Chamo-me Amir Nizar Zuabi. Nasci em Jerusalém Oriental, numa parte difícil da cidade entre o bairro Beit Hanina  e o campo de refugiados Shu’fat. Sou um filho misto, ou seja, a minha mãe é judia e o meu pai é palestino. A experiência de refugiados corre profundamente no ADN da família. Quando os meus avós judeus fugiram da Europa durante a II Guerra Mundial, vieram para a Palestina e levaram o resto da minha família para o exílio. 
Quando eu tinha 14 anos, tropecei por acaso com um espetáculo de teatro nesta parte difícil da cidade e apaixonei-me. Apaixonei-me por uma realidade que estava a ser criada à minha frente, uma realidade cheia de possibilidades, que era mais selvagem, que era mais livre, uma realidade que era o contraste oposto da dura realidade em que vivíamos. E passei a ser artista de teatro. Ser artista de teatro na Palestina é querer encontrar água no deserto. Não temos infraestruturas, não temos grandes instituições artísticas. O que temos é uma necessidade de falar sobre o mundo em que vivemos. 
Ao levar os espetáculos a comunidades e campos de refugiados na Palestina, sentia-me sempre chocado com ao imediatismo do encontro e isso tornou-se uma experiência muito poderosa para mim. Em 2015, no auge da crise de refugiados, quando centenas de milhares de pessoas atravessavam a Europa, com todo o sofrimento e angústia que vimos, comecei a pensar que talvez precisássemos de um novo modelo de teatro. Talvez precisássemos de levar o teatro para fora das salas e para a rua, as ruas que essas pessoas percorriam. Comecei a trabalhar com a companhia de teatro Good Chance, uma companhia que cria teatro sobre a experiência dos refugiados. Juntos, criámos “The Walk”. 
“The Walk” é um festival de arte itinerante que vai percorrer 8000 km, 65 cidades, vilas e aldeias, e vai criar 120 eventos de boas vindas. “The Walk” é liderada por uma menina síria de nove anos, uma menor sem companhia chamada Amal, Amal em árabe significa esperança. 
(Música) 
Amal é uma boneca com 3,5 m de altura criada pela Handspring Puppet Company, a conhecida companhia de fantoches da África do Sul. “The Walk” vai começar na fronteira da Síria-Turquia, numa cidade chamada Gaziantepe. Faremos a caminhada através da Turquia até à Grécia e depois da Grécia até à Itália, da Itália até ao sul da França, depois atravessamos a Suíça, até à Alemanha, à Bélgica, e voltamos para o norte da França, atravessamos o Canal da Mancha e depois de Dover até Manchester. Para Amal poder fazer esta caminhada, tem três conjuntos de bonecreiros a andar por ela, e cada equipa tem formação para lhe dar a postura e os gestos que é o que dá vida a Amal. Ao todo, há 12 pessoas na companhia, doze pessoas que provêm de diversas origens. Em conjunto, vão andar com Amal de Gaziantep até Manchester, dando-lhe vida. 
“The Walk” é um projeto muito ambicioso, É uma enorme façanha logística com todo o território que precisamos de percorrer. E não seria possível sem a rede de parcerias que temos. Estamos a trabalhar com 250 parceiros ao longo do percurso e milhares de participantes. Estamos a trabalhar com um grupo muito sofisticado de parcerias, com grupos humanitários, com a sociedade cívica, com os “mayors” das cidades que vamos visitar, com líderes religiosos, com organizações de base de refugiados, e com as principais instituições e artistas refugiados na Turquia e na Europa. 
A todos eles, só fizemos uma pergunta. “Amal é uma menina de nove anos que vai passar pela vossa cidade. “Está só, cheia de medo, é vulnerável. “Como é que gostariam de a receber? “O que aprenderiam com ela e o que podem ensinar-lhe?” Esta pequena proposta recolheu uma quantidade incrível de generosidade e de criatividade dos nossos parceiros. 
