Olá, pessoal, gostava de começar com uma canção cuja letra é assim: “Andem ligeiras, meninas, o bolo está estragado, “Não tenham medo do tempo, se o vento estiver parado.” Repitam comigo: ♪  Andem ligeiras, meninas, o bolo está estragado, 
Público: ♪  Andem ligeiras, meninas, o bolo está estragado, 
CGJ: ♪ Não tenham medo do tempo, se o vento estiver parado. 
Público: ♪ Não tenham medo do tempo, se o vento estiver parado 
CGJ: OK. já sabem, Vou cantar. 
♪ Andem ligeiras, meninas, o bolo está estragado, ♪ Não tenham medo do tempo, se o vento estiver parado. ♪ Andem ligeiras, meninas, o bolo está estragado, ♪ Não tenham medo do tempo, se o vento estiver parado. ♪ Andem ligeiras, meninas, o bolo está estragado, ♪ Não tenham medo do tempo, se o vento estiver parado. 
Já quase ninguém conhece hoje esta canção mas era muito popular na época da escravatura. Os americanos negros  cantavam-na nos feriados e durante um concurso de dança chamado <i>cakewalk</i>. Mas o que talvez não saibam é que os <i>drag queens</i> talvez a cantassem nos primeiros bailes <i>gays</i> nos EUA. E talvez também não saibam que a cultura <i>drag </i>tem uma história comum com a emancipação afro-americana. 
A razão por que não sabem isso é que as comunidades <i>gays </i>negras têm sido apagadas da História. Isso deve-se em parte ao facto de que grande parte da investigação histórica começa com a genealogia. E o que é a genealogia? Basicamente, é um registo do comportamento heterossexual: mãe, pai, filho; nascimento, casamento, herança. Mas uma outra razão é que os historiadores de todas as cores olharem para os <i>gays </i>negros como eu como pessoas imorais, anormais, desagradáveis, doentias e mesmo perigosas. 
O impacto disso a longo prazo é que muitos de nós não aprendem como os negros <i>gays </i>modelaram a História. Pessoas como Bayard Rustin um negro <i>gay </i>que organizou a marcha sobre Washington em 1963, encabeçando a aprovação da Lei dos Direitos Civis. Ou Frances Thompson, uma negra antiga escrava designada como masculina ao nascer, cujo lancinante testemunho no Congresso sobre os motins raciais  de Memphis, em 1866 ajudaram a modelar o curso da Reconstrução e galvanizaram o apoio para a 14.ª Emenda que concedeu aos americanos negros direitos de cidadania e a promessa de proteção igual. 
Enquanto miúdo negro efeminado a viver na Louisiana, fui muito molestado. Na escola primária, os outros miúdos chamavam-me menina e eu sentia-me deslocado quase permanentemente. Se eu tivesse aprendido na escola as contribuições dos negros <i>gays</i> isso teria tido um impacto enorme na minha vida. Penso que recuperar essas histórias pode salvar a vida a muitas crianças. Mas depois de passar os últimos 15 anos a investigar e a escrever sobre estes tópicos, gostava de defender a ideia de que conhecer a história dos negros <i>gays</i> é fundamental para compreender a nossa História comum. 
Provavelmente, já ouviram dizer que a luta pela libertação <i>gay</i> começou com a revolta de Stonewall. A polícia de Nova Iorque fez uma rusga num bar <i>gay </i>em 1969. Seguiram-se motins e, como por magia, nasceu um sentimento de orgulho. O problema é que isso não é verdade. (Risos) O orgulho <i>gay </i>não surgiu do nada. Tinha de haver já uma base de autoaceitação e de solidariedade. Com efeito, já muita gente trabalhara, durante dezenas de anos, para criar uma comunidade corajosa e confiante que motivou Stonewall, o orgulho e, por fim, a possibilidade do casamento entre o mesmo sexo. 
Uma dessas pessoas foi William Dorsey Swann, a primeira <i>drag queen</i>. Swann nasceu escravo, em Maryland, pouco antes da Guerra Civil. Na década de 1880, enquanto jovem adulto, foi para Washington, DC, à procura de trabalho para ajudar a sustentar os pais e os irmãos. Em Washington, encontrou o desfile do Dia da Emancipação, um enorme festejo anual que comemorava o fim da escravatura no Capitólio dos EUA. Os focos nesse desfile chamavam-se rainhas: negras lindas, coroadas, que personificavam a liberdade recém-conquistada dos afro-americanos. As rainhas do Dia da Emancipação inspiraram tanto Swann, que adotou para si mesmo  o título de <i>queen </i>(rainha) na dança secreta a que ele e os seus amigos chamavam “drag”. A palavra “drag” possivelmente provém da contração de “grand rag” que é um termo antigo para um baile de máscaras. 
Assim, embora as pessoas  consideradas masculinas ao nascer se tivessem vestido com roupas femininas, pelas mais diversas razões, durante séculos, o termo “drag queen” apareceu com Swann, que foi a primeira pessoa documentada a chamar-se <i>queen </i>a si mesmo numa festa de travestis, descrita como uma <i>drag </i>pelos participantes. O título <i>queen </i>significava que Swann tinha um lugar de honra na comunidade. Mas o termo <i>queen </i>ainda é mais importante porque é um dos primeiros termos positivos que os <i>gays </i>tiveram pare se descreverem a si mesmo. 
Na década de 1880, ainda não existiam os termos positivos como transgénero e não-binário. Homossexual era uma palavra só usada pelos alemães. E embora se usassem as palavras gay, lésbica e bissexual não significavam o que significam hoje, e não eram usadas como autoidentificação. Pode haver a tentação de aplicar identidades modernas às pessoas do passado distante. Mas se assim o fizermos, enganamo-nos muitas vezes ao considerar e respeitar as formas como eles pensavam de si mesmos. Certo? Se nos enganarmos ao considerar como é que os nossos antepassados pensavam de si mesmos, arriscamo-nos a apagar um elemento fundamental da nossa História comum. 
Os bailes de Swann eram vítima de rusgas inúmeras vezes pela polícia de DC que o levaram à cadeia e, por fim, a uma petição pública e ao pedido do perdão presidencial. Isso faz de Swann o mais antigo ativista americano de que há registo a dar passos legais para a defesa da comunidade <i>gay</i>. Mas as autoridades não conseguiram travar Swann nem conseguiram impedir que os bailes continuassem e alastrassem a outras cidades. Hoje, os <i>queer drag</i> são correntes. Do “Paris is Burning” ao “Pose” e ao ”RuPaul’s Drag Race”, e às casas da cultura de salão do século XXI, com rainhas que presidem a concursos de beleza e de dança, todos mantêm a mesma estrutura base da comunidade de Swann do século XIX. 
A história do Dia da Emancipação de DC tem sido grandemente esquecida, mas o poder de escolher como nos definimos, conforme Swann fez, é mais importante hoje do que nunca. Enquanto este termo “queen” se mantiver, todos aqueles que participarem em competições <i>drag</i> ou gostarem de assistir a essas competições estão a prestar homenagem  a uma festa com século e meio da emancipação dos afro-americanos. William Dorsey Swann  é apenas um exemplo. Quantas histórias de negros <i>gays</i> têm sido apagadas do registo histórico? O que é que essas histórias nos podiam ter ensinado sobre quem somos? 
Obrigado. 
(Aplausos) 
