
grandes esperanas. Havia quinze dias que pesquisavam mas,
como dispunham de muito pouco tempo geralmente entre uma e
outra aula, no era de estranhar que no tivessem conseguido
encontrar o que procuravam. O que lhes faria falta era umas
boas horas seguidas sem a presena de Madame Pince a espreitar
por detrs deles.

Cinco minutos mais tarde, Ron e Hermione juntaram-se-lhe,
abanando negativamente as cabeas.

- Vocs vo continuar a procurar enquanto eu estiver
fora, no vo? - perguntou Hermione antes de comearem a
almoar. - E mandem-me uma coruja se descobrirem alguma coisa.

- E tu podes perguntar aos teus pais se eles sabem quem  o
Flamel --, disse Ron, - No corres perigo nenhum em
perguntar-lhes.

- Nenhum. So ambos dentistas - lembrou Hermione.


Logo que as frias comearam, Ron e Harry passaram a
divertir-se tanto que nem se lembraram mais do Flamel. Tinham
a camarata s para eles e a sala comum estava bastante mais
vazia do que era costume, o que lhes permitia ocupar sempre os
melhores sofs, junto da lareira. Sentavam-se durante cerca
de uma hora a comer tudo aquilo que pudessem espetar com um
garfo longo - po, bolos de farinha, alteia - e divertiam-se a
conceber estratagemas para fazer com que o Malfoy fosse
expulso, que no passavam de meros exerccios de imaginao
pois tinham perfeita conscincia de que nunca poderiam
funcionar.

O Ron comeou tambm a ensinar ao Harry o xadrez dos
feiticeiros que era exactamente como o dos Muggles com a nica
diferena de que as figuras estavam vivas, o que fazia o jogo
parecer-se um pouco com a direco dos exrcitos durante a
batalha. O tabuleiro e as peas do Ron eram muito antigos e
gastos. Como tudo o que ele tinha, pertenceram antes a algum
da famlia, neste caso ao av. Contudo, o facto de os pees do
xadrez serem velhos no constitua um inconveniente. Ron
conhecia-os to bem que nunca tivera qualquer problema em
faz-los actuar de acordo com a sua vontade.

Harry tinha jogado com os pees que o Seamus Finnigan lhe
emprestara e eles no haviam confiado nele. E certo que no
era ainda um grande jogador mas eles no paravam de lhe dar
conselhos, o que se tornava imensamente confuso: No me
ponhas a, no vs o cavalo  dele?, Manda antes aquele,
podemos perfeitamente perd-lo.

Na vspera de Natal, Harry foi para a cama ansioso pela
chegada do dia seguinte, pela comida e pelo divertimento mas
sem esperar receber nenhum presente. Quando acordou, contudo,
a primeira coisa que viu foi um montinho de embrulhos aos ps
da sua cama.

- Feliz Natal -- disse o Ron, estremunhado, enquanto Harry
saa da cama e enfiava o roupo.

- Para ti tambm - disse Harry. - Olha para isto, h presentes
para mim!

- O que  que tu esperavas, cebolas? - disse o Ron, olhando
para o seu monte que era um pouco mais alto.

Harry pegou no presente que estava em cima. Vinha embrulhado
em papel castanho espesso e uns gatafunhos em toda a volta
diziam *_Para o Harry do Hagrid*. L dentro vinha uma flauta
de madeira, artesanal. Devia ter sido feita pelo prprio
Hagrid. Harry soprou - o som parecia o piar de uma coruja.

O segundo presente, um pacotinho pequeno, continha uma nota.

*_Recebemos a tua mensagem e estamos a enviar-te o teu
presente de Natal. Do tio Vernon e da tia Petnia*. Pegada 
nota vinha uma moeda de vinte escudos.

-  simptico - disse o Harry.

Ron ficou fascinado com os vinte escudos.

- Estranho! - disse ele. - Que formato, isto  dinheiro?

- Podes ficar com ele - disse o Harry, cheio de vontade de
rir com o entusiasmo do amigo.

- Hagrid e os meus tios. Ento, de quem sero estes outros?

- Acho que sei de onde vem esse - disse o Ron, corando um
pouco e apontando para um embrulho rugoso.  

-  da minha me. Eu contei-lhe que tu no ias ter presentes
de Natal e - Oh! no - resmungou. - Ela fez-te uma camisola
Weasley.

Harry abrira bruscamente o papel e dera com uma camisola
verde-esmeralda, feita  mo e uma grande caixa de bombons
confeccionados em casa.

- Todos os anos ela nos manda uma camisola - disse o Ron,
desembrulhando a dele. - E a minha  sempre
castanho-avermelhado.

- _ amoroso da parte dela - disse o Harry, experimentando um
bombom que era muito saboroso.

O seu prximo presente tambm continha doces - uma grande
caixa de sapos de chocolate da Hermione.

Faltava apenas abrir um embrulho. Harry pegou-lhe e sentiu-lhe
o peso. Era leve. Desembrulhou-o.

Algo fluido e de um cinzento prateado deslizou para o cho
onde ganhou ondulaes cintilantes. Ron manifestou-se.

- J ouvi falar disso - referiu com uma voz exaltada, deixando
cair a caixa de feijes de todos os sabores que Hermione lhe
oferecera. - Se  aquilo que eu estou a pensar, e multo raro e
extremamente valioso.

- O que ?

Harry apanhou o tecido prateado brilhante do cho. Tinha um
toque estranho, como o da gua entranada em tecido.

-  um manto de invisibilidade - disse Ron com um olhar de
receio no rosto. - Tenho a certeza. Experimenta-o.

Harry ps o manto em volta dos ombros e Ron soltou um grito.

-  mesmo. Olha para baixo!

Harry olhou para os ps e constatou que haviam desaparecido.
Precipitou-se para o espelho. No havia dvida.  

S a cabea se via, suspensa no ar. O corpo estava totalmente
invisvel. Puxou o manto para cima da cabea e seu reflexo
desapareceu por completo.

- Tem aqui um bilhete - disse o Ron, subitamente. Um papel
caiu do embrulho.

Harry tirou o manto e pegou na carta. Numa letra fina e dbil
que ele nunca tinha visto, estava escrito o seguinte:


O teu pai deixou isto na minha posse antes de morrer.  altura
de te ser entregue. Usa-o bem.

Um bom Natal!

No estava assinado. Harry ficou a olhar para o bilhete
enquanto Ron admirava o manto.

- Eu daria tudo por um manto destes - disse ele - Tudo. Qual 
o teu problema?

- Nada - disse Harry, sentindo-se estranho. Quem lhe teria
enviado o manto? Teria mesmo pertencido ao seu pai.

Antes de poder dizer ou pensar mais alguma coisa, porta da
camarata foi aberta de par em par e Fred e George Weasley
entraram de rompante. Harry escondeu rapidamente o manto. 
No lhe apetecia, por enquanto, partilh-lo com mais ningum.

- Feliz Natal!

- Olhem, o Harry tambm tem uma camisola Weasley.

O Fred e o George usavam camisolas azuis, uma com um grande
*_F* e outra com um *_G*.

- A do Harry  melhor do que as nossas - disse o Fred, pegando
na camisola do Harry. - Ela esmerou-se mais por tu no seres
da famlia.

- Por que  que no vestes a tua, Ron? - perguntou o George.
-V l, veste-a,  bonita e  quentinha.

- Detesto castanho-avermelhado - resmungou o Ron, triste,
enfiando a camisola pela cabea abaixo.  

- A tua no tem nenhuma letra -- observou o George. - Acho que
ela tem a certeza de que no te esqueces do teu nome. Mas ns
no somos parvos, sabemos muito bem que nos chamam Gred e
Forge.

- Que barulheira  esta?

Percy Weasley meteu a cabea na porta com um olhar reprovador.
Estava, com certeza, a desembrulhar os seus presentes porque
transportava tambm no brao, que o Fred lhe agarrou, uma
camisola feita  mo.

- C. de D. (Chefe de Departamento)! Veste-a, Percy, v l,
estamos todos com as nossas, at o Harry tem uma.

- Eu... no... quero - disse o Percy, com a voz empastelada,
enquanto os gmeos lha enfiavam pela cabea, atirando-lhe os
culos ao cho.

- E no te vais sentar hoje com os chefes de departamento -
disse o George. - O Natal  a festa da famlia.

Levaram o Percy para fora do quarto com os braos agarrados
pelas mangas da camisola.


Nunca, em toda a sua vida, Harry tinha tido uma ceia de Natal
como aquela. Uma centena de grandes perus assados, montanhas
de batatas assadas e cozidas, escudelas de grandes salsichas,
terrinas de ervilhas com manteiga, molheiras de prata de
caldo de carne e sumo de uvas e montes de foguetes de
feiticeiros espalhados ao longo da mesa. Estes fantsticos
foguetes no se pareciam nada com os foguetes dos Muggle que
os Dursley costumavam comprar juntamente com brinquedinhos de
plstico e chapeuzinhos de papel colorido. Harry puxou um dos
foguetes dos feiticeiros com o Fred e ele no se limitou a
rebentar, saltou como uma bola de canho e envolveu-os a
todos numa nuvem de fumo azul enquanto de l de dentro
explodia um chapu de contra-almirante e vrios ratinhos
brancos. L em cima, na mesa principal, Dumbledore tinha
trocado  o seu chapu pontiagudo de feiticeiro por um gorro
florido e ria entredentes de uma piada que o professor
Flitwick tinha acabado de lhe ler.

A seguir ao peru vieram os pudins flamejantes e o Percy quase
partiu os dentes na faca de prata coberta pelo molho do pudim. 
Harry observava Hagrid que ia ficando cada vez mais vermelho 
medida que bebia vinho, tendo acabado por beijar a professora
Mc_Gonagall na bochecha. Para grande espanto de Harry, ela deu
uma risadinha e corou, com o chapu alto j  banda.

Quando Harry finalmente se levantou da mesa, ia carregado com
um monte de coisas que tinham sado dos foguetes, incluindo um
conjunto de bales luminosos, no explosivos e o seu novo
estojo de xadrez de feitiaria. Os ratinhos brancos
desapareceram e ele teve a desagradvel sensao de que iam
acabar por ser o jantar de Natal da horrorosa gata Mrs.
Norris.

Harry e os Weasleys passaram uma ptima tarde nos campos,
travando uma renhida batalha com bolas de neve. Por fim,
cheios de frio e j quase sem flego, regressaram  lareira da
sala comum dos Gryffindor, onde Harry estreou o seu novo
tabuleiro de xadrez sendo estrondosamente vencido por Ron.
Acabou por se conformar, acreditando que teria perdido menos
se o Percy no tivesse tentado ajud-lo tanto.

Depois de um lanche de ch, sandes de peru, biscoitos,
docinhos e bolo de Natal, ficaram todos to enfartados e
cheios de sono que, antes de irem para a cama, deixaram-se
ficar no sof a ver o Percy correr atrs do Fred e do George
por toda a torre dos Gryffindor, tentando recuperar o
distintivo que eles lhe tinham roubado.

Aquele fora, sem sombra de dvida, o melhor Natal de toda a
vida do Harry. Contudo, uma coisa tinha permanecido nos
confins da sua mente durante todo o dia. S  quando se
deitasse poderia pensar livremente no assunto: o manto da
invisibilidade e a pessoa que o enviara.

Ron, cheio de peru e de bolo e sem nada misterioso a
preocup-lo, adormeceu mal correu as cortinas do dossel.
Harry inclinou-se para o outro lado da sua cama e tirou de l
de baixo o manto.

Do seu pai... aquilo pertencera ao seu pai. Deixou que o
tecido lhe roasse as mos, mais macio do que a seda, mais
leve do que o ar. *_Usa-o* bem, dizia o bilhete.

Tinha de experiment-lo de novo. Saltou da cama e embrulhou-se
nele. Olhando para baixo, para as pernas, apenas viu sombras e
luar. Era um sentimento estranhssimo.

*_Usa-o bem.*

De repente, sentiu-se completamente acordado. Todas
as divises de Hogwarts se lhe abriam com aquele manto.
A excitao f-lo vibrar enquanto permanecia no silncio
e no escuro. Agora podia ir onde quisesse e o Filch nunca
saberia.

Ron roncou no seu princpio de sono. Deveria acord-lo? Algo
o deteve - era o manto do seu pai - e sentiu isso pela
primeira vez - queria us-lo sozinho.

Esgueirou-se da camarata, desceu as escadas, atravessou
 a sala comum dos Gryffindor e subiu pelo buraco do
retrato.

- Quem est a? - perguntou a dama gorda. Harry no respondeu.
Desceu rapidamente pelo corredor.

Onde poderia ir? Parou com o corao a bater e pensou na
seco dos reservados da biblioteca. Podia ficar a ler durante
todo o tempo que quisesse, o tempo que fosse necessrio at
descobrir quem era Flamel. Dirigiu-se para l, apertando bem
contra o corpo, enquanto andava, o manto da invisibilidade.

A biblioteca estava escura como breu e misteriosa. Harry
acendeu uma lmpada para ver o caminho e as fileiras de  
livros. A luz parecia flutuar sozinha no ar e, apesar de ele
lhe sentir o peso e saber que era o seu brao que pegava nela,
a imagem da luz solta no ar causava-lhe arrepios.

A seco dos reservados ficava na parte de trs da
biblioteca. Passando com todo o cuidado por sobre a corda que
separava estes livros dos outros, ergueu a luz para conseguir
ler os ttulos.

No lhe diziam muito. As letras douradas, desbotadas e gastas
formavam palavras em idiomas que Harry desconhecia. Alguns
nem tinham ttulo. Havia um livro com uma mancha escura que se
parecia horrivelmente com sangue. Harry ficou com os cabelos
em p. Talvez fosse imaginao sua, ou talvez no, mas
pareceu-lhe ouvir um sussurro vindo dos livros, como se eles
soubessem que estava ali algum que no deveria ali estar.
Era preciso comear por um lado qualquer. Colocando a lmpada
no cho com todo o cuidado, procurou na prateleira de baixo
um livro que lhe parecesse interessante. Um volume de capa
negra e prateada chamou-lhe a ateno. Retirou-o com alguma
dificuldade porque era extremamente pesado e, apoiando-o nos
joelhos, abriu-o.

Um grito agudo de sangue coalhado quebrou o silncio - o livro
gritava! Harry fechou-o com um estalido mas a gritaria
continuava, uma nota aguda, constante e ensurdecedora. Caiu
para trs batendo na luz que se apagou. Em perfeito pnico,
Harry ouviu passos l fora no corredor. Metendo o livro
barulhento na prateleira comeou a correr. Passou pelo Filch,
junto da porta. Os olhos claros e estranhos do Filch olharam
atravs dele e Harry esgueirou-se por debaixo do brao do
encarregado, galgando rapidamente o corredor com o grito do
livro ainda nos ouvidos.

Parou junto de uma armadura. A sua preocupao em fugir da
biblioteca fora tal que nem dera ateno ao caminho. E como
estava escuro no fazia ideia de onde se  encontrava. Sabia
que havia uma armadura perto das cozinhas mas devia estar,
pelo menos, cinco pisos acima.

- O professor pediu-me que o avisasse se visse algum a
vaguear por aqui durante a noite e estava algum na
biblioteca, na seco dos reservados.

Harry sentiu o sangue subir-lhe  cabea. Onde quer que ele
estivesse, o Filch conhecia um atalho porque a sua voz untuosa
estava cada vez mais prxima e, para seu grande horror, foi
Snape quem lhe respondeu.

- A seco dos reservados? Bem, no deve estar longe,
apanhamo-lo com certeza.

Harry ficou pregado ao cho enquanto Filch e Snape viraram
numa esquina. No podiam v-lo, claro, mas o corredor era
estreito e se se aproximassem muito podiam chocar com ele - o
manto no fazia com que ele deixasse de ter um corpo slido.

Recuou o mais silenciosamente que pde. Havia uma porta
entreaberta do lado esquerdo. Era a sua nica esperana.
Entrou, sustendo a respirao, tentando no tocar na porta e,
para seu grande alvio, conseguiu entrar na sala sem que eles
dessem por isso. Eles seguiram em frente e Harry encostou-se 
parede, respirando profundamente e ouvindo os passos de ambos
a afastarem-se. Tinham estado perto, muito perto, mas isso
fora alguns segundos antes de ele reparar em algo
absolutamente inslito que existia na sala onde agora se
encontrava.

Parecia uma antiga sala de aulas. As sombras escuras das
secretrias e cadeiras empilhavam-se contra as paredes e havia
um cesto de papis voltado ao contrrio - mas encostado 
parede, de frente para ele, estava algo que no parecia ser
dali, algo que tinha todo o aspecto de ter sido ali posto para
que ningum o encontrasse.

Era um espelho magnfico, to alto que quase tocava no tecto,
com uma moldura trabalhada em ouro e assente  
em dois ps de garra. No topo havia uma inscrio: *_Erised
stra ehru oyt ube cafru oyt on wohsi*.

Tendo afastado o pnico com o desaparecimento de Filch e de
Snape, Harry aproximou-se, querendo mais uma vez olhar para
confirmar que no via o seu reflexo. Colocou-se bem na 
frente do espelho.

Teve de levar as mos  boca para no soltar um grito. Deu
meia volta com o corao mais aflito do que quando o livro
tinha comeado a gritar - porque no s vira o seu reflexo no
espelho como o de uma multido de gente, mesmo ali atrs dele.

Contudo a sala estava vazia. Com a respirao alterada,
voltou-se de novo para o espelho.

L estava ele, reflectido, plido e apavorado e reflectidos
atrs dele estavam pelo menos dez outros. Harry olhou por cima
do ombro, mas no havia ali ningum. Ou estariam todos
invisveis? Estaria ele numa sala cheia de gente invisvel e o
dom daquele espelho seria o de os reflectir a todos,
invisveis ou no?

Voltou a olhar para o espelho. Uma mulher mesmo  sua direita
sorria e acenava-lhe. Ele estendeu a mo e sentiu o ar. Se
ela ali estava efectivamente, poderia tocar-lhe, os reflexos
estavam to prximos... mas apenas sentiu o ar - tanto ela
como os outros apenas existiam naquele espelho.

Era uma mulher muito bonita. De cabelos escuros avermelhados
e os olhos - os olhos dela parecem-se com os meus - pensou
Harry, aproximando-se um pouco mais do espelho. Verdes,
brilhantes, exactamente com o mesmo formato. Mas foi ento que
reparou que ela estava a chorar. A sorrir e a chorar ao mesmo
tempo. O homem alto e magro de cabelos pretos passou-lhe o
brao por cima dos ombros. Usava culos e o cabelo era
desalinhado e rebelde, arrebitava atrs como o seu.  

Harry estava agora to prximo do espelho que o nariz quase
tocava o do seu reflexo.

- Me? - disse baixinho. - Pai?

Eles apenas o olharam a sorrir. E lentamente Harry olhou para
os rostos de todas as outras pessoas no espelho e viu outro
par de olhos verdes como os dele, outros narizes parecidos e
at um velhinho que parecia ter os joelhos nodosos e
protuberantes como os seus. Pela primeira vez, Harry estava a
ver a sua prpria famlia, pela primeira vez na vida.

Os Potters sorriram e disseram-lhe adeus quando ele olhou
ansiosamente para eles, pressionando as mos contra o espelho
como se esperasse cair l para dentro e alcan-los. Tinha um
sentimento poderoso dentro de si, uma mescla de alegria e de
profunda tristeza.

No sonhe ao certo quanto tempo ali permaneceu. Os reflexos
no desapareceram e ele olhou e continuou a olhar at que um
rudo  distncia o trouxe de volta  realidade. No podia
ficar ali. Tinha que encontrar o caminho de regresso 
camarata. Afastou os olhos do rosto da me, murmurando - Eu
volto - e saiu apressadamente do quarto.


- Podias ter-me acordado - disse o Ron, de mau humor.

- Podes ir comigo amanh  noite. Eu vou l voltar. Quero
mostrar-te o espelho.

- Eu gostava de conhecer a tua me e o teu pai - disse o Ron,
impaciente.

- E eu quero conhecer toda a tua famlia, todos os Weasleys,
vais poder mostrar-me os teus outros irmos tambm. 

- Podes v-los em qualquer altura - disse o Ron.

--  s ires  minha casa este Vero. E, se calhar, o espelho
s mostra as pessoas que j morreram. Que pena no  
encontrarmos o Flamel. Come uma fatia de bacon, por que  que
no ests a comer nada?

Harry no conseguia comer. Tinha visto os pais e ia voltar a
v-los nessa mesma noite. Esquecera praticamente o Flamel. No
lhe parecia j to importante como isso. Quem  que queria
saber o que o co das trs cabeas estava  guardar? Qual a
diferena que o Snape o roubasse ou no?

- Ests mesmo bem? - perguntou o Ron. - Pareces estranho.

O que Harry mais temia era no conseguir voltar a dar com o
quarto onde se encontrava o espelho. Com o Ron tambm
embrulhado no manto tinham de avanar muito mais devagar e
tentaram reproduzir o percurso do Harry a partir da
biblioteca, vagueando pelas passagens escuras durante quase
uma hora.

- Estou gelado - disse o Ron. - Vamos esquecer isto e voltar
para a cama.

- No - insistiu Harry. - Eu sei que  por aqui perto.

Passaram pelo fantasma de uma bruxa alta que deslizava em
sentido contrrio mas no viram mais ningum. No preciso
momento em que o Ron tinha comeado a queixar-se de que sentia
os ps gelados, Harry deu com a armadura.

- _ aqui, aqui mesmo, aqui!

Abriram a porta. Harry tirou o manto dos ombros e correu para
o espelho.

L estavam eles. A sua me e o seu pai, radiantes por v-lo de
novo.

- Vs? - murmurou Harry.

- Eu no vejo nada.

- Olha. Olha para eles todos...

- Eu s te vejo a ti.  

- Olha melhor. Pe-te aqui onde eu estou.

Harry colocou-se ao lado dele mas, com o Ron em frente do
espelho, deixara de conseguir ver a sua famlia, s o Ron, no
seu pijama de tecido escocs.

O Ron, por outro lado, olhava perplexo para a sua prpria
imagem.

- Olha s para mim! - disse

- Vs toda a tua famlia em volta?

- No - estou sozinho - mas estou diferente, pareo mais velho
e sou chefe de turma!

- O qu?

- Sou, estou a usar o distintivo como o Bill usava e estou a
segurar a taa da equipa e a taa do Quidditch - sou tambm
capito de Quidditch!

Ron afastou os olhos daquela fantstica viso para olhar
excitado para o Harry.

- Achas que este espelho mostra o futuro?

- Como  que isso  possvel? Toda a minha famlia morreu.
Deixa-me ver de novo.

- Tiveste o espelho s para ti a noite passada, d-me mais um
bocadinho de tempo.

- Tu s queres ver a taa do Quidditch. Qual  o interesse
disso? Eu quero ver os meus pais.

- No me empurres.

Um sbito rudo l fora, no corredor, ps fim  discusso. No
se tinham dado conta da altura a que estavam a falar.

- Depressa.

Ron lanou o manto sobre ambos no momento em que os olhos
luminosos da Mrs. Norris surgiram  porta. Ron e Harry no se
moveram, ambos preocupados com o mesmo pensamento - ser que o
manto da invisibilidade resulta tambm com os gatos? Depois
de um tempo que lhes pareceu nunca mais acabar, ela virou-lhes
as costas.  

- No sabemos se no ter ido chamar o Filch, aposto que nos
ouviu. Anda da. - E Ron puxou o Harry para fora do quarto.


Na manh seguinte a neve ainda no tinha derretido.