Agora, após dois anos de planeamento, começou “The Walk”. “The Walk” é uma peça enorme montada num palco de 8000 km. Os eventos que Amal encontrará no caminho são eventos criados pelos nossos parceiros, e são grandes instalações  ao nível da cidade, espetáculos participativos nas cidades, reuniões com as comunidades ou com um trabalho artístico durante o percurso. Esperamos que estes eventos se tornem na rica tapeçaria das experiências de Amal, na sua odisseia épica. 
É importante dizer que “The Walk”  não é ma caminhada de miséria, é uma caminhada de orgulho. Queremos questionar a perceção que há sobre os refugiados. Queremos falar deles, não como um problema, mas falar do potencial que eles trazem, das riquezas culturais de onde provêm e festejar a experiência deles. Queremos transformar isto numa celebração da humanidade e esperança partilhadas. 
Esperamos que “The Walk” deixe na sua esteira desde a fronteira da Turquia até Manchester, uma rede de milhares de pessoas de boa vontade, um amplo corredor de amizade, e uma nova forma de pensar sobre o que significa ser um refugiado no mundo atual. Toda a gente pode seguir Amal ao longo do seu percurso através de atualizações permanentes no nosso “website” e nas redes sociais. Convido cada um de vocês a dar as boas-vindas a Amal à vossa moda. 
(Música) 
Obrigado. 
(Aplausos) 
Chris Anderson: Isto é muito especial. Espero conseguir a ligação ao vivo com Nizar. Uau! 
(Aplausos) 
Nizar, espero que possas ver a reação extraordinária a este projeto que realizaste. Podes dizer-nos como está  a correr “The Walk”? 
ANZ: Sou o “baby-sitter” duma menina de nove anos 
 muito exigente Ela é muito grande e muito exigente, mas é muito emocionante, as reações têm sido incríveis. 
CA: Na tua palestra, falas do poder escondido das artes para mudar mentalidades. Estás a ver provas disso agora que isso está a funcionar? 
ANZ: Espero que sim. Estamos a conhecer comunidades, crianças e adultos,  e eles estão a conhecê-la. Espero que ela inspire as crianças refugiadas a terem esperança no futuro. Espero que ela inspire os adultos a sentirem compaixão. Ela é muito emocionante para todos os que a conhecem, isso é certo. O que ficará depois de passarmos por estas cidades, segundo espero, é uma curiosidade para com os outros, para com alguém que não conhecemos e queremos conhecer melhor. 
CA: Como é que ela vai? Podemos conhecê-la? 
ANZ: Com o barulho que há lá fora, penso que ela já chegou. (Aplausos) Está a vir ao nosso encontro. 
CA: Há pessoas a caminhar com ela em cada fase do percurso, incluindo pessoas que tiveram experiência de refugiados, não é? 
ANZ: Sim, estamos a encontrar muitas comunidades de refugiados que estão envolvidos  no planeamento de atividades e também caminham connosco quando precisamos deles. Tudo isto é emocionante. 
CA: Uau! (Risos) Nizar, fala-nos mais dessa visão artística extraordinária, dessa criação, dessa menina. 
ANZ: Ela é recebida por toda a parte de forma muito calorosa. Os eventos tentam captar a dureza das experiências dela. Alguns dos eventos são muito tristes, de certo modo, mas muito honestos para com a experiência dos refugiados. Alguns eventos, como o de hoje, são mais alegres e agradáveis, e envolvem a comunidade reunida à volta dela, dando-lhe as boas vindas. Portanto, há uma mistura de sofrimento e de boas-vindas e a receção calorosa que algumas comunidades dão aos refugiados. 
CA: Bom, foi um privilégio extraordinário para nós escutar o “The Walk” daí. É m projeto fantástico. É um projeto profundamente inspirador. E deve ser extraordinário veres anos de visão passarem a realidade. Obrigado por isso. Agradecemos-te muito. Obrigado. 
ANZ: Muito obrigado. Obrigado. 
(Aplausos) 
