Imaginem por um segundo que o vosso trabalho se torna redundante, por causa de um <i>software </i>avançado que consegue fazer o mesmo trabalho com a mesma qualidade, de graça. Mas acontece que ainda vos restam três anos de contrato efetivo, e, por isso, o vosso patrão dá-vos duas opções. 
Podem continuar a ser pagos tal como descrito no contrato, mas ficam em casa enquanto o <i>software </i>faz o trabalho, ou continuam a ir trabalhar e a fazer o trabalho que poderia ter sido automatizado pelo mesmo dinheiro. O que é que fariam? 
Estou certo que, para a maioria de vocês, isto não é uma decisão difícil. Aceitam o dinheiro, vão para casa, veem palestras da TED. 
(Risos) 
Mas há sempre alguém que escolheria continuar a trabalhar. O que é que pensam dessas pessoas? O que é que isso diz do seu carácter? 
Este é um cenário de um hipotético  secretário de um médico, chamado Jeff que demos aos participantes  do nosso estudo. Para metade das pessoas no estudo a história acaba com a decisão de ir para casa, e para a outra metade acaba com a decisão de continuar a trabalhar. Depois perguntámos a todas as pessoas o que pensavam do Jeff. 
Aquelas que ouviram a decisão do Jeff continuar a trabalhar acharam-no menos competente — parece, de facto, um pouco idiota — 
(Risos) 
mas também o viram como alguém mais caloroso e mais moral, alguém de confiança que fará o que está certo. Viram-no como uma boa pessoa. Apesar de o Jeff não ter acrescentado nenhum valor, as pessoas viram-no como virtuoso  por escolher continuar a trabalhar. Porque é que consideramos o mero esforço como moral? 
Sou professor de psicologia na Universidade da Colúmbia Britânica, onde estudo ética. Estudei religião e ética, estudei carros autónomos e ética, mas agora os meus colaboradores e eu temos estudado o trabalho. E estudo após estudo, descobrimos que  as pessoas atribuem valor moral ao esforço independentemente do resultado  desse esforço. 
Noutro estudo, questionámos pessoas  sobre dois fabricantes de aparelhos. Eles produzem o mesmo número de aparelhos na mesma quantidade de tempo, com qualidade semelhante. Mas um deles despende  um esforço maior para fazê-lo. As pessoas veem esse fabricante esforçado, uma vez mais, como menos competente mas mais moral. E se tivessem de escolher um deles como parceiro de cooperação, escolheriam aquele que mais se esforça. 
Chamamos a isto moralização do esforço. E parece que não é apenas um fenómeno norte-americano. As normas de trabalho, claro,  diferem por todo o mundo, mas repetimos o nosso resultado inicial americano na Coreia do Sul, que é conhecido estatisticamente como um dos países  mais trabalhadores da OCDE, e em França, que é conhecida por outras qualidades. 
(Risos) 
Em todos estes locais, a pessoa trabalhadora é vista como mais moral e como melhor parceiro de cooperação, apesar de não acrescentarem nenhum  valor extra. 
E parece que isto é algo  mais difundido do que a ética do trabalho dos protestantes. Até a população Hadza, os caçadores-coletores na Tanzânia,  mostram algo parecido. Quando questionados sobre que qualidades fazem um bom carácter, não concordaram em muitas coisas,  mas concordaram em duas qualidades: generosidade e trabalho árduo. Por isso, esta conexão  entre esforço e moral não parece ser uma peculiaridade de uma cultura específica, mas algo potencialmente mais profundo. 
Ora bem, a moralização do esforço  faz sentido a nível individual. Alguém que está disposto a mostrar que se esforçará mesmo em tarefas insignificantes, especialmente até em tarefas  insignificantes, é alguém com maior predisposição para nos ajudar. 