- Queres jogar xadrez, Harry? - perguntou o Ron.

- No.

- E se fssemos visitar o Hagrid?

- No. Vai tu sozinho.

- Eu sei que ests a pensar naquele espelho, Harry. No voltes
l esta noite.

- Porque no?

- No sei.  um pressentimento e alm disso j houve sombras
demasiado prximas. O Filch, o Snape, a gata Mrs. Norris anda
por a a farejar. E, apesar de no te verem, se esbarram
contigo ou se bates nalguma coisa?

- Pareces a Hermione.

- Estou a falar a srio, Harry. No vs.

Mas Harry s tinha uma coisa na cabea que era voltar a olhar
para aquele espelho e no era o Ron quem iria impedi-lo.

Nessa terceira noite encontrou mais facilmente o quarto. Ia a
andar to depressa que fazia mais barulho do que mandava a
prudncia, mas no encontrou ningum pelo caminho.

Eles l estavam. A me e o pai a sorrirem-lhe de novo e um dos
avs acenando-lhe alegremente. Harry baixou-se para se sentar
no cho em frente do espelho. Nada iria evitar que ele
passasse ali a noite com a famlia. Absolutamente nada.

Excepto...

- Ento, Harry, aqui de novo?

Harry sentiu-se gelar todo por dentro. Olhou para trs.
Sentado numa das secretrias junto da parede estava nem  
mais nem menos do que Albus Dumbledore. Sem dvida tinha
passado por ele mas; na pressa de chegar ao espelho, nem dera
por nada. 

- Eu, desculpe, no o vi, professor.

- Estranho como o facto de ficares invisvel te torna mope -
disse Dumbledore e Harry ficou aliviado ao constatar que ele
sorria.

- Portanto - disse Dumbledore, saindo da secretria para se
vir sentar no cho com o Harry, - tu, como centenas de outros
antes de ti, descobriste as maravilhas do espelho dos
invisveis.

- No sabia que se chamava assim.

- Mas, sem duvida, j compreendeste o que ele faz!

- Ele, bem, mostra-me a minha famlia...

- E mostrou ao teu amigo Ron a sua prpria imagem como chefe
de turma.

- Como  que o senhor sabe?

- Eu no preciso de um manto para me tornar invisvel - disse
Dumbledore suavemente. - Bem, mas s capaz de me dizer o que 
que o espelho dos invisveis nos mostra a todos?

Harry acenou negativamente com a cabea.

- Deixa-me explicar-te. O homem mais feliz do mundo poderia
usar o espelho dos invisveis como se fosse um espelho normal.
Isto , ele ver-se-ia a si prprio exactamente como era.
Achas que isso o ajudaria?

Harry ficou a pensar. Depois disse lentamente: - Mostra-nos o
que ns queremos... quando queremos...

- Sim e no - disse Dumbledore. - Mostra-nos apenas o mais
profundo e intenso desejo que reside no nosso corao. Tu, que
nunca conheceste a tua famlia, viste-a  tua volta. O Ronald
Weasley, que viveu sempre  sombra dos irmos, viu-se sozinho,
como o melhor de todos. Contudo, este espelho no nos d nem o
conhecimento nem  a verdade. Muitos homens tm: estado na
frente dele, hipnotizados pelo que ele lhes mostra, outros
enlouqueceram sem saber se o que tinham visto era real ou
mesmo possvel.

O espelho vai ser transportado amanh para outro lugar Harry.
E peo-te que no voltes a procur-lo. Se voltares a
encontr-lo, estars preparado. No se resolve nada
divagar em sonhos quando nos esquecemos de viver. Lembra-te
disto. Agora, porque no vais dormir um pouco.

Harry levantou-se.

- Professor Dumbledore, posso fazer-lhe uma pergunta?

- Claro que sim. Acabas de a fazer - disse Dumbledore a
sorrir. - Mas podes fazer outra, v l!

- O que v o senhor quando olha para o espelho 

- Eu? Vejo-me a segurar um par de pegas de l.

Harry olhou-o pasmado.

- Pegas quentinhas  uma coisa que faz imensa falta Passou
mais um Natal e ningum me ofereceu um nico par. Toda a gente
insiste em oferecer-me livros.

S quando j estava na cama  que Harry se apercebeu de que
Dumbledore estava, de certo modo, a brincar. Mas pensou
tambm, enquanto enxotava o Scabbers da almofada, que aquela
fora uma pergunta bastante indiscreta.


Captulo XIII -- Nicolas Flamel


Dumbledore convencera Harry a no voltar a procurar o espelho
dos invisveis. Portanto, durante o resto das
frias de Natal, o manto da invisibilidade ficou dobrado
no fundo da mala de Harry. Ele bem tentava esquecer e
que tinha visto naquele espelho mas no era capaz. Comeou
a ter pesadelos. Sonhava sempre com os pais a desaparecerem
numa exploso de luz verde enquanto uma voz
aguda se ria s gargalhadas.

- Ests a ver que o Dumbledore tinha razo, o espelho podia
levar-te  loucura - disse o Ron quando ele lhe contou aqueles
sonhos.

Hermione, que regressou um dia antes do comeo das aulas, viu
as coisas de uma perspectiva diferente. Ficou horrorizada com
a ideia do Harry andar trs noites a fio a vaguear pela escola
(E se o Filch te tivesse apanhado?) e desapontada por ele
no ter descoberto, pelo menos, quem era o Flamel.

Tinham perdido praticamente a esperana de encontrar Flamel
num dos livros da biblioteca, apesar de Harry continuar a ter
a certeza de que tinha lido o nome dele em qualquer lado. Mal
as aulas comearam, recomeou o sistema de visitas rpidas 
biblioteca entre uma aula e outra. O tempo de que Harry
dispunha era agora bastante reduzido devido ao recomeo dos
treinos de Quidditch.

O Wood estava a exigir cada vez mais da equipa. Nem a chuva
infindvel que viera substituir a neve conseguira quebrar-lhe
o animo. Os Weasleys queixavam-se de que  
ele estava a ficar fantico mas Harry estava com Wood. Se
ganhassem o prximo jogo contra os Hufflepuff ultrapassariam
os Slytherin como equipa vencedora campeonato, pela primeira
vez em sete anos. Alm querer vencer, Harry descobriu que
tinha menos pesadelo quando chegava  cama bastante cansado
dos treinos.

Foi ento que, durante um treino particularmente molhado e
cheio de lama, o Wood lhes deu aquela pssima notcia. 
Tinha acabado de ralhar com os Weasleys que na brincadeira,
no paravam de se bombardear um ao outro fingindo cair das
vassouras.

- Vocs parem imediatamente de criar confuso! -- gritou. - 
esse tipo de coisa que pode levar-nos a perder o campeonato! O
Snape vai arbitrar desta vez e pode agarrar-se a qualquer
coisa para retirar pontos ao Gryffindor!

George Weasley caiu mesmo da vassoura ao ouvir esta palavras.

- Snape vai arbitrar? - balbuciou com a boca cheia de lama. -
Mas ele nunca arbitrou um jogo de Quidditch, no vai ser
justo connosco se ultrapassarmos o Slytherin.

O resto do clube ps-se ao lado de George, protestando

- No  por minha culpa - disse o Wood. - Mas temos de
garantir um jogo to limpo que o Snape no tenha qualquer
motivo para implicar connosco.

Estava tudo muito bem, pensou Harry, mas ele tinha outra razo
para no querer o Snape por perto enquanto jogava Quidditch...

O resto dos jogadores juntou-se para falar, no final do
treino, mas Harry foi direito  sala comum dos Gryffindor
onde encontrou o Ron e a Hermione a jogarem xadrez. Era o
nico jogo em que Hermione costumava perder o que, segundo
Ron, lhe fazia muito bem.  

- No falem comigo agora - disse o Ron quando Harry se sentou
ao lado dele - preciso de concentrao --, mas ao ver a
expresso do amigo, perguntou: - O que  que se passa, ests
com um aspecto horrvel?

Baixinho, para que ningum mais ouvisse, Harry contou-lhes a
sbita e sinistra inteno do Snape de arbitrar o jogo de
Quidditch. 

- No jogues - disse Hermione, de imediato.

- Diz que ests doente --, lembrou o Ron.

- Finge que partiste uma perna - sugeriu Hermione.

- Parte mesmo uma perna - aconselhou o Ron.

- No posso - disse o Harry. - No h nenhum *seeker*
suplente. Se eu lhes faltar os Gryffindor no podero jogar.

Nesse momento o Neville entrou de roldo na sala comum. Todos
se perguntaram como  que ele conseguira subir pelo buraco do
retrato, uma vez que trazia as pernas presas uma  outra com
aquilo que identificaram de imediato como sendo o feitio das
pernas amarradas. Devia ter tido de saltar como um coelho
durante todo o caminho at chegar  torre dos Gryffindor.

Todos se partiram a rir com excepo de Hermione que, sem
perder tempo, ps em prtica a contra magia. As pernas do
Neville afastaram-se e ele ps-se de p a tremer.

- O que  que aconteceu? - perguntou-lhe Hermione, ajudando-o
a sentar-se junto de Harry e Ron.

- O Malfoy - disse o Neville a tremer. - Encontrei-o fora da
biblioteca. Disse que andava  procura de algum em quem
praticar.

- Vai j ter com a professora Mc_Gonagall e comunica-lhe isso
- disse Hermione peremptoriamente.

Neville fez que no com a cabea.

- No quero mais problemas - sussurrou.  

- Tens de o enfrentar, Neville! - aconselhou o Ron. - Ele est
habituado a passar por cima de toda a gente, mas no  por
isso que vamos deitar-nos no cho e facilitar-lhe a vida.

- No precisas de me dizer que eu no sou suficientemente
corajoso para estar nos Gryffindor. O Malfoy j m o disse --,
balbuciou o Neville.

Harry meteu a mo no bolso da capa, retirou de l um sapo de
chocolate, o ltimo da caixa que a Hermione lhe oferecera no
Natal, e deu-o ao Neville que parecia ir comear a chorar.

- Tu vales mais do que doze Malfoys - disse o Harry. - O
chapu seleccionador escolheu-te para os Gryffindor, ou no? E
onde  que est o Malfoy? Nos nojentos Slytherin.

Os lbios do Neville esboaram um tnue sorriso enquanto
desembrulhava o sapo.

- Obrigado, Harry... acho que me vou deitar. Queres este
cromo? Tu fazes coleco, no fazes?

Enquanto o Neville se afastava, Harry olhou para o cromo do
feiticeiro famoso.

- O Dumbledore de novo - disse. - Foi o primeiro que eu... 

Estremeceu, os olhos fixos na parte de trs do cromo. Em
seguida olhou para Ron e Hermione:

- Encontrei-o! - murmurou. - Encontrei o Flamel! Eu disse-vos
que tinha lido sobre ele no comboio quando vinha para c -
ouam isto: O professor Dumbledore  particularmente famoso
por ter derrotado o mago negro Grindelwald em 1945, pela
descoberta de doze utilizaes para o sangue de drago e *pelo
seu trabalho alqumico, juntamente com o seu colega Nicolas
Flamel*!

Hermione deu dois saltos de contente. No se mostrava to
entusiasmada desde o dia em que recebera a nota do seu
primeiro trabalho de casa.  

- Fiquem a - disse ela e correu pelas escadas acima at 
camarata das raparigas. Harry e Ron mal tiveram tempo de
trocar um olhar de espanto e j ela estava de volta com um
enorme livro nas mos.

- Nunca me lembrei de procurar aqui! - murmurou excitada -
Trouxe-o da biblioteca h umas semanas porque me pareceu uma
coisa leve para ir lendo aos bocadinhos.

- Leve? - disse o Ron. Mas Hermione mandou-o ficar quieto e
comeou a procurar nervosamente em todas as pginas,
resmungando sozinha.

Por fim encontrou aquilo de que estava  procura.

- Eu sabia. Eu sabia!

- J podemos falar? - perguntou o Ron, mas ela nem lhe deu
resposta.

- Nicolas Flamel - leu dramaticamente -  o nico autor
conhecido da pedra filosofal!

A frase no teve o impacte que ela esperava.

- A pedra qu? - perguntaram o, dois ao mesmo tempo.

- Oh, francamente, vocs no lem nada. Vejam aqui.

Ps-lhes o livro na frente e Harry Ron leram:

*_O antigo estudo da alquimia relaciona-se com a construo da
pedra filosofal, uma substncia lendria com poderes
fabulosos. A pedra transforma qualquer metal em ouro puro.
Produz tambm o elixir da vida que tornar imortal aquele que
o beber.

Tem havido muitas referncias  pedra filosofal ao longo dos
sculos, mas a nica que de facto existe pertence ao senhor
Nicolas Flamel que festejou o ano passado o seu 665.o
aniversrio e que leva uma vida tranquila em Devon, com a sua
mulher Perenelle, de 658 anos*.


- Esto a ver? - disse Hermione quando Harry e
Ron terminaram. - O co deve estar a guardar a pedra  
filosofal do Flamel. Aposto que ele pediu ao Dumbledore que
tomasse conta dela no s porque so amigos, mas tambm porque
devia calcular que algum andava a tentar roub-la. Por isso
quis a pedra fora de Gringotts!

- Uma pedra que faz ouro e nos impede de morrer - disse o
Harry. - No admira que o Snape ande atrs dela! Qualquer um
andaria.

- E no admira que no consegussemos encontrar Flamel no
Estudo dos novos desenvolvimentos da feitiaria disse o Ron. -
Ele no  propriamente novo com se centos e sessenta e cinco
anos de idade!

Na manh seguinte, na aula de defesa contra as artes das
trevas, enquanto tiravam apontamentos sobre as diferentes
maneiras de tratar as dentadas dos lobisomens, Harry e Ron
discutiam ainda o que cada um deles feria se tivessem uma
pedra filosofal. S quando Ron disse que comprava uma equipa
de Quidditch s para ele  que Harry voltou a lembrar-se do
Snape e do jogo que o esperava.

- Eu vou jogar - disse ele ao Ron e  Hermione. - Se no o
fizer, todos os Slytherin vo ficar a pensar que tenho medo de
enfrentar o Snape. Vou mostrar-lhes. Acabam-se-lhes logo os
sorrisinhos todos se ganharmos o jogo.

- Desde que no tenhamos que te trazer de rastos estdio -
disse Hermione.


_ medida que o jogo se aproximava, Harry ia ficando cada vez
mais nervoso apesar de no dizer nada ao Ron nem  Hermione. O
resto da equipa tambm no estava propriamente calma. A ideia
de vencer os Slytherin no campeonato de clubes era
maravilhosa, havia sete anos que ningum conseguia faz-lo,
mas ser que iam ter essa oportunidade com um rbitro to
parcial?

Harry no sabia se era imaginao sua ou no mas parecia estar
sempre a dar de caras com o Snape, para onde quer que se
dirigisse. Chegou a pensar se ele no andaria a segui-lo, na
tentativa de o encontrar a ss. As aulas de poes estavam a
transformar-se na tortura semanal. O Snape era to horroroso
com, o Harry... Ser que ele descobrira que eles sabiam da
pedra filosofal? Harry no via como tal seria possvel,
contudo, tinha por vezes a pavorosa sensao de que ele
conseguia ler-lhes os pensamento.


Harry sabia que quando, na tarde seguinte, Ron e Hermione lhe
desejaram boa sorte, antes de ele entrar para os vestirios,
nenhum deles tinha a certeza absoluta de voltar a v-lo vivo.
E esse pensamento no era propriamente reconfortante. Harry
quase no ouviu uma palavra do discurso de incentivo do Wood,
enquanto vestia o traje de Quidditch e pegava na sua Nimbus
dois mil.

Enquanto isso, Ron e Hermione tinham arranjado lugar nas
bancadas, ao lado do Neville que no compreendia porque motivo
eles estavam to plidos e preocupados nem porque se tinham
lembrado de levar para o jogo as suas varinhas. 

Do mesmo modo, Harry ignorava por completo que Ron e Hermione
tinham andado a praticar, s escondidas, o feitio das
pernas amarradas, ideia que lhes fora dada pelo modo como o
Malfoy o usara com Neville e estavam agora prontos a p-lo em
prtica contra Snape,  primeira tentativa de este fazer mal
ao Harry.

- No te esqueas,  *_Locomotor Mortis* - murmurou Hermione
enquanto o Ron escondia a varinha dentro da manga.

- Eu sei --, rabujou ele, - no chateies.

De novo no vestirio, Wood chamara Harry  parte.

- No quero pressionar-te, Potter, mas se houve um dia em que
agarrar a snitch fosse fundamental, esse dia  hoje. V se
consegues acabar o jogo antes que o Snape favorea demasiado
os Hufflepuff.  

- Est l fora a escola em peso! -- disse Fred Weasley,
espreitando pela porta. - At, c'o escafandro, at o
Dumbledore veio assistir!

O corao de Harry deu um salto.

- Dumbledore? - repetiu, dirigindo-se  porta para ter a
certeza. Era verdade, aquela barba prateada no enganava
ningum.

Harry teve vontade de rir bem alto tal foi o seu alvio.
Estava salvo. O Snape no teria coragem de tentar fazer-lhe
mal na presena do Dumbledore.

Talvez fosse por isso que tinha um ar to mal-disposto
enquanto as equipas entravam em campo. Facto que o Ron tambm
notou.

- Nunca vi o Snape com um ar to mesquinho - comentou ele com
Hermione. - Olha, comearam, outch!

Algum acabava de atingir Ron na nuca. Fora Malfoy.

- Desculpa Weasley, no te vi.

Malfoy esboou um largo sorriso irnico envolvendo o Crabbe e
o Goyle.

- Gostava de saber quanto tempo o Potter vai aguentar-se,
desta vez, em cima da vassoura. Algum quer apostar? Weasley?

Ron no lhe respondeu. O Snape tinha acabado de conceder aos
Hufflepuff um penlti porque o George Weasley lhes
arremessara uma *bludger*. Hermione, que fazia figas no colo,
tinha os olhos fixos no Harry que voava em crculos sobre o
jogo como um falco, em busca da *snitch*.

- Sabes como  que, na minha opinio, eles escolhem os
jogadores para os Gryffindor? - disse Malfoy bem alto alguns
minutos mais tarde, enquanto Snape concedia aos Hufflepuff
outro penlti sem motivo nenhum. - So as pessoas de quem
eles tm pena. Olha o Potter que no tem pai nem me, os
Weasley que no tm onde cair mortos. Tu deverias estar l
tambm, Longbottom, no tens miolos.  

Neville ficou vermelho como um pimento mas voltou-se no
lugar olhando Malfoy bem nos olhos.

- Eu valho doze de ti - gaguejou.

Malfoy, Crabbe e Goyle rebolaram-se a rir mas o Ron, no
querendo desviar os olhos do jogo, disse: - Isso mesmo,
Neville.

- Longbottom, se os miolos fossem ouro tu eras mais pobre do
que o Weasley e olha que ele j  mais pobre que a pobreza. 

Os nervos de Ron estavam j em franja por causa de Harry.

- Estou a avisar-te, Malfoy. Voltas a abrir a boca e eu...

- Ron - disse subitamente Hermione. - Olha o Harry!

- O qu? Onde?

Harry fizera uma descida espectacular que merecera gritos e
ovaes de todo o pblico. Hermione ps-se de p com os dedos
cruzados em frente da boca enquanto Harry mergulhava direito
ao cho como uma bala.

- Ests com sorte, Weasley. O teu amigo deve ter avistado dez
tostes no cho! - disse o Malfoy.

Ron deu um salto e antes que Malfoy tivesse tido tempo de
perceber o que se passava, j estava em cima dele atirando-o
ao cho. Neville hesitou mas acabou por saltar pelas costas do
assento para ir ajudar.

- V l, Harry! - gritava Hermione, saltando no lugar para ver
melhor a velocidade com que Harry descia direito a Snape - no
reparara sequer que o Malfoy e o Ron rebolavam pelo cho nem
dera pelo tumulto e pelos gritos vindos do turbilho de socos
e murros entre o Neville, o Crabbe e o Goyle.

L em cima, no ar, Snape voltou a vassoura mesmo a tempo de
ver algo escarlate passar por ele, falhando por centmetros -
no segundo seguinte Harry tinha terminado  o mergulho. Com
o brao no ar, vitorioso, mostrava a *snitch* que tinha na
mo.

As bancadas quase vieram abaixo. Era um recorde que nunca fora
atingido, jamais a *snitch* tinha sido agarrada em to pouco
tempo.

-- Ron! Ron! Onde ests? O jogo acabou! O Harry venceu!
Ganhmos! Os Gryffindor esto na frente! - gritava Hermione,
danando e abraando a Parvati Patil que estava sentada na
fila da frente. 

Harry saltou da vassoura a centmetros do cho. Mal podia
acreditar. Tinha conseguido. O jogo terminara. Durara apenas
cinco minutos.

Quando os Gryffindor comearam a encher o campo, Harry viu
Snape aterrar perto dele, plido e de lbios cerrados - Harry
sentiu ento uma mo no ombro e olhou para o rosto sorridente
de Dumbledore.

- Muito bem - disse Dumbledore baixinho, para que s Harry
pudesse ouvir. - _ bom ver que no ficaste perturbado por
aquele espelho e que tens trabalhado a srio. Excelente!

Snape cuspiu causticamente para o cho.


Pouco depois, Harry saiu sozinho do vestirio para guardar a
Nimbas dois mil no barrado das vassouras. No se lembrava de
alguma vez ter estado to feliz. Fizera algo de que podia a
partir de agora orgulhar-se - ningum voltaria a dizer-lhe que
s era famoso pelo nome que tinha. O ar do anoitecer nunca lhe
parecera to doce e agradvel. Caminhou sobre a relva macia,
revivendo aqueles momentos de uma hora antes: os Gryffindor a
correrem para o levantar em ombros, o Ron e a Hermione l
longe, aos saltos, o Ron vibrando de alegria, apesar de ter o
nariz todo a sangrar.

Chegou ao barraco, encostou-se  porta de madeira e olhou
para cima, para Hogwarts, com as suas janelas  avermelhadas
pelo pr do Sol. Gryffindor a liderar. Ele conseguira, ia
mostrar ao Snape...

E por falar em Snape...

Uma silhueta encarapuada desceu sorrateiramente os degraus da
frente do castelo. No querendo obviamente ser visto, avanou
to rpido quanto lhe foi possvel em direco  floresta
proibida. A vitria foi-se apagando da mente de Harry enquanto
o observava. Reconheceu o coxear daquela silhueta. O Snape, a
esgueirar-se para a floresta proibida enquanto todos os
outros estavam a jantar - o que  que se passaria?

Harry saltou de novo para a Nimbas dois mil e arrancou.
Deslizando silenciosamente por sobre o castelo viu Snape
entrar na floresta a correr. Seguiu-o.

As rvores eram to espessas que ele no conseguia
vislumbr-lo. Voou em crculos cada vez mais baixos, tocando
os ramos cimeiros das rvores at que ouviu vozes. Planou em
direco a elas e em seguida aterrou sem fazer baralho no alto
de uma faia.

Trepou com todo o cuidado ao longo das pernadas, bem agarrado
 vassoura, tentando espreitar atravs das folhas.

L em baixo, numa espcie de clareira cheia de sombras,
estava Snape mas no se encontrava sozinho. Quirrell fazia-lhe
companhia. Harry no conseguia ver o olhar dele mas gaguejava
como nunca. Esticou-se, tentando perceber as suas palavras. 

- Nnno sssssei ppporque quis encccontrar-se ccomigo, logo
aqqqui, Severus...

