Há 15 anos, eu estava a fazer  a minha pesquisa de pós-graduação sobre o linchamento de mexicanos e latino-americanos durante a corrida ao ouro na Califórnia. Estava a ser muito difícil encontrar as provas de que precisava para defender o meu argumento. Não sei o que é que vocês sabem sobre linchamentos, mas, por definição, são execuções públicas que  ocorrem à margem do registo oficial. Essas mortes não são sancionadas  tecnicamente pelo estado e, por vezes, as cidades e as comunidades negavam que tivessem ocorrido, o que torna difícil provar o contrário. Mesmo assim, quando o registo público negava um ato de violência, a sabedoria popular local funcionava como um arquivo alternativo, uma forma diferente  de registar a História. Uma história de fantasmas sobre alguém que era morto e depois voltava para assombrar a cidade era uma pista importante, um sinal para analisar mais  a fundo a História de um local. Muitas vezes, se a lenda local contava uma história sobre um fantasma que tinha sido enforcado,  assassinado ou linchado, e depois voltara para assombrar a cidade, procurar melhor no arquivo, nos jornais, em cartas, em diários revelava que o incidente,  ou coisa parecida, tinha, de facto, ocorrido. Então, as histórias de fantasmas eram uma forma de as comunidades preservarem  a História violenta de um local, passando-a de geração em geração. 
Não sei se era um fantasma verdadeiro que estava a assombrar esses locais, mas a história dele certamente estava. É esta a minha opinião sobre isto. Não interessa se um fantasma  é real ou não. A história de fantasmas é real e o facto de nós podermos acreditar que um fantasma pode ser real é importante e devemos  prestar atenção a isso, 
Já agora, não sou a única a pensar assim. Há toda uma área de pesquisa interdisciplinar chamada “estudos de espetralidade,” que é prova que os académicos pensam em tudo. Mesmo assim, esta ideia foi transformadora para mim, e não apenas para a minha pesquisa. 
Durante quase toda a minha vida, tinha horror a fantasmas. Nem sequer queria ouvir uma história de fantasmas, porque não queria alimentar a ideia de que podiam existir fantasmas. E porque não? Na cultura popular, os fantasmas são descritos como forças más, vingativas, destrutivas. No seu pior, são aterrorizadores e no seu melhor, inquietantes. Presenças inesperadas que aparecem e exigem a vossa atenção emocional, a qualquer custo. Ensinam-nos a ter medo de morrer, da morte e dos mortos. 
Mas quando deixei de me preocupar com fantasmas, e comecei a preocupar-me  com as suas histórias, encontrei-me numa nova relação com o mundo à minha volta. Para além de ser historiadora, sou criadora de<i> performances,</i> e há cerca de cinco anos, tive a honra de trabalhar com  o Free Street Theater, em Chicago, para criar um espetáculo chamado “100 Hauntings.” Para criar este espetáculo, perguntámos a centenas  e centenas de pessoas de Chicago se alguma vez tinham visto um fantasma. Estávamos interessados naquilo  a que chamo histórias de fantasmas comuns, não o tipo de fantasmas que aparecem em mitos urbanos ou numa visita a fantasmas urbanos, mas o tipo de fantasmas que as pessoas  dizem ter encontrado na casa de banho, depois de assinar o contrato de arrendamento de um apartamento. Seguindo a minha pesquisa, queríamos saber o que é que estes fantasmas podiam contar-nos sobre a História oculta de Chicago, mas também estávamos interessados  na história do fantasma em si. Como nenhum outro tipo de histórias, as histórias de fantasmas pedem-nos para nos juntarmos e estremecermos perante a possibilidade de algo muito assustador e arrepiante que realmente aconteceu, embora, ao mesmo tempo, havendo a certeza que não aconteceu. Certo? 
Descobri que quase todas as pessoas têm uma história de fantasmas. Até as pessoas que dizem não acreditar em fantasmas, têm uma história de “Na verdade...” sobre algo que têm a certeza  que tem uma explicação racional, apesar de não saberem bem qual é. Este desconhecimento deixa-os desconfortáveis, com um sentimento que não conseguem explicar bem. 
É disso que gosto sobre  as histórias de fantasmas — como, tantas vezes, estas pessoas  têm a emoção certa. Por detrás do divertimento e dos arrepios, estão relações complexas com a vida, com a morte,  e com os outros. 
E sempre que alguém me conta uma história de fantasmas, faço duas perguntas. Primeira: “O que achas que esse fantasma queria?” e a segunda, porque a maioria das pessoas é ambivalente sobre se o fantasma existe ou não, eu pergunto:  “O que queres desse fantasma?” 