Eu tenho um amigo no trabalho, o Paul. Ele é um homem extraordinariamente  carismático. O Paul usa calças estilosas   de pura ganga e compra dispendiosos sabonetes, sabonetes de 60 dólares. E Paul é uma daquelas pessoas  que acorda todas as manhãs e vai correr. Quando ouvi isto pela primeira vez, como que revirei os olhos  a esta coisa de ser o Sr. Perfeito. Neste caso, o Dr. Perfeito. 
(Risos) 
Mas um dia vi o Paul numa dessas corridas matinais, e, em vez de ver uma elegante  personalidade, a correr com confiança pela vida fora, vi-o com dificuldade,  num coxear deselegante... 
(Risos) 
com uma careta grotesca na cara,  algo entre aborrecimento e agonia. Tinha dificuldade em correr. Todas as manhãs eram um esforço, e uma pessoa que está disposta a acordar  para isso, dia após dia, é o tipo de pessoa que queremos ter ao nosso lado. E o Paul está ao meu lado. Ele não é apenas a inspiração para alguns dos estudos nesta investigação, é um colaborador também. E ele é um bom homem. 
A verdade é que estamos todos no mercado para encontrar os melhores  colaboradores na vida. E estamos a tentar mostrar a outros que também somos essa pessoa. Os psicólogos da evolução chamam a isto a escolha de parceiro. Tal como nós tentamos ser e escolher o melhor parceiro romântico, também tentamos ser e escolher o melhor parceiro de cooperação. Estamos todos a tentar rodear-nos de pessoas que nos queiram ajudar quando em apuros, que não vão desanimar, que vão partilhar as coisas de forma justa. Como resultado, qualquer qualidade que faça de nós um melhor parceiro de trabalho, digamos, generosidade, ou autocontrolo, ou trabalho árduo, é vista como uma qualidade moral. 
E assim adquirimos este método simples: pessoas que trabalham muito são boas. É por isso que doam mais facilmente ao vosso amigo que se compromete a correr uma maratona  para ajudar estudos sobre o cancro, do que a outro amigo que se compromete a ver toda a série “O Sexo e a Cidade” pela mesma causa. 
(Risos) 
Mas o que faz sentido a nível individual pode tornar-se muito problemático quando projetado para a dimensão social. A nossa intuição de que o esforço é bom para o nosso bem-estar, independentemente do resultado, tem criado um ambiente de trabalho  com incentivos perversos. 
Quando começamos a relacionar valor com atividade em vez de o relacionarmos com produtividade, começamos a preocupar-nos mais sobre se alguém trabalha muito do que se esse é o trabalho que é suposto atingir. Isso pode acarretar  um custo humano muito alto. Lembrem-se do exemplo de Jeff, o secretário de um médico que escolheu queimar e desperdiçar o seu tempo como um sacrifício aos deuses  do trabalho árduo. Foi apenas um cenário artificial. Mas quantos Jeffs existem por aí, a desperdiçar o tempo que poderia  ser gasto no amor ou no lazer, e o gastam em exibição de esforço? E quão frequente somos nós o Jeff, a vestir o vício em trabalho como uma medalha de honra, uma forma de convencer os outros de que somos boas pessoas, ainda que a pessoa que estejamos a tentar convencer sejamos nós mesmos? 
O antropólogo David Graeber  questionou-se como é que o capitalismo  podia sustentar tantos trabalhos a que ele chama, sem rodeios, trabalhos da treta. São os trabalhos em que até as pessoas que os fazem os veem como inúteis, sem nenhum valor social. Um sistema capitalista devia erradicar  essas ineficiências, mas não o faz. E a razão por que não o faz é porque, paralelamente com o capitalismo, também funcionamos sob outro sistema, aquilo a que o jornalista Derek Thompson chama trabalhismo. O trabalhismo consiste no vosso trabalho não ser só a vossa fonte de rendimento, mas a fonte da vossa identidade e o vosso caminho para a autorrealização. 
Isso resulta para algumas pessoas, mas o que faz do trabalhismo uma cultura é que todos somos forçados a participar. A escolha de um parceiro não é apenas  ser um bom parceiro de cooperação, mas um parceiro melhor do que o do lado. Não significa apenas trabalhar muito,  mas sim trabalhar ainda mais. 