- Oh! porque se trata de uma conversa em particular - disse
Snape na sua voz gelada. - Ao fim e ao cabo, os estudantes no
devem saber da pedra filosofal.

Harry inclinou-se para a frente. O Quirrell gaguejava e Snape
interrompeu-o.  

- J conseguiu descobrir o meio de passarmos por aquela besta
do co do Hagrid?

- Mmmas Ssseverus, eu...

- Voc no me quer ter como inimigo. Ou quer, Quirrell? -
disse o Snap, dando um passa em direco a ele.

- Eu... no sei o que vvvoc...

- Sabe muito bem o que eu quero dizer.

Um mocho piou to alto que Harry quase caiu da rvore abaixo.
Equilibrou-se a tempo de ouvir o Snape dizer: - O seu
bocadinho de *hocus pocus*. Estou  espera.

- M... as eu no sssei.

- Muito bem - cortou Snape. - Vamos voltar a ter uma
conversinha muito em breve, quando voc tiver tido tempo de
repensar e decidir a quem quer ser leal.

Lanou o manto sobre a cabea e desapareceu da clareira Estava
a escurecer muito rapidamente mas Harry ainda conseguiu ver o
Quirrell imvel, como que petrificado


- Harry, onde  que tens estado? - perguntou
Hermione na sua voz aguda.

- Ganhmos! Ganhmos! Ganhmos! - gritava o Ron dando palmadas
nas costas do amigo. - Deixei o Malfoy com um olho negro e o
Neville bateu-se sozinho contra o Crabbe e o Goyle! Ele ainda
est magoado mas a Madame Pomfrey diz que vai ficar bem - e
falando em mostrar aos Slytherin. Estava toda a gente  tua
espera na sala comum. Estamos a festejar, o Fred e o George
fanaram uns bolos e umas coisas das cozinhas.

- Esqueam isso agora - disse Harry, sem flego. - Vamos
procurar uma sala vazia. Esperem s at ouvirem o que tenho
para vos contar...

Harry assegurou-se de que o Peeves no estava l dentro antes
de fechar a porta atrs de si e, em seguida, contou-lhes o
que tinha visto e ouvido.  

- Portanto estvamos certos,  a pedra filosofa e o Snape est
a tentar obrigar o Quirrell a ajud-lo a roub-la.
Perguntou-lhe se ele sabia como passar pelo Fluffy e disse
qualquer coisa sobre o *hocus pocus* do Quirrell - suponho que
deve haver outras coisas a guardar a pedra alm do Fluffy,
encantamentos provavelmente e o Quirrell deve ter feito um
feitio qualquer contra as artes das trevas de que o Snape
precisa para conseguir passar.

- Queres com isso dizer que a pedra s est a salvo enquanto o
Quirrell fizer frente ao Snape? - perguntou alarmada,
Hermione.

- Ela vai sair dali na prxima tera-feira --, lembrou o Ron.

Captulo XIV -- Norbert, o drago noruegus


Mas o Quirrell deve ter sido mais corajoso do que eles haviam
suposto. Nas semanas que se seguiram, parecia estar cada vez
mais magro e mais plido mas no dava a impresso de ter
cedido.

De cada vez que passavam pelo corredor do terceiro andar,
Harry, Ron e Hermione encostavam os ouvidos  porta para se
certificarem de que o Fluffy ainda estava a rosnar l dentro.
O Snape continuava a demonstrar o seu habitual mau humor, o
que, sem dvida, significava que a pedra ainda estava a salvo.
Durante esses dias, sempre que o Harry passava pelo professor
Quirrell, sorria-lhe como que a transmitir-lhe coragem e o Ron
comeara a dizer a todos que parassem de se rir sempre que ele
gaguejava.

Hermione, contudo, tinha algo mais a preocup-la alm da pedra
filosofal. Comeara a fazer revises e a sublinhar a vrias
cores os apontamentos. O Harry e o Ron no se teriam
importado, se ela no insistisse com eles para que fizessem o
mesmo.

- Hermione, falta uma eternidade para os exames!

- Dez semanas - respondeu ela. - No  uma eternidade,  um
segundo para Nicolas Flamel.

- Mas ns no temos seiscentos anos de idade --, lembrou o
Ron. - Alm disso, o que  que tu precisas de rever se j
sabes tudo?

- O que eu preciso de rever? Vocs so doidos? Tm conscincia
de que precisamos de passar nestes exames para entrarmos no
segundo ano? So muito importantes.  Eu devia ter comeado a
estudar h um ms, nem sei o que me deu para no o fazer...

Infelizmente os professores pareciam pensar exactamente como
ela. Passaram-lhes tantos trabalhos de casa que as frias da
Pscoa no se compararam nem de perto nem de longe com as do
Natal. Era difcil descontrair com a Hermione ao lado a
repetir alto as doze utilizaes do sangue de drago ou
praticando movimentos com a varinha, a resmungar ou a gritar.
Harry e Ron passaram a maior parte do tempo com ela na
biblioteca, tentando acabar todos os trabalhos.

- Nunca mais me quero lembrar disto - desabafou o Ron, uma
tarde, atirando com a pena pelos ares e olhando ansiosamente
pela janela da biblioteca. Era o primeiro dia bonito que havia
em meses. O cu estava de um azul muito clarinho e sentia-se
no ar a chegada do Vero.

Harry, que estava  procura de dctamo em *_Uma centena de
ervas e fungos mgicos*, s olhou quando ouviu o Ron gritar: -
Hagrid, o que ests a fazer na biblioteca?

Hagrid apareceu, arrastando os ps e parecendo esconder
qualquer coisa atrs das costas. Estava bastante deslocado
naquele lagar, dentro do seu enorme sobretudo de pele de
toupeira.

- `_tava s  procura d'uma coisa --, justificou-se num tom de
voz manhoso que lhes chamou a ateno. - E vocs, o qu' que
'to aqui a fazer? - Parecia desconfiado. - No   procura do
Nicolas Flamel, pois no?

- Que ideia! H imenso tempo que descobrimos quem ele  --,
disse o Ron, tentando impression-lo. - E sabemos que o co
est a guardar a pedra filosofal.

-- Shhh! - O Hagrid olhou em volta rapidamente,
certificando-se de que ningum os ouvira. - No te ponhas para
a a dizer isso em voz alta. O que  que te deu?  

- H algumas perguntas que. queramos efectivamente fazer-te -
disse o Harry. - Sobre o que est a guardar a pedra alm do
Fluffy. 

- Shhhhh! - voltou a fazer o Hagrid. - Venham mais tarde 
minha cabana. No prometo dizer-vos nada mas no andem pr'qui
a espiolhar. No  suposto os estudantes saberem disto.

- At logo - disse Harry. 

Hagrid desapareceu.

- O que  que ele estaria a esconder atrs das costas? -
perguntou Hermione, pensativa.

- Achas que tinha alguma coisa que ver com a pedra?

- Vou verificar em que seco  que ele esteve --, disse o Ron
que j tinha trabalhado bastante. Voltou minuto depois com um
monte de livros nos braos e depositou-os sobre a mesa.

- Drages --, murmurou. - O Hagrid estava  de alguma coisa
sobre drages. Olhem s os ttulos: *_espcies de drages do
Reino Unido e Irlanda, Do Ovo ao Inferno, um guia para os
guardas de drages*.

- O Hagrid sempre sonhou ter um drago. Disse-mo ele no
primeiro dia em que nos conhecemos - confessou Harry.

- Mas  contra todas as nossas leis --, lembrou o Ron.

- A criao de drages foi proibida pela Conveno de Warlock
em 1709, todos sabem disso. Seria totalmente impossvel
passarmos despercebidos aos Muggles se tivssemos drages no
jardim. Alm disso no  possvel domesticar drages, 
perigoso. Devias ver as queimaduras que o _charlie fez a lidar
com alguns drages selvagens na Romnia.

- Mas no h drages selvagens no Reino Unido no? - perguntou
Harry.

- Claro que h --, afirmou o Ron, - os vulgares verdes galeses
e os pretos das Ilhas Hbridas. O Ministrio  da Magia tem
um trabalho a abafar a existncia deles, podes crer. Temos de
arranjar feitios para conseguir que os Muggles que lhes
puseram a vista em cima se esqueam por completo.

- Ento o que estar o Hagrid a fazer? - perguntou Hermione.


Quando bateram  porta da cabana do guarda dos campos, uma
hora mais tarde, ficaram espantados ao verificar que todas as
cortinas estavam fechadas. Hagrid gritou: - Quem ? - antes de
os mandar entrar e, em seguida, fechou devagarinho a porta sem
fazer rudo.

Estava um calor sufocante l dentro. Apesar de estar um dia
quente, na lareira crepitava um fogo esplendoroso. Hagrid
fez-lhes ch e ofereceu-lhes sandes de doninha que eles
naturalmente recusaram.

- `_To, queriam fazer-me uma pergunta?

- Sim --, disse o Harry. No valia a pena estar com rodeios. -
Queramos saber se nos podias dizer o que  que est a guardar
a pedra filosofal alm do Fluffy.

Hagrid olhou-o de sobrancelhas cerradas.

-`_t claro que no posso - disse. - Primeiro, nem eu sei.
Segundo, vocs j 'to a saber de mais e por isso no vos
dizia mesmo que soubesse. Aquela pedra 't aqui por um bom
motivo. Quase foi roubada de Gringotts; calculo que saibam
disso? Fico parvo com' que descobriram quem era o Fluffy.

- V l, Hagrid, tu podes no querer dizer-nos mas no tentes
convencer-nos de que no sabes. Tu ests a par de tudo o que
se passa por aqui --, disse Hermione com uma voz sedutora. -
Ns s gostaramos de saber em quem ter o Dumbledore confiado
tanto para o ajudar nisto, alm de ti.

O peito de Hagrid inchou com estas ltimas palavras. Harry e
Ron olharam espantados para Hermione.  

- Eu suponho que no far mal dizer-vos isto... eu... ele
pediu-me o Fluffy emprestado e depois alguns dos professores
fizeram uns feitios... o professor Sprout, o professor
Flitwick, a professora Mc_Gonagall --, Hagrid contava-os pelos
dedos, 
-- o professor Quirrell e o prprio Dumbledore, claro. Ah,
esquecia-me de um, o professor Snape.

- Snape?

- Sim, 'inda no sabiam isto, vocs. '_to a ver, o Snape
ajudou a proteger a pedra. No ia depois roub-la...

Harry tinha a certeza de que o Ron e a Hermione estavam a
pensar o mesmo que ele.

Se o Snape tivesse feito parte desse grupo, ter-lhe-ia sido
fcil descobrir como os outros professores haviam guardado a
pedra. Ele parecia saber tudo menos o feitio do Quirrell e
como passar pelo Fluffy.

- Tu s o nico que sabe como  possvel passar pelo Fluffy,
no s? - perguntou Harry cheio de curiosidade. - E nunca
dirias a ningum, pois no, a nenhum dos professores?

- A ningum a no ser ao Dumbledore --, disse o Hagrid cheio
de orgulho.

- Bem, isso j  qualquer coisa - murmurou Harry aos outros. -
Hagrid, no se pode abrir uma janela, estou a sufocar?

- No posso, Harry, desculpa. - Harry reparou no modo como ele
olhava para o fogo. Seguiu-lhe o olhar.

- O que  aquilo, Hagrid? 

Mas ele j descobrira o que era. Bem no meio do lume, por
debaixo da chaleira, estava um enorme ovo negro.

- Ah! - disse o Hagrid, coando nervosamente a barba. - Aquilo
... er...

- Onde o arranjaste, Hagrid? - perguntou Ron, inclinando-se
para o lume para o ver mais de perto. - Deve ter-te custado
uma fortuna.  

- Ganhei-o - disse Hagrid. - A noite passada fui  vila tomar
umas bebidas e comecei a jogar s cartas c'um desconhecido.
At acho, qu'ele ficou satisfeito por se ver livre dele.

- Mas o que  que vais fazer com ele depois de o chocar? -
perguntou Hermione.

- Bem, tenh'andado a ler - disse Hagrid, retirando um grande
livro debaixo da almofada. - Trouxe este da biblioteca -
*_Criao de drages para prazer e utilizao* --, 't um
pouc'ultrapassado mas diz aqui tudo. Manter o ovo ao lume
porque as mes respiram sobre eles, e quando o beb drago
nascer alimente-o com um balde de brande misturado com sangue
de galinha, de meia em meia hora. E aqui, 'to a ver?  como
se reconhecem os diferentes ovos. O qu'eu tenho  um drago
negro noruegus. So muito raros.

Parecia extremamente feliz consigo prprio mas Hermione no.

- Hagrid, tu vives numa casa de madeira - disse ela.

Mas Hagrid no estava a ouvi-la. Sentia-se alegre enquanto o
reavivava o lume.


Portanto, agora tinham outra preocupao: o que poderia
acontecer a Hagrid se algum descobrisse que ele estava a
manter ilegalmente um drago dentro da cabana.

- Pergunto-me s vezes como ser ter uma vida calma -
suspirava o Ron,  medida que, sero aps sero, travavam uma
dura batalha para conseguir fazer todo o trabalho de casa que
lhes era passado pelos professores. Hermione tinha j comeado
a fazer horrios de revises para eles os dois, o que os
levava quase  loucura.

At que uma manh, durante o pequeno-almoo, a Hedwig trouxe
ao Harry mais um bilhete de Hagrid. Ele escrevera apenas duas
palavras: Est a nascer.  

O Ron queria faltar  aula de herbologia e ir direito  cabana
mas Hermione nem considerou a hiptese.

- Hermione, quantas vezes na vida vamos poder, assistir ao
nascimento de um drago?

- Temos aulas e isso vai criar-nos problemas. No fazes 
sequer ideia do que poder acontecer ao Hagrid quando algum
descobrir o que ele anda a fazer.

- Cala-te --, murmurou o Harry.

O Malfoy estava a poucos centmetros de distncia e tinha
parado, morto por ouvir a conversa. Teria conseguido captar
alguma coisa? Harry no gostou nem pouco da expresso que viu
na cara dele.

Ron e Hermione discutiram durante quase todo o caminho at 
aula de herbologia e no fim ela acabou por concordar em darem
a tal corrida at  cabana do Ha durante o intervalo grande, a
meio da manh. Quando tocou a campainha no final da aula, os
trs largaram as pequenas ps cncavas com que estavam a
trabalhar e partiram apressados pelo meio dos campos at 
beira da flore Hagrid cumprimentou-os excitado e
entusiasmadssimo.

- Est quase! - e f-los entrar, sem perda de tempo.

O ovo estava sobre a mesa e tinha grandes rachas. Algo l
dentro movia-se. Ouvia-se nitidamente um barulhinho que vinha
do interior.

Todos eles puxaram as cadeiras para junto da mesa ficaram a
ouvir-lhe a batida do corao.

De um momento para o outro houve uma espcie de arranho e o
ovo abriu-se. O beb drago tombou pesadamente sobre a mesa.
No era propriamente bonito.

Segundo Harry ele parecia um guarda-chuva preto, todo
amarrotado, com umas asas enormes em comparao com corpo
escanzelado, em forma de jacto, com um nariz grande de narinas
abertas, as razes dos corninhos  vi e uns olhos
protuberantes cor de laranja.  

Espirrou. Uma srie de fascas saltaram-lhe do nariz.

- No  lindo? - murmurou o Hagrid. Estendeu uma mo para
fazer uma carcia na cabea do pequeno drago, mas ele tentou
abocanh-la mostrando-lhe os dentes afiados.

- Olha, ele conhece a mam dele - disse o Hagrid.

- Hagrid --, perguntou Hermione. - Quanto tempo leva
exactamente um drago noruegus a crescer?

Hagrid ia responder quando a cor lhe desapareceu do rosto -
deu um salto at  janela.

- O que  que se passa?

- Estava algum a espreitar p'la fresta das cortinas, um
garoto que vai a correr em direco  escola.

Harry aproximou-se da porta e espreitou. Mesmo  distncia no
lhe restava a menor dvida.

Malfoy vira o drago.

No decorrer da semana seguinte, algo no sorriso cnico de
Malfoy deixou o Harry, o Ron e a Hermione bastante nervosos.
Passaram praticamente todo o seu tempo livre na cabana do
Hagrid, tentando cham-lo  razo.

- Deixa-o ir --, sugeriu o Harry, - liberta-o.

- No posso --, disse Hagrid, - ele morreria logo.

Olharam para o drago. Crescera para o triplo do tamanho em
apenas uma semana. Saa-lhe fumo pelas narinas. Hagrid deixara
de fazer as suas obrigaes como guarda dos campos porque o
dragozinho mantinha-o ocupado de manh  noite. O cho estava
repleto de garrafas vazias de brande e penas de galinha.

- Decidi chamar-lhe Norbert - disse Hagrid, olhando para o
drago com os olhos turvos pelas lgrimas.

- Ele agora j me conhece mesmo, reparem s. *_Norbert!
Norbert! Onde est a mam*?

- Ele passou-se - murmurou o Ron ao ouvido do Harry.  

Hagrid --, gritou Harry,- dentro de quinze dias o Norbert vai
ter o tamanho da tua casa. O Malfoy pode ir denunciar-te ao
Dumbledore a qualquer mometo.

Hagrid mordeu o lbio.

-- Eu sei que no posso ficar com ele p'ra sempre. _mas no
posso abandon-lo, no posso.

Harry voltou-se subitamente para Ron. 

- Charlie - disse ele.

- Mau, tambm te ests a passar? Eu sou o Ron.

- No  isso. O teu irmo _charlie que est na Romnia a
estudar drages. Podamos mandar-lhe o Norbert. O Charlie
podia tomar conta dele-nos primeiros tempos e depois
devolv-lo  liberdade!

- Brilhante --, disse o Ron: - E o Hagrid?

Mas no fim o Hagrid concordou e disse que podiam mandar uma
coruja ao Charlie a perguntar se ele aceitava esse encargo.


A semana seguinte passou a correr. Na quarta-feira noite a
Hermione e o Harry estavam sentados na sala comum, depois de
toda a gente ter ido para a cama. O relgio de parede tinha
batido a meia-noite quando o buraco do retrato se abriu. O Ron
apareceu no se sabe de onde tirando o manto de invisibilidade
do Harry. Estivera na cabana, ajudando a dar de comer ao
Norbert que comia agora ratos mortos atravs de uma grade.

- Mordeu-me --, disse ele, mostrando-lhes a mo embrulhada num
leno ensanguentado. -- No vou conseguir pegar numa pena
durante uma semana. Acho que aquele drago  o animal mais
horroroso que alguma vez encontrei, mas da maneira como o
Hagrid est, parece-lhe to fofinho como um coelho. Quando
ele me mordeu, mandou-me embora por o ter assustado e quando
sa, estava a cantar-lhe uma cano de embalar.  


Ouviu-se um rudo na janela escura.

-  a Hedwig! - disse, o Harry, apressando-se a deix-la
entrar. - Deve trazer notcias do, Charlie! 

Os trs juntaram as cabeas e leram o bilhete:

*_Querido Ron

*_Como ests? Obrigado pela tua carta. Terei todo o gosto em
tomar conta do Drago noruegus mas no vai ser fcil faz-lo
chegar, aqui. Julgo que o melhor a fazer ser mand-lo por uns
amigos meus que vem visitar-me na prxima semana. O problema 
que no podem ser vistos a transportar um drago ilegal.

*_Poderias levar o drago at  torre mais alta, no sbado 
meia-noite? Eles iro a ter contigo e trazem o drago
enquanto est escuro.

*_Responde-me to breve quanto possvel.

*_Um abrao do teu irmo.

Charlie*


Olharam uns para os outros.

- Temos o manto da invisibilidade - disse o Harry,
No deve ser muito difcil - julgo que ele  suficientemente
grande para cobrir dois de ns e o Norbert.

O facto de os outros dois terem concordado de imediato era
bem a prova de como a semana tinha sido m. Valia tudo para se
verem livres do Norbert... e do Malfoy.


Havia uma dificuldade. Na manh seguinte a mo do Ron que fora
mordida tinha inchado para o dobro do tamanho e ele no sabia
se seria prudente ir procurar Madame Pomfrey - ser que ela
reconheceria a ferida como sendo uma dentada de drago? 

Mas, de tarde, no teve mesmo outra alternativa. A ferida
tornara-se esverdeada como se os dentes do Norbert fossem
venenosos.  

Harry e Hermione correram at  ala hospitalar e foram dar com
o Ron de cama, num estado lastimoso.

- No  s a mo --, murmurou: - Embora me doa tanto como se
fosse ficar sem ela. O Malfoy disse  Madame Pomfrey que
precisava de me pedir um livro emprestado s para poder vir
aqui gozar com a minha cara. Fartou-se de me ameaar que ia
contar  Madame Pomfrey quem me dera a dentada - eu disse-lhe
que tinha sido um co mas no sei se ela acreditou. Eu no
devia ter atacado o Malfoy no jogo de Quidditch, agora ele
est a vingar-se.

Harry e Hermione tentaram acalm-lo.

-- Vai estar tudo acabado no sbado  meia-noite - disse
Hermione, mas no foi o suficiente para acalmar o Ron. Pelo
contrrio. Sentou-se e comeou a lamentar-se.

- Sbado  meia-noite - disse numa voz sumida. - Oh! no. Oh!
no, acabo de lembrar-me, a carta do Charlie estava dentro do
livro que o Malfoy levou. Ele vai descobrir tudo.

Harry e Hermione no tiveram tempo de responder porque Madame
Pomfrey entrou naquele preciso momento e mandou-os sair,
dizendo qu o Ron precisava absolutamente de descansar.


-  demasiado tarde para alterar os planos --, disse Harry a
Hermione. - No temos tempo de mandar outra coruja e esta pode
ser a nossa nica possibilidade de nos vermos livres do
Norbert. H que correr o risco. E o Malfoy no sabe da
existncia do manto da invisibilidade.

Quando foram dizer ao Hagrid que lhes abrisse a janela para
poderem falar com ele, deram com Fang, o co de caa, sentado
c fora com uma grande ligadura na cauda.

- No vos posso deixar entrar - respondeu quase sem flego. -
O Norbert est c'uma atitude que no inspira confiana. Mas
no  nada qu'eu no consiga controlar.  

Quando lhe contaram da carta do Charlie, os olhos
encheram-se-lhe de lgrimas, embora o motivo pudesse ser
tambm a dentada que o Norbert acabara de lhe dar numa das
pernas. 

- Aaargh! est bem, ele s me agarrou a bota a brincar,
afinal ainda  um beb.

O beb batia com a cauda na parede, fazendo estremecer a
janela. Harry e Hermione regressaram ao castelo com a sensao
de que o sbado nunca mais chegava.


Teriam sentido pena do Hagrid quando chegou o momento de este
se despedir do Norbert, se no estivessem to preocupados com
o que tinham de fazer. Era uma noite escura e cheia de nuvens
e estavam a chegar com um ligeiro atraso  cabana do Hagrid,
porque tinham sido obrigados a esperar que o Peeves sasse do
caminho, no vestbulo de entrada onde ele jogava tnis contra
a parede.

Hagrid tinha metido o Norbert numa enorme caixa de grades.

- Ele tem um monte de ratos e algum brande pr viagem - disse
o Hagrid. - E meti a um ursinho de pelcia p'ra ele no se
sentir sozinho.

De dentro da caixa de grades vinham rudos de rasges que
deram ao Harry a certeza que o urso tinha acabado de ficar sem
cabea. 

- Adeus, Norbert! - balbuciou Hagrid, enquanto Harry e
Hermione tapavam a caixa com o manto da invisibilidade e se
cobriam tambm a si prprios. - A mam nunca se vai esquecer
de ti!

