No ano 6 da nossa era, um incêndio devastou Roma. Como resposta, o Imperador Augusto fez algo  que nunca tinha sido feito antes na História do Império. Criou uma equipa permanente de bombeiros que usavam baldes como este. Augusto entendeu que as pessoas não se poderiam proteger sozinhas dos incêndios. Precisam de ajuda da comunidade. Quando a casa de uma pessoa está a arder, isso põe em risco as casas  de todas as outras pessoas. 
Nestes últimos anos, tivemos algo parecido a um terrível incêndio global. A pandemia da COVID matou  milhões de pessoas e destruiu economias e queremos impedir que isso volte a acontecer. É difícil explicar como a COVID tem sido terrível. Aumentou as desigualdades de saúde entre ricos e pobres. A sobrevivência dependia, em parte, dos rendimentos, da raça, do bairro em que se vivia. Por isso, devemos aproveitar esta oportunidade para criar um mundo onde todos têm a oportunidade de viver uma vida saudável e produtiva. E também uma vida livre do medo da próxima COVID-19. 
Quando estive neste palco em 2015, fui uma das muitas pessoas que disseram que não estávamos preparados e precisávamos de estar. Não nos preparámos. Na verdade, a palestra foi vista por muitas pessoas. Mas 90% das visualizações foram depois de ser demasiado tarde. 
(Risos) 
Agora, espero que a necessidade esteja clara. E obviamente que aprendemos muito. Durante esta pandemia, muitas coisas funcionaram bem, e muitas outras não funcionaram bem. Por isso, temos todo esse conhecimento para criar um sistema de prevenção. 
A COVID-19 pode ser a última pandemia se tomarmos as medidas certas. Então, como? Quais são estas medidas? Bem, vamos retroceder e ver o que os romanos fizeram. Pensem como, com o tempo, nos tornámo-nos bons a prevenir grandes fogos. A prevenção de fogos é algo difuso. É bem financiado. É bem compreendido. Se um alarme disparasse agora, todos aqui presentes saberiam que nos  devemos reunir de forma calma, sair e aguardar por instruções. Saberíamos que a ajuda estaria a chegar, porque temos muitos bombeiros formados com prática. Só nos Estados Unidos, existem 370 000 bombeiros a tempo inteiro, um número ainda maior  do que eu imaginava. Também temos acesso a água. Os Estados Unidos, por exemplo, têm quase 9 milhões de bocas de incêndio. Por isso, esse tipo de investimento, esse tipo de prática, esse tipo de sistema é o que precisamos para deter pandemias. 
Muitas vezes, em filmes, temos pandemias. Fico sempre impressionado com o que acontece. Vejamos um exemplo desta resposta rápida. 
[Vale do Rio Motaba, Zaire] 
(Som de rotores de helicópteros) 
Isto é bastante impressionante. Não precisamos da música mas, por outro lado, vimos exatamente o que deveria acontecer. É detetado um surto. Muito rapidamente, em poucos dias, são enviados médicos. Têm um helicóptero para chegarem à zona de impacto. Vão lá e têm as ferramentas certas. E é isto que deveria acontecer quando é detetado um surto. 
Mas não temos essa equipa nem esses recursos. Se ocorresse um surto num país com baixos rendimentos, poderiam passar meses antes de começarmos a organizar esses recursos. 
Apesar do que se vê nos filmes, não há um grupo de especialistas a postos para evitar este desastre. Temos que criar uma equipa nova. Acho que deveríamos criar aquela a que chamo equipa GERM. GERM significa Resposta e Mobilização Global à Epidemia. Este grupo trabalha a tempo inteiro. A sua única prioridade é prevenir pandemias. É composto por um conjunto diverso de especialistas com muitas áreas diferentes de especialização: epidemiologistas, cientistas de dados, especialistas em logística. E não apenas com conhecimento científico e médico. Também têm de ter competências de comunicação e de diplomacia. O custo desta equipa é significativo: mais de mil milhões por ano, para apoiar as 3000 pessoas que fariam parte da equipa. A sua missão é deter os surtos antes de se tornarem em pandemias. O trabalho seria coordenado pela OMS. A equipa estaria presente em muitos locais por todo o mundo, localizada em órgãos de saúde pública. Trabalhariam em estreita cooperação com as equipas nacionais, dependendo do nível de rendimentos. Haveria mais trabalhadores nos países com baixos rendimentos. Por exemplo, poderíamos ter membros da GERM digamos, um epidemiologista, a trabalhar no escritório do Africa CDC, em Abuja. Uma questão muito importante é que, tal como os bombeiros, a equipa GERM faria simulacros. Quando se quer ter uma resposta rápida, quando se quer ter a certeza de que temos todas as peças e podemos movermo-nos rapidamente, a prática é fundamental. É assim que se garante que todos sabem o que fazer. 
