Quando eu era professora de ensino básico, pedia frequentemente aos meus  alunos para beijarem o seu cérebro. Tive esta ideia ao visitar a sala do pré-escolar da minha colega. Ela dizia aos alunos  para beijarem o seu cérebro, e eles levavam os dedos à boca e depois ao topo da cabeça. E era tão adorável  quanto podem imaginar. Então, eu decidi levar isso para  a minha sala de ensino básico, o que podia ter levado a dois resultados diferentes, mas acabou por ser  um ritual divertido para nós. Eu pedia-lhes para beijarem o cérebro pelo trabalho que ele tinha feito na aula como uma prática de gratidão. 
Depois de ensinar o ensino básico, voltei ao ensino superior para  fazer o doutoramento em psicologia. A minha pesquisa foca-se  na área da psicologia positiva, que é a ciência que investiga  os pontos fortes e os fatores que incentivam a prosperidade  de indivíduos e comunidades. Eu também ensino psicologia a estudantes universitários e do ensino secundário. Adoro ensinar psicologia e a minha parte preferida de ensinar  em Introdução à Psicologia é o cérebro. Mas, mesmo gostando  de ensinar sobre o cérebro, pensei que seria demasiado pedir  aos meus alunos de licenciatura, adultos, para beijarem os seus cérebros. Passaram-se três anos até voltar a lembrar-me  dessa frase divertida. 
Um dia, depois das aulas no ano passado, eu tive uma enxaqueca terrível  que me deixou metade da cara dormente e me turvou a visão. As enxaquecas continuaram. Fui a vários médicos, depois comecei a ter vertigens. O neurologista pediu uma  RM — ressonância magnética — e lembro-me de estar tão entusiasmada porque ia poder usar  as imagens do meu próprio cérebro quando ensinasse imagiologia cerebral aos meus alunos. Mas, infelizmente, a minha RM não era muito boa. O médico ligou-me e  disse-me para ir às Urgências porque havia um grande tumor  no hemisfério direito do meu cérebro. Foi aí que vi a imagem pela primeira vez. 
Nunca tinha estado mais assustada  na minha vida do que naquela noite e com as lágrimas a cair pelo rosto abaixo, no hospital, eu beijei o meu cérebro pela primeira vez desde que tinha deixado  os meus alunos de ensino básico. Passou a ser o meu mantra e eu beijei o cérebro todos os dias, antes e depois da cirurgia. Duas semanas depois da cirurgia, vieram os resultados da patologia e fui diagnosticada com  astrocitoma anaplásico. 
As semanas seguintes foram muito difíceis. Tentava perceber com o que é  que me debatia mais, olhando em retrospetiva para o que eu escrevera sobre a minha experiência. Escrevi e publiquei isto no Instagram cerca de uma semana depois  de receber o relatório da patologia: “Vou continuar a lutar. “Vou continuar a amar,  vou continuar a viver, “vou continuar a amar,  vou continuar a viver.” E uma semana depois, escrevi: “Lutadora. “Eu experimentei para ver como me sentia “porque estava sempre a ouvir  essa palavra junto ao meu nome, “como uma profissão,  uma identidade ou um papel. “Lutadora. “Olho-me ao espelho. “Foi bom ao início, “mas logo se tornou esgotante, “demasiado pesado para levantar, “demasiado para carregar,  demasiado pesado para aguentar. “Tirei-a e deixei-a no chão. “A guerra não era para mim. “O corpo não é um campo de batalha.” 
Percebi que tinha sido apresentada  à narrativa da luta contra o cancro. Quando as pessoas sabiam da minha doença, eu tornava-me uma lutadora. “És uma lutadora.“, “Continua lutar.”, “Vence esse tumor.“. Eram os comentários mais frequentes. E depois havia a Internet, onde eu procurava desesperadamente pessoas que estivessem a ter sucesso com a sua doença. Mas as principais <i>hashtags </i> eram #tumorescerebraissaohorriveis, #cancroehorrivel e #lutadoradecancro. Percebo perfeitamente  porque é que essas <i>hashtags </i>existem mas o que eu queria encontrar era a <i>hashtag</i> #olaeutenhoumtumorcerebralquepodenunca desaparecereaindaestouavivereaprosperar mas calculo que esta não soa lá muito bem. Detestava a ideia de que estaria  em guerra com o meu cérebro porque havia passado meses  e anos a beijá-lo em vez disso. Detestava a sugestão de que  o meu tumor era algo horrível porque a realidade é que ele ficaria comigo para o resto da minha vida, e detestava  o treino de visualização guiada que me pedia que visse a quimioterapia como um exército que vinha combater as células do cancro porque não queria passar  mais de um ano da minha vida em guerra com o meu próprio corpo. 
Eu vejo como estes  elementos na narrativa da luta podem dar força às pessoas, mas sei que não funcionaria para mim. Por isso, comecei a recorrer  a práticas de bem-estar que tinha aprendido  nos meus próprios estudos. Os médicos sempre se riem comigo quando descobrem que a minha formação  é em biopsicologia e neurociência e que sou doutoranda em psicologia. E quando me perguntam o que é que eu estudo e eu digo que estudo  resiliência e bem-estar, eles riem de novo ou dizem algo como “Oh, isso é irrelevante.” ou dizem ”Ah”. Eu percebo bem a ironia. Eu li tantas histórias  e estudos sobre resiliência, mas nunca imaginei que um dia iria experienciá-la pessoalmente. 