Nem eles prprios perceberam muito bem como foi que
conseguiram chegar com a jaula l acima ao castelo. A
meia-noite aproximava-se enquanto levantavam com esforo o
Norbert pelas escadarias de mrmore, ao longo do vestbulo e
dos corredores escuros. Mais outra escada.  

E outra. Nem mesmo um dos atalhos que o Harry conhecia
conseguiu facilitar-lhes a tarefa.

- Estamos quase a chegar! - disse Harry num desejo ansioso
quando atingiram o corredor que ficava debaixo da torre mais
alta.

Mas, subitamente, um movimento em frente deles fez com que
quase deixassem cair a jaula. Esquecendo-se de que estavam
invisveis, esconderam-se nas sombras, olhando para as
silhuetas escuras de duas pessoas numa luta corpo a corpo, a
cerca de trs metros de distncia do local onde se
encontravam. Uma luz brilhava no escuro.

A professora Mc_Gonagall, num roupo aos quadrados e com uma
rede de dormir no cabelo, agarrava Malfoy por uma orelha.

- Punio - gritava ela. - E vinte pontos a menos para os
Slytherin! Andar por aqui a meio da noite, como se atreve?

- No est a compreender professora Mc_Gonagall, p
Harry Potter vem ai e tem com ele um drago!

- Onde  que se ouviu maior disparate! No tem vergonha de
inventar uma mentira dessas? Vamos embora. Hei-de falar de si
ao professor Snape, Malfoy! 

A escada de caracol que conduzia ao cimo da torre pareceu-lhes
extremamente fcil de subir depois de tudo o resto. S quando
chegaram ao ar frio da noite retiraram o manto da
invisibilidade, aliviados por poderem respirar de novo 
vontade. Hermione fez uma espcie de dana. 

 -O Malfoy teve uma punio! Apetece-me cantar.

- No cantes --, preveniu o Harry. 

Rindo-se do Malfoy, esperaram. O Norbert fazia rudos na sua
caixa de grades. Cerca de dez minutos mais tarde, quatro
vassouras desceram na escurido da noite. 

Os amigos do Charlie eram um grupo bem-disposto. Mostraram ao
Harry e a Hermione o arns que tinham  preparado para
poderem levar o Norbert suspenso entre eles. Todos ajudaram a
afivelar bem a jaula do Norbert e, em seguida, Harry e
Hermione apertaram a mo aos outros e agradeceram-lhes por
tudo.

Finalmente o Norbert ia... ia... tinha-se ido embora.

Esgueiraram-se pela escada de caracol com os coraes to
leves como as mos, agora que no traziam o Norbert com eles.
O drago fora-se embora, o Malfoy tivera uma punio. Haveria
alguma coisa que pudesse estragar-lhes aquele momento de
felicidade? 

A resposta esperava-os ao fundo das escadas. Mal entraram no
corredor o rosto de Filch saiu do escuro.

- Ora, ora, parece que vocs foram apanhados!

Tinham deixado o manto da invisibilidade no alto da torre.


Captulo XV -- A floresta proibida


As coisas no podiam ter corrido pior.

Filch levou-os ao gabinete da professora Mc_Gonagall onde
ambos se sentaram sem trocar uma palavra entre si. Hermione
tremia. Desculpas, libis e histrias para mascarar a verdade
sucederam-se no crebro de Harry, cada uma mais frgil do que
a anterior. No conseguia imaginar como iriam sair daquela
embrulhada. Estavam encurralados. Como fora possvel serem to
estpidos e esquecerem-se do manto da invisibilidade? No
havia qualquer razo plausvel aos olhos da professora
Mc_Gonagall para eles estarem fora das camas, vagueando pela
escola a meio da noite, alm de que se encontravam na torre
mais alta de Hogwarts cujo acesso apenas era permitido durante
as aulas. Se descobrissem do Norbert e do manto da
invisibilidade estariam muito em breve a fazer as malas.

O Harry pensava que as coisas no poderiam ter corrido pior?
Estava redondamente enganado. Quando a professora Mc_Gonagall
apareceu, vinha a seguir o Neville.

- Harry - gritou o Neville, logo que viu os outros dois. -
Estava a tentar encontrar-vos para vos avisar de que ouvi o
Malfoy dizer que ia apanhar-vos. Ele disse que vocs tinham um
drag...

Harry fez um brusco sinal com a cabea para que ele se calasse
mas a professora Mc_Gonagall tinha ouvido. Mais do que o
Norbert, parecia que ia lanar fogo pela boca quando se
aproximou dos trs.  

- Era a ltima coisa que esperava de qualquer de vocs.
O Senhor Filch diz que estiveram na torre da astronomia
 uma da manh. Estou  espera das vossas explicaes. 

-- Era a primeira vez que Hermione no conseguia responder a
uma pergunta feita por um professor. Olhava para os chinelos,
quieta como uma esttua.

- Julgo que sei o que se passa aqui - disse a professora
Mc_Gonagall. - No  preciso ser um gnio para l chegar.
Vocs aldrabaram o Draco Malfoy com uma histria qualquer de
um drago, tentando faz-lo sair da cama
e meter-se em sarilhos. A ele j o apanhei. Calculo que
achem imensa graa ao facto de o Longbottom tambm
ter acreditado!

Harry viu nos olhos do Neville uma onda de tristeza e de
espanto. Tentou dizer-lhe com o olhar que no era verdade.
Pobre Neville - Harry calculava o quanto devia
ter sido difcil para ele tentar encontr-los para os avisar,
sozinho naqueles corredores escuros.

- Estou desiludida convosco - disse a professora Mc_Gonagall.
- Quatro alunos fora da cama numa nica noite!  a primeira
vez que isto me acontece. Hermione Granger, pensei que a
menina tinha mais juzo. Quanto a si, Potter, acreditei que
Gryffindor tinha mais significado para si do que isto. Vocs
os trs vo receber punies - sim, voc tambm Longbottom,
nada lhe d o direito de andar a passear pela escola  noite,
principalmente nestes dias.  extremamente perigoso - e
cinquenta pontos sero
retirados aos Gryffindor.

- Cinquenta? - resmungou Harry, - assim perdemos a liderana
que tnhamos conquistado no campeonato de Quidditch!

- Cinquenta pontos cada - disse a professora Mc_Gonagall --,
respirando pesadamente pelo nariz pontiagudo.  

- Professora, por, favor...

- No pode...

- No me digas o que eu posso ou no fazer, Potter. Agora,
volta para a cama. Nunca os alunos dos Gryffindor me
envergonharam tanto.

Cento e cinquenta pontos perdidos. Aquilo colocava os
Gryffindor em ltimo lugar. Numa nica noite eles tinham
destrudo todas as possibilidades dos Gryffindor ganharem a
taa de clubes. Harry sentiu um peso de chumbo no estmago.
Como poderiam alguma vez redimir-se?

Harry no dormiu durante toda a noite. Ouviu o Neville,
tentando abafar os soluos na almofada durante o que lhe
pareceu terem sido horas e horas. No sabia o que fazer para o
animar. Calculava que o Neville, tal como ele prprio,
receava o dia seguinte. O que poderia acontecer quando os
outros Gryffindor descobrissem o que eles lhes tinham feito?

A princpio, quando passaram pelas gigantescas ampulhetas que
marcavam os pontos da equipa, os Gryffindor pensaram que tinha
havido um engano. Como  que podiam de um momento para o outro
ter cento e cinquenta pontos a menos do que no dia anterior?
Mas depois a histria comeou a espalhar-se: Harry Potter, o
famoso Harry Potter, o seu heri dos jogos de Quidditch,
fizera-os perder todos aqueles pontos, ele e um grupo de
estpidos do primeiro ano.

Harry passou de um dos colegas mais populares e admirados da
escola ao mais detestado. At os Ravenclaw e os Hufflepuff lhe
viravam a cara porque todos eles tinham acalentado a esperana
de ver os Slytherin perder a taa. Para onde quer que ele se
voltasse havia gente a apont-lo a dedo, que nem se dava ao
trabalho de baixar a voz enquanto se referiam a ele em termos
insultuosos. Os Slytherin, pelo contrrio, batiam palmas e
agradeciam  quando Harry passava por eles. - Obrigado,
Potter, estamos em dvida para contigo!

S o Ron ficou ao seu lado.

- Todos vo esquecer isto dentro de poucas semanas. O Fred e o
George perderam imensos pontos ao longo da sua estada aqui e
toda a gente gosta deles.

- Mas nunca perderam cento e cinquenta de uma vez s, pois
no? - disse o Harry infelicssimo.

- Bem, isso no --, admitiu o Ron.

Era um pouco tarde para reparar o mal, mas Harry jurou a si
prprio que a partir de ento no voltaria a meter-se em
coisas que no lhe dissessem respeito. No ia mais espreitar
nem coscuvilhar. Sentiu-se to envergonhado que foi ter com o
Wood para se demitir do clube de Quidditch.

- Demitir? - gritou o Wood. - E para que serviria isso? 
Como  que iremos conseguir pontuar se no ganharmos no
Quidditch?

Mas at o Quidditch tinha perdido o interesse para ele. Os
colegas no lhe dirigiam a palavra durante os treinos
e, quando eram obrigados a referir-se a ele, diziam o
*seeker*.

Hermione e Neville sofriam igualmente. No tanto quanto o
Harry porque no eram to conhecidos como ele, mas tambm
ningum se lhes dirigia. Hermione deixara de ser participativa
nas aulas, trabalhando em silncio e de cabea baixa.

Harry estava quase feliz com a proximidade dos exames. Todas
as revises que tinha de fazer serviam para lhe manter o
esprito ocupado. Ele, o Ron e Hermione continuavam a fazer
seroes de trabalho at tarde, na tentativa de reter e decorar
os nomes dos ingredientes das complicadas poes, os
encantamentos e os feitios, memorizando as datas das
descobertas mgicas e das revoltas dos duendes malvolos.  

Faltava uma semana para os exames quando a nova resoluo do
Harry, de no interferir em nada que no lhe dissesse
respeito, foi inesperadamente posta  prova. _ sada da
biblioteca, uma tarde, ouviu algum choramingar numa sala de
aulas l em cima, um pouco mais adiante. Quando se aproximou
apercebeu-se de que se tratava da voz do Quirrell.

- No, no, outra vez, no, por favor!

Parecia que algum estava a amea-lo. Harry aproximou-se.

- Est bem, est bem - ouviu o Quirrell dizer entre soluos.
Passado alguns momentos, Quirrell saiu apressadamente da sala
de aulas endireitando o turbante. Vinha plido e parecia ir
recomear a chorar. Desapareceu do campo de viso de Harry que
ficou com a impresso de que ele no o tinha visto.

Esperou at que os passos do professor deixassem de se ouvir e
espreitou para dentro da sala. Estava vazia mas uma porta
ficara aberta no outro extremo. Harry ia a meio caminho quando
se lembrou da promessa que fizera de no se envolver em mais
nada.

Mesmo assim apostaria duas pedras filosofais em como o Snape
tinha acabado de sair dali, e pelo que ele ouvira, devia
caminhar  velocidade de um vencedor. O Quirrell parecia ter
finalmente cedido.

Harry voltou  biblioteca onde Hermione estava a perguntar
astronomia ao Ron e contou-lhes tudo o que tinha ouvido.

- Ento o Snape conseguiu! - disse o Ron. - Se o Quirrell lhe
disse como quebrar o feitio contra as foras do mal...

- Mas ainda h o Fluffy - lembrou Hermione.

- Talvez o Snape tenha descoberto como passar pelo co sem
perguntar ao Hagrid - sugeriu o Ron, olhando  
para os milhares de livros que os rodeavam. - Aposto que h um
livro qualquer a dizer como passar por um co gigantesco com
trs cabeas. E, o que  que vamos fazer agora?

A luz da aventura acendia-se de novo nos olhos de Ron, mas
Hermione respondeu antes que Harry tivesse tempo de faz-lo.

- Vai falar com o Dumbledore. Era o que deveramos ter feito
h sculos. Se tentarmos agir por nossa conta e risco somos
expulsos de certeza.

- Mas no temos provas! - disse o Harry. - O Quirrell 
demasiado medroso para nos apoiar. Basta que o Snape afirme
que no sabe como o gigante entrou aqui no Hallowe'en e que
nunca se aproximou do terceiro andar - em quem pensas que vo
acreditar? Nele ou em ns? No  segredo para ningum que o
detestamos. O Dumbledore vai pensar que inventmos toda esta
histria para que o mandem embora. O Filch no nos ajudaria
nem que disso dependesse a sua prpria vida.  demasiado amigo
do Snape e quanto mais alunos forem postos fora mais
satisfeito ele fica. E no te esqueas de que no  suposto
sabermos da existncia da pedra nem do Fluffy. Isso exigiria
muitas explicaes.

Hermione pareceu convencida mas o Ron no.

- E se dssemos s uma espreitadela por a?

- No - disse Harry taxativamente. - J espreitmos de mais.

Abriu um mapa de Jpiter e comeou a estudar os nomes das
luas.

Na manh seguinte foram entregues ao Harry, a Hermione e a
Neville bilhetes com o mesmo texto.

*_A sua punio ter lugar s onze horas da noite.

*_Procure o senhor Filch  entrada do vestbulo.

Professora Mc_Gonagall* 

Harry esquecera-se por completo, no meio da confuso dos
pontos perdidos, de que tinham ainda a punio pela frente.
Esperava, de certo modo, que a Hermione se queixasse de que
era uma noite de revises perdida mas ela no disse uma
palavra. Tal como Harry, sentia que era um castigo merecido.

_s onze horas da noite despediram-se do Ron, na sala comum, e
desceram at ao vestbulo da entrada com o Neville. O Filch j
l estava assim como Malfoy. Harry esquecera-se tambm de que
o Malfoy fora igualmente castigado.

- Sigam-me - disse Filch, acendendo uma lanterna e
conduzindo-os para fora.

- Aposto que vocs vo pensar duas vezes antes de voltar a
quebrar uma regra da escola, hein? - disse o encarregado,
olhando maldosamente para eles. - Sim, sim, o trabalho duro e
o sofrimento so os melhores professores. S  pena que eles
tenham posto de parte os antigos castigos... ficarem
pendurados do tecto pelos pulsos durante alguns dias. Ainda
tenho as correntes guardadas e bem oleadas para o caso de
virem a ser necessrias um dia qualquer... muito bem, l vamos
ns e no pensem em fugir porque ser bastante pior se o
fizerem.

Andaram atravs dos campos escuros. O Neville no parava de
fungar. Harry no percebia que castigo era aquele. Devia ser
horrvel, para o Filch se mostrar to contente.

A lua brilhava no cu, mas as nuvens que lhe passavam pela
frente lanavam-nos constantemente na escurido. Mesmo em
frente, Harry via as janelas iluminadas da cabana de Hagrid.
Foi nesse momento que ouviram, ao longe, um grito.

- s tu, Filch, despacha-te, quero comear.

O corao de Harry animou-se. Se iam trabalhar com o, Hagrid
no era assim to mau. O seu alvio deve ter-se espelhado 
no rosto porque o Filch disse de imediato: - Deves estar a
pensar que te vais divertir com aquele pateta? Pensa melhor,
rapaz,  para a floresta que vocs vo e, ou eu me engano
muito, ou nenhum de vocs volta de l inteiro.

Perante isto, o Neville soltou um gemido e Malfoy ficou preso
ao cho como uma esttua.

- A floresta? - repetiu. E no parecia o mesmo do costume. -
No podemos l ir  noite - existem l todos os tipos de
perigos, lobisomens, segundo ouvi dizer.

O Neville puxou a manga da capa do Harry e fez um rudo
abafado.

- A culpa foi toda vossa, ou no foi? - disse o Filch com a
voz transbordante de satisfao. - Deviam ter pensado nos
lobisomens antes de fazer as asneiras.

Hagrid saiu do escuro e aproximou-se deles a passos largos com
Fang, o co de caa, atrs de si. Trazia o seu enorme arco e
uma aljava com setas pendurada ao ombro.

- J no era sem tempo - disse. - Tenh'estado  espera h
quase meia hora. Vocs `to bem, Harry, Hermione?
 
- Eu no teu lugar no seria to simptico com eles --, disse
friamente Filch. - Afinal, esto aqui para serem castigados.

- _ por isso que 'ts to atrasado, j percebi --, disse
Hagrid furioso com Filch. - Tens 'tado a pregar-lhes sermes.
Esse no  o teu trabalho. Podes ir. Eu tomo conta deles a
partir daqui.

- Volto ao amanhecer - respondeu Filch. - Buscar o que sobrar
deles - acrescentou sarcasticamente, antes de se voltar para o
castelo e iniciar o caminho de regresso, com a candeia a
balouar no escuro.

Malfoy voltou-se para Hagrid.

- Eu no vou para aquela floresta - disse. E Harry detectou,
com satisfao, uma nota de pnico na sua voz.  

- Ah, isso  que vens, se quiseres continuar em Hogwarts -
disse Hagrid com grande segurana. - Andaste mal e agora tens
de pagar.

- Mas isto  trabalho de criados, no  para os estudantes.
Pensei que amos escrever ou algo do gnero. Se o meu pai
soubesse o que eu estava a fazer, ele...

- Olha rapaz, em Hogwarts  assim - grunhiu Hagrid. -
Escrever, escrever, p'ra que serve escrever, afinal? Vais
fazer uma coisa til ou s expulso. S'achas qu' isso qu'o teu
pai quer, ento volta pr castelo e faz as malas!

Malfoy no se moveu. Olhou para Hagrid com toda a sua fria
mas acabou por desviar o olhar.

- Pronto - disse Hagrid. - Ento ouam bem, porque o que vamos
fazer esta noite  perigoso e eu no quero que ningum corra
riscos. Sigam-me por um momento.

Conduziu-os  orla da floresta. Segurando a lanterna acima da
cabea mostrou-lhes um caminho estreito de terra batida que
desaparecia no meio das rvores negras e espessas. Uma leve
brisa roou-lhes os cabelos enquanto olhavam para a floresta.

- Olhem ali --, disse o Hagrid, - 'to a ver aquela coisinha
prateada a brilhar no cho? Aquil' sangue d'unicrnio. Anda
por a um unicrnio que foi ferido por algum.  a segunda vez
esta semana. Na quarta-feira passada encontrei um morto. Vamos
tentar encontrar o desgraadinho. Se calhar temos d'o ajudar.

- E se a pessoa ou a coisa que feriu o unicrnio nos encontrar
primeiro? - disse o Malfoy, incapaz de disfarar o medo. 

- Nada do qu'existe na floresta vos far mal se estiverem
comigo ou c'o Fang - disse o Hagrid. - E mantenham-se no
caminho de terra batida. Agora vamos dividir-nos em dois
grupos e seguir pistas em duas direces. H sangue por todo
o lado, ele deve estar desconcertado desde, pelo menos, a
noite passada.  

-- Eu quero o Fang - disse o Malfoy rapidamente, olhando para
os longos dentes aguados do co de caa.

- `_t bem, mas aviso-te qu'ele  cobarde - disse o Hagrid. -
Ento eu, a Hermione e o Harry vamos p'ra um lado e o Draco
Malfoy, o Neville e o Fang pr outro. Se algum encontrar o
unicrnio envia fascas verdes pr ar. Certo? 
Peguem nas varinhas e ensaiem agora - isso mesmo - e se algum
estiver em perigo envia fascas vermelhas e juntamo-nos logo
todos. Tenham cuidado. Vamos!

A floresta estava negra e silenciosa. Pouco adiante havia uma
bifurcao. Harry, Hermione e Hagrid tomaram o caminho da
esquerda; Malfoy, Neville e Fang, o da direita.

Caminharam em silncio, com os olhos no cho. Aqui e ali um
raio de luar, passando atravs dos ramos das rvores, deixava
ver uma mancha de sangue prateado sobre as folhas 
cadas.

Harry apercebeu-se da grande preocupao que dominava Hagrid.

- Achas que um lobisomem poderia andar a matar unicrnios? -
perguntou o Harry.

- Dificilmente - disse Hagrid. - No  fcil agarrar um
unicrnio. So criaturas mgicas muito poderosas. Nunca soube
de nenhum que tivesse sido ferido at agora.

Passaram por um tronco de rvore cortado e coberto de musgo.
Harry ouviu nitidamente gua corrente, devia haver ali por
perto um riacho. Continuavam a ver-se manchas de sangue de
unicrnio ao longo do caminho tortuoso.

- Ests bem, Hermione? - perguntou baixinho o Hagrid. -No te
preocupes, no deve ter ido muito longe, ferido como est e
podemos :__esconder-nos atrs daquela __rvore!

Hagrid agarrou Harry e Hermione e f-los sair do caminho,
escondendo-se todos atrs de um carvalho muito alto. Puxou de
uma seta e meteu-a no arco, pronto a  disparar. Os trs
ouviam atentamente. Algo arrastava as folhas secas ali perto,
parecia um manto, varrendo o cho. Hagrid olhava fixamente o
caminho escuro mas passados alguns segundos o som desapareceu.

- Eu sabia - murmurou. - Anda por a algum que no  daqui.

- Um lobisomem - sugeriu Harry.

- N!, no era nem lobisomem nem unicrnio --, disse o Hagrid
com ar sinistro. - Sigam-me, mas com cuidado.

Andaram mais devagar, de ouvidos atentos ao menor rudo. Sem
dvida alguma, havia algo que se movia.

- Quem est a? - gritou Hagrid. - Aparece que eu 'tou armado.

E na clareira surgiu - seria um homem ou um cavalo? Da cintura
para cima era um homem de cabelos e barba avermelhados que por
detrs tinha um corpo de cavalo castanho, reluzente, com uma
longa cauda tambm avermelhada, que fez Hermione e Harry
ficarem de boca aberta.

- Ah! _s tu, Ronan --, disse o Hagrid aliviado. -- _como
ests?

Deu dois passos em frente e apertou a mo ao centauro.

- Boa noite, Hagrid - disse Ronan, que tinha uma voz profunda
e pesarosa. - Ias disparar contra mim?

- Todo o cuidado  pouco, Ronan --, explicou Hagrid dando uma
palmada no arco. - H algum perigoso q'anda por a demasiado
 vontade na floresta. Este  o Harry Potter e a Hermione
Granger, alunos da escola. E este, jovens,  Ronan, o
centauro.

- Ns j tnhamos reparado - disse Hermione timidamente.

- Boa-noite --, disse Ronan. - Estudantes? E tm
aprendido muito na escola?

-- Hum...

- Um bocadinho --, disse Hermione.  

- Um bocadinho. Bem, j  melhor do que nada - suspirou o
Ronan. Inclinou a cabea para trs e olhou para o cu. - Marte
est hoje muito brilhante.

- Sim --, disse Hagrid, olhando tambm. - Olha, 'inda bem que
t'enconcrmos, Ronan, porque foi ferido um unicrnio. Viste,
por acaso, alguma coisa?

Ronan no respondeu logo. Olhou fixamente para cima e suspirou
de novo.

- Os inocentes so sempre as primeiras vtimas - disse. - Era
assim h milnios e continua a s-lo.

- Sim - disse Hagrid, - mas viste alguma coisa Ronan, alguma
coisa fora do vulgar?

- Marte est brilhante esta noite, -- repetiu Ronan enquanto
Hagrid o observava impacientemente, - invulgarmente
brilhante.

- Sim, mas eu 'tava a dizer qualquer coisa fora do vulgar
aqui mais perto - disse o Hagrid. - Portanto no notaste nada
estranho?

