Enquanto criança que cresceu em Barbados, havia duas coisas com que podia contar todos os verões: férias escolares e a estação dos furacões. A dada altura, realizávamos toda uma rotina de desenhar grandes X com fita-cola, nas portas de vidro, tapar bem todas as janelas exceto uma ou duas, para, como a minha mãe dizia, curiosamente, pudéssemos deixar passar o vento. Púnhamos baldes no meio da sala para aparar a chuva numa tentativa vã de impedir a inundação dentro de casa quando o telhado começasse a ceder ao vento. 
Eu detestava aquilo, porque ficava aterrorizada durante todo o tempo, quer fosse uma vaga tropical, uma trovoada, uma tempestade tropical, ou o rabo de um furacão real que por pouco não nos atingira. Para mim, era tudo o mesmo. A possibilidade do fim. Sem luz, sem água, sem eletricidade, apenas um rádio a funcionar a pilhas, à espera de que tudo passasse. Aos meus olhos de criança, a Mãe Natureza tinha a missão pessoal de nos destruir a todos. 
Nunca percebi porquê. Porquê? Se nós sabíamos que aquilo ia acontecer todos os anos, porque é que não fazíamos nada para garantir que estávamos em segurança? Porque é que tínhamos sempre de pôr os baldes e de nos escondermos? 
Avançando para a situação em que estamos hoje, estamos a viver  numa crise climática crescente, em que os meus medos de criança se tornaram na minha realidade de adulta Ainda no ano passado, o meu país começou a sofrer tempestades malucas como nunca tínhamos visto. Este é um vídeo de uma ocorrência dessas. Isto é uma filmagem feita em tempo real, não está acelerada, nem tem efeitos especiais. Este sistema aparentemente materializou-se de nenhures. Habitualmente, tínhamos avisos de antemão, mas desta vez não houve nada. Não sabíamos que ele ia aparecer até já estar em cima de nós. 
Imaginem serem acordados do sono para serem cumprimentados por isto: 500 relâmpagos por minuto, trovões e chuvas tão fortes que pareciam provir das entranhas da Terra. O céu parecia uma exibição de fogo-de-artifício sem pausas. Quando ainda estávamos a refazer-nos dos impactos desta ocorrência, poucas semanas depois, fomos atingidos por outro. Desta vez, um furacão de Categoria 1. Destruiu 2000 casas. 
Acontecimentos imprevisíveis como este estão rapidamente a ser a norma. Num país pequeno, como o meu, com menos de 300 000 pessoas e uma pequena área de apenas 430 km2, pequenos números, pequenos acontecimentos significam grandes prejuízos. Para nós, que já sofremos as repercussões da alteração climática, já não é suficiente que a arquitetura seja belamente passiva. Perante estas novas realidades que se avizinham, precisamos de criar arquitetura que funcione verdadeiramente. 
É isso que eu faço. Sou <i>designer </i>de arquitetura, e crio estruturas que respeitam profundamente e têm consciência da Natureza,  de forma a protegerem-nos dela. Recorro a essas micro-lições, ilusoriamente simples, em que nós, comunidades, nos temos inspirado durante anos que tratam da forma como tradicionalmente lidamos com o ambiente e da forma como nós, em vez de lutarmos contra a Natureza, aprendemos a aproveitá-la  e a adotá-la como um abrigo. 
Certamente, há inúmeros exemplos de metodologias tradicionais de construção que têm resistido ao teste  do tempo e das condições climatéricas. Histórias de resiliência inerente. Mas quero contar-vos uma história do meu país, uma história que modelou a minha perspetiva à medida que vivia e projetava para a nossa realidade climática em mudança. 
Depois da abolição da escravatura das populações africanas e indígenas em Barbados, os meus antepassados, recém-libertados, não encontravam terras  para construir as suas casas. Ao contrário deles, as terras que lhes pertenciam, ainda eram propriedade ou “bens móveis”” dos seus antigos amos. Assim, para sair desde problema nasceu a casa móvel de Bajan. As casas móveis eram casas modestas construídas só de madeira, sem pregos, notem bem. Assentavam em blocos de pedra muito bem compactada. O dilema era que tinham de ser suficientemente robustas para resistir ao temperamento difícil do nosso clima tropical, embora temporário. Inevitavelmente, quando havia qualquer “disputa” entre um antigo escravizador e um recém-liberto, homem ou mulher, era preciso arranjar rapidamente um grupo de amigos e família para mudar, de imediato, por razões de segurança. 
Como? Como é que, apesar de serem de fraca tecnologia e temporárias essas construções endémicas conseguiam sobreviver para ver outro dia? Ao contrário das casas mais implantadas, mais robustas e permanentes. Como estas eram feitas da madeira mais fácil de obter, os proprietários não usavam sistemas sofisticados. Em vez de tentarem criar um campo de forças impenetrável contra o vento, tinham de ser criativos e imaginar como funcionavam com vento em vez de contra o vento. Quando o vento soprava uma força incrível contra uma casa, que não tem meios adequados para resistir, as opções são limitadas. As coisas tornam-se simples. Tal como a minha mãe costumava dizer-me, deixa-se o vento passar. 
O truque para fazer isso, inesperadamente, reside no arranjo da fachada de madeira, com janelas como estas chamadas janelas venezianas (jalousie). Numa rápida observação, <i>jalousie </i>provém da palavra francesa que significa “inveja”. Portanto, na origem, estas lâminas horizontais  chamadas persianas destinavam-se a evitar olhos invejosos a espreitar para dentro das casas. Mas, arquiteturalmente, permitiam que o vento  passasse por elas mas a chuva não. Estas frestas intencionalmente alinhadas permitiam abrir as lâminas nas janelas e portas para deixar passar o furacão, literalmente. canalizando o vento através do interior do edifício em vez de exercer uma pressão destruidora na fachada. O resultado era que a intempérie, como eu diria, se estivesse na minha terra, podia “<i>lick down ya house,</i> <i>but it aint gine mash it up</i>.” Tradução para quem precise: o efeito composto destas micro-soluções era que uma casa podia “dobrar-se mas não se partia”. 
