Vamos falar de tatuagens. 
Sei que alguns de vocês aqui, provavelmente têm uma sorrateira pequena tatuagem escondida, o que significa que estão  no clube dos fixes. Não se preocupem, o clube dos fixes não é exclusivo, podem ser membros quando quiserem. 
Mas, o que é que vos vem à mente  quando digo a palavra tatuagem? Será artístico, expressivo,  belo, feio, intimidador, não faz o vosso estilo? Já agora, não há respostas erradas. 
Já algumas vez pensaram nas tatuagens como sendo encorajadoras ou curativas? As tatuagens estão embebidas na história dos curativos. Ötzi, o Homem do Gelo, com 5000 anos, foi descoberto com marcas tatuadas nos membros em zonas onde ele devia ter dores crónicas. Em culturas e tribos por toda a História, e mesmo nos tempos modernos, tatuam-se símbolos em partes do corpo para aliviar sintomas de doenças crónicas. E funciona. Agora, quer acreditam que o “juju” é um curativo com o poder da mente sob o corpo, ou com o efeito de um placebo, quer considerem que isto é uma ciência ainda por provar, há algo bastante especial  em usar tatuagens como curativos. Na nossa cultura, focamo-nos  mais na estética, não é? Mas as tatuagens podem ser bastante curativas. Se alguém tem uma parte do corpo que não goste de mostrar, pode tapá-la com uma tatuagem de que goste, será um dos primeiros na praia de nudistas todos os verões. 
(Risos) 
As pessoas usam tatuagens decorativas para tapar cicatrizes, ou para sinalizar um novo começo ou até para comemorar um ente querido  que pode ter morrido. Todas estas coisas podem ter um efeito positivo. na saúde mental duma pessoa. 
Mas as tatuagens não são apenas para decoração. Também têm um lugar no setor medicinal. Tatuar sem pigmentação — conhecido como microagulhamento, agulhamento a seco,  terapia de indução de colagénio — pode ter um efeito espantoso em tecido cicatricial. Pode reduzir a rigidez numa cicatriz, ajudando a mobilidade. Pode aplanar uma cicatriz elevada. E pode reduzir o aspeto duma cicatriz. Podemos até dar um pigmento da cor da pele à cicatriz para reduzir o contraste entre a cicatriz e a pele circundante, dando-lhe um efeito de camuflagem. Podemos tatuar folículos pilosos para dar  um efeito de cabeça rapada a um calvo ou adicionar densidade a cabelos ralos, o que é espetacular para toda a gente. Podemos tatuar sobrancelhas, umbigos, unhas dos pés. Podemos melhorar o aspeto de uma fenda labial e palatina. Podemos separar dedos palmados. As possibilidades são infinitas. 
Hoje, vamos falar da tatuagem  reconstituinte da aréolas do mamilo. Isto é como resolvemos ou criamos uma aréola, um complexo mamilo-areolar, geralmente para pessoas que foram  sujeitas a qualquer tipo de cirurgia. Há muitas razões para que alguém seja sujeito a cirurgias na mama. Mas hoje, vamos focar-nos no cancro da mama. 
Quando alguém perde a mama  por causa de um cancro, faz uma mastectomia, e escolhe fazer uma reconstrução da mama. A maioria das vezes os mamilos  não aguentam. E quando isso acontece, a pessoa não cria uma ligação  com a sua nova mama. Não cria uma ligação emocional com ela. Veem-na apenas como pedaços de pele. E, por vezes, quando se adiciona um complexo mamilo-areolar a uma mama reconstruída, é como pôr a cereja em cima do bolo. 
(Risos) 
Permite que a pessoa se sinta completa, confiante, e até um pouco sensual. É um fenómeno interessante. Quando pomos um mamilo numa mama que não tinha mamilo, isso passa a ser um assunto tabu. 
Mas o que acontece  se essa tatuagem desaparece? A autonomia também desaparece? Vou explicar como encontrei  a resposta a esta pergunta. 
Comecei o curso de tatuagem em 2008. Uso o termo “curso”  de forma muito vaga, porque, na verdade,  não há qualificação formal para qualquer tipo de tatuagens, e não há nenhuma regulamentação em termos de qualidade. Por isso, um curso em arte  corporal tradicional é baseado em trabalhos práticos. Trabalhamos com tatuadores experientes, aprendendo tudo o que é preciso saber para tatuar antes de começarmos a tatuar. O dia em que criei a primeira tatuagem  foi o dia mais assustador da minha vida. 