Mais uma vez Ronan levou algum tempo a responder. Por fim
disse: - A floresta esconde muitos segredos.

Um movimento nas rvores atrs de Ronan fez com que Hagrid
voltasse a erguer o arco, mas era apenas um segundo centauro
de cabelos negros e com um corpo e um olhar mais selvagem do
que o Ronan.

- Ol, Bane - disse Hagrid.

- Boa-noite, Hagrid. Ests bem?

- Vai-s'indo. Olha, eu 'tava a perguntar ao Ronan se vocs
viram alguma coisa estranha por estas bandas? H um unicrnio
que foi ferido. Sabes de alguma coisa?

Bane foi colocar-se ao lado de Ronan e olhou para o cu.

- Marte est muito brilhante - limitou-se a dizer.

-- J reparmos - disse Hagrid de mau humor. Bem, se algum de
vocs vir alguma coisa agradeo que me digam. Ns vamos
andando.  

Harry e Hermione seguiram-no para fora da clareira,
espreitando por cima do ombro para Ronan e Bane at que as
rvores lhes taparam totalmente a viso.

- Nunca --, disse Hagrid irritado, - nunca consigo uma
resposta directa d'um centauro. Malditos astrnomos,
contempladores dos astros. No se interessam por nada que
esteja mais prximo do que a lua.

- H muitos centauros por aqui? - perguntou Hermione.

- Sim, uma quantidade razovel. So muito fechados d'uma
maneira geral, mas costumam responder quando falo com eles.
So profundos, sabem coisas mas no nos do l grande ajuda.

- Achas que aquilo que ouvimos antes era o centauro? -
perguntou Harry.

- Pareceu-te o som de cascos de cavalo? Nah! Se queres saber
o qu'eu acho, aquilo era o qu'anda a matar os unicrnios -
nunc'ouvi nada parecido antes.

Continuaram a andar atravs das rvores escuras e densas.
Harry olhava nervosamente por cima do ombro. Tinha a
desagradvel sensao de estarem a ser observados. 
Felizmente tinham o Hagrid e o seu arco. Acabavam de passar
uma curva do caminho quando Hermione agarrou o brao do
Hagrid.

- Hagrid, olha, fascas vermelhas, os outros esto em perigo!

- Esperem aqui vocs os dois! - gritou o Hagrid. - Fiquem no
caminho de terra batida, eu volto j a buscar-vos!

Ouviram-no abrir caminho ruidosamente atravs do matagal
enquanto eles ficavam a olhar um para o outro, apavorados, at
no conseguir ouvir-se nada a no ser o sussurro das folhas ao
seu redor.

- No ests a pensar que eles esto feridos, pois no? -
murmurou Hermione.  

- Eu no me ralo nada com o Malfoy, mas se acontecer alguma
coisa ao Neville, isso sim  grave Ainda por cinta  por nossa
culpa que ele est aqui...

Os minutos arrastaram-se. Os ouvidos de ambos pareciam mais
aguados do que habitualmente. Harry captava todos os pequenos
sinais do vento, todos os estalidos dos galhos das rvores. O
que se passaria? Onde estariam os outros?

Por fim um barulho de folhas pisadas anunciou o regresso de
Hagrid. Malfoy, Neville e Fang vinham com ele. Hagrid tinha
uma expresso colrica.

Ao que parecia, o Malfoy escondera-se atrs do Neville e
agarrara-o na brincadeira. O Neville, em pnico, comeara a
enviar fascas.

- S com muita sorte apanharemos agora alguma coisa depois da
balbrdia que vocs fizeram. Vamos mudar os grupos - Neville,
tu ficas comigo e c'a Hermione Harry, tu vais c'o Fang e com
este idiota. Desculpa --, acrescentou ao ouvido do Harry, -
mas ele vai ter mais trabalho para te assustar e temos de
andar com isto pr frente.

E, assim, o Harry aventurou-se at ao corao da floresta com
Malfoy e Fang. Andaram durante cerca de meia hora, cada vez
mais embrenhados no mato at que o caminho de terra se tornou
quase impossvel de seguir devido s rvores densas e
cerradas. Pareceu a Harry que o sangue estava a tornar-se cada
vez mais pastoso. Havia manchas nas razes de uma rvore como
se a pobre criatura tivesse andado por ali cheia de dores.
Harry avistou uma clareira l adiante, atravs dos ramos
emaranhados de um carvalho muito antigo.

- Olha - murmurou, agarrando o brao do Malfoy.

Uma coisa branca e brilhante reluzia no cho. Aproximaram-se.

Era o unicrnio. Estava morto. Harry nunca vira nada  to
belo e to triste. As suas longas pernas esguias formavam
estranhos ngulos no lugar onde tinha tombado e a crina,
espalhada pelo vento, tingia de branco-prola as folhas
escuras das rvores.

Harry dera um passo na direco do animal quando um som
arrastado o fez parar. Um arbusto na orla da clareira
movia-se... logo a seguir, saiu das sombras um ser encapotado
que se arrastou pelo cho como um animal predador. Harry,
Malfoy e Fang ficaram transfigurados. A figura dissimulada
chegou junto do unicrnio, baixou a cabea at ao cho e
comeou a beber o sangue do animal.

AAAAAAARCH!!!

Malfoy deu um grito de horror e desapareceu seguido de Fang. A
figura encarapuada levantou a cabea e olhou directamente
para Harry - o sangue de unicrnio escorria-lhe pelo rosto.
Ps-se de p e avanou rapidamente em direco a ele - o medo
impediu Harry de se mexer.

Sentiu ento uma dor na cabea, como nunca tinha sentido, como
se a sua cicatriz estivesse em fogo. Meio cego, recuou e ouviu
o galope de cascos de cavalo atrs de si, algo saltar por cima
dele lanando-se sobre a estranha figura encarapuada.

A dor de cabea de Harry foi to forte que caiu de joelhos e
levou alguns minutos a passar. Quando abriu de novo os olhos,
o estranho ser tinha desaparecido. _ sua frente estava um
centauro que no era nem o Ronan nem o Bane. Este parecia mais
jovem e tinha cabelos de um louro muito claro e um corpo de
*_Palomino* (um cavalo dourado que apenas existe no Sul dos
Estados Unidos).

- Ests bem? - perguntou o centauro, ajudando Harry a pr-se
de p.

- Sim, obrigado, o que era *aquilo*?

O centauro no respondeu. Tinha uns olhos incrivelmente azuis
que lembravam duas safiras. Olhou atentamente  
para o Harry, o olhar fixo na cicatriz da cor do chumbo que se
salientava na testa de Harry.

- Tu s o filho do Potter - disse ele. -  melhor voltares
para junto do Hagrid. A floresta neste momento no  segura,
principalmente para ti. Sabes montar? Assim ser mais fcil.

- Eu chamo-me Firenze - disse, enquanto baixava as patas da
frente para que o rapaz pudesse saltar-lhe para as costas.

Ouviu-se subitamente o som de outro galope do lado oposto da
clareira. Ronan e Bane apareceram no meio do arvoredo, as
ilhargas trmulas e suadas.

- Firenze - disse Bane num tom reprovador, - o que ests a
fazer com um humano s costas? No tens vergonha ou achas que
s uma simples mula?

- Sabes, por acaso, quem  este humano? - perguntou Firenze.
- Este  o filho do Potter. Quanto mais depressa ele abandonar
a floresta melhor.

- O que  que disseste? - bramiu o Bane. - Lembra-te,
Firenze, ns jurmos no nos revoltar contra os cus. No
leste, no movimento dos astros, o que vai acontecer?

Ronan esgravatou o solo, nervosamente.

- Tenho a certeza de que o Firenze fez o que achou melhor -
disse na sua voz melanclica. Bane agitou as patas traseiras,
aborrecido.

- O melhor! O que tem isso que ver connosco? Os centauros
devem cingir-se ao que foi predestinado. No nos cabe a ns
andar por a como burros atrs dos humanos desgarrados na
nossa floresta!

De repente, Firenze levantou-se nas patas traseiras, de tal
modo que Harry teve de se agarrar aos ombros dele para no
cair.

- Vocs no viram o unicrnio? - bramiu Firenze.
-- _no compreendem porque  que foi morto? Ou os planetas no
vos deixaram entender esse segredo? Eu  
revolto-me contra o que est emboscado nesta floresta,
juntamente com os humanos se for preciso.

E afastou-se a toda a velocidade com o Harry, agarrando-se o
melhor que podia, mergulhando na imensido das rvores e
deixando para trs Ronan e Bane.

Harry no fazia a menor ideia do que estava a passar-se.

- Porque est o Bane to zangado? - perguntou. - Afinal que
coisa era aquela de que tu me salvaste?

Firenze abrandou e disse ao Harry que baixasse a cabea para
no tocar nos ramos mais baixos, mas no lhe respondeu. 
Abriram caminho por entre o arvoredo em absoluto silncio,
durante tanto tempo que Harry chegou a pensar que o Firenze
no queria mais falar com ele. Atravessavam um aglomerado de
rvores bastante denso quando o centauro subitamente parou.

- Harry Potter, sabes em que  utilizado o sangue de
unicrnio?

- No - disse Harry espantado com aquela estranha pergunta. -
Ns s usamos o chifre e a penugem da cauda, nas poes.

- Porque  monstruoso chacinar um unicrnio - disse Firenze. -
S algum que no tenha nada a perder e tenha tudo a ganhar
cometeria um tal crime. O sangue de um unicrnio mantm
qualquer humano vivo, mesmo que esteja  beirinha da morte,
mas o preo a pagar  elevadssimo. Quem matou algo puro e
indefeso para salvar a sua vida ter apenas um arremedo de
vida, uma existncia amaldioada a partir do momento em que o
sangue do unicrnio lhe tocou nos lbios.
Harry olhou fixamente para a nuca do centauro que tinha
manchas prateadas ao luar.

- Mas quem poderia estar assim to desesperado? - perguntou em
voz alta. - Se vai ser amaldioado para o resto da vida a
morte no seria melhor?  

- Sem dvida - concordou Firenze. - A no ser que essa pessoa
precise apenas de mais algumas horas de vida para beber outra
coisa - outra coisa que lhe d o poder e a fora - algo que
lhe garanta que no morrer nunca. Potter, sabes por acaso o
que est escondido neste preciso momento na escola?

- A pedra filosofal! Claro - o elixir da vida! Mas eu no
compreendo quem...

- s capaz de te lembrar de algum que tenha esperado muitos
anos para regressar ao poder, que se tenha agarrado  vida,
aguardando a sua oportunidade?

Foi como se um pulso de ferro tivesse dado um soco no corao
de Harry. No sussurrar das rvores pareceu-lhe ouvir de novo o
que Hagrid lhe dissera na primeira noite em que se conheceram!
- Alguns dizem qu'ele morreu. Balelas, no sei se havia nele
alguma coisa d'humano p'ra morrer.

- Queres dizer --, balbuciou Harry - que era Vol...

- Harry, Harry, ests bem?

Hermione corria pelo caminho em direco a ele com o Hagrid
esbaforido atrs.

- Estou bem - disse Harry, sem saber sequer o que dizia. - O
unicrnio est morto, Hagrid, naquela clareira l atrs.

- Deixo-te aqui - murmurou Firenze, enquanto Hagrid se
apressava a ir observar o unicrnio. - Ests seguro agora.

Harry deslizou da sua ilharga.

- Boa sorte, Harry Potter - disse Firenze. - Os planetas tm
sido muitas vezes erradamente interpretados at mesmo pelos
centauros. Espero que seja este o caso.

Voltou-se e desapareceu nas profundezas da floresta deixando
Harry com um calafrio.


Ron adormecera na penumbra da sala comum  espera que os
amigos regressassem. Gritou qualquer coisa  relacionada com
as faltas do Quidditch quando Harry o acordou com um safano.
Mas, ao fim de poucos segundos ficou logo com os olhos bem
abertos quando Harry comeou a contar-lhe, a ele e a
Hermione, tudo o que tinha acontecido na floresta.

Harry no conseguia sentar-se. Andava de um lado para o outro
em frente da lareira, ainda a tremer.

- O Snape quer a pedra para o Voldemort... e o Voldemort est
 espera na floresta... e ns a pensarmos durante todo este
tempo que o Snape queria apenas ficar rico...

- Pra de dizer o nome! - ordenou o Ron, num sussurro, como
se Voldemort pudesse ouvi-los.

Mas Harry no ouvia nada.

- O Firenze salvou-me mas, pelos vistos, no devia t-lo
feito... o Bane estava furioso... falava de interferir com as
previses dos astros... eles devem mostrar o regresso do
Voldemort... o Bane achava que o Firenze devia ter deixado que
o Voldemort me matasse. Calculo que tambm isso esteja
escrito nos astros.

- Pra de repetir o nome dele! - gritou o Ron, j aborrecido.

- Portanto, o que nos resta agora  esperar que o Snape roube
a pedra - prosseguiu Harry nervosamente, - depois o Voldemort
poder acabar comigo e suponho que o Bane ficar contente.

Hermione tinha um ar assustado mas teve, como sempre, uma
palavra de consolo.

- Harry, toda a gente sabe que o Dumbledore  o nico de quem
o Quem ns sabemos teve sempre medo. Enquanto estiveres
perto do Dumbledore o Quem ns sabemos no tocar num cabelo
teu. Alm disso, quem sabe se os centauros no estaro
enganados? Parece-se um pouco com adivinhao e a professora
Mc_Gonagall diz que esse  um ramo muito indefinido da magia.
 

O cu clareara muito antes de eles terminarem a conversa.
Foram para a cama exaustos e com as gargantas secas. Mas as
surpresas da noite ainda no tinham acabado.

Quando Harry se meteu nos lenis, deu com o manto da
invisibilidade muito bem dobradinho l dentro. Juntamente
estava um bilhete:

*_Para o caso de ser preciso*.


Captulo XVI -- Pelo alapo


Nos anos que iriam seguir-se, Harry no conseguiria lembrar-se
de como tinha sido capaz de levar a cabo os exames, sempre 
espera que Voldemort lhe entrasse pela porta dentro a todo o
momento.

Estava um calor sufocante, principalmente na enorme sala de
aula onde eram feitas as provas escritas. Tinham-lhes dado
novas penas para os exames, tratadas com um feitio
anticbula.

Tiveram tambm exames de trabalhos prticos. O professor
Flitwick chamou-os um a um  sala dele para confirmar se
sabiam fazer um anans danar o sapateado em cima da
secretria. A professora Mc_Gonagall viu-os transformar um
rato numa caixa de rap - os pontos eram dados de acordo com a
beleza esttica da caixa e retirados se ela apresentasse
bigodes. O Snape deixou-os a todos nervosos, respirando-lhos
para cima do pescoo, enquanto tentavam lembrar-se de como
fazer uma poo para o esquecimento total.

Harry deu o seu melhor, tentando vencer as dores agudas na
testa que no o abandonavam desde aquela noite na floresta
proibida. Segundo o Neville, estava com os nervos em franja
devido aos exames e por isso no conseguia dormir, mas a
verdade  que ele acordava vrias vezes com o seu antigo
pesadelo, que agora era bastante pior porque inclua uma
figura encarapuada a pingar gotas de sangue.

Talvez por no terem visto o que ele vira na floresta ou por
no sentirem na testa uma cicatriz a arder, Ron e Hermione no
pareciam to preocupados com a pedra  como o Harry estava. A
ideia do Voldemort assustava-os, claro, mas no lhes aparecia
em sonhos e estavam to absorvidos com as revises que no
lhes sobejava muito tempo para se atormentarem com o que o
Snape ou outro qualquer poderia estar a urdir.

O ltimo de todos os exames era Histria da magia. Uma hora a
responder a perguntas sobre antigos feiticeiros sem grande
importncia que tinham inventado caldeires automisturadores
e, depois disso, estariam livres, com uma semana inteirinha na
frente at sarem os resultados dos exames. Quando o fantasma
do professor Binns lhes disse que podiam pousar as penas e
enrolar os pergaminhos, o Harry no conseguiu deixar de
partilhar a alegria dos outros.

- Foi de longe muito mais fcil do que eu estava  espera --,
disse Hermione enquanto se juntavam  multido que aflua aos
campos banhados pelo sol. - Eu nem precisava de ter estudado o
Cdigo de Conduta dos Lobisomens de 1637 nem a insurreio de
Elfric, *_o Impaciente*.

Hermione gostava sempre de ficar a ver atentamente as provas
depois dos exames acabados, mas o Ron alegou que aquilo o
deixava um bocado mal-disposto, por isso foram passear junto
do lago e acabaram por se sentar debaixo de uma rvore. Os
gmeos Weasley e Lee Jordan faziam ccegas nos tentculos de
uma lula gigante que se aquecia nas guas quentes e pouco
fundas.

- Acabaram as revises --, disse o Ron com um suspiro de
alvio, estendendo-se ao comprido na relva. - Podias ter um ar
mais alegre, Harry. Temos uma semana pela frente antes de
sabermos a pssima figura que fizemos. No vale a pena
comearmos j a ficar preocupados.

Harry coava a testa.

- S queria saber o que isto significa! - desabafou irritado.
- A minha cicatriz no pra de doer - j me tinha acontecido
antes mas nunca tantas vezes como agora.  

- Vai  Madame Pomfrey --, sugeriu Hermione. - Eu no estou
doente --, disse o Harry. - Sinto que  uma espcie de
aviso... como se me prevenisse de que o perigo se aproxima...
Ron no era capaz de entrar em sintonia. Estava demasiado
calor.

- Descontrai-te, Harry. A Hermione tem razo. A pedra est
segura enquanto Dumbledore estiver por perto. Alm disso no
temos qualquer prova de que o Snape tenha descoberto como
passar pelo Fluffy. Ele quase ficou sem uma perna da primeira
vez que tentou, no vai voltar a arriscar to cedo. E  mais
fcil o Neville representar a Inglaterra no campeonato de
Quidditch do que o Hagrid trair Dumbledore.

Harry fez um sinal afirmativo com a cabea, mas no conseguia
afastar um sentimento latente de que se esquecera de fazer
algo importante. Quando tentou explicar o que sentia, Hermione
disse-lhe: - Isso so efeitos dos exames. Eu acordei a noite
passada a meio do meu comentrio de transfigurao quando me
lembrei de que j o tinha apresentado.

Mas Harry tinha a certeza absoluta de que a sua sensao de
instabilidade no se relacionava em absoluto com o trabalho.
Via no cu azul-claro brilhante uma coruja que se aproximava
da escola com um bilhete no bico. Hagrid era o nico que lhe
escrevia. Hagrid nunca trairia Dumbledore. Hagrid nunca diria
a ningum como passar pelo Fluffy... nunca... mas...

Ps-se de p num salto.

- Onde vais? - perguntou o Ron, ensonado.

-- Lembrei-me de uma coisa - disse o Harry. Tinha ficado
plido. - Temos de ir ter com o Hagrid imediatamente.

- Porqu? - perguntou Hermione, ansiosa por acompanh-los.  

- Vocs no acham um pouco estranho --, disse o Harry,
enquanto trepavam a encosta coberta de relva, - que o maior
sonho do Hagrid fosse ter um drago e que, de um momento para
o outro, aparea um desconhecido que por acaso tem um ovo de
drago no bolso? Quantas pessoas andaro por a a passear-se
com ovos de drago, sabendo que isso  contra a lei dos
feiticeiros? Foi uma sorte terem dado com o Hagrid. Como  que
eu no percebi antes?

- De que  que tu ests a falar? - perguntou o Ron. Mas Harry,
apressando-se em direco aos campos, no lhe deu resposta.

Hagrid estava sentado num cadeiro, fora da cabana, com as
calas e as mangas arregaadas a descascar ervilhas para uma
grande tigela.

- Ol - disse a sorrir. - Acabaram os exames. Tm tempo p'ra
uma bebida?

- Sim - disse o Ron, mas o Harry cortou-lhe a palavra.

- No. Estamos cheios de pressa, Hagrid. Tenho de fazer-te uma
pergunta. Lembras-te da noite em que jogaste as cartas e
ganhaste o Norbert? Qual era o aspecto do desconhecido com
quem jogaste?

- No sei - disse o Hagrid com toda a naturalidade. - Ele no
tirou o capote.

Viu que os trs ficaram atnitos e ergueram as sobrancelhas.

- No  assim to fora do vulgar, aparece muita gente no
Caneca de porco qu' o bar da aldeia. Podia at ser um
traficante de drages, ou no podia? Eu no lhe vi a cara,
nunca tirou o capuz.

Harry afundou-se na cadeira junto da tigela de ervilhas.

- De que  que falaram, Hagrid? Mencionaste por acaso 
Hogwarts?  

--  bem possvel, - disse ele, pondo um ar carregado
enquanto tentava recordar-se. - Sim, ele perguntou o qu'
qu'eu fazia. E a eu contei-lhe e disse qu'o qu'eu mais queria
era ter um drago e depois, no me lembro muito bem porqu'ele
no parava de me pagar bebidas... deixa ver... sim... ele
disse que tinh'o ovo de drago e podamos jogar p'ra ver s'eu
o ganhava mas tinha de ter a certeza qu'eu m'entendia com um
drago e ento eu disse-lhe que, depois do Fluffy um drago
no ia ser difcil.

- E ele pareceu-te interessado no Fluffy? - perguntou Harry,
tentando manter a calma.

- Bem, sim - quantos ces com trs cabeas existem em
Hogwarts? Ento eu disse-lhe qu'o Fluffy era canja quando se
sabia acalm-lo.  s tocar-lhe uma musiquinha qu'ele cai
logo a dormir.

Hagrid ficou subitamente apavorado.

- Eu no devia ter-vos contado isto! - disse abruptamente. -
Esqueam o qu'eu disse. Ei, ond' que vocs vo?

Harry, Ron e Hermione s voltaram a falar quando chegaram ao
vestbulo de entrada que parecia muito frio e sombrio depois
dos campos.

- Temos de ir falar com Dumbledore --, disse Harry. - O Hagrid
disse quele estranho como passar pelo Fluffy e debaixo da
capa estava o Snape ou o Voldemort - deve ter sido fcil
depois de o ter embriagado. S espero que Dumbledore acredite
em ns. Talvez o Firenze nos apoie se o Bane no o impedir.
Onde  o escritrio do Dumbledore?

Olharam em volta na esperana de ver um sinal que lhes
indicasse a direco. Nunca lhes tinham dito onde vivia o
Dumbledore nem sabiam de algum que l tivesse estado.

- Vamos ter de... - comeou Harry, mas uma voz irrompeu
subitamente pelo vestbulo.  

- O que esto vocs a fazer c dentro?

Era a professora Mc_Gonagall que transportava uma imensa pilha
de livros.

- Queremos falar com o professor Dumbledore disse Hermione com
grande coragem, pensaram o Harry e o Ron.

- Falar com o professor Dumbledore? - repetiu a professora
Mc_Gonagall, como se se tratasse de uma coisa altamente
suspeita. - E posso saber porqu?

Harry engoliu em seco. E agora?

-  uma espcie de segredo - disse, mas desejou logo a seguir
no o ter feito porque as narinas da professora Mc_Gonagall
dilataram-se.

- O professor Dumbledore partiu h dez minutos - disse
friamente. - Recebeu uma coruja urgente do Ministrio da Magia
e seguiu de imediato para Londres.

- Foi-se embora --, disse Harry aflito, - agora?

- O professor Dumbledore  um grande feiticeiro, Potter, e
muito requisitado neste momento.

- Mas isto  muito importante.

- _ mais importante o que tens para lhe dizer do que o
Ministrio da Magia, Potter?

