Alguma vez tiraram os óculos 3D no cinema? A imagem fica esborratada e pode ser difícil ver exatamente o que está a acontecer. Isto porque os óculos 3D enganam o cérebro, formando uma imagem 3D controlando a cor da luz que cada um vê usando um filtro diferente em cada lente. Poderão dizer que, por vezes, ver coisas sob uma perspetiva diferente, pode torná-las mais claras e mais fáceis de compreender. É essa exatamente a abordagem que me tem ajudado na minha investigação, procurando responder a algumas das perguntas mais importantes que temos quanto ao nosso universo. 
Para colocar isto num contexto diferente, percebo que algumas pessoas achem que o que eu digo  é difícil de compreender, devido à minha paralisia cerebral como uma barreira inultrapassável para fazer uma palestra TED. Mesmo que eu achasse que há formas alternativas para as pessoas que têm dificuldade na comunicação, em falar com uma audiência, eu podia desistir de as usar se pensasse que esta voz seca, computorizada, sem vida, vos punha a dormir em cinco minutos. Em alternativa, encarei a voz sintetizada, monótona, de uma mulher britânica como uma coisa a ser aceite, a temperar esta palestra com piadas, por vezes à custa de pobres apoios de comunicação, e, segundo espero, que vos façam rir e vos mantenham interessados naquilo de que quero falar. Felizmente para vocês,  escolhi a segunda opção. 
Então, de que é que eu quero falar? Venho aqui para vos dizer que perdemos por completo 96% de todo o universo, tudo aquilo que existe. Há uma quantidade terrível de meias extraviadas. Sou física de partículas, analiso dados do Grande Colisor de Hadrões mo CERN, na Suíça para responder às perguntas mais fundamentais sobre o universo. Na escola, fui o arquétipo totó da criança que só queria acabar com as lições para entrar no laboratório de ciências. O meu trabalho concentra-se naquilo em que eu acredito firmemente ser uma das maiores façanhas de investigação científica do século passado. Um modelo científico que descreve as propriedades e o comportamento de todas as partículas conhecidas no universo. E como os físicos de partículas não têm imaginação, chamamos-lhe Modelo Padrão. Para mim, ter um modelo com tanto poder é o mais perto que a ciência consegue chegar para descrever a Natureza no seu nível mais básico. 
Quando ouvi pela primeira vez falar do Modelo Padrão, fiquei mesmo assombrada e apaixonei-me  pelos meus estudos em Física. Mas também percebi que tinha de pensar neles de forma um pouco diferente do que os estudantes meus colegas. Por exemplo, tinha de demonstrar nos exames que tinha percebido as técnicas práticas que me tinham ensinado. Devido à minha deficiência, não tenho suficiente controlo das minhas mãos para poder segurar no equipamento de laboratório e usá-lo. Por isso, tinha de usar as mãos de outra pessoa. Pratiquei, dando instruções extremamente pormenorizadas ao meu assistente sobre como usar o equipamento a fim de realizar a experiência. Ver as experiências na perspetiva duma série de instruções que eu tinha de dar da forma mais clara possível, ajudou-me a obter a mentalidade de que precisava para perceber como podia desempenhar-me bem na minha prática, coisa que fiz. Reconhecer que conseguia olhar para esses problemas de forma diferente ajudou-me a encontrar a tenacidade de perseverar no domínio do lado prático dos meus estudos científicos em vez de permitir que as minhas limitações físicas me detivessem. A minha investigação com o Grande Colisor de Hadrões obriga-me a escrever muitos códigos para analisar os dados usados para estudar o modelo padrão. Dito o que quero que o meu assistente escreva porque, para mim, datilografar  seria lento e penoso. É preciso uma mentalidade ligeiramente diferente para ditar o trabalho em vez de o escrever, especialmente quando toda a educação que recebemos é destinada a pessoas que podem anotar rapidamente as coisas. Contudo, eu descobri que dizendo a mim mesma que estou a fazer, basicamente, as mesmas coisas que toda a gente, ajudou-me a perceber como continuar na esteira da minha paixão pela Física. 