Só posso comparar esta a situação com aprender a conduzir. Penso que vocês já se sentaram num carro em qualquer altura, e muitos de nós sentamo-nos em carros durante toda a vida. Vimos outras pessoas a guiar. Parece que é muito fácil. Algumas pessoas até fazem  outras coisas enquanto conduzem. Não é recomendado, mas conseguem fazê-lo. E depois vamos para o lugar do condutor pela primeira vez, e, de repente percebemos que temos nas mãos uma máquina mortal. Não sabemos qual o pé  do pedal do travão ou que mudança devem meter. Estamos a conduzir no meio da estrada, estamos quase a bater nos amigos, tudo parece mover-se muito depressa, devemos ir a cem à hora, Só vamos a 8 à hora e há  uma fila de trânsito atrás de nós. Isto, para mim,  foi como começar a tatuar. Há imensas variáveis. Temos de pensar no plano,  na máquina, na pele da pessoa, na tolerância da pessoa à dor. A lista continua, e é impressionante. A maioria dos tatuadores  só ao fim de três anos a tatuar atinge o ponto em que tatuar lhe sai naturalmente, tal como acontece com a condução. 
Eu estava a fazer um estágio prático,  por isso tinha sempre apoio. Se me deparasse com uma situação  que não soubesse ultrapassar. tinha alguém para me ajudar, o que significa que ninguém ficou com  uma tatuagem horrível por minha causa. 
(Risos) 
O que é importante, porque, se as tatuagens excelentes podem ser motivadoras, uma má tatuagem pode ter um efeito negativo na qualidade da vida duma pessoa. Se aprender como fazer tatuagens  artísticas é como aprender a conduzir, aprender a fazer tatuagens médicas numa pele danificada com cicatrizes, que passou por radiações ou teve necrose será como aprender a conduzir um camião com reboque. São precisas as mesmas competências, mas há muito mais pressão  e são precisos mais conhecimentos. Quando decidi que queria trabalhar  em tatuagem médica, continuei a aprendizagem de duas formas. A primeira, como todos os que querem aprender algo, foi fazer um curso. E o curso que escolhi foi em  micropigmentação da aréola. Esta palavra, micropigmentação,  é um pouco traiçoeira. Parece uma coisa limpa, não é? Parece uma coisa profissional,  muito importante. Mas vou contar-vos um segredo. Significa tatuagem. 
(Risos) 
A micropigmentação é o ato de  implantar pigmentos na derme, o que, por definição, é uma tatuagem, mas não soa tão bem, pois não? É um pouco menos assustador. A diferença parece decorrer do facto de que a micropigmentação foi criada para desvanecer, e foi criada para a tatuagem de sobrancelhas, de lábios e de delineador dos olhos, e foi criada para desvanecer e facilitar um retoque regular. Quando se trata de maquilhagem permanente, há muitas razões para que seja importante, mas uma delas é que  as tendências da moda mudam. Não sei quanto a vocês, mas os meus mamilos nunca foram afetados por tendências da moda. 
(Risos) 
Estes cursos duram dois ou três dias, e destinam-se a quem já faz micropigmentação, artistas  de maquilhagem permanente. Mas também são para quem nunca viu uma máquina de tatuar, como as pessoas do setor médico, o que é o mesmo  que ensinar-lhes  a conduzir um camião com reboque em dois dias e depois dar-lhes as chaves,  mesmo que nunca tenham conduzido um carro, não acham? 
Mesmo após 10 anos a fazer tatuagem artística, aqueles dois dias não me  encheram de confiança. Precisava de mais conhecimentos. Optei por fazer uma especialização com uma senhora chamada Stacie-Rae Weir. A Stacie-Rae é a fundadora da ART, que significa “tatuagem restauradora da aréola”. e é um coletivo mundial de artistas altamente especializados  em tatuagem restauradora, em que todos trabalham  com padrões impostos pela ART. Numa industria sem padrões, um padrão bastante alto é muito importante. A ART foca-se em três aspetos principais. O primeiro é a experiência. Não podemos aprender  a tatuar pele danificada sem primeiro dominarmos  como tatuar pele saudável. Temos de aprender a fazer  algo chamado “leitura da pele”. ou seja, perceber, enquanto estamos a tatuar, quanto trauma estamos a causar, quando devemos mudar de técnica. Isso demora tempo,  é preciso experiência. O segundo aspeto é o realismo. Os mamilos são tão únicos como as impressões digitais, apesar de não serem uma alternativa às impressões digitais. 