- Oua, professora -- disse Harry, arriscando tudo por tudo, -
 sobre a pedra filosofal.

Fosse o que fosse que a professora Mc_Gonagall estivesse 
espera, no era certamente daquilo. Os livros que tinha nos
braos espalharam-se pelo cho e ela nem sequer tentou
apanh-los.

- Como  que tu sabes? - perguntou, totalmente perturbada.

- Professora, eu acho - eu sei - que Sn... que algum vai
tentar roubar a pedra. E tenho de falar com o professor
Dumbledore.  

Ela olhou-o fixamente com um misto de choque e desconfiana.

- O professor Dumbledore regressa amanh - disse, por fim. -
No sei como vocs descobriram acerca da pedra mas fiquem
tranquilos, ningum pode roub-la. Est protegidssima.

- Mas, professora...

- Potter, eu sei do que estou a falar - disse sinteticamente. 
Baixou-se e apanhou os livros que tinham cado. - Sugiro-vos
que vo l para fora aproveitar o sol.

Mas eles no foram.

- _ esta noite - disse Harry quando teve a certeza de que a
professora Mc_Gonagall j no podia ouvi-los. - O Snape vai
entrar pelo alapo hoje  noite. J descobriu tudo o que lhe
fazia falta e agora conseguiu pr o Dumbledore fora do
caminho. Deve ter sido ele a enviar a coruja com o bilhete.
Aposto que o Ministrio da Magia vai ficar bastante espantado
quando vir aparecer Dumbledore.

- Mas o que  que ns podemos...

Hermione mal conseguia falar. Harry e Ron deram meia volta.
Snape estava ali, de p.

- Boa tarde --, disse com toda a naturalidade.

Eles olharam-no com algum espanto.

- Vocs no deveriam estar em casa num dia como este --, disse
com um sorriso sarcstico.

- Ns amos... - comeou o Harry sem ter a menor ideia de como
iria acabar a frase.

- Vocs tm todo o interesse em ser mais cautelosos - disse o
Snape. - Andando por a assim vo levar as pessoas a pensar
que esto a tramar alguma coisa. E os Gryffindor no esto em
posio de perder mais pontos. No acham?  

Harry corou. Voltaram-se para se dirigirem para a rua mas
Snape. chamou-os.

- Ests avisado, Potter, mais passeiozinhos por a de noite e
eu trato pessoalmente da tua expulso. Muito bom dia.

Afastou-se a passos largos em direco  sala dos
professores.

J nos degraus de pedra, c fora, Harry voltou-se para os
outros.

- Eis o que temos de fazer - murmurou com um sentimento de
urgncia. - Um de ns tem de ficar de olho no Snape,  espera
fora da sala dos professores e segui-lo quando ele sair.
Hermione, era melhor seres tu a tratar disso.

- Eu? Porqu eu?

-  bvio - disse o Ron. - Podes estar  espera do professor
Flitwick. - Fez uma vozinha esganiada - Oh! professor, estou
to preocupada, acho que me enganei na pergunta catorze b...

- Ora, parem com isso - disse Hermione, mas concordou em
vigiar o Snape.

- E ns, o melhor  ficarmos fora do corredor do terceiro
andar - disse o Harry ao Ron. - Vamos l.

Mas essa parte do plano no funcionou.

Mal atingiram a porta que separava o Fluffy do resto da escola
apareceu de novo a professora Mc_Gonagall e desta vez perdeu
mesmo as estribeiras e foi aos arames.

- Imagino que nessas cabecinhas devem pensar que  mais
difcil passar por vocs do que por uma srie de
encantamentos! - bramiu. - J chega de todo este disparate!
Se eu souber que voltaram a aproximar-se deste lugar, tiro
mais cinquenta pontos aos Gryffindor. Sim, Weasley,  minha
prpria equipa!

Harry e Ron voltaram  sala comum. Harry acabara de dizer: -
Pelo menos a Hermione est na pista do Snape - quando o
retrato da dama gorda se abriu e ela apareceu.  

- Lamento, Harry --, queixou-se ela. - O Snape saiu e
perguntou-me o que estava a fazer ali e eu disse que esperava
o professor Flitwick. Ento ele ofereceu-se para ir busc-lo
mas a verdade  que no apareceu mais e no sei para onde foi. 

- Bem, chegou a altura, no acham? - disse o Harry.

Os outros dois ficaram a olhar para ele. Estava plido e com
os olhos brilhantes.

- Eu vou sair daqui esta noite e tentar agarrar a pedra
primeiro.

- s doido! - disse o Ron.

- No podes fazer isso --, exclamou Hermione, - depois do que
o Snape e a professora Mc_Gonagall disseram. Ainda te
expulsam!

- E DEPOIS? - gritou Harry. - Ser que vocs no compreendem?
Se o Snape chegar  pedra  o regresso do Voldemort! No
ouviram falar de como eram as coisas quando ele estava a
tentar tomar o poder? Vai deixar de existir Hogwarts para
expulsar quem quer que seja. Ele acaba imediatamente com isto
ou ento transforma-a numa escola de magia negra! Perder
pontos deixou de ter importncia, no vem? Acham que ele vos
deixar em paz, a vocs e s vossas famlias, se os
Gryffindor ganharem a taa? Se eu for apanhado antes de
chegar  pedra, o que vai acontecer-me  ter de voltar para
casa dos Dursleys e esperar que o Voldemort v l procurar-me.
Trata-se de morrer um pouco mais tarde porque eu nunca
passarei para o lado das trevas! Vou pelo alapo esta noite e
nada do que vocs possam dizer me far mudar de ideias. O
Voldemort matou os meus pais, no sei se se lembram!

Olhou para eles com os olhos reluzentes.

- Tens razo, Harry - disse Hermione, num fiozinho de voz.  

- Vou usar o manto da invisibilidade - disse o Harry. - Foi
uma sorte t-lo recuperado.

- Mas achas que ele nos vai cobrir aos trs? - perguntou o
Ron.

- Aos... aos trs?

- V l, deixa-te de fitas. Achas que amos deixar-te ir
sozinho?

- Claro que no - disse rispidamente Hermione. - Como  que
chegarias  pedra sem a nossa ajuda? Vou procurar nos livros,
quem sabe se descubro ainda alguma coisa til...

- Mas se formos apanhados vocs os dois tambm sero
expulsos...

- No, se eu puder evit-lo - disse Hermione a sorrir. - O
Flitwick disse-me em grande segredo que eu tive cento e vinte
por cento no exame dele. No vo expulsar-me depois disso.

Aps o jantar, bastante nervosos, sentaram-se os trs na sala
comum. Depois do que sucedera, os Gryffindor tinham aos poucos
deixado de aborrecer o Harry, j quase nem falavam com ele.
Aquela foi a primeira noite em que ningum o incomodou.
Hermione vasculhava em todos os seus apontamentos na esperana
de deparar com um dos
encantamentos que eles queriam tentar quebrar. Harry e
Ron no falaram muito um com o outro. Pensavam ambos
no que estavam prestes a fazer.

Aos poucos a sala foi ficando vazia,  medida que as pessoas
saam para se irem deitar.

- _ melhor ir buscar o manto - murmurou o Ron quando o Lee
Jordan finalmente saiu a esticar-se e a fazer rudos. 
Harry correu at  camarata escura. Tirou o manto e, em
seguida, os olhos fixaram-se na flauta que o Hagrid lhe
oferecera pelo Natal; no lhe apetecia muito cantar.

Voltou de novo  sala comum.  

-  melhor pormos o manto aqui e ver se ele nos cobre bem aos
trs; se o Filch avista o p de um de ns a andar sozinho... 

- O que esto a fazer? - perguntou uma voz ao fundo da sala.

O Neville apareceu detrs de um cadeiro, agarrando o sapo
Trevor que tinha o ar de quem fizera mais uma tentativa para
se libertar.

- Nada, Neville, nada --, disse Harry, escondendo
apressadamente o manto atrs das costas.

O Neville ficou a olhar para o ar de culpados que todos eles
ostentavam.

- Vocs vo tentar outra vez --, disse ele.

- No, no, que ideia --, respondeu Hermione. - Porque no
vais para a cama, Neville.

Harry olhou para o relgio de parede atravs da porta. No
tinham muito mais tempo a perder. O Snape podia estar j a
adormecer o Fluffy.

- Vocs no podem fazer isso - disse o Neville. - Vo ser
apanhados de novo. Gryffindor ficar ainda mais 
desmoralizado.

- Tu no podes compreender --, disse Harry. - Isto  muito
importante.

Mas o Neville estava mesmo disposto a tomar uma atitude
desesperada.

- No vou deixar-vos - disse, colocando-se em frente do buraco
do retrato. - S por cima do meu cadver.

- Neville - explodiu o Ron, - sa da frente do retrato e no
sejas idiota.

- E no me chames idiota! - disse o Neville. - Acho que j
chega de desobedecer s regras. E foram vocs que me disseram
que enfrentasse as pessoas!

- Sim, mas no a ns - disse o Ron em perfeito desespero. -
Neville, tu no sabes o que ests a fazer.  

Deu um passo em frente e o Neville deixou cair o sapo Trevor
que desapareceu a toda a velocidade.

- V, tenta bater-me! - disse o Neville, erguendo os punhos
fechados. - Estou  espera!

Harry voltou-se para Hermione.

- Faz qualquer coisa - pediu, aflito.

Hermione avanou.

- Neville - disse ela - lamento ter de fazer isto! Levantou a
varinha.

- *_Petrificus totalus*! - exclamou, apontando-a ao Neville.

Os braos do Neville ficaram como que colados ao longo do
corpo, as pernas unidas uma  outra, o corpo hirto. Balanou e
caiu redondo no cho com o rosto rgido como uma tbua.

Hermione apressou-se a volt-lo ao contrrio. Os maxilares
estavam to apertados que nem podia falar. S os olhos se
moviam, olhando para eles horrorizado.

- O que  que lhe fizeste? - murmurou o Harry.

-  a *_Ligadura total do corpo* - disse Hermione
infelicssima. - Oh! Neville, desculpa.

- Tinha de ser, Neville, no h tempo agora para explicaes
- disse Harry.

- Vais compreender depois, Neville --, disse o Ron
enquanto passavam por cima dele e se cobriam com o
manto da invisibilidade.

Mas deixar o Neville ali cado, sem poder mover-se no lhes
pareceu um bom pressgio. No grande estado de nervosismo em
que se encontravam, cada sombra de esttua lhes parecia o
Filch, cada respirao distante soava como o Peeves a descer
em voo picado sobre eles.

No final do primeiro lano de escadas, avistaram Mrs. Norris,
esquivando-se pelo topo.

- Vamos dar-lhe um pontap, s desta vez - murmurou Ron ao
ouvido de Harry, mas ele fez que no com  a cabea. Enquanto
subiam cheios de cuidado, junto dela, Mrs. Norris voltou os
olhos luminosos para eles mas no fez absolutamente nada.

No encontraram ningum at chegarem  escada do terceiro
andar. Peeves estava a divertir-se, embrulhando o tapete para
fazer as pessoas cair.

- Quem est a? - disse subitamente, enquanto eles subiam na
sua direco. Piscou os olhinhos negros maldosos. - Sei que
est a algum apesar de no o ver. So fantasmas, vampiros ou
animais pequenos dos estudantes?

Ergueu-se no ar e flutuou aproximando-se deles. - Devia chamar
o Filch, devia sim, se andam por a coisas invisveis...

Harry teve uma ideia estupenda.

- Peeves - disse num sussurro ronco. - O Baro Sangrento tem
os seus motivos para andar invisvel.

Peeves quase caiu com o choque. Recomps-se a tempo de pairar
a alguns centmetros do cho.

- Peo imensa desculpa, sua sanguinidade, senhor Baro - disse
untuosamente. - Enganei-me, engano meu - no o vi - claro, no
podia v-lo, est invisvel - queira desculpar ao velho Peeves
esta brincadeira.

- Tenho coisas a fazer neste lagar, Peeves - roncou Harry de
novo. - Fica longe daqui esta noite.

- Certamente, senhor Baro, com certeza - disse Peeves,
elevando-se de novo no ar. - Espero que tudo lhe corra bem,
senhor Baro. Eu no o incomodarei. - E ps-se a andar.

- Brilhante, Harry - murmurou o Ron.

Poucos segundos mais tarde estavam fora do corredor do
terceiro andar e a porta estava j aberta.

- Bem, c estamos - disse Harry baixinho. - O Snape j
conseguiu passar pelo Fluffy.

A viso daquela porta aberta, de certo modo, fez com que os
trs tomassem conscincia do que os aguardava. Debaixo da
capa, Harry voltou-se para os outros dois.  

- Se quiserem voltar atrs, eu compreendo - disse. - Podem
levar o manto, eu no vou precisar dele a partir de agora.

- No sejas estpido - disse o Ron.

- Ns vamos contigo - reforou Hermione.

Harry empurrou a porta aberta.

Mal ela chiou, comearam a fazer-se ouvir roncos baixos e
prolongados. Os trs narizes do co cheiravam loucamente na
direco deles apesar de no conseguir v-los.

- O que  aquilo aos ps dele? -- sussurrou Hermione.

- Parece uma harpa - disse o Ron. - O Snape deve t-la deixado
a.

- Ele deve acordar no momento em que se pra de tocar --,
disse o Harry. - L vai...

Levou a flauta do Hagrid aos lbios e soprou. No era 
propriamente melodiosa mas, logo  primeira nota, os olhos do
animal comearam a fechar-se. Harry mal tomou flego. Aos
poucos os rugidos do co cessaram - foi-se abaixo das patas,
caiu de joelhos e ficou no cho a dormir.

- Continua a tocar - foi o aviso do Ron para o Harry, enquanto
se esgueiravam do manto e avanavam em direco ao alapo.
Sentiram o bafo quente do co quando se aproximaram das trs
cabeas gigantescas.

- Acho que vamos conseguir abrir a porta do alapo - disse o
Ron, espreitando pelas costas do co. - Queres ir primeiro,
Hermione?

- No, no quero!

- Est bem. - Ron cerrou os dentes e passou cautelosamente
por cima das patas do co, baixou-se e puxou a argola do
alapo que deslizou, abrindo-se.

- O que vs? - perguntou Hermione cheia de curiosidade.  

-- Nada - s escuro - no h por onde descer, temos de saltar.

Harry, que ainda estava a tocar flauta, chamou a ateno do
Ron com um sinal e apontou para si prprio.

- Queres ir primeiro? Tens a certeza? - perguntou o Ron. -
No sei qual a profundidade desta coisa. D a flauta 
Hermione para ela o manter adormecido.

Harry entregou a flauta. Nos poucos segundos de silncio o co
torceu-se e rugiu, mas logo que Hermione comeou a tocar, caiu
de novo num sono profundo.

Harry passou por cima do animal gigantesco e olhou para baixo,
pelo alapo. No se avistava o fundo.

Enfiou-se no buraco, mantendo-se agarrado pelas pontas dos
dedos. Olhou ento para o Ron e disse: - Se me acontecer
alguma coisa no me sigam. Vo direitos ao ninho das corujas e
enviem a Hedwig ao Dumbledore. Certo?

- Certo - disse o Ron.

- At j, espero...

E Harry soltou-se. Um ar frio e hmido fez-se sentir enquanto
ia descendo, descendo, descendo e...

FLUMP! Com uma pancada estranha e abafada, aterrou em cima de
algo macio. Sentou-se e olhou em volta, com os olhos ainda no
habituados  escurido. Sentia-se como se estivesse em cima de
uma planta.

- Tudo O._K. - gritou para o fio de luz do tamanho de um selo
de correio que era a abertura do alapo. - _ um aterrar
suave, podem saltar!

Ron no esperou por mais e aterrou mesmo ao lado de Harry.

- O que  isto? - foram as suas primeiras palavras.

- No sei, uma espcie de planta. Deve estar aqui para
amortecer a queda. Salta, Hermione.  

A musica ao longe cessou. Ouviu-se um forte rosnar do co mas
Hermione j tinha saltado. Aterrou do outro lado de Harry.

- Devemos estar quilmetros abaixo da escola - disse ela.

- Ainda bem que est aqui esta espcie de planta- disse o Ron.

- Ainda bem? -- exclamou Hermione. - Olhem para vocs!

Ela deu um salto e debateu-se contra uma parede de nvoa e
humidade. Teve de reagir porque no momento em que aterrou a
planta comeou a contorcer-se, lanando garras serpenteantes
sobre os seus tornozelos. Quanto ao Ron e ao Harry, a planta
j lhes amarrara as pernas sem que eles dessem por isso.

Hermione conseguira libertar-se antes que a planta tivesse
tido tempo de a amarrar com fora. Olhava agora com horror
para os dois rapazes que lutavam para afastar a planta, mas
quanto maior era a luta mais ela os apertava.

- Fiquem quietos! - disse Hermione num tom de comando. - Eu
sei o que isso ,  *_A armadilha do diabo*!

- Ah! que bom ficar a conhecer-lhe o nome.  uma ajuda
preciosa - barafustou o Ron, encostando-se para trs numa
tentativa de evitar que a planta se lhe enrolasse em volta do
pescoo.

- Calem-se. Estou a tentar lembrar-me como se faz para a
neutralizar - disse Hermione.

- Ento despacha-te, mal consigo respirar! - resmungou o
Harry, defendendo-se enquanto a planta lhe apertava o peito.

- A armadilha do diabo, a armadilha do diabo... o que  que 
o professor Sprout disse? Gosta do escuro e da humidade.

- Ento acende uma fogueira - disse o Harry quase a sufocar.
 

- Claro, claro, mas no h madeira - lamentou-se Hermione,
torcendo as mos.
- __tu __ests __parva? - bradou o Ron. - :__s uma feiticeira
ou __no?

- Est bem! - disse Hermione pegando na varinha e fazendo um
gesto no ar. Murmurou algo indecifrvel e enviou um jacto de
chamas azuis contra a planta. Em poucos segundos, os dois
rapazes sentiram-na afrouxar o aperto enquanto se afastava do
calor e da luz. Com movimentos sinuosos desenvencilhou-se dos
corpos deles e os dois puderam libertar-se.

-  uma sorte tu seres to boa aluna em herbologia, Hermione -
disse o Harry, enquanto se juntava a ela encostado  parede e
limpava o suor do rosto.

- Sim - disse o Ron. - E ainda bem que o Harry mantm a cabea
fria nos momentos crticos - *_No h madeira*, francamente...

- Por aqui - apontou Harry, mostrando-lhes uma passagem que
descia e que era o nico caminho.

Alm dos prprios passos apenas conseguiam ouvir o suave
gotejar da gua escorrendo em fio ao longo das paredes. A
passagem descia em declive e Harry lembrou-se de Gringotts.

Com um desagradvel aperto no corao recordou que se dizia
que os drages guardavam os cofres no banco dos feiticeiros. E
se dessem de caras com um drago, um drago adulto. O Norbert
j fora suficientemente mau...

- Consegues ouvir alguma coisa? - murmurou o Ron.

Harry fez um esforo. Um leve sussurro e um tinir que parecia
vir l do fundo.

- Achas que  algum fantasma?

- No sei. Parece-me o som de asas.  

- H luz ali adiante, acho que estou a ver alguma coisa a
mexer-se.

Chegaram ao fim do caminho. Em frente deles estava uma sala
magnificamente iluminada. O tecto em arco estava cheio de
pequeninos pssaros brilhantes que batiam agitadamente as asas
e davam cambalhotas por toda a sala. Do lado oposto havia uma
pesada porta de madeira.

- Achas que nos agridem se atravessarmos a sala? - perguntou
o Ron.

- Provavelmente - disse o Harry. - No parecem muito perigosos
mas suponho que se atacarem todos juntos... bem, se isso
acontecer, eu fujo...

Respirou fundo, cobriu o rosto com um dos braos e atravessou
a sala a correr. Estava  espera de sentir bicos afiados e
mandbulas lanarem-se sobre ele mas nada aconteceu. Chegou 
porta inclume. Deu a volta  maaneta mas estava fechada.

Os outros dois seguiram-no. Puxaram e empurraram a porta mas
ela no se moveu nem quando Hermione tentou o seu feitio
*_Alohomora*.

- E agora? - perguntou o Ron.

- Estes pssaros... no esto certamente aqui s para decorar
a sala - disse Hermione.

Observaram os pssaros elevando-se no ar, cintilantes - 
cintilantes?

- No so pssaros! - exclamou Harry num repente. - So
chaves. Chaves aladas! Observem com ateno, isso deve
significar que... --, espreitou em volta enquanto os outros
dois olhavam para cima, para o bando de chaves.

- ... Sim, olha! Vassouras! Temos de agarrar a chave da porta!

- Mas so centenas...

Ron examinou o formato da fechadura.  

- A que nos interessa  grande, antiquada, talvez a prateada
como a maaneta da porta.

Cada um pegou numa vassoura e elevaram-se no ar pelo meio da
nuvem de chaves. Esticaram-se e contorceram-se, mas as chaves
enfeitiadas precipitavam-se como setas e desciam to
rapidamente que era praticamente impossvel agarrar alguma.

Mas tambm no era por acaso que Harry era o mais jovem
*seeker* de h um sculo para c em Hogwarts. Tinha um dom
para vislumbrar o que escapava aos outros. Aps alguns minutos
a serpentear por entre o turbilho de penas multicores,
reparou numa chave prateada e longa que tinha uma asa dobrada
como se j tivesse sido agarrada e metida violentamente na
fechadura.

- Aquela - gritou ele aos outros. - A grande, ali; no, ali;
com asas azuis brilhantes. As penas esto todas amachucadas de
um dos lados.

Ron dirigiu-se rapidamente na direco que Harry apontava.
Bateu no tecto e quase caiu da vassoura.

- Temos de nos aproximar dela! - gritou Harry, sem tirar os
olhos da chave da asa estragada. - Ron, tu atacas de cima;
Hermione fica em baixo e evita que ela desa que eu vou tentar
apanh-la. AGORA!

Ron mergulhou, Hermione subiu, a chave fintou os dois e Harry
foi a toda a velocidade atrs dela. A chave acelerou, direita
 parede, Harry inclinou-se e com um rudo desagradvel
espalmou-a contra a parede com uma das mos. Os aplausos do
Ron e da Hermione ecoaram em todo o salo.

Aterraram rapidamente e Harry correu para a porta com a chave
a lutar para lhe fugir da mo. Enfiou-a na fechadura e deu a
volta. Era mesmo aquela. Tinham acertado. Mas mal a fechadura
fez o *clic* e se abriu, a chave voou de novo, com um aspecto
bastante mais amachucado, agora que fora agarrada duas vezes.
 

- Prontos? - perguntou o Harry aos outros dois, com a mo na
maaneta. Eles fizeram um sinal afirmativo e Harry Potter
empurrou a porta.

A sala que se seguia era to escura que eles no conseguiam
ver absolutamente nada mas, quando entraram todos, a luz
encheu a diviso revelando algo verdadeiramente
surpreendente.

Estavam  beirinha de um gigantesco tabuleiro de xadrez. _
frente das peas pretas que eram todas mais altas do que eles
e esculpidas no que lhes pareceu ser uma pedra negra. De
frente para eles, do outro lado da sala, estavam as peas
brancas. Harry, Ron e Hermione estremeceram ligeiramente - as
altas peas brancas no tinham rosto.

- E agora, o que fazemos? - murmurou Harry.

-  bvio, ou no? - disse o Ron. - Temos de fazer
o percurso, a jogar, atravs da sala.

Por detrs das pecas brancas podia ver-se outra porta.

-- _mas como? - perguntou nervosamente Hermione.