Eu li e ensinei práticas de gratidão, especificamente estratégias de bem-estar, e mesmo conhecendo os efeitos positivos, nunca os tinha praticado em mim mesma. Comecei a incorporar alguns destes exercícios na minha vida. Tentei deixar de me focar no que  o meu corpo tinha feito de “mal” e, em vez disso, foquei-me  na gratidão que tinha por ele. E, realmente, apercebi-me  que isto é algo que eu já fazia quando beijava o meu cérebro nesses dias antes e depois da cirurgia. A gratidão tornou-se uma ferramenta que me ajudou a restruturar  a minha conceção de doença e deficiência, quando o mundo me dizia  para lutar em vez disso. Em vez de indagar  se  algum dia teria filhos, eu pensava em quão fantástico era  o meu cérebro que, apesar do trauma, ainda conseguia administrar as quantidades necessárias de hormonas ao meu corpo para produzir óvulos suficientes  para guardar para mais tarde. Sempre que ia à radioterapia  e me punham a máscara, eu beijava o meu cérebro  e focava-me no médico residente a dizer-me como as células saudáveis  se regenerariam com o tempo e as cancerosas não. E quando vieram as notas  operacionais da minha cirurgia, um dia em que tinha pensado  muito e que me amedrontava, li a nota em voz alta, a chorar convulsivamente, lágrimas de felicidade e gratidão, ao pensar no que a equipa do meu neurocirurgião tinha feito. Comecei a sentir uma gratidão  tão grande pela ciência, pela medicina  e pela minha equipa médica, que os outros pensamentos foram ofuscados, os pensamentos do tipo: “Que vai ser da minha vida?“. 
Quanto mais praticava a gratidão,  mais paz senti na minha situação e isto levou-me a interessar-me pelo que poderia estar a acontecer com a ciência da gratidão ao nível neurológico. Há vários efeitos positivos  psicológicos e sociais da gratidão como aumento de felicidade  e redução de depressão, relações mais fortes  e mais emoções positivas. E estudos feitos com ressonâncias magnéticas mostram que várias zonas do nosso cérebro  e suas linhas de comunicação são ativadas quando experienciamos  e expressamos gratidão. Uma dessas zonas  é o córtex medial frontal, uma área associada  com a gestão de emoções negativas. Em conjunto, estas mudanças  nos neurotransmissores e hormonas combinados com vias neuronais ativadas ajudam-nos a restruturar cognitivamente pensamentos potencialmente nocivos para conseguir gerir melhor  as nossas circunstâncias. O mais interessante é que podemos ativar intencionalmente estes  circuitos de gratidão no nosso cérebro. Em geral, quanto mais  fazemos algo, mais fácil se torna e os nossos cérebros funcionam da mesma forma. Quanto mais ativamos  estes circuitos de gratidão, menos esforço precisamos  para os estimular na vez seguinte e mais fortes se tornam  estas vias neuronais. A neuroplasticidade é um termo  que eu ensino aos meus alunos que se refere à capacidade que os nossos cérebros têm de formar novas conexões neuronais ao longo da vida. O que significa que qualquer pessoa pode fazê-lo e melhorar ao longo do tempo. 
Por isso, eu continuei a praticar gratidão mesmo quando parecia impossível. Continuo a agradecer ao meu cérebro pelo seu trabalho fantástico ao preparar-me para mais 12 rondas de quimioterapia este ano. Aponto três coisas pelas quais estou grata e porquê,  não importa o que aconteça, todas as manhãs ao acordar. Escrevo bilhetes a agradecer aos meus heróis no sistema de saúde, enfermeiras que conseguem colocar a agulha intravenosa à primeira. O residente anestesista, que me deu a mão nas partes da  cirurgia em que tinha de estar acordada, o radioterapeuta que toca a minha lista de músicas durante o tratamento e o pessoal administrativo  que me faz sorrir sempre que chego ao hospital. 
Quero pausar aqui e pôr em prática o que ensino de mencionar os meus  médicos e as suas equipas da Clínica de Medicina Multidisciplinar  para Tumores Cerebrais de Michigan. Nunca tinha conhecido  pessoas tão inteligentes, gentis e pacientes. Obrigada por me fazerem sentir corajosa quando, por vezes, sentia o contrário. 
Penso que o universo  pode pensar que tem piada uma investigadora e professora  de psicologia que estuda bem-estar acabar com um tumor no cérebro. A verdade é que precisamos  de mais sensibilização e investigação relativamente a tumores  e cancros cerebrais. Os médicos não conseguem prever  como o meu tumor se vai comportar e nenhum de nós realmente consegue prever o que vai  acontecer na nossa vida. Mas o que espero conseguir passar-vos  é que também podemos estar gratos pelos desafios imprevistos. 
Eu não quero diminuir as pessoas que ganham força com a narrativa da luta. Também não pretendo  sugerir de maneira nenhuma que é fácil estarmos gratos  quando passamos por adversidades. Esta é a coisa mais  difícil que tive de fazer. Mas quero encorajar os que se sentem como eu, que há outra forma de fazer essa viagem em que estão, que amar o nosso corpo  não tem de ter condições. E que praticar a gratidão pode realmente ajudar-nos  a reforçar a nossa resiliência. 
E, por último, espero que toda a gente, não importa  onde esteja ou o que está a fazer, possa tirar um segundo  para beijar o seu cérebro e agradecer-lhe por tudo o que faz por si. 