Pode haver alturas em que não existem surtos perigosos e essa equipa pode manter as suas competências fortalecidas ao trabalhar em algumas das outras doenças infeciosas, mas isso seria uma prioridade secundária. A equipa trabalharia com os países para fortalecer os seus sistemas de saúde. Os sistemas de saúde são a linha da frente. Temos de saber se, digamos, muitas pessoas aparecessem com um novo tipo de tosse, é aí que a GERM precisa de investigar e questionar-se: trata-se de um surto? Há aqui um novo patogénico? Qual é a sequência disso? E para tudo isto, os primeiros 100 dias são essenciais. Os vírus espalham-se de modo exponencial. Se agirmos quando a taxa de infeção for relativamente baixa, podemos mesmo impedir a propagação. 
Nesta epidemia, se a tivéssemos conseguido deter no prazo de 100 dias, teríamos salvo mais de 98% das vidas. Tivemos países que fizeram um bom trabalho. A Austrália é um exemplo. Eles organizaram a capacidade de diagnóstico. Criaram políticas de distanciamento e de quarentena. A taxa de mortalidade geral per capita deles será muito menor do que um décimo da taxa de outros países. Mas, a nível global, não a contivemos. E é isso que temos de fazer da próxima vez. 
Quando a COVID surgiu, éramos quase como Roma antes de terem baldes e bombeiros. Não tínhamos as pessoas, os sistemas nem as ferramentas necessárias. Com os investimentos certos, podemos ter toda uma nova geração de ferramentas, diagnósticos, tratamentos e vacinas melhores. Um bom exemplo na área do diagnóstico é esta pequena máquina, chama-se Lumira. Podemos tê-la em todo o mundo para testar qualquer número de doenças. Custa um décimo do valor de um PCR, tem exatamente a mesma precisão e é simples. Assim, pode ser usada em qualquer lado. Precisamos de mais investimentos em P&amp;D. Um que me entusiasma muito é a ideia de um medicamento que se inala e nos impede de sermos infetados. Pode ser independente de patogénicos e ativar o nosso sistema imunitário para ficarmos protegidos. Muitas das ferramentas, as de diagnóstico e as que bloqueiam infeções são importantes porque podem ser preparadas com antecedência. Também precisamos de vacinas, mas queremos deter o surto antes de termos de fazer uma campanha de vacinação global. As vacinas podem desempenhar algumas funções diferentes, mas não a função principal. Temos de investir em mais do que apenas nisso. 
Quando olhamos para as vacinas, elas foram o milagre desta epidemia. Salvaram milhões de vidas, mas podem ser muito melhores. Temos de inventar vacinas mais fáceis de administrar, que sejam apenas um adesivo que se coloca no braço ou algo que se inala. Precisamos de vacinas que bloqueiem mesmo as infeções. Neste caso, houve muitas infeções inéditas. Precisamos de vacinas com um espetro amplo, para funcionarem contra a maior parte das variantes emergentes, o que não tivemos desta vez. Também precisamos de fábricas que estejam a postos para criarmos vacinas  suficientes para todo o mundo no prazo de seis meses e alcançar uma melhor igualdade. As vacinas também podem fazer algo que seria muito útil: ajudar-nos a erradicar famílias inteiras de vírus. Novas vacinas inovadoras usadas de modo apropriado, poderiam livrar-nos da família da gripe e do coronavírus. Estes vírus são um fardo enorme, mesmo em anos sem pandemias, e se nos livrarmo-nos deles, nunca poderão causar uma pandemia. 