- Eu acho - disse o Ron - que vamos ter de ser
peas de xadrez.

Ele subiu para um cavaleiro preto e ps a mo para tocar no
cavalo. De imediato a pedra ganhou vida. O cavalo esgravatou o
cho e o cavaleiro virou a cabea, coberta por um elmo,
olhando para o Ron.

- Temos de nos juntar a vocs para atravessar?

O cavaleiro negro fez, com a cabea, um sinal afirmativo. 
Ron comentou com os dois amigos.

- Isto requer alguma reflexo. Suponho que temos de tomar o
lagar de trs peas pretas...

Harry e Hermione ficaram muito quietos, observando o Ron a
raciocinar. Por fim, disse: - No fiquem ofendidos comigo mas
a verdade  que nenhum de vocs  um _s no 
xadrez...  

- No estamos ofendidos - disse o Harry, sem perder tempo -
diz-nos s o que temos que fazer.

-- Bem, Harry, tu vais tomar o lugar do bispo e tu, Hermione,
vais a seguir a ele em vez da torre.

- Ento e tu?

- Eu vou ser um cavaleiro --, disse o Ron.

As peas pareciam ter estado a ouvi-los, porque mal
pronunciaram estas palavras um cavaleiro, um bispo e uma torre
voltaram as costas s pedras brancas e saram do tabuleiro de
xadrez deixando trs lugares vagos para o Harry, o Ron e a
Hermione preencherem.

-- As brancas comeam sempre no xadrez --, disse o Ron,
perscrutando o tabuleiro. - Sim... olhem.

Um peo branco avanara dois quadrados. O Ron comeou a
dirigir as peas pretas. Estas moviam-se em silncio para onde
ele as mandava ir. Os joelhos do Harry tremiam. E se
perdessem?

- Harry, move-te na diagonal, quatro quadrados para a direita.

O primeiro confronto deu-se quando o outro cavaleiro lhos foi
retirado.

A rainha branca atirou-o ao cho e arremessou-o para fora do
tabuleiro onde ele ficou sem se mexer com a cara para o cho.

- Tinha de ser - disse o Ron, com um ar abalado. - Ficas livre
para tomar o bispo, Hermione.

De cada vez que eles perdiam uma pea, as peas brancas eram
impiedosas. Pouco depois havia uma confuso de peas pretas,
numa baixa sbita ao longo da parede. Por duas vezes, s no
ltimo momento  que o Ron reparou que Harry e Hermione
estavam em perigo. Ele prprio lanou-se como uma flecha ao
longo do tabuleiro, tomando quase tantas peas brancas como
aquelas que tinham perdido.  

- Estamos quase a conseguir - murmurou. - Deixa-me pensar,
deixa ver...

A rainha branca voltou a sua cara sem feies para ele.

-- Sim... - disse o Ron calmamente. -  a nica maneira. Eu
tenho de ser tomado.

- No! - gritaram Harry e Hermione.

- _ o xadrez! - interrompeu o Ron. - H que fazer alguns
sacrifcios! Eu dou um passo em frente e ela toma-me - isso
permite-te fazer um xeque-mate ao rei, Harry.

- Mas...

- Queres travar o Snape ou no?

- Ron...

- Tens de apressar-te, olha que ele pode at j ter a pedra!
No havia nada a fazer.

- Prontos? - perguntou o Ron, plido mas determinado. - C
vou eu e vocs no fiquem a perder tempo, avancem logo que
tenham o jogo ganho.

Ele deu um passo e a rainha branca atacou-o, dando-lhe uma
forte pancada na cabea com o seu brao de pedra e atirando-o
ao cho. Hermione soltou um grito mas manteve-se no
respectivo quadrado. A rainha branca empurrou para o lado o
Ron que parecia ter sido abatido.

A tremer, Harry moveu-se trs casas para a esquerda.

O rei branco tirou a coroa da cabea e lanou-a aos ps do
Harry. Tinham vencido. As peas fizeram um cumprimento e
foram-se embora, deixando a porta desimpedida. Depois de
lanar ao Ron um ltimo olhar de desespero, Harry e Hermione
saram pela porta em direco  prxima passagem.

- E se ele...?

- Ele fica bem --, disse o Harry, tentando convencer-se a si
prprio. - O que vir a seguir?

- J tivemos a *_Armadilha do diabo* que devia ser o feitio
do Sprout - o Flitwick deve ter enfeitiado as chaves - a
Mc_Gonagall transfigurou as peas do xadrez para as fazer  
ganhar vida - s faltam os feitios do Quirrell e do Snape...
Tinham chegado a outra porta.

- Tudo bem? - perguntou Harry baixinho.

- Fora!

Harry empurrou e abriu-a.

Um cheiro nauseabundo invadiu-lhes as narinas, fazendo com que
os dois tapassem o nariz com as capas. Com os olhos
lacrimejantes viram cado no cho, em frente deles, um gigante
ainda maior do que aquele a quem tinham conseguido dar com a
moca na cabea.

- Ainda bem que no tivemos de lutar com este --, disse o
Harry enquanto passava cautelosamente por cima das suas pernas
macias. - Depressa, mal consigo respirar.

Aps a prxima porta, estavam ambos receosos de olhar para o
que os esperava mas no havia ali nada de muito assustador.
Apenas uma mesa com sete garrafas de diferentes formatos
colocadas em linha recta.

- O feitio do Snape. O que  que temos de fazer? 
Aproximaram-se do limiar e um fogo acendeu-se de imediato
atrs deles. No era um fogo vulgar. Era lils. Nesse mesmo
instante chamas pretas encheram a porta que lhes podia dar
sada. Estavam encurralados.

- Olha! - Hermione avistou um rolo de papel junto das
garrafas. Harry espreitou por cima do ombro dela e leu:

O perigo est na frente, atrs a segurana,
Duas de ns esto convosco. No percam a esperana.
Uma de ns deixar-vos- seguir em frente
Outra levar-vos-, para trs, de repente.
Duas de ns dar-vos-o vinho de urtiga a provar
Trs de ns esto  espera para vos matar.
Escolham, ou para sempre aqui iro ficar
Damo-vos quatro pistas para vos ajudar.  
Mesmo que o veneno, esconder-se bem, consiga
Haver sempre um rasto  esquerda da urtiga.
Segunda, ainda que os extremos possam parecer diferentes
Nenhum  teu amigo se tentares ir em frente.
Terceira, todas somos divergentes no porte
Nem gigante nem gnomo tem, l dentro, a morte.
Quarta, o segundo d esquerda e o segundo  direita
So iguais se os provarem, mas diferentes na espreita.

Hermione deu um suspiro de alvio e Harry, espantado, viu que
ela sorria, a ltima coisa que ele se lembraria de fazer.

- Brilhante - disse Hermione. - Isto no  magia,  lgica -
um quebra-cabeas. A maior parte dos grandes feiticeiros no
tm um grama de lgica, vo ficar aqui fechados para sempre.

- Mas, o mesmo vai acontecer-nos a ns, ou no?

-  claro que no --, disse Hermione. - Tudo o que precisamos
est aqui neste papel. Sete garrafas: trs tm veneno, duas
tm vinho, uma ajudar-nos- a passar pelo fogo preto (para a
frente) e outra pelo fogo lils.

- Mas como vamos saber qual o lquido que devemos beber?

- D-me um minuto!

Hermione leu o papel vrias vezes. Depois andou de um lado
para o outro, junto do alinhamento das garrafas, murmurando
sozinha e apontando para elas.

Por fim bateu palmas.

- J sei --, exclamou. A garrafa mais pequena levar-nos-
atravs do fogo negro.

Harry olhou para a garrafinha.

- S h aqui quantidade suficiente para um de ns --, disse
ele. - Mal d um gole.

Olharam um para o outro.  

- Qual  a que nos traz de volta atravs das chamas lilases?

Hermione apontou para a garrafa bojuda do lado direito da
linha.

- Bebe essa - disse o Harry. - No, ouve, vai l atrs buscar
o Ron, agarra vassouras da sala das chaves voadoras. Elas
podem ajudar-nos a subir pelo alapo e passar pelo Fluffy;
vai tambm ao ninho das corujas e envia a Hedwig ao
Dumbledore, precisamos dele. Eu posso aguentar-me com o Snape
durante algum tempo mas sei que no chego para ele.

- Mas, Harry, e se o Quem ns sabemos estiver com ele?

- Bem, eu tive sorte uma vez, no tive? - disse ele apontando
para a cicatriz. - Pode ser que tenha sorte de novo.

O lbio de Hermione tremeu e num repente lanou-se sobre ele
e abraou-o.

- Hermione!

- Harry, tu s um grande feiticeiro.

- No to bom como tu - disse Harry, pouco -vontade,
enquanto ela o largava.

- Eu! - disse Hermione. - Livros! e esperteza! H coisas mais
importantes: amizade, coragem e ... oh! Harry, tem cuidado!

- Bebe primeiro --, disse o Harry. - Tens a certeza de que so
estas, no tens?

- Absoluta - disse Hermione. Bebeu um grande gole da garrafa
bojuda e no fim arrepiou-se.

- No  veneno? - perguntou Harry cheio de ansiedade.

- No, mas parece gelo.

- Vai depressa, antes que desaparea o efeito.

- Boa sorte. Tem cuidado.  

-- VAI!

Hermione voltou-se e avanou direita ao fogo lils. Harry
respirou fundo e pegou na garrafinha mais pequena. Olhou em
frente para as chamas negras.

- L vou eu --, disse e emborcou a garrafa de urna vez s.

Era, de facto, como se o gelo o tivesse inundado de cima a
baixo. Pousou a garrafa, ganhou coragem e avanou. Viu as
chamas negras lamberem-lhe o corpo mas no conseguiu senti-las
- durante alguns momentos no viu seno fumo negro - a seguir,
estava do outro lado, na ltima sala.

Havia algum que j se encontrava l, mas no era o Snape. 
E tambm no era o Voldemort.


Captulo XVII -- O homem com duas caras


Era Quirrell. 

- Voc? - exclamou Harry.

Quirrell sorriu. O seu rosto no se contorcia.

- Eu, - disse com toda a calma. - Estava na dvida se nos
encontraramos aqui, Potter.

- Mas eu pensei, o Snape...

- Severus? - Quirrell riu-se. E no era o seu riso habitual.
Era um riso frio e cortante. - Sim, o Severus tem todo o
aspecto, no tem?  muito til t-lo por perto como um morcego
imparvel. Comparado com ele, quem se lembraria de suspeitar
do p-p-p-obre e g-g-gago professor Quirrell?

Harry no acreditava no que estava a ouvir. No podia ser
verdade, no podia.

- Mas o Snape tentou matar-me!

- Na-na-na-no! Eu tentei matar-te. A tua amiga Hermione
Granger  que me empurrou acidentalmente com a pressa de pegar
fogo ao manto do Snape e quebrou o meu contacto visual
contigo. Mais alguns segundos e tinha-te feito saltar daquela
vassoura. J o teria conseguido antes se o Snape no andasse
atrs de mim a impedir-me e a tentar salvar-te.

- O Snape a tentar salvar-me?

- Claro - disse Quirrell, tranquilamente. - Porque pensas que
ele quis arbitrar o teu segundo jogo? Estava a procurar
assegurar-se de que eu no voltaria a tentar. Engraado... no
precisava de ter tido tanto  trabalho. No havia nada que
eu pudesse fazer com o Dumbledore a assistir. Todos os outros
professores pensaram que o Snape estava a ver se impedia os
Gryffindor de ganharem. Tornou-se bastante impopular, coitado
e... que perda de tempo j que, ao fim e ao cabo, esta noite,
vou acabar contigo.

Quirrell estalou os dedos. Vrias cordas desceram do ar e
enrolaram-se  volta do Harry.

- s demasiado abelhudo para continuares vivo, Potter,
bisbilhotando em volta da escola no Hallowe'en, pois eu sei
muito bem que me viste ir espreitar aquilo que guardava a
pedra.

- Foi o senhor que deixou entrar o gigante?

- Naturalmente. Tenho um dom especial para lidar com gigantes,
deves ter visto o que fiz quele da outra sala! Infelizmente,
enquanto todos os professores andavam  procura dele, o Snape,
que j ento suspeitava de mim, foi direito ao terceiro andar
para me desviar do caminho; e no s o meu gigante no
conseguiu matar-te, como aquele co de trs cabeas nem sequer
foi capaz de lhe morder decentemente a perna.

- Ora vejamos, Potter. Eu preciso de examinar este
interessante espelho que aqui est.

S ento Harry se apercebeu de que diante do Quirrell se
encontrava o espelho dos invisveis.

- Este espelho  a chave para descobrir a pedra - murmurou
Quirrell tamborilando com os dedos na moldura.

- S mesmo Dumbledore para se lembrar de uma coisa destas, mas
ele est em Londres... e eu estarei a milhas quando ele
regressar!

A nica coisa que passou pela cabea do Harry foi que, se
mantivesse o Quirrell a falar o mximo de tempo possvel,
evitaria que ele se concentrasse no espelho.

- Eu vi-os, ao senhor e ao Snape na floresta --, afirmou.  

-- Sim -- disse Quirrell maquinalmente, enquanto passava em
volta do espelho para o ver por detrs.-Ele andava a
seguir-me, a tentar descobrir o que eu sabia. Suspeitou de mim
desde o princpio. Tentou intimidar-me, como se isso fosse
possvel, tendo o senhor Voldemort do meu lado...

Quirrell saiu de trs do espelho e olhou zangado para ele.

- Eu vejo a pedra... vou oferec-la ao meu mestre, mas onde 
que ela est?

Harry debatia-se contra as cordas que o apertavam mas estas
no cediam. Tinha que impedir que o Quirrell fixasse toda a
ateno no espelho.

- Mas o Snape sempre pareceu detestar-me tanto...

- Oh! ele detesta-te - disse o Quirrell com a maior
naturalidade. - Sem dvida. Esteve em Hogwarts com o teu pai.
No sabias? Odiavam-se um ao outro mas ele nunca te quis
matar.

- Mas eu ouvi o senhor a soluar, h dias, pensei que o Snape
estava a amea-lo...

Pela primeira vez, um acesso de medo passou pelo rosto de
Quirrell.

- _s vezes --, disse, -  difcil para mim seguir as
instrues do meu mestre; ele  um grande feiticeiro e eu sou
fraco.

- Quer dizer que ele estava ali na sala de aula, consigo?

- Ele est comigo onde quer que eu esteja - disse Quirrell
calmamente. - Conheci-o quando viajava pelo mundo. Eu era um
jovem tonto, cheio de ideias ridculas sobre o bem e o mal. O
senhor Voldemort mostrou-me o quanto eu estava enganado. No
existe bem nem mal, apenas poder e os que so demasiado fracos
para o procurarem... Desde ento tenho-o servido fielmente
apesar de o ter desiludido muitas vezes. Ele tem-se visto
obrigado a ser muito duro comigo - disse o Quirrell
subitamente arrepiado. - Voldemort no perdoa os erros com
facilidade.  Quando eu no fui capaz de roubar a pedra de
Gringotts ficou muito insatisfeito, castigou-me e decidiu que
tinha de vigiar-me mais de perto.
A voz de Quirrell pareceu-lhe distante. Harry recordou a sua
ida  Diagon-Al - como tinha podido ser to estpido? Ele
vira l o Quirrell nesse mesmo dia quando lhe apertou a mo no
Caldeiro Escoante.

Quirrell praguejou entredentes.

- No compreendo... a pedra estar dentro do espelho? Deverei
parti-lo? - A mente de Harry disparou.

O que eu mais quero neste momento, pensou,  encontrar a
pedra antes do Quirrell. Logo, se eu olhar para o espelho vou
ver-me a descobri-la, isto , saberei onde est escondida.
Mas, como  que eu posso olhar sem que o Quirrell se aperceba?

Tentou chegar-se para a esquerda, de modo a ficar em frente do
espelho sem que o Quirrell desse por isso, mas as cordas em
volta dos tornozelos estavam demasiado apertadas, tropeou e
caiu. Quirrell ignorou-o e continuou a falar sozinho.

- O que far o espelho? Qual ser o seu funcionamento?
Ajude-me, mestre.

E, para grande horror de Harry, uma voz respondeu. Uma voz que
parecia vir de dentro do prprio Quirrell.

- Usa o rapaz! Usa o rapaz!

Quirrell caiu sobre Harry.

- Sim, Potter, anda c!

Bateu palmas uma vez e as cordas que o amarravam caram por
terra. Harry ps-se de p.

- Chega aqui! - repetiu o Quirrell. - Olha para o espelho e
diz-me o que vs.

Harry avanou para ele.

- Tenho de mentir - pensou em desespero de causa. - Tenho de
ver e mentir sobre o que vejo.  

Quirrell veio colocar-se por detrs dele. Harry sentiu aquele
estranho cheiro que parecia vir de dentro do turbante do
Quirrell. Fechou os olhos, colocou-se em frente do espelho e
voltou a abri-los.

Viu-se a princpio plido e assustado mas, momentos depois, o
reflexo sorriu-lhe, meteu a mo ao bolso e retirou de l uma
pedra vermelho sangue. Piscou-lhe o olho e meteu-lhe a pedra
no bolso, e ao fazer aquilo Harry sentiu algo pesado cair-lhe
mesmo dentro do bolso. De um modo que no sabia explicar,
inacreditavelmente, ele tinha a pedra.

- Ento? - perguntou o Quirrell, impacientemente. - O que vs?

Harry reuniu toda a sua coragem.

- Vejo-me a apertar a mo ao Dumbledore - inventou. - Eu
acabei de ganhar a taa para os Gryffindor.

Quirrell voltou a praguejar.

- Sai da frente - disse. Quando Harry se mexeu sentiu a pedra
filosofal roar-lhe na perna. Deveria tomar alguma atitude?

Mas no tinha dado cinco passos quando uma voz alta falou
atravs do Quirrell, sem que este movesse os lbios.

- Ele mente... Ele mente...

- Potter, volta aqui! - gritou o Quirrell. - Diz-me a verdade.
O que  que viste?

A voz falou de novo.

- Deixa-me falar com ele cara a cara...

- Mestre, o senhor no est com foras suficientes!

- Tenho fora suficiente para isto...

Harry sentiu como se a armadilha do diabo estivesse a preg-lo
ao cho. No conseguia mover um msculo. Petrificado, viu o
Quirrell comear a desembrulhar o turbante. O que era aquilo?
O turbante caiu. A cabea do Quirrell parecia inesperadamente
pequena sem ele. Ento Quirrell voltou-se lentamente de costas
sem sair do mesmo lugar.  

Harry teria gritado se pudesse mas foi incapaz de produzir um
som. No lugar onde deveria estar a nuca do Quirrell estava um
rosto. O rosto mais pavoroso que ele alguma vez vira. Era
branco como o giz, com olhos vermelhos brilhantes e fendas no
lugar das narinas, como as cobras.

- Harry Potter - murmurou a coisa.

Harry tentou recuar um passo mas as pernas no lhe obedeceram.

- Vs no que eu me tornei? - disse a cara.

- Uma mera sombra e vapor... s tenho forma quando partilho o
corpo de outra pessoa... mas tem havido gente disposta a
deixar-me entrar nos seus coraes e na sua mente... o sangue
de unicrnio fortaleceu-me durante as ltimas semanas... viste
o meu fiel Quirrell beb-lo por mim, na floresta. E, logo que
tenha o elixir da vida poderei criar um novo corpo. Portanto,
d-me a pedra que tens no bolso!

Ento ele sabia. Subitamente Harry voltou a sentir as pernas e
recuou, tropeando.

- No sejas parvo --, rosnou a cara. -  melhor salvares a
vida e juntares-te a mim. Ou vais acabar por ter o mesmo fim
que os teus pais que morreram a pedir misericrdia...

- MENTIROSO! - gritou Harry, num repente.

O Quirrell avanava de costas para ele para que Voldemort
pudesse v-lo bem. A cara cruel estava agora a sorrir.

- Que comovedor... - disse num tom sibilante. - Sempre
respeitei muito a coragem... sim rapaz, o teu pai era
corajoso. Matei-o em primeiro lugar e ele defendeu-se com
bravura... mas a tua me no precisava de ter morrido. S
morreu por tentar proteger-te. Agora passa para c a pedra, a
no ser que queiras que a morte dela tenha sido em vo.  

- NUNCA! 

Harry lanou-se de um salto para a porta em chamas, mas
Voldemort gritou - __agarra-o! - e um segundo depois Harry
sentiu a mo do Quirrell apertando-lhe o pulso. Nesse momento
uma dor aguda como uma agulha ardeu na cicatriz do Harry, como
se a cabea fosse partir-se ao meio. Gritou com todas as
foras que lhe restavam e, para sua grande surpresa, viu que o
Quirrell o largou. A dor de cabea abrandou um pouco. Olhou em
volta impacientemente para tentar perceber onde o Quirrell
tinha ido e viu-o dobrado com dores, a olhar para os dedos que
empolavam a olhos vistos.

- __agarra-o! __agarra-o! - voltou Voldemort a gritar e
Quirrell precipitou-se para Harry, fazendo-o cair ao cho,
aterrando em cima dele e lanando-lhe ambas as mos  volta do
pescoo - a cicatriz do Harry quase o cegava de dores mas
ainda assim conseguia ver o Quirrell gemendo em agonia.

- Mestre, no consigo agarr-lo - as minhas mos, as minhas
mos!

E Quirrell, apesar de ter o Harry imobilizado contra o cho
com a fora dos joelhos, largou-lhe o pescoo e olhou
horrorizado para as mos.

Harry via-as perfeitamente, queimadas, vermelhas e
reluzentes.

- Ento mata-o, idiota, de uma vez por todas - ordenou
Voldemort.

Quirrell levantou a mo para realizar um feitio de morte, mas
Harry instintivamente agarrou-lhe a cara.

- AAARGH!

Quirrell saiu de cima dele com a cara numa bolha e Harry
percebeu que ele no podia tocar-lhe sem sofrer dores
horrveis - a sua nica sada era agarrar o Quirrell e
mant-lo com tantas dores que o impedissem de realizar o
feitio.  

Harry ps-se de p, agarrou o Quirrell pelo brao e apertou o
mximo que pde. Quirrell gritava e tentava desenvencilhar-se
dele - a dor de cabea de Harry aumentava de novo - no
conseguia ver nada, apenas ouvia as ordens do Voldemort -
__mata-o! __mata-o! - e outras vozes, provavelmente dentro da
sua prpria cabea, gritando - Harry! Harry!

Sentiu o brao do Quirrell afrouxar o aperto e soube que
estava tudo perdido. Comeou a cair... a cair... a cair na
escurido.

Algo dourado brilhava acima dele. A *snitch*! Tentou agarr-la
mas o brao estava muito pesado.

Piscou os olhos. No era a *snitch*. Eram uns culos. Que
estranho.

Piscou de novo os olhos e viu o rosto sorridente de Albus
Dumbledore.

Harry olhou para ele e s ento se lembrou. - Professor, a
pedra. Foi o Quirrell. Ele tem a pedra, professor, depressa...

- Acalma-te, rapaz. Ests um pouco atrs no tempo - disse
Dumbledore. - O Quirrell no tem a pedra.

- Ento quem a tem, professor?

- Harry, acalma-te ou Madame Pomfrey vai acabar por mandar-me
embora.

Harry engoliu em seco e olhou em volta. Apercebeu-se de que
estava na ala hospitalar deitado numa cama com lenis de
linho branco e que ao seu lado estava uma mesa que parecia ter
em cima metade de uma loja de doces.