Já sabem como faço a minha investigação. Voltemos ao meu modelo preferido que, espero, seja o vosso, depois desta palestra, porque, infelizmente, temos um pequeno inconveniente. O Modelo Padrão só descreve 4% do universo. Para percebermos porquê temos de olhar para a rapidez com que as galáxias giram. As leis de Newton dizem-nos que elas se afastariam se não houvesse qualquer outro tipo de substância enorme dentro delas para as manter coesas. Essa massa em falta chama-se matéria escura e observamos que é responsável por 23% do universo. Então, e o resto? Bom, a descoberta de que a expansão do universo está a acelerar em vez de abrandar, graças à atração gravitacional, aponta para a existência duma força que atua contra a gravidade. Chamamos a esta força a energia escura e é responsável pelos restantes 73% do universo. Nem a matéria escura nem a energia escura estão incluídas no Modelo Pardão. Portanto, há uns espantosos 96% do universo de que não sabemos absolutamente nada. Assim,  acontece  que o meu modelo preferido, que eu julgava poder descrever todas as partículas do universo, não é tão abrangente como eu pensava inicialmente. Então, haverá uma forma de olhar para as partículas que já são descritas de forma diferente pelo Modelo Padrão a fim de descobrir essas partículas ausentes? 
Podem pensar que estamos a torturar o cérebro a conceber detetores que possam produzir qualquer tipo de fotografia dessas partículas esquivas para provar que elas estão ali. Claro que, se queremos encontrar uma coisa que falta, é essa a abordagem usual que temos de fazer, certo? Errado. Temos que aceitar o facto de que essas partículas em falta não vão interagir com os nossos detetores, o que quer que façamos. Mas o jogo não acaba aqui. Tal como eu não desisti em conseguir fazer experiências de laboratório, mas passei a usar as mãos de outra pessoa, também usamos as partículas  que conseguimos detetar para espiar as partículas que julgamos estar ali escondidas. No Grande Colisor de Hadrões, aceleramos as partículas a velocidades muito próximas da velocidade da luz de modo a elas se esmagarem umas às outras e libertarem enormes quantidades de energia. Usamos protões que se encontram nos átomos que englobam toda a matéria que vemos à nossa volta, incluindo vocês e eu. Contudo, só quando estes protões colidem de frente é que acontece a física interessante. Libertam-se essas quantidades colossais de energia e criam-se essas partículas que são fundamentalmente diferentes dos protões com que começámos. É um pouco como se esmagássemos duas maçãs, uma contra a outra, na esperança de que elas se transformassem numa coisa totalmente diferentem como um monte de cerejas. Usando detetores extremamente sofisticados, conseguimos dizer que tipos de partículas se criaram, mas somente os tipos que já conhecemos. 
Então. onde vamos encontrar essas outras partículas misteriosas? Felizmente, vem em nosso auxílio uma lei fundamental da Natureza e permite-nos estudar essa colisão de partículas numa perspetiva diferente. A energia não pode ser criada nem destruída, mas apenas transferida. Se somarmos a energia das partículas antes e depois da colisão descobriremos que são iguais. Conhecemos a energia dos protões que entraram na colisão e fazemos medições muito sensíveis da energia das partículas que dela resultaram. Se essas duas energias não forem idênticas começam a tocar os sinais de alarme. Será que um dos princípios que fundamentam a nossa compreensão da Natureza, ou seja, a conservação da energia, é incorreto? Ou, como todos esperam, a energia em falta pode ter sido roubada por partículas que escapam aos nossos detetores e podem ajudar-nos a responder a algumas das perguntas mais fundamentais que temos atualmente na Física. 
Ora bem, já sei o que me vão perguntar. Já encontraram as partículas em falta? Lamento, mas não. Algumas pessoas podem ver isto como uma razão para perder a esperança de alguma vez conseguirmos compreender perfeitamente os blocos constituintes básicos do cosmos. Contudo, eu acredito que talvez estejamos no tempo mais excitante para realizar física fundamental visto que ainda temos tanta coisa para descobrir. Mas, para além de pensar em todas essas excitantes questões na ciência, eu acho que estarmos abertos a ver uma situação numa perspetiva diferente é mais significativo quando aplicado numa escala pessoal. Encoraja-nos a procurar o que há de positivo em cada pessoa e em cada situação, por mais difícil que seja, e usá-lo para realçar não só o nosso próprio potencial mas o de todos à nossa volta. Sinto que isto é uma coisa com que todos podemos hoje beneficiar. Nem sempre significa que vamos encontrar, de imediato, aquilo que procuramos ou que vai ser fácil. Mas, para mim, esta mentalidade ajudou-me a chegar onde estou hoje, e mantém-me a avançar. Ao olhar para o mundo à nossa volta, estamos rodeados pelas grandes perguntas que não têm respostas óbvias. Talvez adotando uma nova forma de pensar, estando realmente abertos a pessoas que não partilham a nossa perspetiva, possamos conseguir descobrir novas soluções para os problemas que enfrentamos. Obrigada. 