E isto pode resultar  em competições de  trabalhismo. Então imaginem dois empregados de escritório, ambos dedicados a mostrar quão trabalhadores são, ambos dedicados a serem o primeiro carro a chegar ao estacionamento da empresa. E assim começam a superar-se a chegar cada vez mais cedo de manhã. Todos os outros parecem  mais preguiçosos, a cada dia. 
A cultura castiga-nos se não acompanhamos. E por isso acabamos  por nos esforçar mais, independentemente do que disso resulta. E a cultura mantém os aspetos  mais trabalhosos do nosso emprego porque nos aprecia mais quando nos vê a realizar esse trabalho. Como consequência, qualquer outro aspeto do nosso trabalho e da nossa vida, embora ótimo, é reduzido a menos importante. 
Agora, isto não é um argumento  contra o trabalho árduo. Não é. O trabalho árduo pode ser extremamente  importante quando serve um objetivo. O trabalho árduo construiu a civilização. Mas muito do esforço que despendemos agora é feito apenas para construir a nossa reputação, apenas para convencer as outras pessoas de que somos muito trabalhadores. E quanto do que admiramos nos outros é apenas um embelezamento do esforço? 
Num dos seus momentos mais sinceros, um dos meus alunos disse que reparou que eu enviava <i>emails </i> a qualquer hora do dia, uma da manhã, duas da manhã,  três da manhã. Ora, isto acontece porque,  como sou professor, mantenho o regime de sono  de um adolescente, apesar de ter 30 anos. 
(Risos) 
Mas ele tratou de arranjar uma aplicação que programa o envio das suas respostas  à uma ou às duas da manhã para parecer que também  esteve a trabalhar a todas as horas. (Risos) Passei claramente a mensagem errada, tão errada que o meu aluno estava disposto a adiar as respostas para parecer que era mais trabalhador. Era literalmente trabalho inútil. 
Tive de mudar a cultura  do meu laboratório. Tive de convencer os meus alunos que não estávamos a trabalhar para dar espetáculo, o importante era  o que estávamos a produzir. E não é uma coisa assim tão fácil de fazer. O circuito mental que liga o esforço à ética consegue ser muito teimoso. Quando ensino tendências psicológicas aos meus alunos de psicologia introspetiva digo que nem sempre é possível aprender a resistir a preconceitos, que podem estar profundamente enraizados, mas é possível aprender a identificá-los para podermos tê-los em conta  quando tomarmos decisões importantes. Podemos não conseguir quebrar esse circuito mental, mas podemos aprender a reconhecer as nossas tendências para elas não controlarem a nossa vida. 
Há uma história,  quase de certeza fictícia, sobre incentivos perversos  na era do domínio britânico na Índia. Desesperado para lidar com as cobras  que estavam a invadir Deli colonial, o governo estabeleceu uma recompensa por cada pele de cobra que fosse entregue. Mas o plano não correu bem porque os indianos empreendedores começaram a criar mais cobras para as matar, entregar as peles e receber a recompensa. Quando o governo finalmente  abandonou o plano — assim conta a história — os criadores soltaram as cobras na cidade e o problema tornou-se pior do que nunca. 
(Risos) 
O plano fracassou por causa da distância  entre o que eles queriam, que era menos cobras, e aquilo que pediram, que foi um sinal imperfeito para menos cobras: cobras mortas. 
Mas eu receio que tenhamos feito algo muito real e muito semelhante com o trabalho. Construímos uma cultura que pede uma coisa errada. Se tudo aquilo que pedimos uns dos outros é o esforço que exercemos, iremos criar uma mundo cheio de esforço de trabalho duro e de cobras. Mas, se o que pedirmos uns aos outros, for produzir algo significativo, iremos criar um mundo  cheio de significado. E o que poderá ser mais ético do que isto? 
Obrigado. 
(Aplausos) 