- Lembranas dos teus amigos e admiradores --, disse
Dumbledore a sorrir. - O que aconteceu l em baixo nos
calabouos entre ti e o professor Quirrell  segredo, por
isso, naturalmente, toda a escola j tomou conhecimento.
Julgo que os teus amigos Fred e George Weasley so
responsveis por terem tentado oferecer-te um assento  de
sanita. Sem dvida pensaram que te divertiria. Contudo, Madame
Pomfrey no considerou a oferta suficientemente higinica e
confiscou-a.

- H quanto tempo estou aqui?

- Trs dias. O Ronald Weasley e a Hermione Granger ficaro
muito aliviados quando souberem que voltaste a ti. Tm estado
extremamente preocupados.

- Mas, professor, a pedra...

- J percebi que no sais da tua. Muito bem, falemos ento da
pedra. O professor Quirrell no conseguiu tirar-ta. Eu cheguei
que isso sucedesse, embora tenhas desenvencilhado muito bem
sozinho, deixa que te diga.

- O professor foi l abaixo? _recebeu a coruja que a Hermione
enviou?

- Devemos ter-nos desencontrado no ar. _mal cheguei a Londres
apercebi-me de que o lugar onde devia estar era aquele de onde
acabara de sair. Cheguei aqui mesmo a tempo de afastar o
Quirrell de ti.

- Era o senhor.

- Receava chegar tarde de mais.

- Quase chegou. Eu no conseguia defender a pedra durante
muito mais tempo.

- No  da pedra que estou a falar,  de ti. _o esforo que
despendeste quase te matou. Por um momento fiquei apavorado a
pensar que tinhas morrido. _quanto  pedra
foi pura e simplesmente destruda.

- Destruda? - disse Harry, desorientado. -- _mas o seu amigo
Nicolas Flamel...

- Ah! tu sabes do Nicolas? - disse Dumbledore com uma
expresso deliciada. - Fizeste o trabalho na perfeio, no h
dvida. Bem, eu e o Nicolas tivemos uma conversazinha e
decidimos que era a melhor soluo.

- Mas isso significa que ele e a mulher acabaro por morrer...
 

Dumbledore sorriu perante o olhar de espanto no rosto de
Harry.

-Para um jovenzinho da tua idade pode parecer incrvel mas,
para Nicolas e Perenelle,  como ir para a cama depois de um
dia muito longo e cansativo. Alm disso, para uma mente bem
organizada, a morte  apenas a prxima grande aventura. Sabes
Harry, a pedra no era uma coisa to boa como parecia 
primeira vista. Toda a vida e dinheiro que possa querer-se!!!
As duas coisas que a maior parte dos seres humanos escolheria
acima de tudo... o problema  que os seres humanos tm
tendncia para escolher sempre o que  pior para eles.

Harry ficou a olh-lo, sem palavras. Dumbledore fez uma pausa
e sorriu para o tecto.

- Professor --, disse Harry, - eu estive a pensar... mesmo que
a pedra tenha desaparecido, Vol... quer dizer o Quem ns
sabemos...

- Chama-lhe Voldemort, Harry. Usa sempre o verdadeiro nome
das coisas. Recear um nome aumenta o medo que se tem dele.

- Sim, professor. Bem, o Voldemort vai com certeza tentar
outras maneiras de voltar. No vai? Quero dizer, ele no
desapareceu, pois no?

- No, Harry. No desapareceu. Ainda anda por a, algures,
provavelmente em busca de outro corpo para partilhar. No
estando verdadeiramente vivo no pode ser morto. Deixou o
Quirrell morrer, o que prova que a sua falta de piedade 
igual tanto em relao aos inimigos como aos amigos. Ainda
assim, Harry, apesar de teres conseguido apenas retardar o
seu regresso ao poder, basta que exista algum preparado para
voltar a fazer-lhe frente naquilo que s aparentemente  uma
guerra perdida, porque se ele for sendo afastado, uma e outra
vez, pode ser que nunca mais volte ao poder.  

Harry acenou com a cabea mas parou rapidamente porque lhe
doeu. Disse: -- Professor, eu gostaria de saber a verdade
sobre algumas coisas. 

- A verdade - suspirou Dumbledore -  bela e terrvel e
dever por isso ser tratada com grande cuidado. Contudo, vou
responder s tuas perguntas. A no ser, claro, que tenha um
bom motivo para no o fazer e, nesse caso, peo-te que me
desculpes mas, como  natural, no mentirei;

- Bem, o Voldemort disse que s matou a minha me porque ela
tentou impedi-lo de me matar. Mas, porque quereria ele
matar-me a mim?

Dumbledore suspirou bem fundo.

- Ai! _ primeira pergunta que me fazes no posso responder.
Nem hoje nem agora. Sabers um dia... esquece isso para j,
Harry, quando fores mais velho... sei que detestas esta
frase... quando estiveres preparado, sabers.

E Harry percebeu que no valia a pena insistir.

- Mas porque no podia o Quirrell tocar-me?

- A tua me morreu para te salvar. Se h alguma coisa que
Voldemort no consegue entender  o amor. Ele no compreendeu
que um amor to poderoso como o que a tua me tinha por ti
deixa a sua prpria marca. No uma cicatriz, no um sinal
visvel. Ter sido amado com uma tal profundidade, mesmo que a
pessoa que nos amou tenha partido, dar-nos- proteco durante
a vida inteira. Est na tua pele. Por isso o Quirrell, cheio
de dio, avidez e ambio, partilhando a alma com o Voldemort
no podia tocar-te. Era insuportvel tocar em algum marcado
por algo to sublime.

Dumbledore parecia agora muito interessado num pssaro fora
do parapeito da janela, o que deu tempo a Harry para limpar os
olhos ao lenol. Quando recuperou a voz, disse: - E o manto da
invisibilidade? Sabe quem mo ter mandado?  

- Ah! O teu pai deixou-o, por acaso,  minha guarda. Pensei
que gostarias certamente de ficar com ele. - Os olhos de
Dumbledore brilharam. -- Coisas teis... o teu pai usou-o
muitas vezes para ir buscar comida s cozinhas...

- E ainda h outra coisa...

- Dispara!

- O Quirrell disse que o Snape...

- Professor Snape, Harry.

- Sim, ele. O Quirrell disse que ele me detesta porque
detestava o meu pai.  verdade?

- Bem, de certo modo detestavam-se mutuamente. Um pouco como
tu e o Malfoy. At que um dia o teu pai fez algo que o Snape
nunca lhe perdoou.

- O qu?

- Salvou-lhe a vida.

- Como?

- Sim --, disse Dumbledore com ar sonhador. -  estranho como
a mente das pessoas funciona, no ? O professor Snape no
suportava estar em dvida para com o teu pai. Penso que ele se
esforou tanto este ano para te proteger porque sentiu que
desse modo saldaria a dvida e ficariam quites. A partir de
ento poderia voltar a detestar em paz a memria do teu pai.

Harry tentou compreender mas sentiu que aquele raciocnio lhe
dava um n na cabea. Por isso desistiu.

- E, professor, h mais uma coisa!

- S uma?

- Como  que a pedra passou do espelho para mim? 

- Ah! ainda bem que fazes a pergunta. Essa foi uma das minhas
ideias mais brilhantes. E, aqui entre ns, no tm sido
poucas. V bem, s algum que desejasse encontrar a pedra,
encontr-la mas no utiliz-la, poderia consegui-la. Caso
contrrio, ver-se-iam a fabricar ouro ou a beber o elixir da
vida. A capacidade do meu  crebro, s vezes, at a mim me
surpreende! Agora chega de perguntas. Sugiro que comeces a
provar alguns destes bolos. Ah! os feijes de todos os sabores
da Bertie Bott! Eu tive a infelicidade, na minha juventude, de
provar um com sabor a vomitado e desde ento perdi toda a
atraco por eles, mas julgo que no h perigo num caramelo
de manteiga...

Sorriu e meteu na boca um feijo castanho-dourado. A seguir
estremeceu e disse: - Ai! Cerume!


Madame Pomfrey, a directora da Ala hospitalar, era uma
mulher simptica mas muito severa.

- S cinco minutos --, suplicou Harry.

- De modo algum.

- Deixou o professor Dumbledore entrar...
 
- Claro.  o director da escola. No achas que h diferena?
Tu precisas de repousar.

- Eu estou a descansar, veja, deitado e tudo. V l Madame
Pomfrey...

- Bem, est bem, mas s cinco minutos.

E mandou entrar Ron e Hermione.

- Harry!

Hermione preparava-se para lhe lanar de novo os braos ao
pescoo, mas Harry ficou aliviado por ela se ter dominado pois
tinha ainda a cabea muito dorida.
 
- Oh! Harry, pensamos que tu ias... o Dumbledore estava to
preocupado...

- Toda a escola fala de ti --, disse o Ron. -- _o que  que
aconteceu, afinal?

Era uma das raras ocasies que a histria verdadeira
era ainda mais estranha e excitante do que os boatos. Harry
contou-lhes tudo: Quirrell, o espelho, a pedra e Voldemort.
Ron e Hermione eram uma audincia imbatvel. Entusiasmavam-se
sempre nos momentos certos. Quando  
Harry lhes contou o que estava debaixo do turbante do
Quirrell, Hermione deu um grito agudo.

- Ento a pedra j no existe? - disse por fim o Ron. - O
Flamel vai morrer?

- Foi o que eu disse mas o Dumbledore pensa que, como ? Para
uma mente bem organizada, a morte  apenas a prxima grande
aventura.

- Eu sempre disse que ele no batia bem da bola - afirmou o
Ron, parecendo bastante espantado com o nvel de loucura do
seu heri.

- E vocs os dois. O que vos aconteceu? - perguntou Harry.

- Bem, eu voltei - disse Hermione. - Trouxe o Ron comigo, o
que demorou um bocado e estvamos a chegar ao ninho das
corujas para entrar em contacto com o Dumbledore, quando o
avistmos a entrar no vestbulo. Ele j sabia. Limitou-se a
dizer: O Harry foi atrs dele, no foi? e partiu como uma
flecha para o terceiro andar.

- Achas que ele queria que tu fizesses aquilo? - perguntou o
Ron, - mandando-te o manto do teu pai e tudo o resto?

- Bem --, explodiu Hermione, - se assim foi, foi terrvel,
porque podias ter morrido.

- No, no  terrvel - disse o Harry, pensativo. - Dumbledore
 um homem estranho. Acho que queria, de certo modo, dar-me
uma oportunidade. Ele sabe mais ou menos tudo o que se passa
na escola. Quanto a mim, ele calculava que amos tentar e, em
vez de nos deter, ensinou-nos o suficiente para podermos
tornar-nos teis. Julgo que no foi por acaso que me deixou
descobrir como funcionava o espelho dos invisveis. Foi como
se achasse que eu tinha o direito de enfrentar o Voldemort se
assim o 
desejasse.  

-- Sim, o Dumbledore tem aquela fachada mas  sensacional 
--, disse o Ron orgulhoso.

- Ouve, tu tens de estar fora daqui para a festa de final do
ano lectivo, amanh. Os Slytherin tm os pontos todos e esto
a ganhar; no foste ao ltimo jogo de Quidditch; sem ti, fomos
cilindrados pelos Ravenclaw; alm disso, a comida vai ser
ptima.

Nesse momento, Madame Pomfrey entrou.

- Vocs estiveram a conversar durante quase quinze minutos.
Agora RUA! - disse com toda a firmeza.

Depois de uma noite bem dormida, Harry sentia-se quase novo.

- Quero ir  festa - disse a Madame Pomfrev quando ela punha
em ordem as suas vrias caixas de doces. - Posso ir, no
posso?

- O professor Dumbledore disse-me que te desse alta para ires
 festa --, afirmou displicentemente como se, na sua opinio,
o professor Dumbledore no tivesse conscincia da gravidade
da situao. - E tens outra visita.

- _ptimo. Quem ?

Hagrid entrou timidamente pela porta, mal ele falou. Como
sempre, quando estava dentro de casa, parecia maior do que o
normal. Sentou-se junto de Harry, olhou para ele e desfez-se
em lgrimas.

- _ tudo culpa minha! - soluou com o rosto entre as mos. -
Eu diss' feiticeiro mau como passar p'lo Fluffy. Eu disse.
Era a nica coisa qu'ele no sabia e eu disse-lhe. Tu podias
ter morrido. Tudo por um ovo de drago. Nunca mais beb'em
tod'a minha vida. Eu devia ser expulso e mandado viver com'um
Muggle!

- Hagrid! - disse Harry, chocado ao v-lo a tremer de culpa e
remorsos, com enormes lgrimas a rolarem-lhe pela cara e
perdendo-se no emaranhado da barba. - Hagrid,  
ele teria descoberto de outro modo.  do Voldemort que estamos
a fala. Ele descobriria mesmo que tu no lhe tivesses
contado.

- Tu podias ter morrido! - soluou Hagrid. - E no digas o
nome.

- VOLDEMORT! - bramiu Harry e Hagrid ficou to assustado que
parou de chorar.: - Eu falei com ele e digo o nome dele. Por
favor, anima-te, Hagrid, salvmos a pedra. J no existe e ele
no pode utiliz-la. Come um sapo de chocolate, tenho aqui
imensos...

Hagrid limpou o nariz com as costas da mo e disse: - J me
esquecia, trouxe-te um presente.

- No  uma sandes de doninha, espero! - disse Harry ansioso
e, por fim, l conseguiu que o Hagrid desse um risinho
abafado.

- Nah! o Dumbledore deu-me folga, ontem, p'ra eu poder
consert-lo.  claro que, em vez disso, devia era ter-me
despedido, de qualquer modo aqui est!

Parecia um bonito livro encadernado. Harry abriu-o dominado
pela curiosidade. Estava cheio de fotografias de feiticeiros.
E a sorrirem e a acenarem-lhe em todas as pginas estavam a
sua me e o seu pai.

- Enviei corujas p'ra todos os antigos amigos dos teus pais a
pedir-lhes fotografias... sabia que tu no tinhas nenhumas... 
Gostas?

Harry no conseguia falar mas Hagrid compreendeu.

Harry desceu para a festa do final de ano lectivo sozinho. 
Tinha sido retido pela preocupao de Madame Pomfrey que
insistira em observ-lo de novo, por isso, quando chegou, o
salo principal j estava cheio. Decoravam-no as cores dos
Slytherin - verde e prateado --, para comemorar a vitria da
Taa pelo stimo ano consecutivo. Uma enorme bandeira que
exibia a serpente  dos Slytherin cobria toda a parede por
detrs da mesa principal.

Quando Harry entrou houve um momento de silncio e em seguida
comearam todos a falar muito alto e ao mesmo tempo. Ele
sentou-se na mesa dos Gryffindor, entre o Ron e a Hermione, e
tentou ignorar as pessoas que se tinham levantado para o
observar melhor.

Felizmente, Dumbledore chegou e a confuso cessou
imediatamente.

- Mais um ano que passou! - disse Dumbledore, alegremente. - E
tenho de vos incomodar com o discurso de um velho, antes de
poderem ferrar o dente neste banquete delicioso. Que ano que
foi este! Espero cque as vossas cabeas estejam um pouco mais
cheias do que no princpio... tem todo o Vero  vossa frente
para as manter satisfeitas e vazias antes do inicio do prximo
ano...

-- Agora, segundo creio, a Taa da equipa precisa de ser
entregue e a situao em relao a pontos  a seguinte: Em
quarto lugar esto os Gryffindor com trezentos e vinte pontos,
em terceiro os Hufflepuff com trezentos e cinquenta e dois,
os Ravenclaw tm quatrocentos e vinte seis e os Slytherin,
quatrocentos e setenta e dois.

Uma tempestade de aplausos e vivas estoirou na mesa dos
Slytherin. Harry viu Draco Malfoy bater com uma caneca de
metal na mesa. Era nojento.

- Sim senhor, muito bem, Slytherin - disse
Dumbledore.-Contudo, sou obrigado a levar em conta alguns 
acontecimentos recentes.

O salo ficou em grande silncio. Os sorrisos dos Slytherin
apagaram-se um pouco.

- Ahem! - disse Dumbledore. - Tenho mais alguns pontos para
conceder. Vejamos...

- Primeiro, a Ronald Weasley...  

O Ron corou at  raiz dos cabelos e ficou vermelho como um
pimento.

- ... Pelo jogo de xadrez levado a cabo com mais inteligncia
desde h muitos anos em Hogwarts, concedo aos Gryffindor
cinquenta pontos.

Os aplausos dos Gryffindor quase tocaram o cu virtual. As
estrelas, l em cima, pareciam estremecer. Ouviu-se a voz do
Percy a dizer aos outros chefes de departamento: -  o meu
irmo. O meu irmo mais novo. Venceu o jogo de xadrez gigante
da Mc_Gonagall!

- Segundo, a Hermione Granger, pelo uso da lgica fria entre
dois fogos, concedo  equipa dos Gryffindor cinquenta pontos.

Hermione enterrou a cabea nos braos. Harry teve srias
suspeitas de que ela se lavara em lgrimas. Os Gryffindor no
cabiam em si de contentes. Estavam com cem pontos a mais.

- Terceiro, a Harry Potter - disse Dumbledore.

A sala ficou num silncio sepulcral. - Por verdadeira fibra e
inultrapassvel coragem, concedo aos Gryffindor sessenta
pontos.

A algazarra foi ensurdecedora. Os que conseguiam fazer as
contas rapidamente, enquanto gritavam, sabiam que os
Gryffindor tinham agora quatrocentos e setenta e dois pontos -
exactamente o mesmo que os Slytherin. Tinham empatado na Taa
da equipa; se ao menos o Dumbledore tivesse dado ao Harry mais
um ponto que fosse.

Dumbledore levantou a mo. A sala foi-se acalmando
progressivamente.

- Existem muitos tipos de coragem - disse Dumbledore a
sorrir. -  necessria muita fibra para enfrentar os nossos
inimigos, mas no  preciso menos para fazermos frente aos
nossos amigos. Por isso, concedo dez pontos ao Neville
Longbottom.  

Quem estivesse fora do grande salo pensaria, sem dvida, que
uma bomba acabara de rebentar, to ensurdecedor era o barulho
que emergiu da mesa dos Gryffindor.

Harry, Ron e Hermione puseram-se de p a aplaudir. 
Enquanto isso o Neville, com o choque, desaparecera debaixo de
um monte de pessoas que no paravam de o abraar. 
Nunca antes daquele dia tinha ganho um nico ponto para os
Gryffindor. Harry, ainda a aplaudir, deu uma palmada nas
costas do Ron e apontou para o Malfoy, que estava to rgido e
horrorizado que parecia que lhe tinham feito o feitio da
*_Ligadura total do corpo*.

- O que significa - continuou Dumbledore, sobrepondo a voz 
mar de aplausos, pois at os Hufilepuff estavam felizes com a
queda dos Slytherin, - que precisamos de uma mudanazinha de
decorao.

Bateu palmas e, num instante, nos estandartes, o verde
tornou-se vermelho-escarlate e o prateado transformou-se em
ouro. A enorme serpente desapareceu e um gigantesco leo tomou
o seu lugar. Snape apertava a mo da professora Mc_Gonagall
com um sorriso incrivelmente forado. O seu olhar cruzou-se
com o de Harry e este soube de imediato que os sentimentos do
professor em relao a ele no tinham mudado um milmetro, o
que no lhe causou a menor preocupao.

Parecia que a vida tinha voltado  normalidade e que o prximo
ano seria to normal quanto possvel em Hogwarts.

Era a noite mais feliz da vida do Harry. Melhor do que quando
ganhara o jogo do Quidditch, melhor do que a noite de Natal ou
do que o ter vencido o gigante da montanha... nunca, nunca
mais esqueceria aquela noite.


O que Harry tinha esquecido com tudo aquilo era que os
resultados dos exames estavam ainda para vir. E vieram  
mesmo. Para grande surpresa de ambos, tanto ele como Ron
passaram com boas notas. Hermione, claro, foi nmero um. At o
Neville se safou. A sua boa nota em herbologia compensou a
pssima nota que tivera em poes. Todos eles acalentavam a
vaga esperana de que o Goyle, que era quase to estpido como
mau, fosse posto fora, mas ele tambm passou. Foi pena mas,
como disse o Ron, No se pode ter tudo na vida.

E, de um momento para o outro, todos os guarda-fatos ficaram
vazios, todas as malas feitas, o sapo do Neville foi
encontrado a um canto de uma das casas de banho, foram
entregues a todos os alunos documentos, avisando-os de que no
era permitido usar magia nas frias (Estou sempre  espera
que se esqueam de nos entregar este papel, disse o Fred
Weasley, desconsolado), Hagrid esperava-os para os conduzir ao
pequeno cais dos barcos que atravessavam o lago para depois
tomarem o *_Hogwarts Express*, onde poderiam rir e conversar
enquanto os campos se iam tornando mais verdejantes e bem
tratados, comendo os feijes de todos os sabores da Bertie
Bott,  medida que se aproximavam das cidades dos Muggles, e
trocando as suas vestes de feiticeiros pelos casacos e
sobretudos para sarem da plataforma nove e trs quartos em
direco a King's Cross.

Demorou algum tempo at se reunirem todos na plataforma. Um
velho guarda encarquilhado estava junto da barreira dos
bilhetes, dando-lhes passagem para a cancela, a dois e trs de
cada vez, para no chamarem a ateno nem assustarem os
Muggles como sucederia se sassem todos, ao mesmo tempo, de
dentro de uma parede slida.

- Tens de vir passar uns dias connosco este Vero --, disse o
Ron. - Vocs os dois - eu mando-vos uma coruja.

- Obrigado - disse o Harry. - Preciso de ter algum objectivo
agradvel em que pensar.  

As pessoas empurravam-nos enquanto eles avanavam para a
cancela do mundo dos Muggles. Algumas gritavam.

- Adeus, Harry!

- At  vista, Potter!

- Sempre famoso --, disse o Ron a sorrir.

- No no lugar para onde vou, posso garantir-te - 
respondeu-lhe o Harry.

Ele, o Ron e a Hermione passaram juntos c para fora.

- L est ele, me, l est ele, olha!

Era Ginny Weasley, a irm mais nova do Ron, mas no era para o
irmo que ela apontava.

- Harry Potter - gritou ela. - Olha, me, estou a v-lo!

- Est quieta, Ginny,  m educao apontar com o dedo.

A senhora Weasley sorriu-lhes.

- Um ano difcil? - perguntou.

- Muito - disse o Harry. - Obrigado pelos bombons e pela
camisola, senhora Weasley.

- Oh! isso no foi nada, filho.

- Ests pronto, ou no?

Era o tio Vernon com o mesmo rosto congestionado, o mesmo
bigode, o mesmo ar maldisposto perante a lata do Harry de lhe
aparecer com aquela coruja dentro da gaiola numa estao cheia
de gente normal. Atrs dele estavam a tia Petnia e o Dudley
que olhava horrorizado para o primo.

- Devem ser os familiares do Harry - disse a senhora Weasley.

- De certo modo - respondeu o tio Vernon. - Despacha-te,
rapaz, no temos todo o dia para estar aqui - e afastou-se.

Harry voltou atrs para se despedir do Ron e da 
Hermione.  

- Vejo-vos durante o Vero, espero!

- Er... umas boas frias - disse Hermione, olhando com srias
dvidas para o tio Vernon, chocada por ter conhecido um
sujeito to antiptico.

- Oh! vou ter sim! - e ambos ficaram surpreendidos com o
sorriso que se lhe espelhou no rosto. - Eles no sabem que eu
estou impedido de usar magia l em casa. Algo me diz que vou
divertir-me bastante  custa do Dudley este Vero...

