Quando vou à mercearia ou talvez a um restaurante ou ao parque com o meu filho — ele tem seis anos e meio — as pessoas fazem-nos parar e dizem que o acham muito bonito. Eu concordo. Aproveitam a oportunidade para tagarelar com ele e, quando acabam de falar com ele, dizem que o acham um rapazinho muito esperto e desembaraçado. Quando essas pessoas se vão embora, o que me vem à cabeça é que espero que eles se lembrem de o terem encontrado em criança quando o voltarem a ver já em adulto. Esta reflexão vem-me à mente porque escrevi dois livros sobre raça e racismo nos EUA e este tipo de trabalho pode provocar sentimentos de pessimismo. 
 Uma das coisas que aprendi é que os norte-americanos têm uma orientação para o progresso. Neste contexto, o que isso significa é que festejamos muitas vezes a distância entre onde estivemos e onde estamos hoje. Mas essa mesma orientação pode impedir-nos de ver o fosso entre onde estamos e onde podíamos ou devíamos estar. A outra coisa que aprendi sobre os norte-americanos é que temos uma compreensão do racismo muitíssimo estreita, sobretudo no espírito e no coração das pessoas, habitualmente, pessoas idosas, pessoas idosas do Sul. Essa definição demasiado estreita pode limitar as nossas oportunidades de produzir uma sociedade mais etnicamente igualitária. Gostamos de culpabilizar certas raças e afastamo-nos de pessoas que dizem coisas negativas sobre grupos de pessoas ou que idealizam os anos 50. Mas a verdade é que podemos precisar de nos olhar ao espelho. 
Não estou a dizer que todos aqui são racistas, o que estou a dizer é que todos temos a capacidade e talvez a tendência de viver a vida à sua maneira, de tomar decisões, de se basear em preconceitos que reproduzem a desigualdade racial. Há pessoas que dizem: “Tu estudas tanto sobre o racismo. Qual é a resposta?” E eu digo que a primeira coisa que precisamos de fazer é chegar a uma compreensão mútua sobre o que é o racismo. 
A História mostra que os racistas foram os primeiros a decidir quem são os racistas e o que é o racismo, e nunca são eles nem as coisas que eles fazem. Mas talvez, se nos reuníssemos e chegássemos a uma definição comum e mais rigorosa sobre o que é o racismo, pudéssemos trabalhar para criar uma sociedade em que as mães como eu não vivam sempre a temer pela vida dos filhos. Eu gostava de desfazer três mitos sobre o racismo no nosso percurso para uma compreensão mútua. 
Primeiro: é verdade que o Sul fez um bom trabalho para ganhar a reputação da região mais racista. Mas há outros estados e regiões que competem por esse título. Por exemplo, se olharmos para os estados mais segregados de acordo com as escolas para onde vão as crianças negras, certamente, alguns deles estão no Sul. Há alguns no Oeste, no Centro-Oeste e no Nordeste. Estão onde vivemos. Se olharmos para os estados com as maiores disparidades raciais, em termos de população nas prisões, vemos que nenhum deles está no Sul. Estão onde vivemos. 
A minha colega Rebecca Kreitzer e eu investigámos um padrão de atitudes raciais de preconceito e descobrimos que, nos anos 90, os estados do Sul dominavam as atitudes racistas mais negativas. Mas esta geografia evoluiu e as coisas mudaram. Em 2016, descobrimos que as Dakotas, o Nebraska, os estados no Centro-Oeste e no Nordeste, estavam a competir para o título de “população mais preconceituosa”. Não estou a dizer que um estado é mais racista do que outro, estou a dizer é que cada estado pode ter o seu tipo especial de racismo. 
E não tem de ser assim. A maioria das desigualdades que vemos na nossa vida quotidiana ocorrem no estado e a nível local. O que isso significa é que não temos de ir ao Congresso para fazer alterações nas nossas comunidades. Podemos agir na nossa cidade, no nosso condado, nos nossos legisladores de forma a serem produzidos  resultados mais equitativos. 