(Risos) 
Temos de ter alguma competência artística para criar algo verdadeiramente realista que fará uma pessoa sentir-se  completa de novo. E o terceiro aspeto é a permanência. Tenho de ser totalmente sincera. Só me apercebi até que ponto a permanência era importante no que tocava a estas tatuagens, quando comecei a fazê-las sozinha. As pessoas ainda vêm ter comigo  com estranhas manchas cor-de-rosa onde devia estar o mamilo. Isto é o que resta da micropigmentação. Isto é uma tatuagem desbotada. Tive uma cliente que tinha feito micropigmentação da aréola doze anos antes de vir ter comigo. Estava tão desapontada  com o aspeto da mama dela com aquelas esquisitas manchas cor-de-rosa, que não mostrava as mamas a ninguém há muito tempo, nem sequer ao marido. Agora, sente-se tão confiante, depois de eu lhe ter tatuado complexo mamilo-aerolar realista, que durará para sempre, que me autorizou a mostrar-vos a foto. Isto é até que ponto uma tatuagem pode ser motivadora. 
Mas também me põe a pensar porque é que não falamos disto? Quantas pessoas sofrem em silêncio? Não é o tipo de coisas de que se fale  no<i> pub</i>, certo? “Estás bem? Como vai o teu mamilo?” Simplesmente, não falamos disso. Eu queria dar voz às pessoas. Por isso, organizei um inquérito. Com a ajuda da ART  e do Nipple Innovation Project, partilhámos este inquérito  a nível mundial, e perguntámos às pessoas que tinham feito tatuagem reconstrutiva como estavam as aréolas, como se sentiram  depois de a tatuagem sarar. Já sabíamos, por estudos anteriores e pela experiência, quão fantástico podia ser fazer uma  tatuagem do mamilo para uma pessoa que não tinha mamilo. Mas queríamos apurar se havia uma ligação entre o momento em que a tatuagem sara e como a pessoa se começava a sentir. 
De forma pouco surpreendente, a maioria das pessoas que completaram o inquérito tinham feito micropigmentação da aréola, o que significa que as tatuagens tinham perdido a cor. Deste grupo, 81% confessaram  não estar satisfeitas com os resultados finais. 51% confessaram ter sofrido  efeitos adversos na saúde mental devido ao processo de cura das tatuagens. Havia muitos comentários  confrangedores neste inquérito, mas o que mais me tocou foi o duma senhora que não despe o <i>soutien</i> enquanto toma banho, porque odeia o aspeto da sua reconstrução mamária por causa da tatuagem do mamilo que perdeu a cor. Imaginem, tomar banho com a roupas vestida, com medo de se ver ao espelho, sem querer. Imaginem ser o cirurgião  que passou horas a criar uma bonita reconstrução simétrica da mama para ela ser arruinada esteticamente por uma tatuagens de mamilo de má qualidade. 
Sou uma administradora  do Nipple Innovation Project. Somos a primeira instituição de beneficência dedicada a tatuagens em cancro no Reino Unido. A nossa missão é encorajar e dignificar as sobreviventes de cancro da mama usando tatuagens de mamilo  3D, permanentes e realistas. Temos uma lista de artistas por todo o país que trabalham segundo os padrões do NIP, — outro padrão, muito importante — e o financiamento pode ser feito pela assistência social para não haver esforço financeiro para os clientes. A nossa campanha deste ano  tem sido #mychoice. Tomar uma decisão de forma informada  é o verdadeiro empoderamento. Acreditamos que todos devem ter acesso aos conhecimentos de que precisam para tomar esta decisão. Há pessoas que nunca foram informadas de que as suas tatuagens iam desparecer. As pessoas sentem que a ideia de voltar ao hospital todos os anos para um retoque é demasiado traumatizante. As pessoas deviam saber que há  uma alternativa segura e permanente. 
Falámos recentemente na conferência de oncologia na NEC, foi um grande sucesso. Um dos argumentos que estamos a tentar transmitir é que lá porque as pessoas têm o cabelo com uma cor cómica e tatuagens e ganham a vida a desenhar noutras pessoas com lápis elétricos, não significa que não são profissionais, não significa que não produzem resultados de qualidade. E não significa que não se importam com os seus clientes. Longe vão os dias  dos estúdios clandestinos, tatuar é hoje uma carreira honrada. 
(Risos) 
Portanto, aqui têm. A palavra tatuagem não é uma palavra feia. É uma palavra transformadora. É uma palavra que muda vidas. E quando fazemos uma tatuagem numa pessoa que a faz sentir-se completa de novo, e lhe dá confiança  e uma melhor qualidade de vida, isso, meus amigos, é como usamos as tatuagens como  um instrumento de empoderamento. 
Obrigada. 
(Aplausos) 