A partir de exemplos como este, rapidamente percebi que, enquanto região, precisávamos rapidamente de abandonar esta convenção mais global de projetar os nossos edifícios fechados à Natureza e a arquitetura, para nós, passar a ser menos sobre a expressão exterior, a estética e a forma do edifício, e mais sobre o desempenho holístico em concertação com o ambiente. Tal como as janelas venezianas, estas micro-soluções, estes pequenos pormenores que, literalmente, fazem ou desfazem um edifício. 
Por exemplo, depois da passagem do Furacão Maria pelas Caraíbas, em 2017, muitas propriedades sofreram prejuízos devastadores. Enquanto projetistas, confrontámo-nos com uma questão, hoje comum: Como é que reconstruímos melhor? A resposta? Simples. Aproveitamos o que funciona, rejeitamos o que não funciona e aplicamos isso aos projetos modernos. Numa ocasião, a capacidade de dispersão do vento dessas persianas tradicionais tornou-se numa interpretação moderna. A minha equipa e eu , na época, projetámos uma fachada de madeira que funcionava da mesma forma: quebrava o vento  contra o edifício exterior embora deixasse penetrar a luz para o interior do edifício, enquanto protegia o vidro exposto do vento e dos objetos projetados pelo vento. Portanto, fim da fita adesiva. Noutra ocasião, projetámos um núcleo central sacrificial que permitia que o vento penetrasse pelo interior do edifício enquanto preservava zonas adjacentes, de abrigos<i> </i>bem fechados e estanques para as pessoas se abrigarem do vento e da chuva. Fim dos baldes. Muitos dos meus colegas em países insulares, como o meu, estão em vias de integrar esta estratégia semelhante de pegar em projetos tradicionais e aplicá-los numa abordagem moderna. Isto não se limita aos furacões, mas trata de problemas como as cheias, abalos sísmicos, deslizamento de terras, em que os projetos tradicionais, de palafitas, nos mantém acima de chuvas torrenciais e inundações e em que elementos de treliças transversais asseguram que os nossos edifícios são suficientemente flexíveis para resistir ao movimento da terra e as abalos por baixo deles. 
Estamos numa fase em que fazemos  um modelo gémeo digital inteligente de cada projeto, em realidade virtual. Pensem nele como uma espécie  de cópia computarizada 3D de cada micro-solução, para podermos testá-lo. Podemos traçar cenários climáticos do mundo real, desta forma. E como estamos num ambiente virtual, não há perda de vidas humanas, não há danos dispendiosos nas infraestruturas, e podemos desmontar um edifício e imaginar o que será preciso para criar uma estrutura mais resistente. Podemos simular um furacão de Categoria 5 na sua direção, e se falhar naquele ambiente seguro, podemos repará-lo. Podemos ajustá-lo. podemos melhorá-lo, podemos otimizar o projeto, e podemos repetir esse processo até acertarmos. 
Como começámos a partir das referências indígenas, acabamos com uma arquitetura de bom desempenho, moderna, sim, mas acessível, que não é estranha ao contexto cultural ou climático. Uma arquitetura que não seja estranha... 
(Aplausos) 
Uma arquitetura que não é estranha às populações que a vão construir e nela viver. Uma arquitetura que, depois de testada e projetada, é mais resistente, enquanto nos preparamos para um clima mais rigoroso. 
Já disse muitas coisas. Mas nada... nada nos prepara para a incerteza mental de sofrer e, esperemos, resistir a um furação. Essa sensação de vulnerabilidade total, de estar totalmente exposta aos elementos e totalmente à mercê da Natureza. O som do vento a desfazer um edifício em pedaços. O som dos gritos dos vizinhos a serem arrastados pelo mesmo vento. O “E se...?” “E se eles não conseguem safar-se?” “E se nós não conseguimos safar-nos?” “E se eu não consigo safar-me?” “E se...?” 
Mas, e se conseguirmos eliminar parte dessa incerteza e nos abrigarmos  com a sensação de confiança de que demos a nós mesmos a melhor hipótese de sobreviver, a melhor hipótese de resistir a cada tempestade? Pelo mundo fora, enquanto seres humanos, estamos a fazer coisas espantosas. Estamos a pôr pessoas no espaço para lazer. 
(Aplausos) 
Estamos a procurar e a descobrir como viver e sobreviver aos climas extremos  de planetas distantes. Sim, isso é espantoso. Contudo, neste planeta, muitos de nós ainda vivem num medo permanente de que o próximo evento seja o maior de todos que altere drasticamente  ou mesmo impeça a nossa existência aqui no planeta Terra, para sempre. 
Provavelmente já ouviram isto um milhão de vezes, mas nós, pequenos países insulares, estamos a viver no presente o futuro que vos ameaça a todos. Por isso, precisamos de saber agora o que funciona ou não nos nossos contextos específicos, porque é uma questão real, imediata e cíclica da vida ou de morte, Por isso, quando entramos nesta nova era, quando projetamos  e construímos as cidades e comunidades futuras, a abordagem é muito simples. Devemos fazê-lo, para que os mais vulneráveis não tenham de adivinhar e esperar pelo melhor. Mas, com base nos conhecimentos tradicionais, já testados, e na experiência vivida, planear para o pior que possa acontecer. Obrigada. 
(Aplausos) 