Mito dois: Não somos lá muito bons a caçar racistas. Lembrem-se do tempo em que o governador da Virgínia pintou a cara de preto  e as pessoas disseram: “Oh, isto é mau, é preciso tirar aquele racista dali.“? Eu olhava-os de lado. E esta é a razão: Os brancos foram pesquisar os livros de curso à procura de coisas que fossem obviamente racistas, Uma minoria analisava atitudes políticas actuais de legisladores que fizeram a mesma coisa mas não foram apanhados Quantos de nós talvez tenhamos apoiado um candidato que está disposto a deixar bairros separarem-se do seu distrito para as crianças poderem ir para uma escola só para “brancos” no século XXI? Ou quantos de nós talvez tenhamos apoiado um referendo que, de forma sistemática, reduzia o direito de voto de certos grupos? Ou quantos de nós talvez nos tenhamos concentrado no comportamento de mães negras em vez de nos médicos ou no sistema de saúde e as suas políticas? quando nos apercebemos  da disparidade racial na mortalidade materna e infantil? Não tem de ser assim. Podemos fazer algo diferente. Podemos escrutinar os comportamentos dos governantes. Podemos direcionarmo-nos rumo a uma sociedade mais justa e nesse percurso não podemos iludir com soluções políticas práticas 
Mito três: Se acreditam que quando todas as avós no Mississipi morrerem que o racismo desaparecerá com elas preparem-se para uma grande desilusão. Gostamos de pensar que os jovens vão fazer o árduo trabalho  de erradicar o racismo, mas há algumas coisas  que devemos perceber. Sabemos que os jovens, especialmente  jovens brancos, gostam de diversidade, apreciam-na, procuram-na. Mas também sabemos que não há grande diversidade na vida deles Estudos mostram que, em média, o americano branco comum tem apenas um amigo negro. E isto significa que a maioria não tem nenhum. Sociólogos, como Sarah Mayorga. mostram que, mesmo quando brancos bem-intencionados se mudam para bairros com diversidade nem sempre têm interações positivas ou não têm nenhuma interação com vizinhos que não são brancos. 
O meu estudo, com o Professor Christopher DeSante, mostra que quando questionamos os nascidos nos finais do século XX sobre as suas atitudes raciais e políticas preferenciais por vezes, são ainda  mais conservadores, racialmente, do que os que nasceram em meados do século XX. Quando lhes perguntamos  o que é importante para eles não mostram qualquer sentimento especial de urgência em responder a perguntas sobre desigualdade racial. 
Como chegámos aqui? Uma das coisas em que podemos  refletir, é como educamos os nossos filhos equipando-os para resolverem os problemas que queremos que resolvam. Estudos mostram que, os pais brancos, em particular, preferem não falar com os filhos sobre questões de racismo para os protegerem de uma realidade racial difícil ou instilam lições “daltónicas” o que pode reforçar atitudes raciais negativas. É como se os pais pudessem dar-nos livros sobre a puberdade para não terem de nos falar sobre passarinhos e abelhas e depois tentássemos unir os pontinhos e fizéssemos tudo mal. É assim. Mas não tem de ser assim. Podemos fazer melhor. Podemos ter conversas difíceis com os nossos filhos para eles não crescerem como muitos de nós cresceram, a pensar que falar sobre racismo torna-nos racistas — não torna — e para podermos impedi-los de fazerem os mesmos erros que vimos no passado. 
Lembram-se há muito, muito tempo, em 2008. quando todos ansiávamos por viver num mundo pós-racial? Eu direi que é altura de pensarmos mais e sonharmos mais e pensar em como será viver num mundo pós-racista. Mas, para isso, temos de nos reunir, ter a mesma definição de racismo — não apenas na questão de corações e espíritos, mas nos sistemas,  nas políticas, nas regras, nas decisões tomadas repetidamente para marginalizar algumas pessoas — e concordarmos em ser anti-racistas — pessoas que aprendem mais e fazem melhor. 
Podemos fazer perguntas mais difíceis aos candidatos sobre a posição deles quanto à desigualdade racial antes de lhes atirarmos a artilharia pesada. Podemos boicotar empresas cujas práticas não estejam alinhadas com os nossos valores. Podemos falar sobre racismo com os nossos filhos. Podemos analisar o aspeto especial de racismo no nosso estado e trabalhar para o erradicar. As pessoas fazem disparidades raciais e as pessoas podem desfazê-las. Claro que vai ser difícil mas a questão é que há quem depende de nós, se não fizermos nada. 
Obrigada. 
(Aplausos) 