A primeira pergunta é muito  fácil de responder. Descobri que a maioria dos fantasmas pertencem a uma de três categorias, e que todos querem todos o mesmo: serem reconhecidos. O primeiro tipo de fantasma é o tipo que comecei a estudar. São os que voltam furiosos, os fantasmas que tiveram uma morte terrível, e querem que nós, os vivos, se lembrem disso. Estas são as vítimas de grande injustiças, de homicídios, muitas vezes, mas também de coisas como incêndios fabris e mortes misteriosas na prisão. Vou dar-vos um exemplo. Uma vez, num círculo de histórias para o nosso espetáculo “100 Hauntings,” um homem contou-nos a história de como, em adolescente, entrara ilegalmente num hospital  psiquiátrico na zona noroeste da cidade. Nós nunca tínhamos ouvido falar desse hospital psiquiátrico, e, sinceramente, aquilo soava a todas a histórias de adolescentes que invadem hospital psiquiátrico” que já ouvíramos: uma cadeira de rodas a segui-los  misteriosamente, portas a baterem, um riso horripilante. Mas lembrem-se, este tipo de histórias podem  ser pistas importantes, e, por isso, seguimo-la. Claro, múltiplos registos municipais mostram que havia  uma quinta pobre e um asilo na zona noroeste da cidade, que mais tarde se tornaram num dos maiores hospitais-prisões psiquiátricos dos EUA. Era o tipo de local onde as pessoas, sobretudo pobres e emigrantes, ficavam presas durante décadas, muitas vezes contra a sua vontade. Era também o tipo de sítio onde as pessoa, quando morriam, eram enterradas nas traseiras, em sepulturas anónimas. O The Chicago Tribune noticia que há nas traseiras  38 000 sepulturas anónimas. Ora bem, isto é uma parte significativa  da História de Chicago, mas penso que não é muito conhecida. Muitas pessoas que ali vivem não sabem nada sobre isto. Mas a história do fantasma pede-nos para nos lembrarmos. 
O segundo tipo de histórias de fantasmas é provavelmente a mais comum. Chamamos-lhes o fantasma “deixem-me em paz.” Este é o tipo de fantasma que  só quer que os vivos se vão embora. Usualmente, as pessoas sentem isso como uma energia negativa, ou um sentimento estranho e desagradável numa parte da casa, e as pessoas usualmente imaginam tratar-se de um antigo residente que não está feliz com as novas  pessoas que se mudaram para lá. O que é interessante sobre  este tipo de histórias de fantasmas é que a encontramos muitas vezes  em espaços ocupados — pensem nos bairros gentrificados, ou no velho tropo “construído sobre um cemitério sagrado.” E é aqui que quero que se lembrem que não interessa  se o fantasma é real ou não. A história do fantasma é real. Então, talvez haja mesmo um fantasma que vos está a mandar embora, ou talvez haja alguma parte do nosso subconsciente que está a tentar perceber  se temos o direito de estar aqui, se realmente pertencemos ali ou não. Claro, vivemos ali,  mas devemos fazê-lo? O que aconteceu às pessoas que aqui estavam antes? 
O terceiro tipo de fantasma é o meu favorito. Vou chamar-lhes “ainda estão connosco.” São eles os nossos queridos avós, a criança que ainda brinca com a bola no corredor, o operador do elevador que ainda vai trabalhar. Por vezes, estes fantasmas  são-nos desconhecidos. Não são pessoas que conhecíamos, mas não nos incomodam nem nos querem mal, apenas estão ali. Vou dar-vos um exemplo. Muitas pessoas pensam que o edifício onde está situado o meu teatro está assombrado. Nunca experimentei nada, mas não vos consigo dizer quantas  pessoas descrevem ver meio homem sentado no nosso átrio. Ele não interage connosco nem nos incomoda de algum modo. Está ali apenas. No entanto, por vezes estes fantasmas são mais ativos. Tenho ouvido muitas histórias de pessoas que pensavam que o filho tinha um amigo imaginário, até que, de repente, o filho  sabia jogar xadrez, ou cantava canções numa língua diferente. E é aqui que estas histórias  se tornam emotivas. Por vezes, as pessoas ficam convencidas que é algum familiar que voltou, que foi enviado para velar por elas. Uma mulher contou-me a história  de o marido a visitar num dia em que ela estava tão triste  que só chorava. Outra mulher contou-me que tinha a certeza de que a torneira que se abria e fechava, na casa de banho, era a irmã, porque aquilo parecia as partidas que ela costumava pregar quando era viva. Adoro este tipo de histórias, porque mostram como queremos criar ligações, não apenas com os vivos, mas com os mortos. 
Perguntar às pessoas pelas suas histórias pode ser arrepiante e divertido, mas também envolve perguntas intimas. O que sentimos sobre a morte? Do que temos medo? Quem amamos tanto que queremos, desesperadamente, que volte? Como queremos ser recordados? O que desejávamos poder mudar? O quê e quem nos está a assombrar? 
Apesar do que os filmes e contos de terror junto à fogueira nos levam a acreditar, a maioria das histórias de fantasmas  revelam um profundo desejo: um desejo de aventura, de significado, de ligações, de um além. Um desejo de não ser esquecido. Um desejo de não esquecer. 
Vivemos numa época que parece excecionalmente difícil. Estamos divididos por questões políticas, e a realidade de uma pandemia global significa que muitos de nós estiveram afastados das pessoas e locais que mais amamos. Muitos de nós chorámos morte prematuras, e o luto está à nossa volta. Infelizmente, não penso que somos sempre bons a lidar com a perda, ou a falar sobre a morte, ou a falar sobre como a nossa história ainda está viva no presente. As histórias de fantasmas podem ser assustadoras, mas também é aterrador ser vulnerável,  ou qualquer coisa desconhecida. 
Por isso, da próxima vez que tentem encontrar uma forma de conectar e não sabem bem o que fazer,  deixem-me dar-vos um conselho. Perguntem se alguém tem  uma história de fantasmas. É certo que vai começar uma conversa. Sim, talvez se vão rir de vocês, talvez vos virem as costas. Talvez vos contem uma história que vos faça arrepiar os cabelos. Talvez vos contem uma história que vos faça chorar. E talvez, se tiverem sorte, vos contem uma história  que vos faça questionar o que é que não sabem, sobre um lugar, uma história, sobre uma pessoas, sobre os outros e sobre vocês mesmos. 
Não se esqueçam de perguntar: “O que é que esse fantasma quer?” E mais importante, “O que querem desse fantasma?” 