Estou a falar de investimentos em três grandes áreas: monitorização de doenças, que é a GERM. As ferramentas de P&amp;D, que estão muito melhores. E, finalmente, o mais caro, que é melhorar os sistemas de saúde. Isto não será barato, mas salvará vidas. E até poupará dinheiro a longo prazo. É como uma apólice de seguro. 
O custo para prevenir a próxima pandemia será de dezenas de milhares de milhões. Mas vamos comparar isso com o que acabámos de passar. O FMI estima que a COVID custou quase 14 biliões de dólares. Precisamos de gastar milhares de milhões para poupar biliões. E eis a melhor parte disto. Mesmo quando não há um surto, estes investimentos como a Lumira, e as novas vacinas tornarão as pessoas mais saudáveis. Vão reduzir a desigualdade, em termos de igualdade em saúde, que é gigantesca entre países ricos e pobres. Por exemplo, podemos detetar mais casos de VIH e fazer um melhor tratamento. Podemos reduzir as mortes por malária. Podemos obter assistência de alta qualidade para mais pessoas. Por isso, isto não é apenas  uma visão derrotista sobre como impedir que as coisas se tornem piores, mas também é uma oportunidade de melhorar as coisas. 
Se tomarmos as medidas certas, podemos tornar a COVID-19 na última pandemia, e podemos construir um mundo mais saudável e justo para todos. 
Obrigado. 
(Aplausos) Helen Walters: Muito obrigada. Tenho algumas perguntas e uma delas é sobre o estatuto formal da GERM. Mencionou que custaria mil milhões de dólares, que viria através da OMS, mas quem vai comandar isto, como funciona, como fazemos isto acontecer? 
BG: Bem, a GERM não existe. É uma proposta que estou a apresentar e espero que no próximo ano, enquanto a dor da pandemia ainda estiver clara na mente das pessoas, obtenha um consenso global. Os governos ricos terão de se chegar à frente, como fazem com todo o tipo de ajudas e proporcionar esse dinheiro. O modo de funcionamento dos sistemas de pessoal está a cargo da OMS, mas é uma equipa excelente, haverá muito debate sobre como fazer isso bem. Estou a apresentar a proposta e espero que no próximo ano tenhamos esse consenso. 
HW: De quem precisa para esse consenso? 
BG: Basicamente, dos governos ricos do mundo. A OMS tem uma reunião anual importante, a Assembleia Mundial da Saúde, e, em algum momento, alguém apresentará uma resolução e veremos se os recursos extra podem ser investidos nisso. Após a Segunda Guerra Mundial, fizemos muita coisa. Criámos as Nações Unidas, falámos muito sobre a guerra. Ficaria espantado, embora até agora a ação tenha sido menor do que eu esperava, ficaria espantado se não avançássemos com algo bastante parecido ao que estou aqui a apresentar. 
HW: Isto é algo muito pessoal para si. As pessoas contra as vacinas andam por aí, fazem muito barulho, e isto tornou-se pessoal. Só queria perguntar como está a gerir isso? 
BG: Bem, é um bocado estranho. 
(Risos) 
(Aplausos) 
A nossa fundação, a Fundação Gates, está muito envolvida em vacinas, na invenção de vacinas, no seu financiamento. E temos muito orgulho de, através de esforços conjuntos como a GAVI, salvar dezenas de milhões de vidas. É algo irónico alguém se virar e dizer que estamos a usar as vacinas para matar pessoas ou ganhar dinheiro, que começámos a pandemia até algumas coisas estranhas como eu querer controlar, de alguma forma, a localização das pessoas, porque tenho um desejo profundo em saber onde todos estão. 
(Risos) 
Não tenho a certeza do que vou fazer com essa informação. 
(Risos) 
Será que isto se torna em algo de onde surgem constantemente pessoas loucas? Quem sabe? Mas espero que conforme a pandemia acalme, as pessoas sejam mais racionais. As vacinas são um milagre e há muito mais que podemos fazer. 
HW: O futuro está nas nossas mãos no presente. 
Bill Gates, muito obrigada pela sua presença. 
BG: Obrigado. 
(Aplausos) 
