Estamos em 2041. O mundo ainda é mais estranho do que a ficção. Cheio de tecnologias fantásticas e progressos científicos. Mas ainda há uma coisa que é muito familiar. A Covid continua presente. Acabámos por aprender a viver com ela. Há três anos que não saímos dos nossos apartamentos. A  pandemia de 2021 traumatizou-nos. Ainda temos os pesadelos de perder os nossos avós e, apesar dos progressos, o medo da infeção mantém-nos fechados e isolados. Acabaste de descobrir que o namorado que encontraste num absorvente jogo “online” atravessou meio mundo para te conhecer. Mas agora está de quarentena no hospital, apanhado por uma nova variante do vírus extremamente virulenta. Parece que pode morrer mesmo antes de o conheceres. Decides arriscar-te a sair, para o perigoso mundo  fora das quatro paredes. 
Felizmente, há robôs que te ajudam. O teu robô doméstico leva-te  um elevador especial reservado só a robôs, que te permite evitar as pessoas totalmente. Está apinhado de todo o tipo de robôs. o Robô-das-Entregas, o Robô-das-Limpezas, o Robô-da-Assistência -a-Idosos, o Robô-que-passeia-o-Cão, até as paredes e o teto estão cobertos de Robôs-da-Desinfeção, que parecem insetos. 
Cautelosamente pões o pé na rua pela primeira vez, olhando para quem passa,  com desconfiança. Confias na aplicação Círculo de Segurança no teu telemóvel para te manter segura. Avisa-te com uma vibração ou um zumbido se possíveis portadores de vírus se aproximam demasiado. As membarnas biosensoras no interior do teu pulso exibem dados fisiológicos em tempo real, incluindo o prazo de expiração de diversas vacinas e as tuas estão fora de validade há três nos! Sem este filme elétrico de identificação, não poderás entrar no hospital, nem em parte alguma, pois é preciso para ter acesso a transportes. Entretanto, o teu aparelho recebe a situação médica em tempo real do teu namorado moribundo, e quase entras em pânico. Estás a correr contra o relógio. Conseguirás chegar a tempo? Conseguirás chegar lá? 
Consegues. Graças aos processos automatizados da IA, foi possível sintetizar uma droga de efeito rápido para o teu namorado. E as tecnologias como a AlphaFold vão acelerar a velocidade da evolução da vacina de anos para meses. 
Que mais poderá acontecer em 2041? Os detetores anti-falsificação fazem parte da configuração padrão para a segurança cibernética. O abuso da tecnologia, tal como os “deepfakes” para espalhar boatos e ódio e aumentar os conflitos e desestabilizam a sociedade, é uma coisa do passado. A aprendizagem personalizada  chegou finalmente com empresas de IA personalizada que calibram a criatividade, a comunicação e a compaixão em cada indivíduo igualmente. A tecnologia educativa já deixou de acentuar as divisões de classe. Com gémeos digitais dotados de processamento de linguagem natural e tecnologias XR, Kobe Bryant, Maradona e Whitney Houston renascerão e passarão a figuras virtuais imortais na nossa experiência  de entretenimento personalizado. 
O ano de 2041 está prestes a chegar. Só faltam 20 anos. Muitos dos que estão a ver esta palestra, com sorte, estarão vivos nessa altura. É por isso que, em conjunto com o especialista de IA, Dr. Kai-Fu Lee, decidi escrever um livro que mistura o realismo da ficção científica com a análise, não só da tecnologia, mas também das grandes ideias que animam a tecnologia. Quando muitos pensam que a IA na ficção científica é sobretudo distópica — no HAL 9000, no Exterminador, no Ex Machina — a IA aparece sempre competitiva, hostil, o retrato negativo da Humanidade. Mas, no nosso livro, exploramos uma abordagem diferente. 
Passámos quase dois anos a visitar laboratórios e cientistas da IA, empresários, investigadores  e académicos, tentando imaginar o percurso mais realista da evolução da IA durante os próximos 20 anos. A tecnologia da IA que foi investigada para o livro varia de um processamento de linguagem natural até ao GPT-3 e à realidade virtual mista aumentada, visão informática, GANs, e interfaces cérebor-computador. Pusemos todo este saber sólido em previsões e histórias futuristas, situadas em 10 cidades diferentes no mundo inteiro. 
Não foi fácil contar histórias deste modo. Mas, sem pôr de lado as falhas  e os matizes da IA, Kai-Fu e eu esforçámo-nos por retratar um futuro em que a tecnologia da IA pudesse influenciar positivamente as pessoas e as sociedades de modo positivo. Queremos representar como as pessoas de culturas e práticas diferentes, com diferentes identidades reagiriam ao choque futuro induzido pela IA. 
Voltemos a 2021, ao presente. A pandemia ainda está  espalhada pelo mundo. As pessoas continuam sem emprego, isoladas dos amigos, da família e da Natureza. Será que a IA vai resolver todos estes problemas? Do submarino moderno às armas a laser, dos telemóveis ao CRISPR, muitos cientistas reconhecem a inspiração a partir da ficção. A imaginação modela o mundo. Para cada futuro que queremos criar, primeiro temos de o imaginar. Imaginando o futuro através da ficção científica, podemos avançar, fazer mudanças e desempenhar um papel ativo na modelação da nossa realidade. 
Obrigado. 
